Juventude Anticapitalista – Já Basta!

Nos próximos dias 9, 10 e 11 de setembro acontecerão as eleições para o DCE da USP, a maior entidade representativa estudantil da América Latina. Um processo que se desenvolve em um mundo marcado por um cenário disruptivo e de múltiplas e profundas crises. Diante de uma nova conjuntura no país, temos, de um lado, a ofensiva renovada do imperialismo estadunidense sobre o Brasil e a América Latina; de outro, o contra-ataque da extrema direita bolsonarista, que segue buscando viabilizar seu golpe de Estado no país.

Enquanto isso, a esquerda da ordem (do PT ao PSOL) não oferece nenhuma resistência consequente. Ao contrário, ciente da reserva e da disposição de luta presentes em amplos setores da classe trabalhadora e dos oprimidos, aposta todas as suas fichas exclusivamente na institucionalidade e nas negociatas com o centrão, na unidade com a burguesia vassala do imperialismo, e relega as tarefas democráticas mais elementares ao Supremo Tribunal Federal.

Essa política de conciliação tem aberto cada vez mais espaço para que a extrema direita possa reabilitar o seu projeto político e econômico (com ou sem Bolsonaro), ao mesmo tempo em que sabota de maneira consciente a organização e a mobilização da classe trabalhadora e da juventude no enfrentamento ao imperialismo e à extrema direita.

É nesse marco que se realizam as eleições do DCE da USP – eleições que, escandalosamente, quase foram organizadas em plenas férias sem qualquer diálogo com a base dos estudantes, algo inédito na história da entidade e expressão cristalina do burocratismo da atual gestão: nem mesmo as gestões do PT chegaram a uma proposta como esta.

O processo eleitoral, contudo, não pode ser reduzido a uma disputa de chapas e aparelhos como faz a atual gestão: ele deve cumprir um papel fundamental no que diz respeito à politização do movimento estudantil, sua organização de base e sua mobilização. Deve combinar o debate de ideias, programas e métodos na base do movimento para recolocar o movimento estudantil de pé e à altura dos históricos desafios que temos pela frente e, assim, arrancar vitórias tanto políticas quanto sindicais no próximo período.

A atual gestão do DCE: um obstáculo ativo à luta estudantil

A atual gestão do DCE da USP, composta por Correnteza (UP), Juntos (MES/PSOL) e Juventude Sem Medo (PSOL), expressa uma maior semelhança do que diferença com o que há de mais nocivo no movimento estudantil: o imobilismo e a sabotagem da auto-organização e democracia de base.

Apresentando-se como parte da chamada “Oposição de Esquerda na UNE”, a direção do DCE repete, em escala uspiana, métodos burocráticos muito parecidos aos que denuncia em nível nacional por parte da direção da UNE (PT, PCdoB, Levante Popular, Rede e, mais recentemente, Juventude Sem Medo). Ainda que numa forma distinta e com diferenças programáticas mínimas, a direção atual do DCE não nos deixa mentir: transforma as assembleias em instâncias meramente formais, sem mobilização real, sem debate político vivo, sem tomar os encaminhamentos de maneira séria.

O exemplo mais gritante foi a paralisia diante dos ataques sistemáticos da extrema direita à USP: quando estudantes propuseram a construção de um comitê antifascista, a direção do DCE não moveu esforços para materializá-lo, preferindo apostar em reuniões de gabinete com a burocracia universitária em vez da mobilização direta. Tarefa que nós, diga-se de passagem, levamos adiante e convidamos a todos os setores, coletivos, CAs, e organizações a construírem de maneira unitária.

Trata-se de uma gestão que opera no sentido inverso de suas palavras: falam em unidade, mas exclusivamente a partir de cálculos eleitorais; falam em luta, mas freiam os processos de mobilização; falam em democracia, mas reduzem as instâncias estudantis a rituais formais e esvaziados. Nos últimos anos, seus acordos e recomposições – incluindo a Juventude Sem Medo nas últimas eleições, campo que dizem ser necessário enfrentar – demonstram que o verdadeiro critério não é a defesa intransigente dos interesses dos estudantes, mas a manutenção do aparato.

O resultado é um DCE que não organiza, não mobiliza e não enfrenta os ataques até as últimas consequências. Segue, na verdade, cumprindo a função de amortecer a disposição de luta dos estudantes da USP sob uma atuação rotineira diante de um contexto extraordinário: o que não faltam são promessas e reuniões com a burocracia universitária sendo vendidas como “vitórias” à base, orientação que nada faz além de desarmar os estudantes para enfrentar o ataque imperialista de Trump em curso, a contraofensiva da extrema direita que busca legitimar seu projeto golpista e as lutas econômicas pelo fim da escala 6×1, fim do arcabouço fiscal, o não pagamento da fraudulenta dívida pública, etc.

Além disso, a atual política do DCE também é um obstáculo às batalhas urgentes que temos que travar dentro de nossa universidade pelas cotas Trans e PCDs, vestibular indígena, permanência e moradia estudantil para toda a demanda, o retorno do gatilho automático para contratação de professores, eleições diretas para reitoria e paridade nos conselhos, retirada da PM dos campi e etc.

Ou seja, em vez de a atual gestão organizar a resistência contra a reitoria e a extrema direita Trump, Bolsonaro e Tarcísio, de buscar promover e incentivar a politização e mobilização de setores cada vez mais amplos dos estudantes – em unidade com funcionários e professores –, de estimular, em última instância, a vida política em nossa universidade, atua como válvula de escape, canalizando majoritariamente a indignação em agitações meramente autoproclamatórias.

A contradição do PSTU e um chamado oportunista

Nesse momento de polêmica com os companheiros do Rebeldia (PSTU), faz-se importante destacar um essencial ângulo de partida: podemos e devemos construir a mais ampla unidade de ação na luta direta em defesa de bandeiras democráticas e sindicais, inclusive com setores reformistas, burocracias sindicais e, a depender das circunstâncias, até mesmo com setores democráticos da classe dominante.

Contudo, isso não significa, em hipótese alguma, que a unidade de ação seja confundida com unidade política e programática com esses setores. Essa foi a lição de Lênin e de Trotsky na luta contra o oportunismo da II Internacional e contra o centrismo que, oscilando entre a revolução e a adaptação, terminava sempre por reforçar as direções conciliadoras.

É justamente aqui que se evidencia a contraditória política do Rebeldia no movimento estudantil em seu chamado “Eleições do DCE da USP: por uma chapa unificada da Oposição de Esquerda”. Ao mesmo tempo em que reivindicam a independência de classe e a conformação de uma oposição de esquerda ao lulismo, os companheiros atuam, ao que parece, exclusivamente a partir de um cálculo estritamente de aparato, que transfere mecanicamente o que foi o último CONUNE para a realidade do DCE da USP.

No CONUNE, de fato, a disputa entre blocos nacionais impõe uma dinâmica em que a construção da Oposição de Esquerda aparece como necessidade tática, frente ao peso esmagador da majoritária governista. No entanto, o DCE da USP é uma instância completamente distinta. Aqui não se trata de espelhar os blocos nacionais, mas sim de intervir sobre a base concreta da universidade, que em 2023 protagonizou uma das maiores greves estudantis do período recente.

Essa greve demonstrou com clareza o papel da atual gestão do DCE e muito bem descrito pelos próprios companheiros do Rebeldia: “o DCE simplesmente desapareceu. Até hoje não tivemos uma assembleia geral para aprovar o encerramento da greve, e sequer uma explicação pública sobre essa posição.”

Prosseguem corretamente: “(…) dá a impressão de que a preocupação do DCE é em ter algum saldo positivo pra poder encerrar a greve dizendo que, sob sua gestão da entidade, aquilo foi conseguido. Ou seja, fica parecendo que o DCE está preocupado com sua imagem, e não com a luta”. Sendo assim, tanto para nós, quanto para os companheiros do Rebeldia, o saldo da experiência grevista foi claro: a força estava nos organismos de base, nas assembleias, nas comissões criadas em cada curso e unidade que superaram politicamente naquele momento as orientações centristas e oportunistas do DCE.

Logo, apostar na “unidade” com esta gestão não significa fortalecer o movimento estudantil e caminhar para um plano político-sindical que faça ressurgir a força coletiva da mobilização dos estudantes, mas sim reconstruir artificialmente a legitimidade de uma direção que já demonstrou sua incapacidade e traição, infelizmente. Ao fazer esse movimento, o Rebeldia aponta uma contradição enorme com a sua própria tradição e elaboração política, por mais que tentem justificar tudo pela discussão “tática”.

Ora, como podem explicar os vários anos de ausência no CONUNE e de construção do seu próprio fórum estudantil (tática que terminou por fracassar devido a uma crônica política de hegemonismo burocrático dos companheiros) para uma posição de aberta capitulação ao centrismo que tanto criticaram nos últimos anos? Trata-se de uma reformulação tática, programática e estratégica? Não nos parece… Até porque, recentemente, os companheiros têm feito importantes debates de diferenciação em relação a todas as organizações que compõem a atual gestão do DCE – incluindo a UJC que saltou da barca quando ao abandono da greve de 2023 por parte do DCE – que apenas ressalta um imenso desencontro entre a retórica de independência de classe e a prática concreta de acomodação, evidenciando que sem uma batalha real pela superação do centrismo, da conciliação e suas formas burocráticas, não há como reconstruir uma alternativa estudantil verdadeiramente combativa e enraizada na mobilização da base.

Vale lembrar, também, que ano passado, no Congresso dos Estudantes de Letras, aprovamos e votamos juntos, incluindo os companheiros do Faísca (MRT), uma importante resolução depois de um longo debate com o plenário: de que o curso de Letras seria oposição de esquerda à gestão do DCE. Mas, ao que parece, tal resolução passa a ser desconsiderada e, sendo assim, um erro político segundo os próprios companheiros em suas últimas elaborações, por mais que não coloquem em contraste as não tão antigas posições com as atuais e totalmente opostas formulações.

Fazemos esse franco e honesto debate com os companheiros, por mais duro que possa parecer, porque temos certeza de que o Rebeldia, em unidade com os setores da esquerda independente, poderia cumprir importante papel naquilo que temos chamado de “refundação do movimento estudantil”. Uma agitação que procura estabelecer um operativo de (re)construção do movimento que resgate o melhor que há em nossa tradição (sem qualquer dogmatismo receituário) combinado à novas formas de organização que permitam recolocar o movimento como protagonista da luta de classes no país. E para isso, existem uma série de lições tático-estratégicas que contribuem para o lançamento de tal empreendimento, mas dentre todas elas inexiste qualquer tipo de atalho que nos encurte o caminho e “facilite a vida”.

O sectarismo não é antídoto ao oportunismo centrista

Façamos agora um debate com os companheiros do Faísca (MRT). O ponto central deste debate recai sobre uma avaliação daquilo que centraliza a conjuntura política do país hoje: o ataque imperialista de Trump e a contraofensiva em curso da extrema direita para reabilitar as possibilidades para um golpe de Estado com o fechamento do regime.

Se é verdade que a política de tentativa de normalização do regime por parte do lulismo e sua frente ampla (hoje fragmentada) se trata de uma utopia reacionária e abre passo para o refortalecimento da extrema direita, também é verdade que começar a avaliação política da atual situação a partir do governo Lula-Alckmin e desdobra em um ultraesquerdismo que, pelo vértice oposto do oportunismo derrotista, acaba resultando em uma política igualmente rotineira, e, portanto, estéril.

Ambas as variáveis do impressionismo, derrotista ou facilista, terminam por confluir em um mesmo ponto de chegada. Seja pela superestimação (derrotista) ou subestimação (facilista) da extrema direita, esta e aquela jamais podem contribuir de maneira consequente com as tarefas colocadas pela realidade: serão indiscutivelmente, e em quaisquer que sejam as condições, um desvio para uma política e ação concretas que exigem as diferentes circunstâncias da luta de classes.

Não se trata de algo rotineiro a consolidação de uma aliança entre uma extrema direita genocida e golpista com o imperialismo estadunidense que a cada dia deixa mais em evidência sua disposição de recolocar em marcha o projeto golpista em nosso país a serviço dos interesses econômicos estadunidenses – fato que já ultrapassa o campo das ameaças nas palavras e ganha contornos cada vez mais perigosos. Trump faz do Brasil – e só o faz porque conta com um de seus maiores aliados políticos de todo o planeta – um laboratório de seu projeto bonapartista pela recuperação da hegemonia dos EUA.

Por isso, já há algum tempo polemizamos com os companheiros em relação à posição que nos parece extremamente equivocada e inconsequente de não apostar na agitação pela necessidade de prisão de Bolsonaro e de todos os golpistas. Nem sequer de maneira não orgânica como faz o PSTU os companheiros levantam essa bandeira, transparecem, em nossa percepção, que a eventual prisão de Bolsonaro, mesmo sem as massas nas ruas, seria um fato regressivo na atual conjuntura!

Na realidade o que fazem é subordinar todas as reivindicações políticas e democráticas às econômicas. E aqui afirmamos de maneira categórica: tal operativo é extremamente alheio à tradição do marxismo revolucionário e nos leva a um rotineirismo propagandístico incapaz de interferir concretamente no curso político da luta de classes, que hoje se combina em um par dialético de perigos extremos e possibilidades históricas.

Este rotineirismo termina em uma fórmula política economicista, o que não se trata apenas de um erro tático, mas uma deformação estratégica que se afasta do marxismo revolucionário em nossa avaliação. Lênin sempre ressaltou que a luta econômica deve se ligar à luta política, e que as reivindicações democráticas (contra a opressão nacional, contra o autoritarismo do Estado, pela liberdade de organização e expressão) são instrumentos fundamentais para que o proletariado assuma uma posição hegemônica.

Ao reduzir a política à dimensão econômica, os companheiros abandonam a perspectiva leninista e terminam por ceder terreno ao reformismo e ao liberalismo, que monopolizam as bandeiras democráticas, canalizando a revolta popular para dentro da institucionalidade burguesa. Isto é, terminam por se colocar numa posição que paradoxalmente dizem combater…

De pé movimento estudantil!

Diante desse cenário, não cabe aos estudantes e à juventude aceitar o imobilismo da atual gestão do DCE, nem tampouco o seu oportunismo eleitoral ou o sectarismo economicista estéril e de natureza propagandística que sacrifica a luta democrática em razão de um economicismo. O movimento estudantil da USP precisa ser refundado sobre bases sólidas de independência política, auto-organização de base e democracia real, capaz de enfrentar tanto a burocracia universitária reacionária quanto os ataques coordenados do imperialismo de Trump e da extrema direita bolsonarista. Esse é o único caminho para recolocar o DCE a serviço das lutas concretas de nossa universidade e de nossa classe.

Essa tarefa exige que superemos tanto as ilusões nas saídas conciliatórias da esquerda da ordem – sem abrir mão da tática de unidade de ação – quanto os atalhos táticos que buscam reabilitar direções já testadas e fracassadas. É preciso consolidar uma frente não apenas eleitoral, mas enraizada na luta cotidiana, construída sobre um programa de medidas anticapitalistas que coloque no centro a prisão de Bolsonaro e dos golpistas, o enfrentamento ao imperialismo e a mobilização permanente por demandas democráticas, sindicais e sociais dentro e fora da USP.

Chamamos, por isso, à unidade de ação a todos os setores do movimento estudantil e à unidade política entre todos os socialistas revolucionários que não aceitam se subordinar à lógica da ordem e da conciliação. Uma frente consequente e combativa que tenha como horizonte não apenas resistir, mas virar a USP do avesso e, com isso, contribuir para reacender no movimento estudantil a chama de uma alternativa anticapitalista capaz de disputar a hegemonia com os projetos da burguesia e abrir caminho para vitórias concretas dos explorados e oprimidos.

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