As ações divisionistas da FITU são criminosas e sem princípios, uma mostra da embriaguez dos cargos parlamentares e dos “perigos profissionais” que o parlamentarismo burguês traz às correntes que não se enraízam em concepções socialistas profundas. Desde o Nuevo MAS reivindicamos a luta pela unidade que demos e que continuaremos a dar diante das eleições nacionais. As e os simpatizantes da esquerda poderão acertar contas com os políticos irresponsáveis em setembro, apoiando nossas candidaturas anticapitalistas e socialistas. 

JUAN CRUZ RAMAT

9 Julho, 2025 

Como é de conhecimento público, o Nuevo MAS recentemente fez um novo chamado à coordenação da FITU para acabar com a divisão da esquerda e propor uma alternativa anticapitalista que confronte consistentemente o governo Milei. Este chamado foi aceito, para surpresa de muitos, após 14 anos de existência daquela frente. 

Nosso partido tornou pública cada uma das cartas convocando a unificação da esquerda ao longo deste período, porque cabe às organizações que se reivindicam das e dos trabalhadores travar essas lutas sem sigilo e com o objetivo de esclarecer a posição de cada partido. 

Sem ir mais longe, o último Congresso Nacional do Nuevo MAS, em dezembro de 2024, votou um chamado à esquerda que foi divulgado pela mídia e pelas redes. Depois, antes das eleições legislativas da CABA deste ano, repetimos o apelo. Nem esse nem os chamados anteriores jamais receberam resposta. Na realidade, a FITU não tornou pública a aceitação da reunião que finalmente ocorreu na segunda-feira, 7/7, 72 horas antes do fechamento das alianças. Pretendem esconder seu divisionismo injustificável daqueles que simpatizam com a esquerda e reivindicam a unidade. 

Pouquíssimas horas antes do encerramento dos registros de alianças, a coordenação da FITU repetiu seu comportamento habitual: não responder às propostas de unidade expressas por nosso partido. Trapaças, manobras e silêncio, atitudes clássicas dos partidos patronais dos quais o PTS e o PO parecem copiar comportamentos, que nada têm a ver com o legado clássico da esquerda revolucionária de discutir publicamente e com a verdade diante daqueles que pretendem representar. 

Critérios políticos e o negócio dos cargos 

Repassemos muito brevemente alguns dos critérios clássicos elementares da esquerda para a conformação de alianças eleitorais. Digamos, para começar, que elas são eminentemente políticas, ou seja, que a formação dessas alianças ou listas deve servir para disputar a independência política dos explorados e oprimidos em relação à burguesia e seu Estado, no campo da representação dos interesses sociais nas eleições, como ocorre classicamente sob os regimes democráticos dos ricos. 

É claro que as eleições não são o único terreno de representação e que, exceto no caso de correntes que perdem o rumo amansadas pela representação parlamentar, essa representação também se disputa na inserção orgânica na sociedade (estruturas, esferas sindicais, frentes de massas, etc.). 

Desde essa posição é que rechaçamos qualquer frente eleitoral com setores capitalistas. Essa definição geral, que é compreendida por amplos setores da sociedade, torna “natural” a unidade da esquerda na hora de disputar representação. 

Com os partidos que compõem a FITU temos enormes diferenças no plano teórico-estratégico. Estamos nos referindo à nossa profunda convicção de que sem que as e os trabalhadores e suas organizações tomem os destinos da economia e da política em suas próprias mãos, não há possibilidade de socialismo, algo que nos diferencia de toda a esquerda objetivista e stalinófila argentina e internacional. Também temos diferenças na aplicação política dos critérios de princípios, como no caso da unidade de ação que  impulsionamos desde o nosso partido com Manuela Castañeira mobilizando nas ruas contra a tentativa de assassinato de CFK e, posteriormente, contra sua proscrição; ou à crítica implacável ao regime proscritivo das PASO que o PTS defendeu de forma aberta e oportunista, arrastando o PO para uma mudança de posição; ou do fato de que a FITU esteja reduzida a uma “cooperativa eleitoral” (como escreveu o próprio PO em uma nota recente). 

Para além disso, na medida em que a FITU mantém uma posição independente, e no contexto de um governo de guerra contra os trabalhadores, a unidade eleitoral é possível e ademais é uma necessidade política. É esse mesmo critério que aplicamos ao longo das últimas eleições, quando, proscritos através do mecanismo das PASO, do qual o PTS é fanático, chamamos a votar criticamente na FITU. 

Os pretensos dirigentes de esquerda que dizem que “se criticas, não peça a unidade” parecem ter aprendido política olhando o stalinismo. Nenhuma corrente que tenha alma e clareza política coloca suas críticas no bolso para fazer uma frente de independência de classe. O Nuevo MAS não abaixa a cabeça, deixamos isso para os outros. 

Sobre essa base geral, resumindo, 1) o caráter independente da FITU que permite desenvolver um programa comum, 2) a situação política sob Milei e seu ataque direto às liberdades democráticas e aos trabalhadores, bem como a impotência do peronismo que opta por garantir a governabilidade, e 3) a reivindicação progressista de amplos setores simpatizantes da esquerda em relação à unidade, levamos para a reunião da coordenação nacional da FITU uma proposta simples: conformar uma coalizão com base no resultado eleitoral das últimas eleições legislativas nacionais e provinciais, ocorridas em 2021. Esta eleição da mesma categoria, expressou uma diferença entre a frente e o Nuevo MAS de 5 para 1, uma distância que se mantém em geral desde 2011. 

Essa coalizão que propusemos estávamos dispostos a realizar diante das eleições provinciais e/ou nacionais. Dizemos “e/ou” para mostrar que não nos oporíamos a uma coalizão se o acordo não avançasse ao plano nacional, cujas eleições ocorrerão em outubro. Claro, sem curvas estranhas nem manobras. 

Junto com isso, levantamos a importância de que cada partido e seus dirigentes principais pudessem encabeçar algum mandato das centenas que serão disputadas imediatamente nas eleições provinciais de Buenos Aires (que serão seccionais para deputados e senadores da província, e municipais com vereadores). Isso como uma salvaguarda da existência de cada partido e de suas forças reais, e da possibilidade de ter voz própria durante a campanha. 

No sentido contrário, na dita reunião o PTS expressou que para unir forças devíamos aceitar o critério aplicado pela FITU, que é a formação de listas de acordo com os resultados de 2023, quando as eleições foram presidenciais. Não sabemos quais contas e distribuições são feitas na frente e em relação a quais parâmetros, mas é uma completa manipulação tentar sujeitar o Nuevo MAS, que tem sido sistematicamente excluído da frente, a critérios que são de pura conveniência interna. Não há parâmetro mais objetivo para estabelecer um acordo do que partir de eleições da mesma categoria, como as de 2021 relativamente as de 2025. 

Isso deixa claro novamente que a “cooperativa eleitoral” (PO dixit) maneja os critérios de sua Frente como um negócio (já havíamos ouvido de parte dos dirigentes do PO a categoria de “negócio” para se referir à FITU) cujo único objetivo comum é conseguir algum carguinho e depois arrancar os olhos na distribuição e rotações. É claro que nas frentes eleitorais os cargos são discutidos, e não apenas política. Mas transformar os cargos, as distribuições e as contas para que se feche o negócio com a cooperativa no fim último, distorce completamente o sentido político da participação eleitoral das forças revolucionárias. 

Dito isso, a reunião terminou com o compromisso elementar e básico da FITU dar uma resposta ao nosso partido, o que não aconteceu. Uma vergonha completa que fala do nível subterrâneo das forças que o compõem. 

Histórico de negócios da FITU 

Em outras ocasiões ao longo dessa história divisionista, por meio de encontros bilaterais entre nosso partido e algumas das forças da FITU, nos expressaram várias condições excludentes: que deveríamos nos incorporar, mas não participar do rodízio no caso de se obter cargos; que não poderíamos encabeçar nenhuma lista; que por não termos legalidade nacional (como circunstancialmente não ocorreu em 2011 devido a uma série de restrições que foram impostas pelo governo CFK junto com as PASO) teríamos que acompanhar como apoiadores, entre outros argumentos claramente provocativos. Também rejeitamos categoricamente a mentira expressa em uma nota recente do PTS, que garante que fomos convocados a ingressar na FITU em 2019. Tal convocatória não existiu. 

O país vai a eleições atípicas, sobre a base de uma crise orgânica que o governo de Milei só tem feito piorar e que, longe de resolver-se, poderá explodir depois de outubro. Neste marco, La Libertad Avanza assinou um acordo de sujeição com o PRO (NT.: o partido de Milei com o de Macri); o peronismo caminha para selar, a cotoveladas, uma aliança entre os setores de La Cámpora, Kicilloff e Massa, em meio a um clima de defraudação de expectativas e falta de alternativas importantes. Nesse contexto, as ações divisionistas da FITU são criminosas e sem princípios, um sinal da intoxicação das posições e dos “perigos profissionais” que o parlamentarismo burguês traz às correntes que não se enraízam em profundas concepções socialistas. 

A unidade da esquerda teria sido uma “bomba política”, colocando como novidade nacional o fato de que, pela primeira vez em décadas e sob o governo Milei, a esquerda foi unificada ao colocar seus dirigentes como Myriam Bregman, Manuela Castañeira e outros em uma lista comum para uma batalha eleitoral. A FITU mais uma vez impôs seu divisionismo. Desde o Nuevo MAS reivindicamos a luta pela unidade que demos e que continuaremos a dar diante das eleições nacionais. As e os simpatizantes da esquerda poderão acertar contas com os políticos irresponsáveis em setembro, apoiando nossas candidaturas anticapitalistas e socialistas. 

Tradução de José Roberto Silva do original Una vez más el FITU divide a la izquierda