Por Roberto Sáenz

Um grupo de navios de guerra chineses e russos navegou lado a lado através do extremo sul da zona econômica exclusiva do Japão em 19 de julho. Os marinheiros japoneses observaram as embarcações, fotografando-as enquanto realizavam exercícios (…) Foi a primeira vez que o Japão capturou e publicou um verdadeiro exercício de disparos dentro de sua zona econômica exclusiva. As imagens, como tais, eram pouco nítidas, mas a mensagem ficou clara: a pressão da China está crescendo. O incidente foi apenas o último de uma série de provocações recentes contra os aliados asiáticos dos Estados Unidos (…) O senhor Trump está enredado no Irã, retirando recursos e atenção do Pacífico (…) Os líderes da Ásia devem explicar diretamente a Trump a situação: que a China está desafiando a posição dos EUA como superpotência dirigente — e que suas ambições militares caminham lado a lado com suas ambições industriais, tecnológicas e econômicas.

(“China is testing America’s defence lines in Asia”, The Economist, 1º/7 de agosto de 2026)

Há uma enorme complexidade na situação internacional; o mundo é um quebra-cabeça com elementos sobrepostos demais, impossíveis de serem abordados em um único texto. A realidade mundial é hoje “caleidoscópica” e não é fácil se situar dentro dessa totalidade. Além disso, nossa corrente tem como centro a Argentina, que é, neste momento, um lugar de observação demasiado periférico dos desenvolvimentos internacionais (para piorar, acelerados), que estão mais concentrados no hemisfério norte: EUA, China, a guerra da Ucrânia, Golfo Pérsico, Gaza etc.

Há uma explosão de temáticas muito complexas, como a IA e seu impacto na sociedade humana e no mundo do trabalho, catástrofes climáticas recorrentes em momentos em que predomina o negacionismo climático, processos como as guerras e a acelerada remilitarização do mundo etc.[1]

E, por outro lado, como um contrapolo, vivemos a emergência de uma nova classe trabalhadora no âmbito do trabalho por aplicativos, lutas operárias na Coreia do Sul em torno da problemática da robotização da indústria, a imensa solidariedade humana desenvolvida de baixo para cima na Venezuela por ocasião do trágico terremoto, marchas em Bolonha contra o assassinato de um migrante marroquino, a juventude na Índia, Albânia etc.

Daremos então uma série de definições sobre algumas dessas temáticas no contexto geral de nosso texto “A era da combustão”, de agosto do ano passado, que pensamos que mantém plena vigência.[2]

1-

O primeiro elemento a levar em conta sobre a situação mundial é que há uma ruptura da ordem internacional. Estamos em um momento de transição bastante caótico. Os elementos clássicos que compõem a análise da situação mundial são a luta de classes, a economia e a geopolítica (Trotsky). Mas, nos últimos anos, a maioria dos desenvolvimentos tem sido dominada, sobredeterminada pela geopolítica, embora esta esteja sempre entrelaçada com a luta de classes e a economia (existe um fio invisível que unifica guerra e revolução, além do fato de que a economia é sempre o substrato material dos acontecimentos).

Alex Callinicos, em uma obra de quatro anos atrás que nos parece unilateral porque se perde o fio entre catástrofe e revolução, aporta, contudo, elementos valiosos para a análise da situação mundial. Ele destaca algo evidente nestes momentos: a rivalidade entre EUA e China é hoje o elemento estruturante da (geo)política internacional. Afirma que, antes da primeira presidência de Trump, isso ainda era uma tendência, mas que, a partir dela (2016), Trump a transformou em realidade ao lançar a guerra comercial contra a China em março de 2018. E que Joe Biden não fez mais do que confirmar essa centralidade (Callinicos, The New Age of Catastrophe, 2023, 86).[3]

A partir da caótica segunda presidência de Trump (desde o início de 2024), grosso modo, terminou de explodir a ordem do pós-guerra, com Trump brigando com os aliados tradicionais dos EUA (o último “incidente” dessa briga é a guerra comercial com o Canadá), e ingressou-se em uma situação de indeterminação, regionalização e/ou desordem internacional. Isso coloca como horizonte algo que não estava realmente presente na velha ordem (que vários autores descreveram como uma espécie de “conflito regulado” entre os EUA e a ex-URSS): a tendência a um enfrentamento militar internacional interimperialista, embora ninguém saiba em que prazo.

É evidente que o foco principal desse enfrentamento — não mais por procuração, como ocorre em parte na Ucrânia, mas direto — entre potências imperialistas (velhas e novas) está na Ásia-Pacífico e é Taiwan

A TSMC (Taiwan Semiconductor Manufacturing Company) é o mais importante produtor de chips avançados do mundo, responsável por quase 90% dos nós de produção mais avançados. A maioria das fábricas da TSMC está concentrada no próprio Taiwan, sobre o qual Pequim se reserva o direito de invadi-lo caso considere necessária tal ação com o objetivo de reunificar a ilha com o continente chinês” (Callinicos, idem, pp. 88).[4]

Os conflitos não estão conseguindo se resolver por meio de negociações (além do fato de que emergem acordos regionais como o da Turquia, do Paquistão, da Arábia Saudita e muitos outros); predomina a fratura no desenvolvimento dos acontecimentos, e isso faz prever que, para dirimir as relações de forças, ocorram choques físicos. É evidente que o outro foco de conflito militar que se desprende da guerra na Ucrânia é a tensão existente e crescente entre a Rússia e a UE.

Ao mesmo tempo, existe um clima de crescente polarização na luta de classes porque há pressão demais por parte da extrema direita e, apesar da contenção exercida pelas organizações centristas, pelas direções tradicionais, os confrontos podem sair dos palácios e tomar as ruas, transbordar. De fato, é isso que está ocorrendo em muitos casos.

A ordem internacional que dominou o mundo desde o segundo pós-guerra está sendo questionada, e não se sabe bem como se terminará de forjar uma nova ordem nem por quais meios. Por enquanto, convivem os elementos “caóticos”, por assim dizer, com as instituições tradicionais forjadas no pós-guerra. Há uma competição exacerbada entre Estados e empresas vinculadas a esses Estados que faz pensar que a situação pode chegar às vias de fato:

“(…) a ordem mundial está em fluxo, está em crise, e tende-se a redesenhar uma nova ordem mundial que ainda não tem forma e não se sabe se poderá tê-la sem uma passagem prévia por um choque de forças materiais. Dito concretamente, guerras de maior intensidade. É nesse último sentido que predomina um «caos sem ordem à vista», em que a ordem anterior está em completa crise e não se sabe qual nova ordem virá” (“A era da combustão”, Esquerda Web).

2-

Essa crise convive com uma situação econômica na qual a globalização não terminou de se romper. Não se passou a um domínio de economias autárquicas como as do período entre guerras do século passado, mas há fraturas nos circuitos do capital, redesenhos desses circuitos etc. O eixo geopolítico que estrutura tudo é o já mencionado: a competição entre EUA e China, que se agravou no último período. A ideia de que a China poderia ser absorvida e contida pela globalização entrou em crise já desde a presidência de Obama (2008/2016), quando os EUA definiram algo que ainda não conseguiram realizar: a mudança estratégica da atenção para a Ásia-Pacífico. Passamos de um mundo regido pelo neoliberalismo e pela globalização para um mundo em que têm muito peso as esferas de influência; cada imperialismo tende a dominar uma área e procura expulsar a concorrência dali (um exemplo é o que Trump tenta fazer na América Central e na América Latina).

O que se vive, em suma, é uma dramática crise de “governança internacional” entre a velha configuração do mundo e uma nova. E parece inevitável que ela surja de um choque militar entre potências imperialistas (velhas e novas): o grau de polarização e de competição acirrada em todos os terrenos é tão grande que não se vê, pelo menos por enquanto, como esse curso poderia ser evitado.

3-

A centralidade da geopolítica se agravou geometricamente com a segunda presidência de Trump, que tem uma lógica territorial e transacional (ou seja, tem uma lógica territorial e não globalista, para além de suas idas e vindas permanentes que a cada dia o desgastam mais). Há uma divisão na burguesia ianque entre a lógica de Trump de enfrentamento, crise, choques, territorialização etc., apesar de não ter força para impô-la, e outro setor da burguesia que preferiria voltar à velha ordem atlantista-globalista consensual (a divisão não se dá em torno do enfrentamento com a China, mas sim em relação aos elementos de ruptura com os aliados históricos dos E.U.A.).

Isso gera indeterminação, sobretudo porque não se sabe bem qual é o desenho do mundo de Trump, enquanto o outro desenho — ao qual, de qualquer maneira, é muito difícil voltar — estava claro: 

“A arte negociadora do presidente dos Estados Unidos está se voltando contra Washington. Assim como após sua fracassada guerra comercial contra a China, seu conflito com Teerã termina com benefícios para a República Islâmica. O que divide o campo republicano. Isso já era perceptível em Washington no início de junho. Nem mesmo os republicanos mais próximos do governo, que no início defendiam a guerra contra o Irã, encontravam argumentos para justificar as mudanças de rumo de Trump sobre os objetivos da guerra, suas declarações contraditórias («Nunca prometi não iniciar novas guerras») ou absurdas («Adoro a inflação»). Tampouco havia alguém que desmentisse que o Irã agora conta com um enorme meio de dissuasão graças ao controle de Ormuz” (“El «rey Trump» está desnudo y sus rivales están sacando conclusiones”, Sin permiso, 26/06/26).

Nestes momentos há uma competição extrema, exacerbada, por territórios, recursos naturais, petróleo, gás, terras raras, semicondutores etc., que conduz a uma espécie de “militarização da geografia”. Parte dessa dinâmica é a remilitarização dos Estados europeus que, de repente, se dão conta de que partem de muito atrás na corrida armamentista

A guerra na Ucrânia demonstrou que até mesmo o equipamento militar americano mais sofisticado está entrando em obsolescência devido à chegada da guerra com drones assistidos por IA (…) o gasto de interceptores de mísseis no Oriente Médio significa que agora restam poucos disponíveis para a Ucrânia” (La Nación, “Estamos en el comienzo de la Tercera Guerra Mundial? Hay cinco razones para preocuparse”, Bret Stephens, 28/08/26).[5]

Sob a pressão de Putin e de Trump, a UE está envolvida em uma corrida pela remilitarização, aumentando seus orçamentos militares porque desconfia que os EUA trumpista não irão protegê-la.

As guerras têm muito peso na conjuntura internacional, guerras que se prolongam no tempo e são desgastantes: todo mundo aponta que as guerras na Ucrânia e no Oriente Médio estão convergindo para uma espécie de conflito único, que acentua a militarização dos acontecimentos: 

“Meu argumento se baseia nas origens da Segunda Guerra Mundial, que não começou simplesmente com a invasão alemã da Polônia, em 1º de setembro de 1939. Mais precisamente, foi um acúmulo de guerras regionais e crises, iniciado com a invasão japonesa da Manchúria, em 1931, que pouco a pouco se transformou em um único conflito global” (Bret Stephens, La Nación, 28/08/26).

4-

Dá a impressão de que se está entrando — na realidade, já entramos — em uma nova era dos extremos, na qual as relações de forças são resolvidas de maneira física, militar e não consensual, como estávamos acostumados no período anterior. Como já assinalamos, há um fio invisível que une guerra e revolução. Ao levar as sociedades a situações tão extremas, preparam-se cataclismos sociais, rebeliões, revoluções.

Há em curso duas grandes guerras — cada vez mais vinculadas — e um genocídio. A guerra da Ucrânia já entrou em seu quinto ano e introduziu novos elementos, como a guerra de drones, além de provocar a remilitarização na Europa. O conflito ucraniano se complexificou enormemente. A oligarquia ucraniana está dividida em dois campos, houve recentemente um processo de mobilização popular em torno do comando do exército, Zelensky resiste, mas está sendo questionado, os elementos de guerra por procuração interimperialista se intensificaram, ainda que o elemento de autodeterminação nacional continue presente.

“A Ucrânia, em seu quinto ano de guerra total, desenvolveu uma economia de defesa sem precedentes antes de 2022. Em 2025, a capacidade de produção da indústria de defesa ucraniana multiplicou-se por 35 desde o início da invasão — passando de 1 bilhão de dólares (900 milhões de euros) para 35 bilhões de dólares (31,6 bilhões de euros) —, e a fabricação nacional representa 76% do total das contratações públicas em matéria de defesa, contra 44% em 2024 (…) Quanto aos drones interceptadores, à robótica terrestre e aos drones navais, a Ucrânia não tem nenhum concorrente à sua altura — embora a Rússia esteja recuperando terreno na produção de drones FPV e mantenha uma superioridade tecnológica em certos sistemas de guerra eletrônica e de interferência. Em nenhum desses campos a indústria de defesa ocidental oferece um equivalente comprovado em combate. É essa base tecnológica acumulada — construída de baixo para cima, graças à iniciativa cidadã e à produção distribuída, sem equivalentes nas indústrias armamentistas ocidentais — que essas indústrias buscam agora absorver [isto é, as indústrias capitalistas ocidentais].
Duas facções da classe capitalista disputam o controle dessa economia, as condições desse controle e os interesses aos quais ela servirá”
(Adam Novak, “Ucrania. Tras las protestas: poder, capital y economía de defensa”, Sin permiso, 25/07/26).[6]

A guerra entre EUA e Irã parece não ter fim (está estagnada em uma situação de nem paz nem guerra, marcada por rodadas de ameaças, disparos, reuniões infrutíferas etc.). Já é consensual que foi o pior erro da administração Trump envolver-se nesse conflito de maneira improvisada, fazendo seguidismo a Netanyahu, acreditando que poderia vencê-lo facilmente, fazendo declarações bombásticas sem efeito, mostrando a céu aberto a fraqueza dos Estados Unidos, ainda que apesar dos danos muito reais infligidos à população, à economia e à infraestrutura iranianas (e nem falar da economia mundial, com o Estreito de Ormuz ainda fechado). E o genocídio palestino é dramático, histórico; é o maior genocídio político depois da Segunda Guerra Mundial.

5-

Parte desse mesmo processo é o desenvolvimento da extrema direita, com elementos ultrarreacionários, de ataque à razão, de questionamento das conquistas do movimento de massas e dos trabalhadores das últimas décadas, e que está em um processo de radicalização, embora também apresente muitos sinais de fraqueza.

A grande pergunta é de onde surgiu tamanha escalada ascendente da extrema direita. A maioria das análises marxistas sérias aponta que é um erro a ideia da repetição mecânica da sequência posterior à Revolução Russa: primeiro a revolução e depois a contrarrevolução. Hoje isso não é assim: no contexto marcado pelo neoliberalismo extremo dos últimos 40 anos, pela precarização das condições de vida de amplos setores das massas, pela estagnação econômica no Ocidente que vem desde a crise de 2008, pela deslocalização industrial etc., assim como na subsequente crise dos partidos tradicionais e na crise da alternativa socialista após a queda do Muro de Berlim, ainda não resolvida — embora cresçam as pulsões anticapitalistas, sobretudo entre a juventude — esse foi e é o caldo de cultivo do crescimento da extrema direita nos EUA, na Europa e na América Latina.

A extrema direita está atuando de maneira preventiva e como aríete diante da pressão capitalista crescente e sem limites para fazer com que as trabalhadoras e os trabalhadores e a juventude paguem os custos da crise estrutural do capitalismo (a estagnação econômica não superada desde a crise de 2008).

Referindo-se especificamente à França, e embora discordemos de sua perspectiva frente-populista, Ugo Palheta aponta algo correto:

“Uma das coordenadas centrais da situação política na França se desenvolve entre estes dois elementos: de um lado, os governos impuseram uma série de retrocessos sociais sem conseguir chegar até o fim em seu projeto de reconfiguração neoliberal; de outro lado, a esquerda radical e os movimentos sociais, suficientemente poderosos para retardar a implementação desse projeto [mas recusando-se a questionar de maneira sistemática a governabilidade, acrescentamos nós], não foram capazes de construir uma verdadeira alternativa de poder. É em parte nessa falha que a RN (Rassemblement National) construiu seu sucesso, sem esquecermos que sua presença no segundo turno das eleições presidenciais em três das últimas cinco eleições lhe conferiu credibilidade como principal opositor”
(Palheta, «Comment le fascisme gagne la France»; Éditions La Découverte; 2025: 120).

6-

Ao mesmo tempo, há contrapesos que assinalamos quando dizemos que é preciso olhar o mundo com os dois olhos, que os meios de comunicação e a intelectualidade não veem, que são os elementos de bipolaridade, de reversibilidade dialética dos acontecimentos. Para os EUA foi bastante “fácil” sequestrar Maduro e dominar a Venezuela (depois do dramático terremoto na Venezuela, cresce o descontentamento com o regime entreguista de Delcy Rodríguez e também com os próprios EUA), mas vive uma derrota militar indisfarçável no Irã. Essa derrota não é emancipatória porque a direção do Irã é super-reacionária e não tem comparação com o Vietnã, que, além disso, provocou mobilizações de massas nos EUA. Hoje, nos EUA, há mobilizações de vanguarda por Gaza, há repúdio massivo à guerra com o Irã (embora sem mobilizações), mas nas massas iranianas não está presente esse elemento emancipatório:

“É totalmente possível descrever esta guerra como um ato de agressão imperialista sem, por isso, apoiar a República Islâmica. A posição correta é reconhecer que até mesmo um Estado capitalista reacionário [independente, acrescentamos nós] tem o direito de resistir ao ataque militar de Israel e dos Estados Unidos, sem criar ilusões políticas ou estratégicas sobre esse próprio Estado.
A defesa dos povos iraniano e palestino exige uma mobilização massiva, não apenas contra a agressão estrangeira, mas também contra as forças nacionalistas e religiosas dentro de suas próprias sociedades. Em última instância, tais forças se acomodam ao imperialismo ou perseguem uma estratégia catastrófica de «vitória» a qualquer custo [isto é, não baseada em uma mobilização emancipatória das massas, acrescentamos nós], enquanto, na realidade, apoiam regimes cuja corrupção, desigualdade e repressão geram o mesmo descontentamento social que ajuda a desestabilizá-los.”
(Yassamine Mather, “Guerra EE.UU.-Israel contra Irán: punto muerto y peligro de escalada”, Sin permiso, 24/07/26).

No entanto, do ponto de vista objetivo, os EUA receberam um tremendo revés no Irã.[7]

7-

Afirmamos que estamos em uma conjuntura internacional marcada pela combinação de elementos de um interregno e de uma reação da extrema direita porque, ao mesmo tempo, há eleições previstas para os próximos meses que serão muito importantes para avaliar a dinâmica dos acontecimentos. As dos EUA, embora sejam de meio de mandato, são fundamentais para a região e para o mundo todo: não é a mesma coisa se Trump ganha ou perde as eleições; isso proporciona perspectivas e potencialidades muito diferentes. Há uma batalha de pesquisas, mas, se perder, ficará muito abalado. Neste momento, apesar das manobras que tenta fazer no sistema eleitoral, Trump estaria ficando em minoria em ambas as câmaras — o regime eleitoral ianque se baseia nos Estados, de modo que o governo federal tem pouca ingerência sobre ele.

No Brasil, as pesquisas também oscilam entre Lula e Flávio Bolsonaro; está em jogo a consolidação da extrema direita (reação) ou que ela receba um revés que a faça recuar (interregno). Na Argentina é igual: a mobilização de 6 de agosto deu um golpe tremendo no governo e o deixou na defensiva, abrindo uma conjuntura mais favorável para as massas trabalhadoras. A dinâmica é incerta, mas mostra que há polaridade na luta de classes; não se pode falar somente de Trump: é preciso falar também do movimento No Kings, de Minneapolis etc. Há uma desconexão entre a superestrutura e a sociedade civil, que se modernizou em muitos aspectos apesar do crescimento da extrema direita.

No Brasil, não houve grandes lutas do movimento sindical tradicional, mas há um novo metabolismo da luta de classes, no qual entram novos atores: para 1º de setembro há uma nova greve de entregadores (Breque) que pode ser enorme. Então, por um lado, a extrema direita se radicalizou e, por outro, há desenvolvimentos à esquerda do ponto de vista social. E também políticos: dentro dos EUA, por exemplo, com o DSA — embora o DSA seja, como organização, uma frente única de tendências muito fragmentárias — mobiliza sobretudo eleitoralmente sentimentos progressistas de reforma e transformação social.

Na Argentina, a opinião pública mudou de lado. Há uma ruptura majoritária da população com o governo e viemos de uma jornada histórica como a de 6 de agosto. O governo de Milei vem se apoiando no regime e na burguesia, mas não conseguiu obter poder de mobilização.

8-

Há uma dialética entre etapa e conjuntura. A conjuntura aparece dominada pela extrema direita, com elementos de “bipolaridade intermitentes” pela esquerda, e a etapa está cozinhando em fogo lento algo de grande envergadura, no âmbito militar, mas também na luta de classes: estão sendo gestadas as rebeliões e revoluções do século XXI. As pressões que a economia capitalista e a extrema direita estão exercendo sobre as sociedades são insuportáveis e colocam a necessidade de um reinício da experiência histórica na resposta — de baixo para cima — a essas condições extremas.[8]

Por outro lado, há vários temas novos que exigem uma elaboração específica. Um deles é a IA, que é abordada de maneira muito distópica, mas possui sua reversibilidade: pode ser uma força produtiva ou destrutiva; pode significar a emancipação da exploração do trabalho aplicada em um quadro não capitalista, autenticamente socialista. Outro tema é que estamos vivendo todas as consequências das mudanças climáticas: os incêndios na Europa, o Super El Niño etc. É preciso abordar essas temáticas, sempre sem perder de vista os elementos de bipolaridade, de luta de classes, os elementos abertos na conjuntura internacional que apontam para a esquerda.

Também há uma série de discussões estratégicas, por exemplo, entre anti-imperialismo e campismo, que têm muita importância porque um setor da esquerda é campista pró-Rússia e não internacionalista, enquanto outro cede ao imperialismo tradicional. No enfrentamento entre China e EUA, nossa corrente não escolhe nenhum campo porque se trata de um enfrentamento interimperialista; nossa posição é independente, do ponto de vista da classe trabalhadora, internacionalista. Há outra discussão estratégica entre independência de classe e conciliação de classes, como no Brasil com a capitulação do PSOL a Lula. E outra é a do problema da soberania nacional (que se expressou na Argentina), entre o justo direito à autodeterminação nacional ou os movimentos de emancipação nacional, como o da Palestina, versus o nacionalismo em sentido amplo, que é outra coisa, é uma bandeira de unidade nacional que separa a luta anti-imperialista da luta anticapitalista.

Essas discussões clássicas reaparecem nesse marco internacional complexo, no qual ainda falta uma irrupção política da classe trabalhadora que organize as discussões e lhes dê um caráter anticapitalista.

9-

Estamos em um momento de grande densidade histórica, no qual se combinam aspectos de grande profundidade que significam rupturas com a dinâmica anterior. Que os EUA estejam perdendo, em certa medida, a hegemonia internacional é um fato de grande importância. A passagem de uma ordem que veio abaixo, um momento de irresolução em direção a uma nova ordem, e que isso não possa ocorrer sem um enfrentamento sangrento, ainda que não aconteça de um dia para o outro, é um fato de grande densidade histórica. Também o são a IA, com as incertezas que desperta quanto à possibilidade de escapar ao controle humano, o aquecimento global, que está provocando cada vez mais catástrofes etc.

A dialética entre etapa e conjuntura — ou etapa e situação — tem outro aspecto: como se passa da catástrofe à revolução? Ocorre que todas essas coisas acontecem sobre o corpo vivo da sociedade, e isso significa que o pêndulo político pode ir da extrema direita à extrema esquerda quando a sociedade reagir.

O aspecto estrutural não vai mudar porque Lula ou Trump ganhem, mas, na conjuntura, os resultados eleitorais têm enorme importância. A incerteza acaba sendo canalizada pela via eleitoral, e isso é um elemento de peso. O espectro político está muito deslocado para a direita, mas há muita polarização social, política e eleitoral, o que faz com que um resultado ou outro não seja indiferente, embora não resolvam o problema estrutural.

No Brasil, as pesquisas se modificam todos os dias, e a eleição aparece muito polarizada entre Lula e Flávio Bolsonaro. Mas isso convive com o breque de 1º de setembro, com a questão da Amazônia e a luta das populações originárias. Também na Argentina se vê a bipolaridade, na mudança de conjuntura produzida pelo revés imposto a Milei em 6 de agosto. Sobrepõe-se a “época da dramaticidade” dos acontecimentos à época da luta de classes. Trump recebeu um revés em Minneapolis e não pôde voltar a sitiar cidades, embora o ICE tenha mudado de estratégia e mantenha sua cota stalinista de detenções de migrantes.

Então, olhar o mundo com os dois olhos significa poder delimitar um pouco os elementos da etapa daqueles da conjuntura para ver todo o quadro da situação, porque, se isso não for feito, tudo se torna excessivamente angustiante.

Os elementos da etapa são de muita incerteza, coisas de grande peso estão em jogo e é difícil prever o rumo. Os da conjuntura também trazem incerteza, mas aparecem momentos de resolução, como as eleições em determinadas datas. E os elementos de bipolaridade convivem com isso e significam limites à extrema direita. A extrema direita não é a mesma coisa que o fascismo: desenvolve-se nas redes sociais e por meio desse tipo de mediação. Exceto quando falamos do Estado sionista, falar em “fascismo” serve propagandisticamente, mas não é a mesma coisa que a extrema direita, que não consegue mobilizar majoritariamente multidões nem se organizar para além de grupelhos fascistoides.

Essa delimitação entre etapa, conjuntura e bipolaridade serve para a análise e para delimitar as temáticas, que são profundas, “pesadas” e constituem uma exigência para que a corrente não fique para trás. Elas são apresentadas pelos meios de comunicação de maneira distópica porque, com o domínio das redes sociais, aquilo que deveria ser separado aparece todo junto, embora não tenha a mesma dinâmica nem o mesmo peso.

NOTAS

[1] O verão europeu foi um dos mais quentes de que se tem memória, e a Europa é o continente que está se aquecendo mais rapidamente em todo o mundo: “No ano passado, a UE viu mais de 1 milhão de hectares serem queimados; este ano, esse recorde pode ser quebrado. E não é apenas um verão. O continente está se aquecendo mais rapidamente do que qualquer outro. Como ainda há décadas de agravamento pela frente, precisa se preparar” (TE, agosto, 1/7 de 2026).

[2] Remetemos também aos textos de nosso companheiro Marcelo Yunes, “Trump se empantana en Irán” e “La crisis de la Unión Europea”, que apresentam sólidos elementos de análise geopolítica.

[3] Callinicos resume as diferentes etapas do imperialismo (imperialismo abordado, corretamente, como uma construção de economia e política): a) a fase clássica do imperialismo (1870-1945), dominada pela partilha do mundo entre grandes potências; b) a segunda fase, a de dois “imperialismos superpoderosos” [na realidade, a nosso modo de ver, entre o imperialismo ianque e a ex-URSS, Estado burocrático], a era da Guerra Fria (1945/1991); c) a terceira fase do imperialismo — a partir dos anos 90 — definida pela tentativa dos EUA de manter sua hegemonia e torná-la global, que possui várias subfases: unipolaridade nos anos 90; depois do atentado às Torres Gêmeas, a “guerra contra o terrorismo”; posteriormente, Obama tentando restaurar a normalidade neoliberal ao mesmo tempo em que buscava facilitar o “pivô para a Ásia”; e, finalmente, o momento atual de competição exacerbada entre China e EUA: “A liderança chinesa não busca necessariamente substituir os EUA como Estado capitalista hegemonicamente dominante em escala global, pelo menos não no curto prazo. Mas busca, sim, retirar os Estados Unidos da região Indo-Pacífica (…) Dado que essa região é hoje o principal centro (hub) do capitalismo global, representando cerca de 40% do PIB global, semelhante retrocesso significaria, sem dúvida alguma, reduzir o poder e o status dos Estados Unidos de maneira dramática, e não há dúvida de que sua classe dominante não aceitaria semelhante degradação pacificamente” (Callinicos, idem, 92).

[4] É preciso ter presente que Xi Jinping colocou como data eventual para tal ação o ano de 2027… justamente em um momento em que os EUA parecem militarmente enfraquecidos pela sobre-extensão de duas guerras simultâneas: Ucrânia e o desastre iraniano.

[5] A escassez americana de mísseis de defesa antiaérea Patriot esteve em todos os meios de comunicação nas últimas semanas.

[7] Em relação à Ucrânia, também há uma polêmica desde o início do conflito entre as correntes da esquerda trotskista. Há correntes que perderam de vista o elemento de guerra por procuração do enfrentamento e se alinharam praticamente com o imperialismo ocidental, como a chamada “IV Internacional”, e outras, como o SWP inglês, que, embora rejeitem a invasão russa da Ucrânia, veem-na quase meramente como um conflito por procuração interimperialista. A Revolução Permanente tem posições diversas entre a Argentina e a França a esse respeito, enquanto nossa corrente sempre defendeu o caráter dual do conflito: elementos de guerra por procuração que se agravaram no decorrer da guerra, mas também elementos justos de autodeterminação nacional que têm bases muito reais, expressas na opressão nacional exercida pelo stalinismo na Ucrânia.

[7] Correntes como a Revolução Permanente, ex-Fração Trotskista, definem o regime iraniano como “inconsequentemente anti-imperialista” e não como o que ele é: um regime apodrecido, antioperário e antipopular. As “virtudes” de seu anti-imperialismo sem anticapitalismo ficam claras em definições desse tipo, que contradizem frontalmente a citação que colocamos de uma socialista iraniana exilada no Reino Unido, professora da Universidade de Glasgow e diretora da campanha “Fora as mãos do povo do Irã”.

[8] Na Argentina, por exemplo, a crise da inadimplência abrange 25 milhões de pessoas, metade da população do país, ao mesmo tempo em que 6 milhões já têm atrasos superiores a 3 meses nos pagamentos. A bola de neve das dívidas já alcança 50 bilhões de dólares, um décimo do PIB do país.