Enquanto escrevemos estas linhas, a revolta estudantil francesa parece estar se transformando em uma revolta popular. Até algumas semanas atrás, a situação era dominada pelo pessimismo e pela resignação. A agenda dos últimos meses de Macron, que estava abrindo caminho para a vitória eleitoral da extrema direita de Le Pen pela primeira vez, era o que pautava todo o debate público. Tudo isso mudou com a entrada repentina em cena da Geração Z.
Há alguns anos, tornou-se comum analisar a política internacional a partir das experiências de diferentes gerações. Sua delimitação revelou-se, certamente, uma forma útil de compreender a realidade política e cultural. Os millennials estavam no centro das atenções há dez anos. São aqueles que nasceram entre meados dos anos 1980 e o final dos anos 1990 e cresceram sobretudo na era do “Consenso de Washington”, da dominação econômica, política e cultural dos Estados Unidos, de sua vitória após a Guerra Fria. A maioria conheceu a internet ainda muito jovem, mas ainda se lembra da era anterior à hiperconexão. São os filhos da virada do milênio.
A Geração Z nasceu entre o final dos anos 1990 e o início dos anos 2000, cresceu na era da internet e da hiperconexão. É comum que jovens de diferentes continentes e idiomas compartilhem piadas por serem parte de um código comum da internet, que alguém dez anos mais velho, da mesma cidade, não conhece nem entende (é completamente impossível explicar o que significa “farmar aura”, caso seja necessário explicar).
Se os millennials cresceram com as promessas de um futuro brilhante da era neoliberal, a Geração Z sempre viveu essas promessas como uma fraude. O mundo lhes diz que deveriam aspirar a algo que a realidade capitalista lhes nega. Suas primeiras lembranças são as do mundo imediatamente posterior à crise de 2008; as guerras do Iraque e do Afeganistão eram algo que sempre estivera ali, e tudo foi repentinamente interrompido pela pandemia de 2020.
A última onda feminista foi o momento de auge final da juventude millennial. Seus protestos diante das ascensões de Trump e Bolsonaro acabaram ficando em segundo plano com a generalização das quarentenas e dos confinamentos. Milhões e milhões de pessoas viram suas vidas e sua socialização serem interrompidas e foram forçadas a se voltar para a frustração individual e para a socialização exclusivamente por meio das redes sociais. Esse foi um dos terrenos férteis para a ascensão da extrema direita, que aproveitou a oportunidade para disseminar seu obscurantismo, suas fake news e seu ódio racial, misógino, LGBTfóbico e de classe. Hoje, a Geração Z assumiu o lugar da juventude millennial.
Nesse meio-tempo, os “centros” políticos fracassavam, e a onda progressista de uma década atrás se transformava em decepção. Diante das promessas cada vez mais terrivelmente distópicas da extrema direita, eles se apegavam a um mundo que já havia acabado e não conseguiam prometer nada de novo. Figuras de enorme peso há 15 anos, como Lula, hoje parecem prometer uma antiga época de glória que ninguém acredita que vá voltar.
A situação política internacional ainda é dominada pelo perigo da extrema direita. Enquanto Trump parece estar se enfraquecendo a cada dia que passa, as recentes eleições latino-americanas foram todas marcadas pelas vitórias eleitorais reacionárias de Milei, Kast, de la Espriella e Fujimori. Hoje, existe um perigo muito real no Brasil, diante da possibilidade de vitória eleitoral de Flávio Bolsonaro. O país vive uma profunda crise institucional que, com um novo governo bolsonarista, poderia seguir em direção a uma deriva autoritária. E parecia que as coisas caminhavam inevitavelmente nessa direção até que as mobilizações estudantis no Rio de Janeiro, como um efeito dominó, se espalharam por cada vez mais cidades, culminando na mobilização em massa na Avenida Paulista.
O mundo social em que vivemos parece entrar cada vez mais em curto-circuito com os resultados eleitorais. Em um mundo cada vez mais interconectado culturalmente, a extrema direita promete particularismo e nacionalismo xenófobo. Em um mundo no qual os direitos das mulheres e das pessoas LGBT conquistaram um espaço cada vez maior e são cada vez mais aceitos, a extrema direita promete tirar delas o direito à independência e à existência. Na América Latina, venceram quase em todos os lugares os candidatos mais profundamente reacionários, enquanto as pesquisas na França e na Espanha apontavam Le Pen e a aliança PP-Vox, respectivamente, como vencedores.
Mas a irrupção da Geração Z colocou uma interrupção e um freio na agenda da reação: suas revoltas e protestos levaram às ruas as reivindicações de um mundo social que os sistemas políticos raramente refletem. Hoje, o centro da revolta internacional da nova geração está na França e poderia se transformar no grande contraponto internacional à extrema direita. Enquanto escrevemos, as manifestações de 17 de outubro demonstram uma crescente radicalização e um confronto direto com o Estado e a repressão.
Mas o que vem se gestando vai além dessas fronteiras. As aspirações comuns de uma geração vêm ocupando as ruas e transformando a situação política de muitos países.
No ano passado, as reivindicações estudantis no Nepal derrubaram o governo e colocaram a primeira-ministra em fuga. Na Indonésia, o quarto país mais populoso do mundo, os privilégios obscenos dos funcionários públicos foram o estopim dos protestos em Jacarta. A precarização e a exploração que milhões de pessoas sofrem, com salários miseráveis e condições de vida extremamente precárias, foram as principais motivações para a luta de uma nova geração em um dos principais novos polos econômicos do mundo. Tanto no Nepal quanto na Indonésia, a bandeira pirata dos Chapéus de Palha, os piratas protagonistas do anime One Piece, surgiu como símbolo emblemático dos protestos.
Hoje, o movimento das “baratas” na Índia questiona profundamente um dos governos mais poderosos da direita internacional, o de Narendra Modi. A provocação de um de seus ministros, que chamou de “baratas” os jovens que tentam ter a oportunidade de estudar na universidade e trabalhar, acabou sendo adotada como nome pelos manifestantes. Tudo começou com reivindicações educacionais e, hoje, o regime político está sendo frontalmente questionado. A mobilização de massas em Nova Délhi está tentando impedir uma reforma do cadastro eleitoral que exclui 130 milhões de pessoas das listas eleitorais, privando-as do direito de votar.
No Irã, foram primeiro as mulheres jovens que questionaram massivamente o regime teocrático que governa o país. Primeiro, diante do brutal assassinato de Mahsa Amini; depois, de maneira geral, contra os aiatolás. As mobilizações iranianas mostraram, a quem quiser ver, que as mesquinhas disputas geopolíticas não conseguem conter as aspirações das massas.
O outro grande símbolo das mobilizações é a bandeira palestina, que tremula em todas as manifestações do planeta. A luta contra a opressão colonial e o genocídio é uma das questões mais transversais e onipresentes da política mundial.
A Argentina vem de uma nova manifestação de massas, realizada em 15 de outubro, contra Milei, que há meses está sem iniciativa política. Nas ruas de Buenos Aires e das principais cidades do país, concentrou-se a agenda popular que domina o debate político: as universidades, as pessoas com deficiência, a defesa das terras e da soberania etc.
Nos Estados Unidos, é a Geração Z a principal contestadora do trumpismo. São os estudantes e jovens trabalhadores que protagonizaram os acampamentos em defesa da Palestina nas universidades. São eles os militantes responsáveis pelas vitórias eleitorais do DSA, embora a moderação de seus candidatos não expresse a radicalidade de suas bases. Hoje, estão entre os principais protagonistas de uma nova marcha do movimento No Kings contra Trump.
Em um mundo extremamente polarizado, neste momento o polo oposto a Bolsonaro, Trump e Le Pen é o das manifestações da Geração Z. Milhões de jovens estão escrevendo a história em tempo real e, se não mudarem a situação política amanhã, é muito provável que sejam os responsáveis por transformar a conjuntura política internacional depois de amanhã. O perigo da extrema direita é real e ameaçador; a Geração Z é a principal fonte de esperança, a força capaz de mudar tudo em pouco tempo.










