Este é o último artigo da série China no século XXI, composta por 4 (quatro) postagens. Os três artigos anteriores podem ser consultados em:
“China no século XXI: Apresentação”
“China no século XXI: Rumo a choques geopolíticos maiores entre China e EUA”
“China no século XXI: Rumo a mudanças profundas no modelo econômico”
REDAÇÃO
Por Marcelo Yunes
3 de dezembro de 2022
4.1 Pandemia, desigualdade e “prosperidade comum”
A trajetória da China durante a pandemia foi, o tempo todo, na contramão do restante do mundo. Foi o país onde ela se originou e onde ocorreram os primeiros contágios em massa. O lockdown imediato e brutal conteve o contágio justamente quando a covid começava seu percurso pela Europa e pelos EUA. Enquanto, durante o restante de 2020 e boa parte de 2021, a maioria dos países registrava mortes aos milhões e surgiam as primeiras discussões sobre a distribuição de vacinas, a China observava o panorama a partir da tranquilidade de uma curva de casos praticamente achatada.
Esse contraste foi apontado pelo PCCh como demonstração do caos e da decadência ocidentais e do orgulho que os chineses podiam sentir de sua realidade sanitária. As medidas extremamente rigorosas para garantir a “covid zero” — que incluíam isolar cidades de milhões de habitantes diante do aparecimento de casos contáveis nos dedos de uma mão — eram apresentadas (e aceitas pela população) como o preço a pagar para evitar o desastre que assolava o Ocidente.
Mas, à medida que no resto do mundo se combinavam vacinação em massa, queda de casos e a aceitação da necessidade de “conviver com o vírus”, agora considerado endêmico, a comparação deixou de ser tão favorável e deu lugar a um crescente cansaço com os excessos do isolamento. Somou-se a isso a percepção pública de que os sacrifícios da maioria não eram acompanhados pelas elites, e sim pelo contrário: por um aumento grosseiro da desigualdade social.
De imediato, as limitações do sistema de saúde foram um fator decisivo para que o PCCh mantivesse a política de covid zero. Uma abertura ao estilo ocidental — com baixíssimo número de leitos de UTI, uma população imunizada com vacinas menos eficazes e parcelas importantes de idosos sem vacinação — seria um convite ao desastre sanitário.
As estimativas variavam enormemente, mas especialistas chineses e estrangeiros advertiam que, nessas condições, o número de casos dispararia verticalmente, podendo levar rapidamente a contagem de mortos a centenas de milhares ou mais de um milhão. O que, em comparação com os números espantosos de muitos países ocidentais, talvez não parecesse o pior dos desastres; mas, no contexto do discurso oficial de “a vida das pessoas em primeiro lugar” e de todos os sacrifícios para evitar perdas de vidas, teria sido um choque político de proporções que o PCCh de forma alguma estava (nem está) disposto a enfrentar.
Por outro lado, se os isolamentos massivos corroem a economia, o cansaço generalizado diante de medidas muitas vezes arbitrárias, irracionais e/ou brutais corrói a moral social — ainda que seja difícil medir até onde isso afeta a legitimidade do elenco governante (provavelmente mais visível no plano local). Uma das manifestações mais desagradáveis, quase vexatórias, da gestão oficial da pandemia foi o nível de controle persecutório a que se submeteu a maioria da população.
É sabido o desenvolvimento, na China, de tecnologias de vigilância, das quais o reconhecimento facial é apenas a mais conhecida. Sistemas de rastreamento para todos os cidadãos — muitas vezes por meio de aplicativos obrigatórios no celular — permitem às autoridades um acompanhamento tecno-sanitário-policial cada vez mais insuportável. Se não por rejeição “moral”, ao menos por inconveniência pessoal: qualquer pessoa que sai à rua corre o risco de ser constrangida a se isolar apenas por ter visitado o mesmo lugar que um caso suspeito, ainda que várias horas depois. Em determinadas cidades, essa situação pode inclusive forçar o confinamento de bairros inteiros, gerando ressentimento dos vizinhos contra o “culpado” (“China tires of covid controls”, TE 9315, 1-10-22). Ao desgaste econômico das medidas antipandemia seguiu-se, mais lentamente, mas agora de modo incontornável, o desgaste da moral coletiva, com a difusão crescente de truques e malícias para burlar controles sanitários.
Nesse marco, a questão da desigualdade — já muito presente de antes — foi exacerbada pela sucessão de quarentenas estritas e massivas, que, na China, ao contrário de quase todo o resto do mundo, não haviam terminado. Foi particularmente irritante para muitos cidadãos comuns constatar que, enquanto centenas de milhões de pessoas sofriam todo tipo de transtornos e conflitos decorrentes da paralisação econômica, alguns poucos privilegiados aumentavam fabulosamente seus ganhos. Os “bilionários” chineses — pessoas com patrimônio superior a 1 bilhão de dólares — passaram de representar 7% do PIB em 2019 para 15% em 2021. Para muitos deles, a pandemia não foi um pesadelo cotidiano, mas uma magnífica oportunidade para encher os bolsos.
Diante desse descontentamento surdo, porém palpável, a campanha da “prosperidade comum”, lançada por Xi Jinping em meados de 2021 — ainda em plena pandemia —, foi evidentemente uma resposta que buscava mostrar o partido em atitude de escuta e reação. Como sempre com a burocracia chinesa, o motor principal dessa campanha “igualitarista” foi o temor de um estalo popular incontrolável. Mantida aquela percepção, podia voltar o fantasma dos protestos da Praça Tiananmen em 1989, resultado direto do aumento da desigualdade e da inflação após as reformas pró-mercado de Deng Xiaoping.
As palavras do próprio Xi dispensam comentários: em um longo discurso em julho de 2021, advertiu que o partido deveria “perceber que a prosperidade comum é mais do que uma meta econômica. É uma questão política maior. (…) Não podemos permitir que a brecha entre ricos e pobres siga crescendo; que os ricos fiquem mais ricos e os pobres, mais pobres. Não podemos permitir que a brecha de riqueza se transforme em um abismo intransponível. (…) Temos que fazer o povo sentir (…) que a prosperidade comum não é uma frase vazia, mas um fato concreto que se possa ver e tocar” (em M. Roberts, “China and common prosperity”, 11-9-21). Esse giro relativamente “populista” da propaganda oficial — incluindo a ofensiva contra magnatas de empresas de tecnologia (ainda que ali passassem também outros fatores) — obedece à intenção de Xi de apresentar o PCC como “aliado do povo” contra “capitalistas demasiado rapaces” (“Landing ashore”, TE 9245, 15-5-21).
Contudo, os limites da iniciativa são os limites do PCCh. Explica Au Loong Yu que a “prosperidade comum” significa para Xi “a coexistência de ‘três distribuições’, conceito sobre a distribuição da renda nacional tomado do economista neoliberal Li Yining: “A primeira distribuição é a de mercado, baseada no princípio da eficiência; a segunda é o ênfase do governo no princípio da equidade, por meio de impostos e gastos de seguridade social (…). A terceira é a distribuição via doações voluntárias sob a influência da força moral’. A terceira redistribuição é a mais importante na mente de Xi, mas aromatizada com características chinesas, o que obriga as grandes corporações a doar dinheiro para projetos filantrópicos. (…) Apesar do ato aparentemente radical, isso não é socialismo e sim capitalismo. (…) Xi crê na ideia tipicamente capitalista de distribuir renda de mercado em lucros, rendas e salários. Embora também proclame uma versão atualizada e filantrópica, a filantropia é um privilégio dos ricos” (“A China de Xi Jinping: reação, não revolução”, cit.). As “características chinesas” aproximam o “socialismo” do PCCh mais da Madre Teresa de Calcutá ou da Fundação Gates do que de Marx…
Nessa linha de tornar “concreta” a prosperidade, Xi passou em revista os êxitos da economia chinesa, como ter superado 10.000 dólares de renda anual per capita — nível um pouco superior ao de Argentina ou México, mas inferior ao de Rússia, Chile ou Costa Rica —, ter eliminado a pobreza extrema e ter construído uma “sociedade moderadamente próspera em todos os sentidos” (Roberts, cit.). No informe ao XX Congresso, Xi postulou a meta de elevar o PIB per capita ao nível de um “país desenvolvido intermediário” até 2035. Embora a definição seja vaga, a estimativa de Liu Shijin, ex-membro de um think tank ligado ao governo, é que se trataria de uma renda média atual da ordem de 30.000 dólares anuais, próxima ao nível da Espanha (“Moving to mid-levels”, TE 9318, 22-10-22).
De certo modo, a liderança chinesa é menos otimista sobre seu próprio país do que os organismos internacionais tradicionais. Segundo o Banco Mundial, a China está no limiar (cusp) de alcançar o status de economia de alta renda, enquanto um informe do Federal Reserve de Nova York estima que, caso mantenha o ritmo de expansão pré-pandemia, está “bem encaminhada para chegar ao status de alta renda”, embora alerte que a queda da população em idade ativa e o baixo crescimento da produtividade podem ser sério obstáculo (M. Roberts, “China and common prosperity”, cit.).
Naturalmente, falar de “nível médio” implica possível distorção, tanto maior quanto piores sejam os níveis de desigualdade. Quando Roberts diz que “a China tem alto nível de desigualdade de renda para os padrões internacionais, embora menor que o de outras economias ‘emergentes’ como Brasil, México ou África do Sul”, não erra em nenhuma das duas afirmações (“China’s crackdown on the three mountains”, 8-8-21). Mas, para um país com ambições de projeção global, comparar sua desigualdade com países latino-americanos ou africanos — os piores do mundo no quesito — não parece pôr a régua muito alta…
4.2 Mudanças na classe trabalhadora
Já se mencionou que a diminuição do número de trabalhadores adultos, pela primeira vez na história chinesa, constitui problema futuro para o desenvolvimento econômico e o avanço da produtividade. Mas não é a única consequência: com idade de aposentadoria de 60 anos para homens e 55 para mulheres empregadas no Estado — para mulheres operárias, 50; a média dos países da OCDE é 64,2 anos — e expectativa de vida de 77 anos (OCDE: 79), estima-se que o principal fundo de pensões pode ficar sem recursos em 2035. O atual plano quinquenal não indica nenhuma previsão além de uma frase falando em “pequenos passos” e “implementação flexível”. E não surpreende, dada a feroz oposição de 2008 quando se tentou elevar a idade de aposentadoria (“Vanguard of the non-working class”, TE 9251, 26-6-21).
Nesse marco, a pandemia acelerou tendência que já se esboçava: relativo estrangulamento da oferta de trabalho nas cidades, sobretudo para jovens, e mais ainda se forem filhos de migrantes internos sem hukou. O desemprego juvenil urbano está perto de 20%, cifra semelhante à de muitos países capitalistas desenvolvidos europeus após a crise de 2008-2009 — crise que não afetou a China. Some-se a isso o forte deterioro dos rendimentos e do nível de vida de amplas faixas da população, dado a quão limitada foi a assistência estatal para compensar a perda de empregos e a baixa da atividade.
Como era de se esperar, os sindicatos oficialmente reconhecidos nada contribuíram em termos de proteção ao emprego, dada a limitação de direitos trabalhistas no contexto das quarentenas brutais. Em particular, empresas estrangeiras aproveitaram o clima laboral distinto do dos países desenvolvidos. Como observa cinicamente Wang Huiyao, diretor do Centro para a China e a Globalização — think tank próximo ao PCCh —, “as multinacionais são fanáticas pelo modelo chinês de relações industriais administradas [gestão conjunta de fato entre direção da empresa, sindicato oficial e partido. MY], porque os trabalhadores aqui são os mais eficientes, os mais produtivos… e não há greves. (…) [Os executivos] são animais movidos pela economia. Se os benefícios forem grandes o suficiente, passarão por cima de algumas diferenças ideológicas e de valores” (D. Rennie, “A cause for concern”, TE special report, 15-10-22).
Do ponto de vista da estrutura laboral global, dado essencial é que o processo de urbanização acelerada — quase dois terços da população vivem em cidades — não levou ao desaparecimento paulatino do hukou, como Xi prometeu em 2014. De fato, a proporção de população urbana de segunda categoria por não ter “passaporte interno” (e, portanto, acesso a moradia, saúde e educação em condições iguais) estagnou em cerca de um terço. Por um lado, isso implica dezenas de milhões de famílias partidas; muitos pais não têm opção senão deixar os filhos na cidade natal por não conseguirem vaga em escolas públicas ou por terem de pagar escolas privadas caras e de baixa qualidade (“The widening gap”, TE 9314, 24-9-22). Por outro, durante a pandemia muitos hesitaram em obter o passaporte interno, pois isso os privaria da possibilidade de voltar ao campo em caso de perda do emprego urbano.
Há uma percepção crescente de que a mobilidade social intergeracional está caindo, o que afeta o humor social: “Estudos sociais mostram que o povo chinês pode aceitar a desigualdade… desde que sinta que, com trabalho, se pode conseguir uma vida melhor. O problema é que muitos chineses já não creem que isso esteja acontecendo” (“Greasing the ladders”, TE 9312, 10-9-22).
Esse desencanto se apoia em realidade quantificável: menos da metade dos recém-graduados recebem oferta de trabalho, contra mais de 60% em 2021. Além disso, devem se conformar com salário menor: segundo empresa de recrutamento, a remuneração média mensal dos graduados empregados caiu de 7.400 para 6.500 iuanes em um ano (dos atuais US$ 1.025 para US$ 900) (ídem). E são cada vez mais os que preferem a segurança de um cargo público à “adrenalina” de carreira no setor privado, melhor remunerada, porém marcada por incerteza crescente.
4.3 Família e educação: entre o risco demográfico e a competição “meritocrática”
Como dissemos, a política draconiana do filho único foi fator central no envelhecimento populacional: se em 2018 cerca de 20% tinham mais de 60 anos, estima-se que, em 2050, mais de um terço estará nessa faixa. Mas, embora a China tenha passado de um a três filhos por casal em apenas seis anos, apenas 5% de 30 mil entrevistados pela Xinhua disseram estar dispostos a chegar a esse número (“A third is the word”, TE 9248, 5-6-21). O ponto decisivo é que condições de vida, moradia, seguro-saúde e gastos educacionais são mais proibitivos do que qualquer legislação burocrática.
A respeito, Zhang Xiaochen, da Universidade de Kunshan, define sem rodeios: “A maioria não quer nenhum bebê ou, no máximo, um; portanto, mesmo se todas as restrições forem eliminadas agora, não terá maior efeito”. Filhos fora do casamento são desestimulados pelas autoridades e mal vistos socialmente; e, como para casar quase se exige a casa própria — cada vez mais inacessível —, casamentos (e, consequentemente, filhos) chegam mais tarde. Em 2005, quase metade das mães tinha o primeiro filho entre 20 e 24 anos; em 2019, apenas um quinto dos nascimentos ocorria nessa idade (“Is China population shrinking?”, TE 9243, 1-5-21).
Um exemplo em que antigas tradições conservadoras se cruzam com urgências da vida moderna é o dos casamentos arranjados. Prioridade fortíssima é a casa própria, e muitas mulheres se casam, como dizem, com uma casa e não com um marido. Mas o vetor funciona também no sentido inverso: havendo 111 homens para cada 100 mulheres — uma das consequências da política do filho único —, cresce o número de mulheres (filhas únicas) que, possuindo moradia (própria ou da família), buscam marido mais pobre, porém com boas perspectivas. Trata-se do que, em tempos antigos, se chamava zhuixu, ou “genros hipotecados” (“New life for an old tradition”, TE 9246, 22-5-21). O candidato em geral não tem casa própria, mas a família da mulher o vê com bons olhos se for graduado e tiver bom emprego e renda interessante. Empresas do ramo costumam acrescentar, a pedido da noiva, condições como especialização em determinada área ou altura mínima de 1,70 m (não tão incomum com a incorporação massiva de carne à dieta chinesa).
Além disso, devido à infraestrutura deficiente de creches — em geral, todos os serviços e instituições ligados ao “Estado de bem-estar” mostram atraso evidente em relação aos pares ocidentais —, muitas famílias se apoiam nos avós para cuidar das crianças. A ponto de, para muitos casais, a aposentadoria dos pais ser o sinal de que podem ter filhos: segundo estudo da Universidade de Fudan, a aposentadoria dos pais aumenta em cerca de 50% a probabilidade de o casal ter filhos. Elevar a idade de aposentadoria, além do descontentamento que pode gerar, teria impacto negativo sobre uma taxa de natalidade que já é das mais baixas do planeta. Os esforços do PCCh para impulsioná-la chegam a extremos como os da província de Gansu, onde uma cidade importante ofereceu 10.000 iuanes anuais (cerca de US$ 1.400) por três anos a famílias que tivessem um terceiro filho (“Procreative differences”, TE 9315, 1-10-22).[1]
Os obstáculos à decisão de ter mais filhos não terminam aí. Um dos mais onipresentes é o custo da educação, que devora o orçamento familiar em níveis desconhecidos no mundo, salvo talvez nos EUA (mas ali apenas no ensino superior). Quase metade do gasto de uma família chinesa típica se dedica à educação de crianças e adolescentes.
O dado é curioso, já que até os 15 anos a educação pública é gratuita; mas a resposta é simples: as academias de aulas particulares fora da escola regular. À medida que se aproxima o fim do ensino médio, todas as famílias e estudantes se preparam para um dos momentos mais cruciais de suas vidas: o gaokao, exame de ingresso nas universidades. Com um sistema de estratificação por qualidade acadêmica tão rígido quanto o das universidades norte-americanas, essa instância — baseada no aprendizado memorístico, não na capacidade de raciocínio — define grande parte do destino individual e familiar.
Trata-se de situação de estresse máximo que abarca toda a família por anos; a preparação consiste em longas horas semanais de estudo fora das aulas (a média nas escolas urbanas é de 10 horas adicionais por semana). O nível de alienação é tal que o governo se viu obrigado a proibir esses cursos após as 23h, nos fins de semana e nas férias de verão (“Brought to book”, TE 9251, 26-6-21).
Essas aulas são tão caras que, em muitos casos, dissuade casais de ter filhos ou de ter mais de um. Não são obrigatórias, claro, mas a pressão social pelo êxito acadêmico, desde idade muito precoce, é tamanha que se tornam mandato cultural inescapável.[2] O que desnuda uma brutal desigualdade de acesso: enquanto 75% dos secundaristas urbanos chegam à universidade, entre estudantes rurais a cifra é de 15%. Para estes, não é fácil: replicando o sistema norte-americano de tráfico/compra e venda de influências e redes de contato (eis a “meritocracia”), estudantes de origem humilde que, apesar de tudo, chegam às universidades prestigiosas sofrem isolamento, discriminação e desprezo de classe por parte de pares oriundos de lares mais acomodados e urbanos (“Serve the rich”, TE 9247, 29-5-21).
Além disso, nas cidades, filhos de migrantes costumam ficar de fora das melhores escolas públicas e acabam em instituições privadas de baixa qualidade (não por isso baratas); 80% dos menores de 14 anos estão sob o regime do hukou (passaporte interno). A outra opção é voltar ao povoado dos pais, onde a educação pública é gratuita, porém de pobre qualidade.
Uma ex-executiva contou que uma colega da universidade, a mais brilhante, poderia ter feito carreira acadêmica, mas preferiu lecionar em uma das melhores escolas de ensino médio. Motivo? Dali, poderia garantir uma vaga para seu futuro filho ou filha… “Para milhões de famílias em aperto financeiro que veem na educação a única esperança de progresso para seus filhos, um planejamento com tantos anos de antecedência é muito compreensível” (TE 9245, “Landing ashore”, 15-5-21).
O lugar da educação como veículo de “ascensão social” e início de uma “carreira meritocrática” replica alguns dos piores traços do modelo cultural ocidental em suas versões mais sórdidas, como a dos EUA… e de boa parte das sociedades capitalistas mais desenvolvidas do Extremo Oriente, em particular Japão e Coreia do Sul. Assim, em nível difícil de apreender para observadores externos, a caça às vagas cobiçadas nas melhores escolas é uma competição surda e brutal que atravessa o cotidiano da maioria das famílias.
4.4 O clima ideológico e cultural
Com tudo o que foi exposto, não surpreende que o clima cultural esteja nas antípodas de qualquer ideia de socialismo. Não é socialismo, e sim “socialismo com características chinesas”, nas quais as “características” pesam muito mais do que eventuais valores “socialistas”, a que se presta tributo cada vez mais formal, como ritual vazio. The Economist comentou, por ocasião do centenário do PCCh: “A China é um país profundamente conservador, embora se prepare para celebrar seu passado revolucionário. Crianças chinesas, às quais o tempo todo se diz que devem ser obedientes e dedicadas, percebem isso desde cedo” (“A century-old party woos the young”, TE 9248, 5-6-21).
É ingênuo supor, como faz o marxista argentino Claudio Katz, que a simbologia “comunista” deva ter correlato na vida social real. Ao defender a tese de que a restauração capitalista não se completou na China, sustenta ser “controverso supor que o capitalismo penetra sem escolhos sob o comando consciente do Partido Comunista… Não parece sensato considerar que textos de Marx, Lenin ou Mao sejam usados para implantar o sistema que esses escritos repudiam… A permanência do marxismo como literatura oficial ilustra o óbvio: a restauração não concluiu e enfrenta resistências” (“Descifrar China III: Projetos em disputa”, 3-10-20). Mas esse argumento, além de superficial, não considera a dinâmica recente da linha ideológica do PCCh.
Longe de promover valores “cosmopolitas” do internacionalismo marxista, Xi Jinping prefere ressaltar o caráter especificamente chinês de sua ideologia. A verdadeira ideologia oficial é o nacionalismo chinês; o socialismo clássico foi tão aliviado como referência que, para todos os fins, Confúcio pesa muito mais que Marx na doutrina dominante: “Os imperadores usavam a filosofia [de Confúcio] para inculcar obediência. Xi quer fazer o mesmo. Os dirigentes do partido veem com bons olhos o confucionismo porque, ao contrário do socialismo, é de origem local e apela aos jovens nacionalistas que aplaudem os chamados do PCC à wenhua zixin, ou autoconfiança cultural” (“The return of Confucius”, TE 9246, 22-5-21).
Diz-se com ironia que a forma correta de escrever o nome do partido não é Partido Comunista Chinês, mas Partido comunista Chinês — para grafar o peso relativo de cada termo. Faz sentido: o peso do nacionalismo no discurso do PCCh e na consciência de amplos setores de massas é infinitamente maior que o de qualquer forma de “marxismo”, por mais deturpado. “Socialismo” ou “socialista”, quando empregados pela comunicação oficial, são ou mera ritualidade formal ou, na expressão do “pós-marxista” Ernesto Laclau, um “significante vazio”, que se pode preencher com quase qualquer conteúdo conveniente às necessidades políticas do momento, com as “características chinesas” funcionando como curinga.
Não há nenhuma campanha “socialista” digna do nome; ao contrário, sempre que “orgulho” ou “soberania” nacionais recebem ameaças reais ou aparentes, o PCCh e suas repetidoras nas redes montam imediatamente campanhas chauvinistas de “desagravo” contra os ofensores. Foi assim em incidentes diplomáticos diversos: de comentário racista de dirigente da NBA a choques militares na fronteira com a Índia, passando pelo boicote à rede sul-coreana Lotte quando o governo daquele país autorizou o desdobramento de mísseis dos EUA (supostamente em resposta à Coreia do Norte, mas que podia ser visto — com toda justiça — como advertência à China). Em todos esses casos — e noutros já citados —, a interpelação nacionalista do PCCh foi estridente, e a resposta popular, imediata. No caso da Lotte, o boicote foi tão fulminante que quase todas as filiais tiveram de fechar até o fim da escaramuça. O partido sabe que, movendo-se nessa zona ideológica — onde “socialismo”, e menos ainda marxismo, estão ausentes —, pisa terreno seguro na relação com as massas.
É preciso esclarecer que esse nacionalismo tem forte ambiguidade: dependendo do contexto e do alvo, pode expressar tanto um sentimento anticolonialista, até anti-imperialista, quanto um chauvinismo apaixonado de grande nação que roça o orgulho imperialista. O discurso oficial combina de forma astuta e sutil uma e outra disposição. Segundo Thomas Friedman, do New York Times, após o massacre de Tiananmen em 1989, “a direção do PCCh buscou afogar as aspirações democráticas da juventude com generosa dose de hiper nacionalismo (…). Sob Xi, o movimento nacionalista chinês, atiçado pelas redes sociais, foi longe demais” (“How China lost America”, 1-11-22).
Deixando de lado exageros — o nacionalismo chinês é mais componente de senso comum do que “movimento” propriamente dito, e “longe demais” não é definido —, há um elemento de verdade: a ideologia nacionalista é vista pelo PCCh como válvula de descompressão eficaz e de fácil aplicação para aplacar descontentamentos de origem variada. Mas não se trata de mero cinismo de ideólogos cujo “internacionalismo socialista” os faria desprezar o nacionalismo. Ao contrário: o nacionalismo é o núcleo das convicções reais e sinceras da elite chinesa. Conciliar isso com a “vigência do marxismo” não parece lhes tirar o sono.
Que o nacionalismo chinês — não mais defensivo, e sim de grande nação com projeção internacional — é a pedra de toque do discurso oficial também é apontado por olhares marxistas críticos como Au Loong Yu e Rousset. Este último refere que “ao mesmo tempo em que distribui pontos por mérito aos cidadãos e faz do nacionalismo de grande potência um dos pilares do regime, o PCCh lidera campanhas de repressão contra alvos às vezes mais simbólicos do que perigosos: pessoas LGBT, figuras feministas, supostas traidoras da pátria que se permitem ironias nas redes” (Os autoelogios de Xi Jinping diante do comitê central do PCCh”, cit.).
Aproveitando a menção de Rousset, sublinhemos que o conservadorismo confuciano do PCCh também se manifesta na completa aversão ao feminismo, um dos movimentos sociais, culturais e políticos mais progressivos e contundentes do século XXI. Nem o “me too” nem, menos ainda, os círculos LGBT — cujas contas em redes receberam tratamento hostil, chegando ao fechamento de muitas — moveram um milímetro o patriarcalismo do partido.
Não se trata apenas de símbolos como o fato de o poderoso Politburo antes do XX Congresso incluir, entre 25 membros, apenas uma mulher, e o atual, nenhuma (e o Comitê Central ter só 8,8% de mulheres). A mirada habitual do PCCh para grupos e até gestos feministas é de desconfiança: trata-se de movimento alheio à “excelente cultura tradicional” louvada por Xi, e sobre o qual o partido tem escasso ou nenhum controle. O feminismo não é considerado parte elementar da “cultura socialista” — talvez por chocar com suas “características chinesas” —, e sim uma ameaça externa proveniente de “ideologias ocidentais”.
Rousset observa que “quando Xi começou a reprimir sistematicamente organizações da sociedade civil, mirou especialmente as feministas, embora não representassem perigo algum. Em geral, o endurecimento do poder de Xi vem acompanhado de giro reacionário nas chamadas questões societais” (“XX Congresso do PC Chinês: ponto de inflexão”, cit.).
O que o partido prega replica-se nas demais instituições: é habitual juízes negarem divórcio a mulheres abusadas, mesmo com registros médicos das lesões (“Wrong’uns, not rights”, TE 9301, 18-6-22). O padrão é sempre o mesmo: o importante em qualquer movimento social é que o partido o controle. Se isso não ocorre, o movimento é posto sob suspeita e recebe descrédito e pressões oficiais por diversas vias.
Indicador usual do grau de equidade de gênero é a proporção de mulheres em cargos de responsabilidade e direção. Pois, nesse terreno, a China sob Xi não apenas não avançou: retrocedeu. Isso se revela na presença de mulheres no Parlamento (no ranking “Global Gender Gap Report”, do Fórum Econômico Mundial, a China caiu, em dez anos, do 57º para o 80º lugar) e em postos ministeriais (do 86º para o 139º). Em termos de participação global da mulher na política, a China caiu do 58º lugar em 2011 para o 120º em 2021 (“Too few at the top”, TE 9319, 29-10-22).
Para Victor Shih, da Universidade da Califórnia, não há explicação que não seja puro e simples sexismo, dado que “a igualdade de gênero é uma das prioridades mais baixas do governo chinês”. E isso no contexto de “um país conservador, onde se espera que as mulheres se anteponham à família à carreira”, seja na política, administração ou meio acadêmico (idem).
Nem falar do movimento LGBT e da diversidade sexual: a homofobia é traço crescente do discurso estatal, já não de forma semi oficial, mas escancarada.[3] Em 2021, o principal órgão regulador da mídia proibiu a representação de homens “afeminados” e “maricas”. O ministro da Educação exaltou a educação física como forma de “cultivar a masculinidade” e evitar a “feminização” dos jovens. Além disso, a China é um dos poucos países de seu nível de desenvolvimento onde a aberrante “terapia de conversão” — que busca, por tratamento psicológico, mudar a orientação sexual — é legal (neste ponto, segue os parâmetros habituais do Extremo Oriente). Em geral, a visão do partido é que as pessoas devem ser “normais” … conforme seus critérios de normalidade, claro.
No terreno da vida política, embora Katz cite estudos (alguns já antigos) que falam de “seis ou sete” correntes distintas de pensamento no PCCh, essa suposta diversidade, onde exista, só pode estar cada vez mais confinada à marginalidade ou à clandestinidade. Uma característica do governo de Xi, coerente com sua política no resto da cultura, é reforçar a homogeneidade ideológica das escolas de formação partidária: “Antes de Xi chegar ao poder, essas escolas às vezes incentivam o pensamento inovador, também no terreno político. Os estudantes falavam de como tornar o partido mais democrático e a escolha dos dirigentes mais livres. As escolas costumavam convidar acadêmicos estrangeiros para dar aulas, inclusive sobre democracia liberal. (…) Mas Charlotte Lee, do Berkeley City College, que escreveu um livro sobre o sistema de formação partidária [na China], aponta que desde então as escolas estão sob controle centralizado muito maior, a cargo de equipes de inspeção. A liberdade que pudessem ter ‘se esvaiu’, diz. Xi deixou claro em discurso de 2015 na escola central: ‘Devemos ser muito lúcidos, firmes e enérgicos em nossa postura sobre o importante princípio de sustentar o papel dirigente do partido; não devemos ter ambiguidade nem hesitação’. (…) A mesma tendência é evidente nas escolas que capacitam gestores e burocratas, criadas nos anos 80 sob Deng Xiaoping, que por um tempo estimulou criar maior distância entre comitês partidários e aparatos governamentais. Sob Xi, lembra-se o tempo todo aos quadros técnicos que quem manda são os comitês partidários. Quanto aos delegados para o próximo congresso, a mensagem é que nada importa mais do que a vontade de Xi” (“Class struggle”, TE 9316, 8-10-22). No discurso partidário, o “pensamento de Xi” é onipresente e onipotente; o pensamento de Marx é algo a ser extraído das profundezas por abnegados estudantes que nadam contra a corrente.[4]
A insistência de Katz na “continuada gravitação do marxismo” na China — a ponto de afirmar que o marxismo “mantém hoje maior vivacidade na China do que em seus centros tradicionais da Europa” — nos parece um despropósito. Não porque não existam marxistas valiosos na China, mas porque não há como essa eventual “vivacidade” se expressar no ambiente asfixiante de censura ideológica imposto pelo regime stalinista do PCCh. Ou acaso correntes marxistas opositoras à linha de Xi e do PCCh têm a menor possibilidade de divulgar seu pensamento nas ruas, universidades ou meios de comunicação tradicionais ou eletrônicos, como ocorre em “centros tradicionais da Europa”?
Sabe-se que há grupos neomaoístas que operam online e combinam nostalgia dos tempos do Grande Timoneiro — em especial seu maior igualitarismo — com críticas abertas ao Ocidente (bem-vistas pelo partido) e outras, muito mais veladas, a personalidades ou veículos, mas apenas na medida em que não sejam vistas como questionamentos à linha oficial. Desde a prisão de Bo Xilai, figura mais “maoísta ortodoxa” vista como ameaça por Xi, esses grupos sabem a que se ater, fazendo equilíbrio entre somar-se à propaganda do PCCh e ventilar dissensos muito parciais. E estamos falando dos seguidores da figura “marxista” mais respeitada, citada e venerada pelo próprio Xi!
O que não significa que Xi não pretenda estabelecer seu próprio lugar de privilégio no panteão dos dirigentes, ao lado de Mao. Em reunião do Comitê Central em que, pela enésima vez, se exaltou o árido “pensamento de Xi”, o comunicado oficial destacou, orgulhoso, que o primeiro secretário do Partido “deu um novo salto na sinização do marxismo”, sublinhando a ambição de ser reconhecido como igual ao fundador do regime no plano teórico (Chloé Froissart, “Partido Comunista Chinês: uma nova era?”, europe-solidaire.org, 16-11-21).
Dessa maneira, as “características chinesas” são muito mais do que mero recurso descritivo para adaptar categorias “socialistas” à peculiar realidade chinesa; constituem verdadeiro enxerto contra natura do nacionalismo cultural chinês no corpus teórico marxista, com consequências devastadoras para este.
Se isso ocorre na formação “marxista” dos membros do partido, a perspectiva ideológica para consumo das massas, como se imagina, mostra distância ainda maior do “socialismo”, enterrado sob uma plêiade de tradições culturais milenares (e reacionárias) muito mais afins ao senso comum instalado pela máquina de propaganda oficial.
Daí que, às vezes, a censura nem seja tão necessária. Alguém poderia supor que o desenvolvimento das redes sociais, inclusive VPNs, pudesse servir de veículo de dissenso político, ao menos clandestino. Mas, para isso, deveria antes existir um fermento opositor maior do que parece haver hoje. Estudo conjunto das universidades de Stanford e Pequim deu acesso irrestrito — sem o “muro digital” do partido — a centenas de estudantes de duas universidades de Beijing. O resultado desolador foi que quase nenhum buscou informação em sites estrangeiros; procuraram sobretudo pornografia. A conclusão dos autores: “A censura na China é eficaz não apenas porque o regime dificulta o acesso a informações sensíveis, mas porque promove um ambiente no qual os cidadãos, de saída, não se interessam por essas informações” (“Holes in the great firewall”, TE 9303, 2-7-22).
A quem manifesta descontentamento — raramente ideológico, mais frequentemente diante de alguma tropelia de funcionários — de maneira estridente, espera a repressão estatal. Em casos sensíveis, recurso a que Xi apela com cada vez mais frequência é a “terceirização da repressão”, sobretudo em situações delicadas como despejos para empreendimentos imobiliários.
É comum que autoridades locais, em vez de recorrer à polícia ou a funcionários claramente identificados com o Estado, contratem informalmente capangas para cortar água e luz, causar danos à moradia ou agredir fisicamente os proprietários. Se essas ações fossem feitas por agentes estatais, o risco de resistência ou de tornar pública a indignação é maior; tratando-se de ameaças “anônimas”, a atitude das vítimas costuma ser de impotência e resignação.
A isso se soma costume bastante usual no plano local — com raízes antigas —: campanhas públicas para envergonhar quem se opõe “aos interesses da maioria” (“A self-repressing society”, TE 9296, 14-5-22). Essas práticas já eram comuns com uso de IA no sistema de “pontuação social” — descrito em nosso trabalho anterior —, mas deram salto durante a pandemia. Tornou-se habitual apontar e humilhar “maus cidadãos” cujos “descuidos” na luta contra a covid levavam bairros ou cidades inteiras ao isolamento.
Quanto à atmosfera sociocultural menos diretamente vinculada à política, já havíamos assinalado o peso da tradição confuciana reacionária. Isso se vincula ao que Au Loong Yu chama de “modernização oriental”. A especificidade: embora o PCCh se proponha como — e, em muitos sentidos, tenha sido — força modernizadora, essa “modernização” não toca as mesmas cordas da modernidade ocidental, herdeira do Iluminismo e da Revolução Francesa, com seu individualismo e secularismo.
Não por acaso diplomatas dos EUA lamentavam que a rivalidade com a URSS fosse “ao menos uma luta dentro da família do Ocidente” (David Rennie, “A new kind of Cold War”, The Economist special report, 18-5-19). A ideia tem fundamento: o marxismo é decididamente ocidental e, onde fincou pé, a tendência foi à dissolução de aspectos mais atávicos das relações ancestrais das sociedades em questão.
Não foi assim com a modernização “oriental” ou “com características chinesas”. Aqui também se revelam os tremendos limites do “marxismo” do PCCh e o perigo de confiar demais em rótulos. Se algo definiu a modernidade revolucionária capitalista — cujo espírito integra o projeto socialista — foi, como diz o Manifesto Comunista, “a comoção ininterrupta de todas as relações sociais, (…) uma inquietude e dinâmica incessantes. As relações imóveis e mofadas do passado (…) desmoronam, e as novas envelhecem antes de criar raízes. Tudo o que é sólido desmancha no ar; tudo o que é sagrado é profanado” (cap. I).
Pois bem, pouco ou nada disso distingue a atitude do PCCh perante a sociedade. O dinamismo que percorre as relações sociais é o imposto pelo desenvolvimento da tecnologia e das comunicações, não o do discurso oficial, que vai em sentido oposto. Talvez exagere um pouco, mas não sem pertinência, Au Loong Yu ao considerar o regime político chinês imbuído de “cultura política pré-moderna”, com constantes referências às tradições das sucessivas etapas e dinastias do Império do Meio.
Em todo caso, a mensagem dos “comunistas” chineses enfatiza a continuidade, não a mudança; não “derrubar as relações mofadas e imóveis do passado” confuciano, e sim sustentá-las; não “profanar” as relações, crenças e costumes sagrados (e reacionários) da China milenar, e sim reforçá-los e preservá-los.
Se esse é o tom da prédica oficial, não espanta que esteja cada vez mais em voga, em todos os níveis educacionais — muitas vezes por demanda das famílias —, maior presença do guoxue, ou “estudos nacionais”, com ênfase nos textos clássicos chineses. Segundo o ministro da Educação, o objetivo é sublinhar a importância de formar jovens “honestos e patriotas” cuja meta seja “servir ao país”. Para muitas famílias assustadas com a avalanche de valores modernos e a onipresença da tecnologia, essa veia conservadora — com sua apelação a modos servis e estrita obediência aos mais velhos — é muito tranquilizadora.
Em consonância com a defesa de valores ancestrais, a atmosfera chauvinista e mesmo xenófoba é cada vez mais impulsionada pelo PCCh, que conta com a vantagem de dirigir-se à população de homogeneidade étnica extraordinária para o país mais populoso do mundo. O isolamento forçado com o fechamento de fronteiras mais longo durante a pandemia, somado ao controle oficial cada vez mais restrito de conteúdos na web, contribuiu para tornar ainda mais limitada o habitual a circulação de pessoas e informações de fora.
Aqui, a obediência às autoridades, forçada por critérios sanitários — moeda corrente no mundo —, pôde apoiar-se numa obediência voluntária e internalizada a partir de cultura que valoriza a submissão: ao imperador, às autoridades, aos idosos, aos pais e agora ao partido. Uma síntese vívida desse constructo cultural é o comentário ingênuo de uma vendedora ambulante de artesanatos quando o repórter pediu que comparasse as políticas de isolamento na China e no Ocidente: “Os chineses seguimos as instruções que vêm de cima. Quando nos pedem algo, é para o nosso próprio bem, certo?” (“The city that covid forgot”, TE 9320, 5-11-22).[5] Desnecessário dizer que o PCCh faz proveito desse conservadorismo ancestral para a estabilidade social com bênção burocrática.
A campanha triunfalista do “desastre do Ocidente” — com seus milhões de mortos enquanto a China passou longos meses sem declarar um único óbito por covid — alimentou uma onda de orgulho patrioteiro que não se dissipou de todo quando as condições mudaram. Esses alardes da grandeza e excepcionalidade chinesas são permanentemente promovidos por uma indústria cultural de massas cimentada no cinema (sobretudo) e por estrelas da mídia. As grandiosas produções cinematográficas chinesas, com audiências de centenas de milhões, nada ficam a dever às hollywoodianas, seja pela qualidade técnica, seja pela crueza da mensagem propagandística.
Parte da crescente onda de chauvinismo e isolacionismo é a campanha oficial, discreta e gradual (com maior ênfase em certas regiões e níveis educacionais), de despromoção do estudo de línguas estrangeiras, em particular o inglês, revertendo tendências do período “de abertura”. O argumento: a maioria dos chineses não vai precisar usá-lo, e, mesmo se precisasse, programas de tradução automática tornaram desnecessário dedicar tanto tempo ao aprendizado. Isso ressoa tanto com o apelo de Xi para que os chineses demonstram mais “confiança em sua própria cultura” quanto com a desconfiança renovada — roçando a xenofobia (ou paranóia) — para com acadêmicos e jornalistas estrangeiros ou chineses vindos do exterior.
Por outro lado, a sinofobia permanente — muitas vezes abertamente racista — de dirigentes e meios ocidentais é exibida e ampliada pela propaganda oficial como prova adicional da necessidade de se defender de um modelo hostil e decadente. Naturalmente, a resposta oficial a essa manifestação repulsiva da arrogância ocidental é feita exclusivamente em chave de orgulho nacional, sem a menor referência ao enfoque universalista do marxismo. Como costuma acontecer, racismo de um lado e chauvinismo nativista do outro se reforçam mutuamente.
A vida cotidiana está tingida de conservadorismo que atravessa de cima a baixo todas as áreas e camadas da sociedade. A patranha alienante do “sonho americano” tem réplica ainda mais reacionária na China, onde a ideologia dominante é o esforço pessoal até a autoexploração brutal, totalmente assimilável ao hard work ianque. Um executivo ocidental de multinacional instalada no Vietnã para reduzir custos trabalhistas congratula-se de que a “ética do trabalho” — na boca desse tipo de gente, sinônimo de submissão à exploração — é ali muito semelhante à da China: “Confúcio continua fazendo as pessoas saírem da cama cedo de manhã” (“The end of the China affair”, TE 9319, 29-10-22).
Nesse contexto, é unilateral supor, como Katz, que “a grande diferença com a Rússia” reside em o poder político “manter denominações, estatutos e ideologias do processo inaugurado em 1949. (…) Essa estrutura institucional mantém (…) símbolos e heróis muito chocantes para os preceitos básicos do capitalismo” (“Descifrar China II: Capitalismo ou socialismo?”, cit.). Essa visão, além de atribuir às “denominações” um peso real muito maior do que têm, ignora que, junto com tais “estatutos e ideologias” formais, operam — com bênção e respaldo direto do partido e do Estado, e no mesmo ou maior nível que o “marxismo” oficial — outros símbolos e heróis, ligados ao passado imperial chinês, decididamente “muito chocantes para os preceitos básicos” do socialismo em qualquer variante.[6]
A nosso ver, a reivindicação do “heroísmo em lugar do lucro e das metas coletivas em vez do enriquecimento pessoal” (idem) é, na melhor das hipóteses, apenas um vetor da formação ideológica e “cidadã” das massas chinesas. Por exemplo, já em 2013, no início do mandato, Xi escreveu a estudantes de arqueologia que o projeto do “sonho chinês” requeria “integrar os sonhos individuais à causa nacional” (note-se: nacional chinesa, não socialista).
É verdade que o estridente discurso de filmes chineses para consumo massivo busca inculcar esse heroísmo a serviço de metas coletivas apontadas por Katz. Mas, nas últimas décadas, não parece ter sido esse o discurso hegemônico e sustentado a ponto de lhe atribuir o valor de senso comum estabelecido — nem sequer de “ideologia oficial”. Ao contrário, o que dita a tônica são múltiplas mensagens, instituições e campanhas, também oriundas de fontes do PCCh, que vão na direção oposta: valorizar o esforço individual — identificado com a dócil vontade de trabalhar — como veículo privilegiado para o progresso, também individual.
Leiamos outro discurso, tão ou mais representativo que o anterior, dirigido por Xi à juventude na visita ao Canal Bandeira Vermelha, em Henan, pouco depois do XX Congresso. O canal foi construído nos anos 60 por camponeses e jovens com meios técnicos muito inferiores aos atuais. Ali, Xi comparou desfavoravelmente os jovens de hoje com os protagonistas daquela “gesta popular”: “As novas gerações devem herdar e levar adiante o espírito de trabalho [hard work], autoconfiança e esforço a braço partido, abandonar a arrogância e o mimo [pampering] e deixar a marca de seu sangue jovem nos monumentos da nossa história, como fizeram nossos pais” (“Xi amends the Chinese dream”, TE 9321, 12-11-22).
É muito característico de Xi o tom admoestador e de desagrado com o que considera carências morais das “novas gerações”: de um lado, a insuficiente vontade de “trabalho duro” — talvez originada nas comodidades da vida urbana moderna —; de outro, a insuficiente gratidão pelos idosos e, por extensão, pelas autoridades, que lhes proporcionam tudo de que desfrutam e tão pouco agradecem. É concepção de ascetismo confuciano, segundo a qual o que os jovens “deveriam fazer”, em vez de dar por certas, arrogantemente, as vantagens da vida moderna, é se preparar para esforço contínuo e sem queixas, a fim de cumprir “harmoniosamente” as metas pessoais e as da sociedade — isto é, as que o partido indica.
De modo geral, longe de qualquer contradição com a lógica e a ideologia capitalistas, o que domina a vida cotidiana — com generoso impulso dos meios e do discurso oficial — é a corrida competitiva nos planos laboral, acadêmico e até na escolha de parceiro, cidade e moradia. É quase um equivalente perfeito da concepção individualista e meritocrática reinante no Ocidente, em particular nos EUA, e nos países mais ferozmente capitalistas do Extremo Oriente, Coréia do Sul e Japão.
Apesar das milenares e reacionaríssimas “características chinesas” de conformidade moral e ausência de questionamento às autoridades e costumes, surgiram movimentos difusos e desorganizados de rejeição. Assim, jovens chineses fartos da corrida doentia por competição difundem o tangping (deitar-se) nas redes, para mortificação de empresários e do PC chinês. O tangping promove ideias como comer pouco e vegetariano, viver com orçamento básico e trabalhar apenas alguns meses por ano, evitando a sedução da sociedade de consumo” (“Giving up, lying down”, TE 9252, 3-7-21).
Por trás dessa tendência está a realidade de que, para muitos jovens, a loucura de viver sob pressão por êxito não rendeu melhor qualidade de vida — e não necessariamente por serem “perdedores”. Para o discurso oficial, que promove o trabalho sem fim e a “luta” (leia-se: a competição com os outros), o tangping é quase uma rebelião. Tachado de “irresponsável”, de “decepção para os pais” — motivo forte numa sociedade que se ancora na filosofia confuciana da submissão aos mais velhos e às autoridades — e até de “fraude com os pagadores de impostos” (a ressonância com argumentos típicos da cultura norte-americana é assombrosa).[7]
Que o tangping se estendeu de forma subterrânea, mas real, demonstra-o o fato de a rede Douban, das mais populares, simplesmente ter censurado — por iniciativa própria ou pressão oficial, dá no mesmo — os grupos que promoviam o conceito. O qual, por si só, nada tem de radical: não significa muito mais do que rejeitar expectativas estabelecidas de trabalhar doze horas por dia, ter casa própria, casar e ter filhos.
O que subjaz a essas tendências é que, ao contrário da geração anterior — que viu recompensa real a seu esforço em termos de renda e qualidade de vida —, a juventude atual desconfia dos supostos logros de se entregar docilmente a um regime de trabalho que é moedor de carne humana. Também aqui, paradoxalmente, o confucionismo — agora em vertente mística — é visto por muitos como variante de saída ascética do ritmo infernal e escravizante de competição por notas, vagas na universidade, bolsas, empregos e cargos (como em quase todo o Extremo Oriente, em particular Coreia do Sul e Japão). Há até quem se apoie na doutrina de Confúcio contra o que vê como lavagem cerebral ideológica a cargo do PCCh. Assim, por razões diversas e até opostas, o confucionismo está de volta, como há 2.500 anos, após “breve hiato de um século” (o século XX), dizem seus apologistas.
Possivelmente uma das contradições culturais mais candentes que atravessam a sociedade chinesa é a da inércia conservadora do confucionismo, de um lado, e as tendências à modernização e secularização impulsionadas por novas tecnologias e imersão na globalização, de outro. Os desenvolvimentos futuros, sem dúvida, serão a arena desse conflito inevitável.
O nível de controle social e repressão política que o PCCh pretende exercer é incompatível — não já a longo prazo, mas quase de imediato — com o avanço da urbanização, o uso da tecnologia digital, o aumento do nível de vida, o crescimento do nível educacional médio e, como consequência, com as justas aspirações da população a manter e ampliar essas conquistas. Mais cedo que tarde, assistiremos a um choque: a legitimidade do contrato social do PCCh com as massas se baseia em uma prosperidade que (a) gera tendências de lógica própria que entram rapidamente em contradição com um regime opressivo e (b) pode ser posta em questão como resultado da maturação e eventual crise de um modelo econômico de desenvolvimento cujos pilares precisam mudar.
Notas
[1] É quase desnecessário esclarecer que a promoção da natalidade exclui minorias indesejadas, como os uigures de Xinjiang, onde ocorre exatamente o inverso. Segundo cifras oficiais, o condado de Bachu, nessa província de população quase exclusivamente uigur, passou de taxa bruta de natalidade de 19 por mil em 2014 a um colapso — raro até em tempos de guerra — de apenas 4,5 por mil em 2019, uma das mais baixas do mundo. Até fontes oficiais reconhecem esterilizações em massa de mulheres (ligadura de trompas), só que “voluntárias e espontâneas”. Algo difícil de sustentar quando se sabe que muitas receberam compensações de 3.000 iuanes (US$ 460) pelo procedimento, realizado até antes de ter filhos (“Hiding in plain sight”, TE 9251, 26-6-21). E isso é reconhecido em documentos oficiais, sem mencionar as inúmeras denúncias de pressões trabalhistas, culturais e religiosas contra a minoria uigur muçulmana.
[2] Muitas dessas academias privadas são controladas por gigantes tecnológicos chineses como Alibaba e Tencent, já na mira do PCCh há algum tempo. Os anúncios de regulação estatal dessas academias podem ser vistos, em parte, como continuidade dessa ofensiva oficial, com duplo resultado: as ações das academias — algumas listadas em Wall Street — despencaram e as famílias ficaram mais ansiosas. Lógico: como não estão dispostas a renunciar à preparação para o gaokao, temem ter de recorrer a tutores particulares individuais ainda mais caros.
[3] Nesse ponto, a versão stalinista chinesa fica atrás de outras que demonstraram maior flexibilidade. Por exemplo, por décadas, o PC cubano — seguindo o discurso e os preconceitos de Fidel Castro (“em Cuba não há homossexuais”) — foi tradicionalmente um modelo de esquerda homofóbica. A recente legalização do casamento igualitário na ilha representa um uma renovação benéfica, do qual a burocracia chinesa, muito mais anquilosada e socialmente conservadora, ancorada culturalmente no século XX, é incapaz.
[4] Katz menciona, como exemplo de uma das “correntes” do PCCh, uma “Nova Esquerda” que se propõe “renovar o projeto socialista” pela via de “uma reconciliação entre socialismo e mercado”. A bem da verdade, a ideia não nos parece nem muito nova nem muito de esquerda; o próprio Katz assinala que “esse programa da Nova Esquerda é coerente com diagnóstico de limitada reconversão capitalista da China”. Em todo caso, sustentamos que nenhuma dessas correntes poderia atuar às claras a partir do momento em que questionasse seriamente a figura de Xi ou suas políticas. Claro que saudaríamos como ótima notícia que nos demonstrem que estamos completamente equivocados.
[5] Desde já, o enfoque marxista é por definição alheio à xenofobia ou a ínfulas de “superioridade cultural”, mas também toma distância do essencialismo multiculturalista que aceita acrítica e romanticamente tradições culturais da “Alteridade” só porque não são as próprias. O marxismo, ao mesmo tempo em que combate toda forma de racismo e opressão cultural, faz crítica implacável de todas as culturas: a “ocidental e cristã”, a muçulmana, as de diversos povos originários, a hindu e também a confuciana, em tudo o que têm de atraso religioso, reacionarismo e atavismo. Nesse ponto, é desnecessário dizer que o PCCh nada tem de marxista nem lhe serviram em absoluto os “textos de Marx e Lenin” (embora talvez, em certa medida, os de Mao).
[6] Por exemplo, Rousset assinala que o vigoroso avanço de Xi rumo ao controle de todos os ressortes do partido foi acompanhado por uma campanha ideológica com tintas feudais, com referências à China pré-imperial. De fato, não se pode alcançar o topo do sistema sem pertencer a uma grande linhagem familiar, sendo de ‘sangue vermelho’, filho de um ‘príncipe vermelho’, um dos líderes históricos da revolução chinesa” (“China: Las autoalabanzas de Xi Jinping ante el comité central del PCCh, cit.”).
[7] O paralelismo entre o “sistema de valores” chinês e o ianque não passa despercebido a Friedman. Numa observação que, embora reproduza os tópicos clássicos do “sonho americano”, não deixa de ser aguda, ele afirma: “Desde a Segunda Guerra Mundial nunca tivemos um rival geopolítico que estivesse quase no mesmo patamar que nós, tanto no econômico quanto no militar. Nunca nos sentimos confortáveis com o crescente desafio da China, especialmente porque não foi impulsionado pelo petróleo, e sim pela [cultura da] poupança, do trabalho duro (hard work) e de fazer a lição de casa. Ou seja, uma vontade de sacrificar-se para alcançar a grandeza nacional, com forte ênfase na ciência e na educação. Isso é o que costumávamos ser” (“How China lost America”, cit.).
Tradução de Martin Camacho de 4- Sociedad: crece el descontento sobre un fondo de conservatismo





