O informe estabelece a quantidade de 461 pedidos mensais “para sustentar um lar típico” (4 pessoas). Para alcançar essa quantidade de pedidos, um entregador de bicicleta deve trabalhar aproximadamente 48 horas semanais. Mas, segundo os trabalhadores do Indec, a cesta básica familiar equivale, em outubro de 2025, a $2.027.283 pesos. Para chegar a esse valor, seriam necessários aproximadamente 800 pedidos mensais.

Por Juan Pablo Pardo

Na semana passada, a Fundação Encuentro emitiu um informe intitulado “APP: coeficiente de Alcance del Pedido Promédio” (Em português: APP: coeficiente de cobertura média de pedidos), em que se realizaram uma série de cálculos para indicar a quantidade de pedidos necessários para que um entregador de aplicativo cubra determinados gastos. Em suas conclusões, se indica que seriam necessários “461 pedidos mensais para sustentar um lar típico”. A seguir, realizamos algumas análises sobre esse informe e sobre a realidade dos trabalhadores de aplicativo.

Em primeiro lugar, a ampla difusão que esse informe teve é positiva, já que colocou novamente no centro do debate as condições do dia a dia dos trabalhadores de entrega por aplicativo. Assim, durante toda a semana, multiplicaram-se as matérias e informes sobre o setor em quase todos os meios de rádio ou televisão.

Esta é a realidade que denunciam os porta-vozes do SiTraRepA em cada uma de suas intervenções públicas e diante dos meios de comunicação. Durante os últimos dias, numerosos programas de rádio ou TV entrevistaram representantes do sindicato para dar uma visão em primeira mão sobre os pontos estabelecidos neste informe. A conclusão é clara: para poder viver da entrega de aplicativo é necessária uma imensa quantidade de horas de trabalho e as condições de trabalho são extremamente precárias.

Os números do informe APP e a realidade dos entregadores

O informe estima um pagamento médio por pedido em torno de $2500 pesos. Esse é um número similar ao que calculamos como média pelo SiTraRepA, com base na análise das tarifas das empresas e na realidade dos entregadores que se organizam com o Sindicato. No entanto, é importante apontar o quanto esse cálculo do pagamento médio por pedido é relativo, dadas as condições particulares do trabalho por plataformas, que tornam esse valor muito mais instável.

Para esclarecer a situação: cada uma das plataformas estabelece dezenas de variáveis para calcular o pagamento de um pedido. O pagamento por pedido é muito diferente segundo o horário e o dia da semana. O valor também se modifica conforme a distância percorrida até o local e entre o local e o endereço de entrega. Além disso, cada empresa tem seu próprio “ranking”, que depende de outra dezena de fatores, e à medida que se vai “subindo” há uma pequena diferença no pagamento[1]. Tampouco se paga igual se um pedido é “simples”, “duplo” ou “triplo” (isto é, retirar 1, 2 ou 3 pedidos em um local para depois entregá-los em diferentes endereços), e as condições climáticas também influenciam nos valores por pedido, assim como outras variáveis. Em resumo, o pagamento médio por pedido é extremamente relativo, e pode ser notavelmente inferior a esses $2500 pesos.

Em segundo lugar, o informe estabelece a quantidade de 461 pedidos mensais “para sustentar um lar típico” (ou seja, de 4 pessoas). Em princípio, o número é impactante. Para traduzi-lo em outro dado concreto, para alcançar essa quantidade de pedidos, um entregador de bicicleta deve trabalhar aproximadamente 6 dias por semana, durante 8 horas diárias, isto é, 48 horas semanais, a jornada de trabalho máxima legal.[2]

No entanto, esse número merece uma correção, já que o informe baseia seus cálculos em dados oficiais, por exemplo, o Salário Mínimo, Vital e Móvel, fixado em $322.200 pesos. Esse número está intencionalmente reduzido por parte do governo. Assim, os 461 pedidos mensais equivaleriam aproximadamente a $1.200.000 pesos mensais. Qualquer pessoa sabe que é impossível sustentar uma família de 4 pessoas com esses recursos. Considerando um parâmetro mais realista: a cesta básica familiar, calculada pelos trabalhadores do Indec, equivale, em outubro de 2025, a $2.027.283 pesos. Ou seja, para chegar a esse valor seriam necessários aproximadamente 800 pedidos mensais.

Essa é a realidade dos entregadores de aplicativo. Aqueles que precisam sustentar uma família ultrapassam largamente a jornada semanal máxima estabelecida por lei. É muito frequente que os trabalhadores tenham jornadas de 12 horas diárias ou mais, às vezes sem dias de descanso, chegando a 60, 70 ou ainda mais horas semanais de trabalho.

Enquanto isso, as empresas e o governo difundem seu discurso da suposta “flexibilidade” do trabalho de plataformas, que traria uma suposta liberdade para escolher horários e formas de trabalho. Porém, diante desse discurso demagógico das empresas, a realidade é completamente o contrário. As empresas controlam constantemente os movimentos dos trabalhadores, que estão submetidos a uma vigilância permanente, sob a qual todas as suas ações podem resultar em uma queda no ranking, um bloqueio da conta (demissão encoberta) ou outros problemas. As diferenças nas tarifas, conforme os dias, horários e outras variáveis, forçam os entregadores a trabalhar nos momentos do dia que as plataformas determinam, já que, do contrário, recebem menos pedidos, que, além disso, são pagos valores mais baixos.

Assim, como expressam os representantes do SiTraRepA nos meios de comunicação, não há liberdade na necessidade. Quando um entregador tem a necessidade de trabalhar 70 horas semanais em cima de uma bicicleta para chegar ao fim do mês, muito acima da jornada de trabalho legal, não existe nenhuma liberdade: o que existe é autoexploração e escravidão moderna através do uso das novas tecnologias.

Como se tudo isso não bastasse, os valores que os aplicativos pagam pelos pedidos não levam em conta nenhum dos gastos que são absolutamente necessários para desenvolver o trabalho, que devem ser pagos pelo trabalhador. Assim, os entregadores não apenas pagam de seu próprio bolso a sua moto ou bicicleta e seu celular, como também pagam a manutenção dos mesmos, o combustível no caso de usar moto, os dados do celular, o monotributo (uma espécie de imposto único simplificado para trabalhadores autônomos), etc. Gastos que não são reconhecidos pelas empresas.

Existe também outra variável fundamental que impacta grandemente na desproteção e instabilidade desse trabalho precarizado. Se um entregador tiver qualquer problema trabalhando, seja um acidente, quebra do veículo ou celular, ou roubo, as empresas não se responsabilizam por nada. Assim, os consertos ou reposições ficam totalmente por conta dos trabalhadores, e, além disso, os dias em que não podem trabalhar não são pagos.

Da mesma maneira, neste trabalho não se contempla de maneira alguma férias ou licença por doença, e isso sem mencionar que não existe nenhum tipo de cobertura para gastos médicos ou acidentes de trabalho. Essa gravíssima situação de desproteção se reflete no fato de que sofrer um acidente ou roubo é uma verdadeira tragédia, que se traduz na perda da fonte de renda e em uma nova despesa que deve ser paga para poder voltar a trabalhar.

O trabalho por plataformas e a superexploração: uma política do capitalismo do século XXI

Esse modelo de exploração é um negócio perfeito para as empresas, que se tornam milionárias com base na profunda exploração e negação de direitos aos trabalhadores. Essa realidade, o modelo da “uberização” do trabalho, é o que os capitalistas querem expandir, é uma metodologia que cresce e se estende a novos ramos do trabalho que vão muito além da entrega de alimentos ou do transporte de pessoas.

Utilizam-se as novas tecnologias do século XXI para ocultar o papel das empresas, negar o reconhecimento da relação de trabalho e, portanto, de todos os direitos trabalhistas, aumentando a exploração[3]. Assim, impõem o trabalho por peça, sem um salário básico, onde todos os custos recaem sobre os trabalhadores, enquanto as empresas acumulam fortunas. E fazem isso por meio do controle do processo de trabalho através do algoritmo, onde cada movimento é controlado com o objetivo de maximizar os lucros.

Um exemplo paradigmático são os armazéns da Amazon nos Estados Unidos, cheios de robôs e mecanismos ultratecnificados de controle. A corporação utiliza pulseiras nas mãos dos trabalhadores, que são detectadas pelos sensores de seus armazéns. Essas pulseiras registram cada um de seus movimentos, com o objetivo de “eliminar o tempo perdido em movimentos desnecessários”. Elas vibram com grande intensidade dependendo da distância ao produto que deve ser embalado, guiando as mãos do trabalhador.

Somado a isso, todos esses mecanismos de controle são realizados através de algoritmos que são completamente nebulosos e mantidos ocultos pelas empresas. Dessa maneira, há um controle sobre todos os movimentos, utilizando critérios que são impossíveis de serem conhecidos pelos trabalhadores. A única coisa conhecida são as consequências: fazer algo de maneira diferente do que indica o algoritmo traz quase invariavelmente sanções ou repercussões negativas sobre as condições de trabalho. Por isso, outra das reivindicações do setor é justamente a clareza e a publicização dos algoritmos, para estabelecer os critérios com os quais o processo de trabalho é organizado.

Essa situação é denunciada pelos trabalhadores. Citamos, a esse respeito, um fragmento da Declaração de Princípios do Congresso Internacional de Trabalhadores por Plataformas, no qual se expõe essa realidade e as denúncias por parte dos trabalhadores:

“Este uso da tecnologia para aumentar a exploração dos trabalhadores é um fenômeno que vai além dos motoristas e entregadores. O capitalismo do século XXI tenta avançar sobre cada vez mais setores de trabalhadores, incorporando-os a um sistema de exploração pelos meios digitais. Exigimos a transparência dos algoritmos, que sejam abertos e explicados de maneira clara e simples para termos clareza acerca do alcance desse mecanismo e enfrentarmos o controle de nossos movimentos exercido pelas empresas. Rejeitamos os ataques contra as condições de trabalho de qualquer setor de trabalhadores que possa ficar submetido a um sistema digital”.

A reforma trabalhista de Milei e os entregadores: uma legalização da escravidão moderna

Em meio a essa situação de ataque por parte das empresas sobre as condições de trabalho, inserem-se os elementos que vêm sendo divulgados nas últimas semanas a respeito da reforma trabalhista. Um capítulo completamente escandaloso são os planos de Milei sobre o trabalho de entrega. Ainda não está claro se isso se traduzirá em um projeto de lei separado ou em um capítulo da reforma trabalhista. Mas o que é evidente, de acordo com os vazamentos midiáticos, é que se trata de uma política que aponta para a legalização da escravidão moderna, representada pelas gravíssimas condições de trabalho que os entregadores enfrentam.

O projeto de Milei busca consagrar em lei as atuais condições ultra precárias de trabalho dos entregadores, que são completamente ilegais. O que o governo e as empresas estão tentando fazer é impor por lei a precarização do trabalho e promover a escravidão moderna. Busca-se legalizar que o setor de entregas, onde se utilizam tecnologias do século XXI, tenha condições de trabalho do século XIX.

O primeiro elemento de sua proposta é a negação explícita da condição de trabalhador para os entregadores, que seriam considerados “entregadores independentes por plataformas”. A isso se soma um “reconhecimento de direitos” que é completamente nulo: rejeitar pedidos sem necessidade de apresentar justificativas, receber explicações sobre bloqueios ou suspensões de conta (mas sem proibi-los de forma alguma: que maravilhoso direito, poder ser demitido, mas – atenção – recebendo uma justificativa), ou “ter acesso a treinamentos obrigatórios relacionadas com a atividade, como treinamento em segurança no trânsito”. Ou seja, não se concede nenhum direito real. Enquanto isso, estabelece-se firmemente a obrigatoriedade de ter o monotributo em dia, isto é, que o entregador deva pagar impostos do próprio bolso para poder trabalhar, sem qualquer custo para as empresas.

Por sua vez, às empresas lhes são impostas “obrigações” que são uma piada de mau gosto, como “dar capacitação em segurança no trânsito”, “facilitar o acesso a elementos de proteção segundo o tipo de veículo” (ou seja, haveria um espaço no aplicativo para que o trabalhador compre da própria empresa um capacete?), ou “respeitar a liberdade de conexão dos entregadores” (como explicamos acima, isso é completamente falso, que liberdade poderia existir se é necessário trabalhar 70 horas por semana, incluindo todas as noites, porque caso contrário é literalmente impossível chegar ao fim do mês?).

No mundo, na verdade, ao contrário do que está acontecendo hoje na Argentina, discute-se amplamente o trabalho por plataformas em sentido oposto. O que se debate é como reconhecer a relação de trabalho que existe entre os trabalhadores por plataformas e essas empresas multinacionais. Ainda com os limites das regulações emitidas, organismos como a União Europeia já se pronunciaram sobre o que é evidente: existe relação laboral e os direitos devem ser reconhecidos. Incluso a OIT (Organização Internacional do Trabalho) encontra-se em plena discussão para a redação de convenções internacionais para conceder direitos, proteções e condições de trabalho aos trabalhadores de aplicativo. O SiTraRepA e o Congresso Internacional de Trabalhadores por Plataformas enviaram suas posições ao órgão e fazem parte da discussão.

Realmente, parece que, para esse projeto de regulação, o governo consultou os CEOs da Rappi e da PedidosYa sobre qual seria o seu maior sonho e isso é justamente o que querem apresentar. Essa política criminosa é coerente com a negativa do governo em avançar no reconhecimento legal do SiTraRepA por parte da Secretaria (antigo Ministério) do Trabalho, apesar de o sindicato ter cumprido todos os passos legais.

O SiTraRepA, por sua vez, já se expressou em absoluta rejeição a esse projeto e encontra-se em uma campanha de alerta dirigida a todos os entregadores sobre essa situação. Da mesma maneira, os representantes do sindicato vêm se pronunciando nos meios de comunicação para denunciar esses ataques. Nas próximas semanas, continuará a preparação de todas as medidas necessárias para enfrentar essa escandalosa regulação escravista.

Abaixo a reforma trabalhista de Milei: direitos para todos os trabalhadores

Essa discussão se insere no debate mais geral sobre a reforma trabalhista que está por vir, que tem um claro objetivo: impor a todos os trabalhadores um corte brutal nos direitos trabalhistas.

O governo fala em dar um novo marco diante de uma realidade (que ele próprio impulsionou nos últimos anos, assim como fizeram os governos anteriores): 40% dos trabalhadores do país são precários. Diante dessa situação, a solução do governo para “gerar emprego registrado” é presentear as empresas com tudo, impor um corte brutal nos direitos dos trabalhadores e estabelecer por lei que o trabalho registrado seja em condições precárias, ou seja, nivelar por baixo, piorando as condições de toda a classe trabalhadora.

Não é coincidência que um dos assessores do governo que está colaborando com a redação da reforma trabalhista: Julián de Diego, advogado da Rappi, empresa símbolo da precarização laboral, que busca expandir seu modelo precarizador. Qualquer coisa que venha daí vai evidentemente ser contra os direitos dos trabalhadores. Utilizam toda a sua experiência em negar direitos para assessorar o governo na reforma trabalhista.

Enquanto o governo busca colocar trabalhadores registrados e precários uns contra os outros, a CGT traidora dorme no ponto, deixa tudo passar, não prepara nenhuma luta, culpa os trabalhadores por “terem votado mal” e se dedica a negociar para que a reforma não afete seus interesses burocráticos e corporativos (em primeiro lugar, os benefícios que obtêm dos próprios trabalhadores que supostamente representam), de costas para a realidade da classe trabalhadora.

Do que se trata é exatamente o contrário: é necessário nivelar por cima a situação dos trabalhadores e trabalhadoras. É preciso impor, com a luta, medidas profundas que questionem o modelo precarizador que se estende em nosso país. Deve ser reconhecida a relação de trabalho dos entregadores e de todos os trabalhadores não registrados ou precarizados, com plenos direitos, e devem ser afetados os interesses das empresas que lucram com a precarização. É necessário exigir que esses 40% de trabalhadores que hoje não estão registrados ingressem em um regime de contrato de trabalho com plenos direitos trabalhistas. Essa é exatamente a luta que o SiTraRepA desenvolve no sentido do reconhecimento da relação de trabalho, do sindicato e dos plenos direitos dos entregadores.

Em contraposição ao que propõe o governo e à traição da CGT, trata-se de construir a unidade entre trabalhadores precários e registrados. Alertar sobre os planos do governo e preparar-se para as grandes lutas que virão para enfrentar a reforma trabalhista. É necessário um programa anticapitalista que garanta condições e direitos trabalhistas para todos, um salário mínimo de 2 milhões de pesos e que os empresários paguem por isso. E, através dessa luta, questionar a exploração como tal neste sistema, no qual os trabalhadores deixam a vida enquanto os empresários se tornam multimilionários.

NOTAS

[1] Uma medida evidente por parte das empresas para aumentar a autoexploração, já que, para chegar aos rankings mais altos, é necessário trabalhar sem parar durante horas e horas, aceitar todos os pedidos e entregá-los em tempo recorde, o que se traduz em graves prejuízos para a saúde dos entregadores por alguns poucos pesos a mais por pedido: um negócio perfeito para as empresas.

[2] Novamente advertimos que esses dados são calculados em média, já que há inúmeras variáveis que costumam resultar em uma extensão da jornada de trabalho para poder alcançar essa quantidade de pedidos.

[3] Recomendamos a esse respeito o livro publicado por Renato Assad, referência dos entregadores de aplicativo no Brasil, “Entregadores de aplicativos. A luta de um novo proletariado”, para aprofundar essas questões.