Assim, os representantes da classe operária foram banidos da sede do governo provisório, a sua porção burguesa manteve o poder real do Estado e as rédeas da administração exclusivamente em suas mãos e, ao lado dos ministérios das finanças, do comércio, dos serviços públicos, ao lado do banco e da bolsa, levantou-se uma sinagoga socialista, cujos sumos sacerdotes (…) estavam incumbidos de descobrir a terra prometida, anunciar o novo evangelho e dar trabalho ao proletariado (…). Diferentemente de qualquer poder estatal profano, eles não dispunham de nenhum orçamento, de nenhum poder executivo. Esperava-se que eles derrubassem as colunas de sustentação da sociedade burguesa a cabeçadas. Enquanto o Luxemburgo buscava a pedra filosofal, no Hôtel de Ville se cunhava a moeda corrente.
– Marx, Karl. As lutas de classes na França de 1848 a 1850.  

Por Direção Executiva da Corrente Socialismo ou Barbárie

Esta nota pretende dialogar com a esquerda sobre a conjuntura brasileira, os desafios colocados à classe trabalhadora e o debate aberto pelo início da pré-campanha eleitoral. Tomaremos como ponto de partida uma avaliação crítica do Manifesto por uma Bancada da Esquerda Radical, buscando discutir os limites da estratégia apresentada no documento e indicar como entendemos que deve se conformar uma tática eleitoral socialista e anticapitalista no período que se abre.

Conjuntura, polarização e os desafios da esquerda independente

A conjuntura brasileira segue marcada por impasses políticos e sociais importantes. Embora se encontre abalada por escândalos e ferozes disputas internas, a extrema direita mantém influência social e capacidade de reorganização. Ao mesmo tempo, o governo Lula demonstra incapacidade em responder às principais demandas dos trabalhadores, preso aos limites da conciliação de classes e à administração da ordem existente.

No plano internacional, assistimos ao aprofundamento das disputas entre potências, a uma nova onda de direita e extrema direita na América Latina, aos ataques às liberdades democráticas, ao recrudescimento do protecionismo imperialista e à ampliação das tensões econômicas e geopolíticas. Esse cenário impacta diretamente os países dependentes, agravando processos de desindustrialização, reprimarização econômica, precarização do trabalho e devastação ambiental. Assim, as lutas anticapitalista e anti-imperialista retornam à cena.  

Nesse contexto, o enfrentamento aos ataques contra os trabalhadores e os setores oprimidos exige a construção de lutas capazes de unificar amplos setores da população. Entre elas, destaca-se a campanha pelo fim da escala 6×1, que expressa uma das principais experiências comuns da classe trabalhadora contemporânea: jornadas exaustivas, baixos salários e deterioração das condições de vida. Trata-se de uma reivindicação capaz de conectar diferentes segmentos do mundo do trabalho e abrir espaço para processos mais amplos de organização e mobilização.

Contudo, a luta pela redução da jornada e por outras demandas não poderá avançar de forma consequente sem enfrentar as contenções conscientes às lutas pelas ruas impostas pelo governo, pelas burocracias sindicais e pelos setores que apostam exclusivamente nas saídas institucionais. As disputas parlamentares possuem importância tática, mas são insuficientes para alterar a correlação de forças quando desvinculadas da mobilização independente dos trabalhadores.

Por essa razão, torna-se necessária a construção de uma alternativa política baseada na independência de classe, capaz de enfrentar simultaneamente a extrema direita, os interesses da burguesia e os limites da conciliação de classes. É nesse terreno que se coloca a necessidade de uma frente político-eleitoral anticapitalista, construída sem alianças com setores burgueses e orientada para fortalecer a organização dos trabalhadores e da vanguarda social que emerge das lutas concretas.

O que propõe o Manifesto da Bancada da Esquerda Radical?

Passemos à análise do Manifesto por uma Bancada da Esquerda Radical, assinado por figuras públicas e parlamentares do PSOL e do PT, como Sâmia Bomfim, Glauber Braga, Renato Freitas e Jones Manoel.

O documento apresenta críticas à financeirização da economia, à dependência nacional, à devastação ambiental, à precarização do trabalho e ao avanço da extrema direita. Em um período marcado pela crise das experiências de conciliação de classes e pelo fortalecimento de projetos autoritários em escala internacional, esses problemas são reais e precisam ser enfrentados. Entretanto, a questão decisiva não é apenas identificar problemas a partir de uma crítica simplesmente econômica e epidérmica (superficial), mas compreender suas causas profundas e indicar uma estratégia capaz de superá-los. É justamente nesse ponto que se encontram os limites centrais do Manifesto.

Preso ao horizonte do neoliberalismo, o texto apresenta uma crítica a determinados aspectos da realidade brasileira, mas a partir daí não pode oferecer uma perspectiva de ruptura com a ordem capitalista existente. Em vez de relacionar as contradições apontadas à dinâmica histórica do capitalismo dependente e do imperialismo, limita-se fundamentalmente à crítica ao neoliberalismo e às formas atuais de gestão da economia. Essa escolha político-teórica não é secundária. Pelo contrário, condiciona todo o horizonte estratégico do documento.

Antineoliberalismo sem anticapitalismo?

O neoliberalismo não constitui um modo de produção distinto do capitalismo. Trata-se de uma forma de gestão do próprio capitalismo, marcada pela liberalização financeira, privatizações, flexibilização dos direitos trabalhistas e ampliação da subordinação das economias periféricas aos grandes centros do capital internacional.

Ao deslocar a crítica do capitalismo para o neoliberalismo, o Manifesto transforma uma forma específica de administração do sistema em sua principal categoria explicativa. Com isso, passa-se à compreensão equivocada de que os problemas estruturais devem ser interpretados como consequências de uma determinada política econômica, e não como expressão de contradições inerentes ao próprio modo de produção capitalista – à não sociabilidade do capital.

A dependência econômica, a devastação ambiental, o racismo estrutural, a concentração fundiária e a superexploração do trabalho não nasceram com o neoliberalismo. Essas contradições atravessam toda a formação histórica do capitalismo brasileiro e se relacionam diretamente com sua inserção subordinada na economia capitalista mundial.

A escravidão, o latifúndio, a dependência externa e a subordinação aos centros imperialistas antecedem em muito as políticas neoliberais das últimas décadas. São elementos constitutivos do desenvolvimento desigual e combinado do capitalismo e não simples desvios produzidos por uma determinada orientação econômica.

Por essa razão, uma estratégia que pretenda enfrentar de forma consequente essas contradições precisa ter o capitalismo dependente e o imperialismo – não só o estadunidense – como alvo central de sua crítica. Quando isso não ocorre, a tendência é deslocar o debate para a busca de formas alternativas de gestão da mesma ordem social e, portanto, tornam-se nítidos os traços keynesianos constitutivos ao Manifesto, ao programa e a seus porta-vozes. 

Tomemos uma declaração de Jones Manoel sobre o Manifesto e o programa da bancada: “Um programa que vai à raiz da luta de classes, com foco na produção e na distribuição da riqueza”. Essas palavras, tomadas isoladamente e deslocadas do conteúdo real do Manifesto e do próprio programa, apresentam-se, a priori, como uma afirmação evidentemente progressiva. Entretanto, quando colocadas em contraste com as medidas defendidas pela chamada “Bancada da Esquerda Radical”, revelam-se uma fraseologia “vermelha” que evidencia uma profunda contradição entre forma e conteúdo: entre a afirmação de um programa que supostamente vai à raiz da luta de classes e o seu conteúdo real. 

Essa contradição entre forma e conteúdo torna-se ainda mais evidente em outra declaração de Jones Manoel. No mesmo vídeo, ele afirma: “Modéstia à parte, [é] o melhor programa econômico que foi colocado para o debate público em 2026”. Para além da auto exaltação – bastante pretensiosa, neste caso -, chama a atenção, mais uma vez, o contraste entre a grandiosidade retórica e o conteúdo efetivo do programa. Se deixarmos de lado o auto ufanismo e examinarmos as proposições concretas do programa e do Manifesto, veremos que elas são atravessadas por duas contradições centrais.

Em primeiro lugar, o Estado aparece implicitamente como sujeito da transformação social, isto é, como uma entidade relativamente independente das classes sociais e da luta de classes. Em nenhum momento se questiona seu caráter de classe, sua natureza como instrumento de dominação política da burguesia ou, nos termos clássicos do marxismo, como uma estrutura voltada à reprodução das relações sociais existentes. A centralidade conferida à atuação parlamentar não aparece como um instrumento subordinado à mobilização independente dos trabalhadores, mas como o eixo privilegiado da transformação social. Dessa forma, a luta institucional tende a substituir a luta de classes, expressando um politicismo característico das correntes reformistas, que atribuem ao Estado e às disputas parlamentares um papel desproporcional em relação às determinações materiais da sociedade.

Em segundo lugar, embora Jones afirme que o programa tem como foco central a “produção e distribuição da riqueza”, não há qualquer elaboração sobre a relação entre a distribuição da riqueza e o modo de produção capitalista. A questão distributiva aparece dissociada das relações de produção que a determinam, como se fosse possível alterar significativamente a distribuição sem enfrentar os mecanismos de exploração e apropriação privada que caracterizam o capitalismo. Trata-se precisamente daquilo que Marx criticava como “socialismo vulgar”: a tentativa de resolver as desigualdades por meio de medidas distributivas, sem questionar os fundamentos do sistema que produz essas desigualdades. Em vez de partir da produção da riqueza e das relações de classe que a estruturam, o programa desloca o debate para a esfera da distribuição, permanecendo, assim, nos limites de uma crítica reformista da economia capitalista.

Radicalidade sem alternativa revolucionária?

O Manifesto reivindica uma perspectiva ecossocialista, feminista, antirracista, anti-imperialista e anticapitalista. Entretanto, essas definições aparecem dissociadas de qualquer elaboração estratégica e totalizante sobre como enfrentar concretamente o poder da burguesia e do Estado capitalista.

A radicalidade não pode ser medida apenas pela linguagem utilizada ou pela lista de bandeiras defendidas. Ser radical significa identificar as raízes das contradições sociais e apontar os meios necessários para sua superação. Nesse sentido, a questão decisiva é simples: quais sujeitos sociais são centrais,  com qual programa e por meio de qual estratégia pode se transformar de fato a realidade? 

O Manifesto praticamente não responde a essa pergunta. Os trabalhadores aparecem como destinatários das políticas públicas propostas, mas não como sujeitos centrais da transformação. Da mesma forma, as experiências concretas de luta protagonizadas pelos indígenas, entregadores, trabalhadores precarizados, mulheres, juventude e setores oprimidos surgem de maneira secundária ou desaparecem completamente da elaboração política.

Ao deslocar o centro da transformação social da luta de classes para a disputa institucional, o documento acaba reduzindo a política a uma estratégia predominantemente eleitoral e parlamentar. O problema não é participar das eleições, por óbvio, mas sim transformar a disputa eleitoral no eixo organizador da estratégia e, portanto, perdendo de vista que a verdadeira força da esquerda revolucionária está nas ruas. Essa é uma lição  deixada por Rosa Luxemburgo que, longe de ser uma obviedade, adquire grande importância educacional para não confundirmos o avanço da influência política da esquerda (por exemplo, ao conquistar mais parlamentares) com uma influência orgânica sobre classe trabalhadora que permite fazer da força social extraparlamentar uma verdadeira potência. 

Uma perspectiva verdadeiramente radical exige partir da mobilização independente dos trabalhadores, da auto-organização dos setores explorados e oprimidos e da construção de instrumentos políticos capazes de enfrentar a burguesia, suas instituições e seus governos. Isso significa saber colocar as plataformas eleitorais e mandatos parlamentares a serviço da construção de uma verdadeira potência política fora do Congresso, no seio mais profundo da classe trabalhadora. É precisamente essa mediação estratégica que permanece ausente no Manifesto e que explica seus limites fundamentais.

Neodesenvolvimentismo ou transição socialista?

Ao definirem o neoliberalismo como o problema fundamental, os companheiros acabam deslocando o centro da crítica do capitalismo para uma de suas formas de gestão. Como consequência, a solução apresentada deixa de ser a superação do próprio capitalismo e passa a ser a construção de uma forma diferente de administrá-lo. É por isso que o documento concentra suas propostas – escamoteando os sujeitos sociais – em mecanismos abstratos de coordenação estatal da economia, fortalecimento da indústria nacional, ampliação do investimento público e recuperação do controle estatal sobre determinados setores estratégicos.

Não há nada de novo nessa perspectiva e Keynes que o diga. Ela remete às diversas variantes do nacional-desenvolvimentismo que marcaram parte importante da história política latino-americana durante o século XX. Vejam, não consideramos um problema defender medidas que ampliem a presença do Estado na economia ou que reduzam o poder do capital financeiro, sobretudo quando articuladas à ação independente da classe trabalhadora como sujeito político. O problema está em apresentar essas medidas como um horizonte estratégico suficiente para enfrentar as contradições fundamentais da sociedade capitalista. 

A experiência histórica demonstra que nem mesmo as reformas mais profundas podem ser consolidadas sem um enfrentamento aberto com a burguesia e o imperialismo por uma razão muito simples: nenhuma classe dominante abandona suas posições de privilégio pacificamente. 

Assim sendo, como argumenta Rosa Luxemburgo, as reformas constituem um terreno importante da luta de classes, mas não podem substituir a luta pela transformação revolucionária da sociedade. Existe uma relação dialética entre reforma e revolução: as reformas podem fortalecer a organização e a consciência dos trabalhadores, mas, ao atingirem os limites impostos pela propriedade capitalista e pelo Estado burguês, colocam objetivamente a necessidade de uma ruptura mais profunda com a ordem existente. Nesse sentido, toda tentativa de alterar minimamente a distribuição da riqueza, ampliar direitos sociais ou limitar a ação do grande capital esbarra inevitavelmente nos interesses das classes dominantes. Por isso, a questão decisiva não é apenas quais medidas são defendidas, mas quais forças sociais podem torná-las realidade.

A classe trabalhadora não é mais sujeito?

Ao apresentar suas propostas, o Manifesto dedica grande atenção ao papel do Estado, das instituições públicas, da política industrial e dos mecanismos de planejamento econômico. No entanto, não dedica atenção alguma ao sujeito social capaz de impor essas transformações.

Insistimos, a classe trabalhadora e os oprimidos aparecem como beneficiários das medidas propostas, mas não como protagonistas de sua conquista. Tal ausência não pode ser compreendida como um detalhe secundário. Toda a história da luta de classes demonstra que nenhuma reforma estrutural pode ser resultado exclusivo da ação parlamentar ou da boa vontade de governos progressistas. Direitos trabalhistas, liberdades democráticas e conquistas sociais foram obtidos através da mobilização coletiva, da organização independente e do enfrentamento direto com as classes dominantes e suas representações políticas.

Mesmo as medidas mais moderadas presentes no Manifesto pressupõem conflitos profundos com setores poderosos da burguesia brasileira e do imperialismo. Controlar os fluxos de capitais, ampliar a intervenção estatal em setores estratégicos ou reorganizar o sistema financeiro não são medidas que possam ser implementadas apenas por meio de acordos institucionais ou do aumento da representação parlamentar da esquerda – o que não significa, por outro lado, rejeitar sectariamente a ação parlamentar revolucionária. Pelo contrário, a experiência histórica demonstra que medidas desse tipo, ao afetarem interesses centrais da burguesia e do imperialismo, somente podem ser conquistadas e defendidas com base na mobilização independente da classe trabalhadora e na elevação da luta de classes para além dos limites institucionais. 

Nossa crítica não se dirige apenas ao conteúdo das propostas apresentadas pelo Manifesto. O problema central reside em qual sujeito histórico será capaz de defendê-las quando surgirem os inevitáveis choques com os interesses da burguesia, do capital financeiro e do imperialismo. Afinal, nenhum programa existe em abstrato, sua viabilidade depende das forças sociais capazes de sustentá-lo na luta concreta. É justamente nessa ausência de mediação entre programa, sujeito político e estratégia que se encontra uma das principais limitações do Manifesto. As medidas são apresentadas como se pudessem ser implementadas por sua própria racionalidade ou por meio da disputa institucional, sem responder à questão decisiva de quem terá força social para impô-las diante da resistência das classes dominantes. 

O Manifesto afirma que derrotar a extrema direita exige reconstruir a organização popular e disputar consciências. A formulação é correta em termos gerais, mas permanece abstrata. O problema não é reconhecer a necessidade de organização. O problema é não definir quais formas de organização são necessárias, quais setores sociais devem impulsioná-las, qual estratégia deve orientá-las e sob quais princípios do axioma do marxismo revolucionário. 

Ao longo de todo o documento, a organização operário-popular-estudantil aparece como um apêndice da disputa institucional, e não como o centro da transformação política. Dessa forma, a mobilização dos trabalhadores assume um papel secundário diante da atuação parlamentar e eleitoral.

Essa inversão não encontra qualquer respaldo na experiência histórica. Mesmo reformas limitadas exigiram processos de mobilização capazes de alterar a correlação de forças e impor derrotas aos setores burgueses dominantes. Por isso, o Manifesto perde de vista que as vitórias da nossa classe são sempre um subproduto das relações sociais de forças, como afirma Trotsky nos debates do Programa de Transição, e que não há um “limite econômico” absoluto que não possa fazer com que os capitalistas cedam conquistas ao se verem ameaçados por um perigo maior.

A própria campanha pelo fim da escala 6×1 demonstra essa realidade. O tema ganhou projeção nacional não por iniciativa das instituições do Estado burguês, mas porque encontrou ressonância em milhões de trabalhadores submetidos à precarização crescente. Foi a pressão social que obrigou partidos, parlamentares e governos a se posicionarem sobre a questão.

Por isso, a questão central não é apenas disputar eleições, mas construir frentes políticas, organizações e movimentos capazes de sustentar lutas permanentes nos locais de trabalho, estudo e moradia.

Plataforma eleitoreira ou estratégia de transformação?

O fato que divide a política socialista da política burguesa é que os socialistas se opõem a toda a ordem existente e devem agir no parlamento burguês fundamentalmente como oposição. A atividade socialista no parlamento cumpre seu objetivo mais importante, a educação da classe trabalhadora, através da crítica sistemática ao partido dominante e sua política. Os socialistas estão muito distantes da ordem burguesa para impor reformas práticas e profundas de natureza progressiva. Portanto, a oposição de princípio ao partido dominante torna-se, para todo partido de oposição, e especialmente para o socialista, o único método viável para alcançar resultados práticos.”
(Luxemburgo, Rosa. A crise socialista na França).

O movimento realizado pelos companheiros termina por inverter a relação entre tática e estratégia. Na tradição marxista:

“(…) a tática limita-se a um sistema de medidas relacionadas a um problema particular dos assuntos atuais ou a um domínio determinado da luta de classes, enquanto a estratégia revolucionária se estende a um sistema combinado de ações que, em sua relação, em sua sucessão, em seu desenvolvimento, devem levar o proletariado à conquista do poder.”
(Trotsky ,Leon. Stalin, o grande organizador de derrotas).

Ou seja, a atuação parlamentar revolucionária constitui um instrumento tático, a começar por estabelecer uma conexão firme entre a ação parlamentar e extraparlamentar, subordinada a uma estratégia mais ampla de organização e mobilização independente da classe trabalhadora. Entretanto, quando a conquista de mandatos passa a ocupar o centro da estratégia, as reivindicações deixam de cumprir um papel de agitação, educação política, organização e combate para se converterem, predominantemente, em promessas eleitorais. O que deveria funcionar como ponto de apoio para a luta de classes acaba transformando-se em seu substituto. Em contrapartida, quando vinculadas à ação consciente e independente dos trabalhadores, as reivindicações podem cumprir um papel pedagógico e organizador, contribuindo para elevar a consciência de classe e fortalecer as condições para enfrentamentos mais profundos com a ordem capitalista. 

Longe de qualquer pedantismo teórico, insistimos nessas diferenças porque elas não dizem respeito apenas a formulações abstratas. Trata-se da distinção entre duas perspectivas estratégicas distintas: de um lado, uma plataforma eleitoral reformista, que busca alterar aspectos da ordem existente; de outro, uma estratégia de transformação social radical, que parte da necessidade de superar as bases materiais e políticas que reproduzem a exploração capitalista. 

Assim, não poderia ser diferente que os companheiros optassem por não mencionar nem desenvolver nenhuma crítica mais consistente ao lulismo e à frente ampla de conciliação de classes. Mais uma vez, as pertinentes críticas às contrarreformas de Temer e Bolsonaro, bem como ao arcabouço fiscal do governo Lula-Alckmin, permanecem restritas ao terreno estritamente econômico. Com isso, deixam de apontar que tais medidas não são apenas instrumentos a serviço dos interesses da classe dominante, mas também expressões de uma estratégia política de colaboração de classes voltada à administração dos conflitos sociais e à preservação da ordem capitalista. 

E é claro que não se trata de uma omissão casual. Vinculados a um partido que integra a base de sustentação do governo e que participa, em maior ou menor grau, da lógica da frente ampla, os companheiros encontram-se politicamente limitados para construir uma oposição independente e classista ao lulismo. Não por acaso, o princípio da independência de classe não aparece no Manifesto, tampouco é desenvolvido como eixo estratégico de intervenção política. O resultado é que suas críticas permanecem circunscritas a aspectos parciais da política econômica, sem avançar para uma crítica mais profunda ao projeto de conciliação de classes. Dessa forma, longe de contribuir para a construção de uma alternativa estratégica à esquerda do lulismo – isto é, para sua superação política -, o Manifesto acaba operando nos marcos do mesmo campo político.

E tudo indica que essa seja, de fato, a opção consciente dos companheiros. A diferenciação buscada concentra-se no terreno das propostas e da intensidade das críticas econômicas, sem qualquer elaboração sobre a necessidade de romper com a estratégia de conciliação de classes. As razões para isso podem ser diversas. Talvez pesem demasiadamente os cálculos eleitorais; talvez a avaliação de que uma crítica mais frontal ao lulismo dificultaria a construção de determinadas alianças ou a ampliação de sua influência política. Seja qual for a explicação, o resultado concreto é que o Manifesto não aponta para uma alternativa estratégica ao lulismo, mas para uma tentativa de ocupar um espaço distinto no interior do mesmo horizonte político.

Frente única ou cooperativa eleitoral?

Uma vez feito os apontamentos sobre os limites do Manifesto, gostaríamos de passar diretamente para o tema de tática eleitoral que defende a Bancada Anticapitalista. Debate que se dá centralmente no sentido da tática de frente político-eleitoral única anticapitalista e independente. 

Nesse sentido, pensamos que a discussão sobre esse mesmo tema na Argentina entre o Nuevo Mas, organização irmã do Socialismo ou Barbárie Brasil (SoB), e as demais organizações da esquerda argentina através da nota Dois becos sem saída e a oportunidade de construir uma frente única anticapitalista pode ajudar a refletir e orientar o debate nacional. 

Em que pese as diferenças socioeconômicas e políticas com o país vizinho, olhar a Argentina como em um espelho – muitas vezes invertido – contribuiu muito com a  compreensão das especificidades e tarefas políticas brasileiras e vice-versa.

A discussão aberta recentemente pelo Nuevo MAS oferece uma importante referência para o debate que buscamos fazer com os setores  (MES, Glauber e Jones) que impulsionam o Manifesto e com os demais setores da esquerda socialista – dos mais oportunistas aos mais sectários. 

Evidentemente, não se trata de ignorar as diferenças entre os dois países, suas tradições políticas, a relação de forças entre as classes ou o papel desempenhado por fenômenos distintos como o peronismo e o lulismo ou entre o mileismo e o bolsonarismo. Bem como não podemos desconsiderar que entre a esquerda revolucionária brasileira e argentina existe, do ponto de vista do alcance político, uma grande diferença, as organizações da esquerda revolucionária no país vizinho são mais numerosas, têm mais penetração social e influência no debate público nacional.

Além da clara amplitude da crise, precarização da vida, reprimarização da economia e polarização política – tema transversal na luta de classes mundial -, existe um problema estratégico para a esquerda revolucionária que merece total  atenção: em ambos os casos, Brasil e Argentina, o problema central é como construir uma alternativa política de independência de classe capaz de dialogar com os processos reais da luta sindical e política e se apresentar como referência para setores mais amplos da vanguarda lutadora e dos trabalhadores em meio à polarização política estrutural com a extrema direita.

Partindo da caracterização de uma nova etapa internacional marcada por crises, guerras, instabilidade, crescimento da extrema direita, rebeliões populares e polarização política estrutural, os companheiros do NMAS, polemizando com as organizações que compõem a Frente de Esquerda – Unidade, particularmente com o PTS (organização argentina irmã ao MRT brasileiro), afirmam que as tarefas colocadas para a esquerda revolucionária não passam, no imediato, pela conquista do governo, mas por “desenvolver iniciativas fundamentais para construir-se como um fator de organização política (e não apenas eleitoral)”.

Essa definição é particularmente central e adequada no terreno nacional para a crítica que estamos fazendo aos companheiros que constroem o Manifesto porque, corretamente, desloca a polêmica do terreno estreito da disputa institucional para o problema estratégico da necessidade de construir forças sociais e políticas de orientação independente capazes de intervir de forma significativa em uma luta de classes que se faz cada vez mais politizada e imprevisível. 

Em que pese as diferenças entre a esquerda revolucionária entre os dois países, no Brasil, também temos condições de, a partir de estratégias e táticas revolucionárias acertadas, enfrentar o desafio de sermos decisivos para derrotar nas ruas a intervenção trumpsta, o ultra reacionalismo da extrema direita e os ataques do governo de conciliação de classes. 

No terreno politico-eleitoral, que deve estar organicamente ligado à luta de classes, podemos e devemos construir através de uma frente única anticapitalista e independente uma saída que possa se constituir nesse processo como uma alternativa política para derrotar o trump-bolsonarismo e, ao mesmo tempo, colocar-se  como uma alternativa real e pela esquerda ao lulismo.

É justamente nesse marco que o documento do NMAS defende a necessidade de “unir a esquerda [na Argentina quando se fala em “esquerda” se refere normalmente à esquerda revolucionária] e seus simpatizantes em uma Frente Única Anticapitalista para superar os limites organizativos de cada partido isoladamente e, assim, projetar uma alternativa para milhões”.

Mais do que uma simples aliança eleitoral, a proposta da nossa corrente política internacional, na Argentina e no Brasil, é a de construir uma ferramenta política para impulsionar “canais de auto-organização e coordenação para milhares de ativistas e setores amplos da vanguarda” nas lutas e nas eleições. Ou seja, uma frente política que sirva não apenas para disputar eleições, mas para organizar politicamente aqueles setores de vanguarda que entram em movimento e buscam uma alternativa realmente independente dos governos, dos patrões e da burocracia.

Um dos méritos do texto argentino com o qual temos profundo acordo é justamente apontar os limites de uma concepção que separa artificialmente a luta eleitoral da luta política e sindical – como fazem os companheiros que assinam o Manifesto. Ao criticar a orientação predominante na FIT-U, o NMAS afirma que a redução da frente política a uma “cooperativa eleitoral” desperdiça a possibilidade de transformá-la em um fator permanente de organização. 

Essa linha levada pelo PTS na Argentina não poderia ter mais paralelismo com o que fazem os companheiros que escrevem e assinam o Manifesto. O mesmo se pode dizer em relação às correntes majoritárias do PSOL, como a Resistência e a Primavera, e de outros partidos políticos de orientação campista ou semi-independentes.

Essa operação de separar a luta política da econômica é uma das marcas clássicas da social-democracia, o que pode ser também considerado como um dos núcleos do politicismo. O resultado dessa operação ideológica é uma dinâmica na qual os trabalhadores, os militantes e ativistas aparecem como chefes de campanha, cabos eleitorais ou simplesmente eleitores durante os períodos eleitorais e como lutadores sindicais nos momentos de conflito econômico. 

Do ponto de vista da luta direta, o limite é a reivindicação imediata (sindical) e do ponto de vista da disputa política o limite é o voto a cada dois anos. Ou seja, mesmo que se trate de uma frente que não é parte de um governo burguês de conciliação de classes, como é o caso dos companheiros que assinam o Manifesto, a lógica imposta dentro da FIT-U pelo PTS é social democrata, pois separa a luta econômica da luta política, aceitando assim os limites burgueses dessa separação impostos aos trabalhadores.

Organizar a vanguarda para a luta e para as eleições

A crítica feita pelo NMAS à FIT-U possui enorme atualidade para a realidade brasileira. O Manifesto da “Bancada da Esquerda Radical” não nasce da necessidade de construir mais uma frente única eleitoral anticapitalista, trata-se de mais uma articulação parlamentar que diante da crise do PSOL e do seu campismo com um setor da burguesia precisa aparecer mais à esquerda para ao mesmo tempo não perder votos e parecer combativa. 

Surge, assim, da compreensão de que existe espaço político à esquerda do governismo e da conciliação de classes, ocupado por milhares de ativistas, sindicalistas, estudantes, trabalhadores precarizados e lutadores sociais que não encontram hoje uma referência política comum capaz de expressar seus interesses. Mas o ponto é que os companheiros encontram uma nova forma para um velho e rotineiro conteúdo reformista que não rompe com a conciliação de classes e não oferece uma alternativa independente efetiva à burocracia lulista.

Por isso, nossa proposta não é politicista – eleitoreira – e tampouco economicistacorporativista. Não acreditamos que a construção de uma alternativa socialista possa se limitar à disputa eleitoral periódica, assim como não acreditamos que seja possível construir uma referência revolucionária reduzindo a política ao eleitoralismo e muito menos à luta sindicalista. O desafio consiste justamente em articular essas dimensões em um projeto político comum que combine intervenção eleitoral com um programa anticapitalista, organização militante de base e participação ativa nos processos reais da luta de classes.

Nesse sentido, a formulação dos nossos companheiros argentinos de que é necessário construir “um fator de organização política e de luta para milhares de pessoas” dialoga profundamente com os objetivos que colocamos para a conformação de uma verdadeira esquerda radical no Brasil, uma Frente Única Anticapitalista Independente. 

Trata-se de ir para além da acumulação de parlamentares ou de fortalecer organizações isoladas, mas de contribuir para a reorganização política de setores de vanguarda que estão na ofensiva, criando espaços comuns de atuação, debate político, elaboração programática, intervenção eleitoral e intervenção prática nas lutas dos trabalhadores e da juventude.

Essa perspectiva também permite enfrentar um dos principais obstáculos à construção de uma alternativa de independência de classe no Brasil: a adaptação de amplos setores da esquerda à lógica da conciliação de classes e das burocracias. Assim como os companheiros argentinos destacam a necessidade de construir uma alternativa independente ao peronismo, aqui a tarefa central passa por construir uma referência independente ao lulismo, aos partidos que sustentam o governo (PT, PSOL, PCdoB) e às burocracias sindicais e estudantis (CUT, CTB, UNE) que atuam como freio consciente à mobilização dos trabalhadores e demais oprimidos.

Chamado à construção da Frente Única Anticapitalista Independente 

Esse nosso texto tem como objetivo central realizar um chamado à esquerda socialista para a construção de uma frente político-eleitoral única anticapitalista independente dos patrões, dos governos e da burocracia. Em primeiro lugar, fazemos esse chamado à base e à direção do MES e dos demais setores da esquerda do PSOL que assinam o Manifesto, assim como os companheiros Ecossocialistas. 

Nesse sentido, este não é um chamado feito da boca para fora. Consideramos fundamental, tanto para derrotar a extrema direita quanto para construir uma alternativa que supere o lulismo pela esquerda, que esse movimento político seja realizado pelos companheiros. Para isso, porém, é necessário disposição para reconhecer os limites políticos presentes no Manifesto e na estratégia que dele decorre, bem como os limites impostos pela permanência no PSOL, um partido que hoje está integrado ao governo burguês de conciliação de classe de Lula, à ordem política vigente e subordinado à lógica da colaboração de classes. São limites que, a nosso ver, impedem a construção de uma alternativa verdadeiramente independente e classista para os trabalhadores. 

É justamente para essa reflexão que convidamos, de forma honesta, fraterna e aberta ao debate, os companheiros e companheiras da direção e da base dessas organizações. Afinal, as tarefas colocadas pela conjuntura exigem não apenas unidade de ação contra a extrema direita, mas também um balanço crítico das estratégias em disputa no interior da esquerda, tendo como horizonte a construção de uma alternativa política capaz de enfrentar, de maneira consequente, os interesses do capital e do imperialismo.

Mas, para que a tática de uma Frente Única Anticapitalista Independente tenha condições objetivas de avançar, os companheiros do PSTU – hoje os únicos que dispõem de uma legenda partidária consolidada no campo da esquerda independente – precisam superar suas tendências sectárias e compreender que estamos diante de uma nova realidade política. A conjuntura apresenta elementos que não existiam em períodos anteriores: um crescimento das críticas ao governo Lula em setores da vanguarda, uma maior polarização política e sinais de retomada das experiências de luta de parcelas do movimento de trabalhadores e da juventude. Esses fatores abrem espaço para uma tática mais ofensiva em relação à unificação política e eleitoral da esquerda independente, permitindo avançar na construção de uma referência comum para aqueles que buscam uma alternativa tanto à extrema direita quanto à conciliação de classes representada pelo lulismo. 

O PSTU deve estar à frente do chamado para que os setores que hoje se agrupam em torno do Manifesto rompam com a condição de ala esquerda do lulismo e avancem na construção de uma alternativa política independente. Para isso, é necessário abrir um debate político e estratégico franco, sem exigências prévias e sem vetos sectários, que permita discutir os desafios colocados à esquerda anticapitalista na atual conjuntura. É a partir desse processo que pode ser construída uma verdadeira Frente Única Anticapitalista Independente.

Trata-se de um chamado político dirigido a todo o campo da esquerda independente. Pensamos que os companheiros da CST, do MRT, assim como todas as organizações que reivindicam a independência de classe e a construção de uma alternativa anticapitalista ao lulismo, além de coletivos e militantes espalhados pelo país, devem fazer parte desse esforço. Estendemos também esse chamado ao PCBR que, apesar das profundas contradições teóricas e estratégicas decorrentes de sua reivindicação do chamado “socialismo real” e da tradição stalinista, hoje se coloca em oposição ao frentepopulismo e reivindica a independência de classe diante do governo Lula. Essas diferenças não anulam as divergências existentes, mas tampouco devem impedir o debate e a busca de iniciativas comuns entre organizações que se reivindicam independentes da colaboração de classes e da frente ampla. 

Em relação às demais direções das organizações de tradição stalinista, como a UP e o PCB, entendemos que seu programa, sua orientação política e sua trajetória histórica apresentam importantes diferenças em relação à perspectiva que defendemos para a construção de uma Frente Única Anticapitalista Independente. Trata-se de correntes marcadas por concepções campistas, etapistas, nacionalistas, e frentepopulistas que, historicamente, tendem a subordinar a independência política da classe trabalhadora a alianças com setores da burguesia, do Estado ou a projetos de colaboração de classes. Além disso, sua tradição organizativa frequentemente se mostrou tensionada com princípios como a democracia operária e a autoatividade das bases.

Por essas razões, não nos parece que essas direções demonstrem, nas condições atuais, disposição política para integrar uma Frente Única Anticapitalista baseada na independência de classe. Evidentemente, essa avaliação não deve ser tomada como uma caracterização imutável ou definitiva. Como toda corrente política, estão sujeitas às pressões da luta de classes e podem rever suas posições. No entanto, a partir de sua trajetória, de seus programas e de sua prática recente, não identificamos, no presente momento, elementos que apontem para uma convergência estratégica nessa direção.

Outra questão, bastante distinta, diz respeito às bases dessas organizações. Muitos militantes honestos se aproximam delas por sua identificação com a bandeira do comunismo e por enxergarem nessas correntes uma alternativa à adaptação da esquerda à ordem vigente. Para esses setores, que começam a perceber a necessidade da unificação dos lutadores independentes e da construção de uma alternativa de classe, é fundamental manter uma política de diálogo fraterno, paciente e aberto.

Nossa tarefa não é erguer barreiras, mas construir pontes. Devemos manter todas as portas abertas para que esses militantes possam participar da discussão sobre o projeto de construção de uma Frente Única Anticapitalista Independente, confrontando programas, estratégias e experiências à luz dos desafios concretos da luta de classes. É por meio desse debate político franco e da experiência comum nas lutas que será possível conquistar novos setores para uma perspectiva de independência de classe e de reorganização da esquerda anticapitalista no país.

A partir desses critérios, dirigimos nossa crítica às correntes que tiveram um passado revolucionário, mas que hoje atuam como ala esquerda da colaboração de classes – como o MES. Consideramos necessário que rompam com o PSOL e com a lógica do campismo que orienta esse partido, para que, junto a outras forças políticas da esquerda independente, possam contribuir para a construção de uma frente político-eleitoral capaz de se apresentar como uma alternativa real para setores cada vez mais amplos da vanguarda.

Por outro ângulo, o mesmo chamado dirigimos ao PSTU. Consideramos necessário que os companheiros superem o sectarismo e abandonem uma política eleitoral totalmente defensiva, incapaz de aproveitar o movimento progressivo que parcelas mais amplas da vanguarda vêm realizando em direção à busca de uma alternativa independente ao lulismo. Em nossa opinião, o partido deveria colocar suas forças a serviço da construção de uma frente político-eleitoral anticapitalista e independente, que possa começar a se constituir como uma alternativa concreta tanto à conciliação de classes quanto às falsas saídas oferecidas pela extrema direita.

Assim, a principal lição que compartilhamos com os companheiros do NMAS é que a construção de uma alternativa anticapitalista independente exige mais do que programas e acordos eleitorais por cima, por mais radicais que pareçam, e mais do que lutas parciais dirigidas por este ou aquele setor isolado. Exige a construção de uma frente política capaz de reunir e mobilizar efetivamente, nas eleições e nas ruas, organizações, ativistas e lutadores em torno de um programa anticapitalista e de independência de classe. 

Uma frente que sirva simultaneamente para as eleições e para a luta, para a disputa política e para a organização social e sindical, para a intervenção imediata e para a preparação estratégica. Em suma, uma verdadeira Frente Única Anticapitalista Independente dos governos, patrões e da burocracia, que seja capaz de oferecer uma alternativa política de luta à nova e velha classe trabalhadora, aos movimentos de entregadores, aos movimentos originários, aos movimentos sindicais combativos, ao movimento de mulheres, ao movimento negro e LGBTQIA+, para derrotar nas ruas e nas urnas o trump-bolsonarismo, as novas expressões da extrema direita, a burguesia e também os ataques do governo de conciliação de classes.