Por RENATO ASSAD
Este textículo despretensioso não tem qualquer ambição teórica, parte quase que apenas de uma necessidade fisiológica de despressurizar certo acúmulo de repulsa – uma repulsa dirigida àqueles que, em nome de uma suposta defesa da democracia, enchem a boca com solenidade oportunista, cinismo profissional e lealdades sempre negociáveis. Gente que celebra o conceito na mais profunda pseudoconcreticidade enquanto engole a seco as incontornáveis contradições do atual governo; que se rende, por privilégio, carreirismo ou pela velha intoxicação do possibilismo, ao papel nada honroso de justificar o injustificável.
São esses os que transformam as armadilhas para explorados e oprimidos em “gestos de responsabilidade”, retrocessos em “estratégias de governabilidade”, capitulações em “maturidade política”. Este textículo, portanto, não pretende mais do que isso: registrar, ainda que modestamente, a náusea política provocada por esses zeladores da narrativa oficial – sempre tão prontos a santificar o erro e a revestir de virtude o que atinge em cheio aqueles que dizem defender: os explorados e oprimidos.
Muitos afirmam, com ares autoproclamados de sensatez em defesa da democracia, que criticar ou construir uma oposição à esquerda e independente do governo Lula “fortalece a extrema direita”. Pois bem: examinemos, com a devida sobriedade, os efeitos objetivos e subjetivos de certas decisões do oficialismo.
Quando o governo entrega a gestão das águas dos rios Tapajós, Tocantins e Madeira ao empresariado neoextrativistas – setores associados à velha política de rapina e ao flerte golpista – trata-se, ao que tudo indica, de um gesto de generosidade que permite aos povos originários redescobrirem, pela milésima vez, a clássica sensação antropológica de serem massacrados. O empresariado, por sua vez, emerge fortalecido quase por milagre, como se o progresso operasse com predileções muito específicas e nenhuma sutileza.
Da mesma forma, quando o governo injeta, por dois anos consecutivos, a maior quantidade de recursos da história no agronegócio – principal frente vinculada ao financiamento das aventuras autoritárias – vemos um feito inédito de inovação administrativa: sustentar, com método, paciência e verba, aqueles que sustentaram a tentativa de golpe. Uma proeza de governabilidade digna de nota, não é mesmo?
Já no plano subjetivo, por exemplo, os entregadores de aplicativo – esse novo proletariado de serviços da era digital – podem observar o PLP 12/2024 como quem contempla um experimento sociológico de vanguarda: a modernização da escravidão, agora com algoritmos, salário por peça, metas em forma de “flexibilidade” e por tanto, o surgimento de uma nova categoria de trabalho que somos incapazes de compreender como faz o governo e sua base, que processa as mudanças violentas no mundo do trabalho com esse inovador projeto de lei que promove os entregadores à condição de sujeitos “autônomos com direitos” – contudo, sem qualquer autonomia ou direitos.
E quanto ao Novo Ensino Médio? Do ponto de vista pedagógico, arrancar disciplinas essenciais ao pensamento crítico e empurrar milhões de jovens para a informalidade não é apenas uma reforma: é uma obra-prima de engenharia social a serviço do capital. Forma-se uma juventude treinada para não questionar, enquanto o setor econômico que depende de mão de obra precarizada agradece – discretamente, claro, para não estragar o clima de “inovação educacional”.
E é justamente nesse espírito de modernização pedagógica que Lula e seu governo decidiram celebrar o Dia do Professor reunindo-se com o iFood – a mesma empresa que patrocina os itinerários (des)informativos do NEM. Nada poderia ser mais simbólico do que selar parcerias com quem precariza a juventude diariamente: evidencia-se, afinal, que a verdadeira vocação do MEC é educar com o capital e para o capital, ensinando aos jovens a lição mais preciosa que o mercado exige: a arte de servir, e absolutamente nada além disso.
Ainda no plano da subjetividade, o esvaziamento deliberado das ruas e a ocupação dos ministérios por quadros da direita e da extrema direita – lembrando que 60% dos deputados ligados aos partidos agraciados com cargos na Esplanada votaram a favor do PL Antifacção da própria extrema direita – compõem um quadro de ironia histórica difícil de superar: um governo que se apresenta como aliado dos trabalhadores, mas que demonstra enorme conforto em coalizões com velhos adversários, muitos deles arquitetos dos operativos que quase demoliram as liberdades democráticas.
Ora o Congresso é denunciado como inimigo do povo; ora a mesma instituição, rebatizada como “casa do povo”, é celebrada por sua suposta responsabilidade e eficiência. Uma oscilação que, em poucos meses, transita da sensação de traição ao enaltecimento de um mesmo sujeito político – movimento que nada tem a ver com questões psicológicas, e muito com a lógica de quem prefere maquiar as contradições em vez de enfrentá-las.
Quiçá o voto conjunto com o Centrão e o bolsonarismo na PEC da Bandidagem nos ofereça mais um capítulo dessa tragédia institucional, revelando uma plasticidade governamental que se dobra, torce e acomoda como quem já transformou traições permanentes em método de suposta coesão política. E, para completar a coreografia, as alianças municipais do PT com o partido de Bolsonaro em mais de cem cidades por duas eleições consecutivas funcionam como a cereja amarga desse bolo: uma estratégia de ‘enfrentamento’ que, ironicamente, fortalece exatamente o adversário que se diz combater. Quem sabe, em 2026, com o PSOL no governo, sejamos enfim salvos por esse partido que, de joelhos, implora por apenas um minuto de atenção do governo aos de baixo.
Abrindo mão da ironia e da acidez, o que se observa como resultado concreto é a produção lenta, persistente e profunda de uma confusão ideológica no imaginário social – processo que a esquerda da ordem, de maneira reacionária, rotula como o surgimento dos “pobres de direita”. Na realidade, muitos trabalhadores e trabalhadoras, desorientados por essa sucessão de gestos contraditórios, passam a duvidar não apenas do governo, mas da própria noção de democracia. Um conceito que se revela cada vez mais elástico, facilmente hipotecado, penhorado ou mesmo leiloado em nome da utopia reacionária de uma estabilidade institucional de um regime que nenhum setor das camadas populares reivindica para si.
A sensação de traição – não a do governo diante do Congresso, mas das massas diante do oficialismo – não é delírio: é a resposta racional de quem percebe que o governo envia sinais trocados, produzindo uma equação insolúvel entre forma e conteúdo: age como gestor diligente dos interesses que declara combater.
Em suma, diante de tantos movimentos “estratégicos”, a ironia pungente é que criticar e apontar para a necessidade de superação por esquerda do governo seja justamente a única coisa que não fortalece a extrema direita – porque essa tarefa, ao que tudo indica, já vem sendo executada com uma eficiência quase profissional por quem diz combatê-la.
Imagem: George Grosz, Eclipse of the Sun, 1926.










