A educação pública brasileira está longe de ser ideal. Sofre com o subfinanciamento crônico, com a precarização das condições de trabalho e estudo e com o avanço dos interesses privados sobre escolas e universidades. Fundações empresariais, organizações privadas e grandes empresas de tecnologia, como o iFood, ampliam sua influência sobre currículos, avaliações, gestão e formação docente. Enquanto isso, faltam professores, funcionários, infraestrutura e condições adequadas de estudo, materiais didáticos e permanência estudantil.

Durante esses quase quatro anos do governo Tarcísio de Freitas e de seu secretário da Educação, Renato Feder, a educação foi uma das áreas mais afetadas. Militarização, plataformização e privatização foram algumas das políticas implementadas e ampliadas no estado durante seu governo, aprofundando a precarização da educação pública. As políticas educacionais do governo do estado de São Paulo promovem um desmonte da rede pública de ensino paulista e agravam a precarização das condições de trabalho dos professores.

Por Lorena

Atualmente, o cenário da educação em São Paulo é marcado por uma série de ataques ultrarreacionários à educação e à sociedade, nos quais problemas estruturais da rede de ensino são tratados como falhas individuais de professores e alunos. Além disso, durante o governo Tarcísio, foi criada uma intensa “vigilância online” sobre o trabalho docente, mediada por avaliações constantes, classificações arbitrárias e métricas. Os professores da rede estadual são obrigados a cumprir metas relacionadas às aulas e ao uso de plataformas, dentro e fora do ambiente escolar. Entre elas estão as chamadas “plataformas de ensino/cursos”, cujas aulas os professores são obrigados a assistir e cujas atividades devem responder obrigatoriamente.

Trata-se, basicamente, de uma “privatização indireta” da rede estadual paulista: as escolas permanecem formalmente públicas, mas têm sua autonomia pedagógica esvaziada e passam a operar sob uma lógica empresarial e disciplinar. A seguir, abordaremos individualmente cada uma das principais ações protagonizadas pelo atual governador Tarcísio de Freitas.

Militarização da educação

De acordo com o jornal G1, no início de 2026, “o Programa das Escolas Cívico-Militares (ECM) começou em 100 escolas estaduais, distribuídas por 89 municípios do estado de São Paulo”. Nesse modelo, policiais militares da reserva atuam como monitores, auxiliando na organização, disciplina e segurança das escolas, com a finalidade declarada de melhorar o ambiente de convivência e a segurança no espaço escolar. Também orientam os estudantes sobre normas de conduta, civismo e organização diária.

Por outro lado, a implementação do programa de escolas cívico-militares nada mais é do que uma medida autoritária e reacionária, que contribui para a militarização da gestão escolar e para o controle do ambiente pedagógico. Dito isso, policial não é educador. Não cabe aos militares determinar os rumos da educação ou exercer funções pedagógicas para as quais não possuem formação. Militares não cursam licenciatura ou pedagogia e, portanto, não possuem formação específica para exercer a função de educadores. A militarização fere a gestão democrática das escolas públicas e restringe o pensamento crítico de estudantes e professores.

Nessa perspectiva, há diversos motivos para considerar essa implementação nas escolas públicas uma medida autoritária e prejudicial à comunidade escolar e aos futuros estudantes. Entre eles está a imposição de regras rígidas de comportamento, que reduzem o espaço para a livre expressão dos estudantes, tanto na fala quanto na maneira de se vestir e de se apresentar socialmente, restringindo a autonomia e o desenvolvimento do pensamento crítico. Quanto também, afeta as formas históricas de organização e luta dos estudantes secundaristas, como os grêmios estudantis, assembleias e reuniões, atacando a autodeterminação e organização independente de jovens e estudantes, um setor da luta de classes extremamente dinâmico, plural, diverso e combativo!.

Além disso, os salários pagos aos militares contratados como monitores são, segundo os dados apresentados no texto, muito superiores aos recebidos por diversos profissionais da rede pública, chegando a uma faixa entre R$ 6 mil e R$ 10 mil. Essa discrepância salarial representa um desrespeito e uma desvalorização dos profissionais que trabalham na rede pública, que passaram por formação específica e dedicaram anos de trabalho à educação.

Também ocorre uma substituição de funções pedagógicas por atividades desempenhadas por militares, em detrimento dos profissionais da educação. Os recursos financeiros do Estado e os esforços da gestão deveriam estar direcionados à valorização dos professores, à melhoria da infraestrutura escolar e à contratação de profissionais da educação. Atualmente, a rede pública enfrenta um processo de precarização marcado pela falta de infraestrutura adequada e de recursos básicos nas instituições de ensino, problemas que o governador deixa de lado em nome de suas supostas “ações inovadoras”. Portanto, o foco deve estar nas necessidades fundamentais da educação, e não na presença de agentes de segurança dentro das escolas.

Plataformização

Durante o governo Tarcísio de Freitas, o termo “plataformização” passou a ser cada vez mais discutido e colocado em prática em toda a rede estadual de ensino. A plataformização da educação não é um processo neutro nem meramente técnico. Em termos gerais, trata-se da integração de infraestruturas, softwares, algoritmos e aplicativos digitais, públicos e privados, ao cotidiano das escolas. Porém, também constitui uma forma específica de reorganização capitalista da educação, alterando a gestão educacional, o trabalho docente e o processo de aprendizagem dos alunos, à medida que o processo pedagógico passa a ser orientado e medido por sistemas padronizados.

Como apontado anteriormente, essa política de plataformização cria uma dependência em relação a plataformas privadas e transforma a rotina escolar em uma lógica cada vez mais submetida ao mercado e aos interesses empresariais.

Desde que o governo instaurou essas novas medidas tecnológicas no ambiente escolar, houve uma grande perda de autonomia por parte dos docentes. O conteúdo e a sequência didática passam a ser guiados pelas métricas e pelos roteiros previstos nas plataformas, enquanto os professores são pressionados a cumprir metas de engajamento digital das turmas. Trata-se, portanto, de um ataque à autonomia dos professores da rede estadual.

A exigência do uso dessas plataformas transformou-se, para os docentes, em um mecanismo de monitoramento contínuo por meio de métricas, criando um ambiente de vigilância e punição e inibindo a resistência sindical e a prática pedagógica crítica. Assim, a desorganização produzida na rede de ensino é utilizada pelo próprio Estado para alimentar o discurso de ineficiência da escola pública, justificando a expansão contínua das plataformas privadas. Trata-se, basicamente, de um projeto de reestruturação conservadora e mercantilizadora da rede pública.

A plataformização também está presente no currículo escolar. O Novo Ensino Médio (NEM), aprovado em 2017 durante o governo de Michel Temer, promoveu uma mudança curricular baseada na Base Nacional Comum Curricular (BNCC), reduzindo a carga horária de disciplinas regulares e instituindo os chamados “itinerários formativos”.

Empresas como o iFood, pioneiras no Brasil na exploração do modelo de trabalho precarizado das entregas por plataforma, investem em itinerários formativos relacionados ao Novo Ensino Médio. Essas empresas entram nas escolas para promover entre os jovens ideias vinculadas ao chamado “empreendedorismo”, preparando-os para um futuro marcado pelo trabalho precarizado e pelas plataformas digitais.

Assim como o governo Lula se recusa a acabar com o Novo Ensino Médio, a conciliação de classes também fecha os olhos para uma reivindicação fundamental dos entregadores por aplicativo: a edição de uma Medida Provisória que garanta o aumento da taxa mínima dos entregadores de aplicativos, de R$ 7,50 para R$ 10,00, além de R$ 2,50 por quilômetro rodado. Entregadores por aplicativo estão submetidos a jornadas exaustivas e correm perigo diariamente nas ruas. 70% dos leitos do SUS são ocupados por entregadores, o que revela o impacto brutal da exploração sobre a saúde e a vida desses trabalhadores.

Nas ruas e nas urnas

Assim, percebe-se o caráter antidemocrático e autoritário do governo de Tarcísio de Freitas, assim como a traição do governo Lula-Alckmin. Diante disso, a resposta a esses ataques deve estar nas ruas e também nas urnas neste ano eleitoral. Nós da Bancada Anticapitalista defendemos uma escola democrática, gratuita, laica e voltada para a emancipação e o desenvolvimento do pensamento crítico, em oposição à lógica de mercado e ao controle disciplinar.

A comunidade escolar deve participar da escolha da direção das escolas, garantindo autonomia pedagógica e administrativa. É preciso tomar as ruas pela retirada dos agentes militares da gestão e do ambiente escolar, garantindo que a mediação de conflitos e as questões disciplinares sejam tratadas por educadores, pedagogos e psicólogos capacitados.

Também é necessário eliminar o controle baseado em métricas de engajamento, algoritmos e rotinas engessadas por plataformas privadas. As ferramentas digitais devem ser utilizadas apenas como instrumentos de apoio pedagógico, definidos e construídos pelos próprios professores, e não como mecanismos de vigilância, controle e padronização mercadológica.

Os últimos anos também mostraram a capacidade de mobilização dos trabalhadores e estudantes em defesa da educação pública. Professores, técnicos-administrativos e estudantes de universidades, institutos federais e Cefets organizaram greves, paralisações e mobilizações pela recomposição salarial, pela valorização das carreiras, por mais recursos para as instituições e pela garantia de condições dignas de trabalho e estudo.

Um exemplo disso foi a greve unificada das três universidades estaduais contra Tarcísio e seus ataques à educação e serviços públicos, em que pese os limites da condução política burocratizada que freou a massificação da mobilização. Da mesma forma, os entregadores de aplicativos têm demonstrado sua força por meio de breques em defesa de seus direitos, como ocorre atualmente na luta pela garantia de uma taxa mínima. Essas experiências deixam evidente que a organização independente de trabalhadores e estudantes é fundamental para enfrentar o sucateamento, os cortes orçamentários e o avanço da privatização da educação.

Por fim, defendemos o investimento direto do orçamento público na reforma e manutenção das escolas, garantindo laboratórios, bibliotecas, quadras e materiais didáticos de qualidade, sem a mediação de empresas privadas. É necessária também a garantia da permanência estudantil, com refeições de qualidade, apoio à saúde mental, transporte gratuito e atividades culturais no ambiente escolar.

A luta pela educação também passa pela mobilização em defesa de todos os trabalhadores e pela construção de um futuro que não seja marcado pela sobrevivência submetida às plataformas de aplicativo, mas por remuneração justa e jornadas de trabalho que possibilitem o descanso e o lazer. Por isso, é fundamental fortalecer a unidade operário-estudantil em mobilizações como o Breque dos Aplicativos, no dia 1º de setembro, e na luta pelo fim da escala 6×1.

REFERÊNCIAS

https://youtu.be/sDcJgjhjlGo?is=Xb9btHQ3c9lwtbwV

https://esquerdaweb.com/tarcisio-ataca-sistematicamente-professores-e-educacao-publica-paulista/

https://esquerdaweb.com/educacao-punitivismo-e-plataformizacao-a-privatizacao-indireta-da-escola-publica-em-sao-paulo/

https://esquerdaweb.com/escolas-civico-militares-um-ataque-ultra-reacionario-a-educacao-e-a-sociedade-como-um-todo/

https://g1.globo.com/sp/sao-paulo/noticia/2026/02/02/programa-de-escolas-civico-militares-tem-inicio-em-100-unidades-de-sp-nesta-segunda.ghtml