Fundamentais para a produção da “economia do futuro”, elementos químicos contidos nas chamadas “terras raras” são alvos da exploração imperialista há alguns anos. Consideráveis indispensáveis para a transição energética, já que esses recursos são matéria-prima para a produção de painéis solares, baterias de carro elétrico, turbinas eólicas, hardwares, equipamento aeroespacial e nanotecnologia, a competição por parte de multinacionais – e agora mais enfaticamente o governo bonapartista dos Estados Unidos e a volta de um novo velho imperialismo – direcionam seus olhares para o território brasileiro com o objetivo de acentuar uma característica histórica: o Brasil como um país exportador de matéria-prima para o mercado mundial, radicalizando uma lógica de dependência econômica e tecnológica pela exploração dos recursos naturais. Nesse texto temos a intenção de discorrer brevemente sobre a problemática realizando alguns apontamentos teóricos.
VINICIUS BOMFIM
O “ouro do século 21”
O nome “terras raras” não advém necessariamente da raridade em encontrar esses elementos na natureza, mas sim na dificuldade do processo de extração dos minerais em alto grau de pureza, sendo considerado um procedimento custoso e complexo[1]. Neodímio, térbio, disprósio e praseodímio são alguns dos 17 minerais críticos encontrados. Aproximadamente são extraídas 100 gramas de terras raras por tonelada, processo que se utiliza de solventes e ácidos que geram resíduos que afetam o meio ambiente[2].
Tendo a terceira maior reserva mundial, com 22 milhões de toneladas, ficando atrás somente de China e Vietnã, o Brasil se tornou um holofote mundial da procura exploratória diante do tarifaço proposto por Trump, que buscava colocar na mesa o tema terras raras como uma das moedas de troca para a retirada das tarifas. Medida essa realizada não apenas de maneira intimidatória pelo imperialismo yankee, mas como forma de diminuir a dependência estadunidense das importações chinesas[3]. No dia 22 de junho desse ano, o perfil da Embaixada dos Estados Unidos no Brasil no X, antigo Twitter, fez uma postagem de uma imagem de satélite da Serra de Caldas, em Goiás, um dos locais onde se tem a disponibilidade das terras raras[4]. Uma clara intimidação do imperialismo!
O Brasil ainda não possui uma legislação sobre a exploração das terras raras. O PL 2780/2024 faz um claro aceno para investimentos e exploração dessas terras por empresas estrangeiras, que agrada o setor pois coloca o país no mercado como um fornecedor de matéria prima[5]. Ao mesmo tempo que o presidente Lula entoa um discurso sobre soberania nacional e de defesa das nossas riquezas naturais, em que “Nós temos a maior floresta do mundo para proteger. […] Temos todo o nosso petróleo, todo o nosso ouro, temos todos os minerais ricos que vocês querem para proteger, e aqui ninguém põe a mão”, o Ministro da Fazenda Fernando Haddad e o presidente do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico Nacional (BNDES) Aloísio Mercadante afirmam que as terras raras podem entrar na negociação do Tarifaço[6].
Apesar do Brasil já ter sido referência na produção das terras raras no século passado, a falta de competitividade tecnológica e a descontinuidade dos projetos de produção impediram o desenvolvimento autônomo técnico-científico, caminho oposto dos países que hoje são referências e controlam o mercado[7]. Hoje a empresa Serra Verde, localizada em Minaçu (GO), mas pertencente a fundos estadunidenses e britânicos, tem sua produção voltada ao mercado externo. Essa tentativa de reduzir a dependência chinesa, que possuem 90% refinarias de terras raras do mundo, encontra hoje entraves na otimização produtiva e de não conseguir competir com as empresas chinesas que vendem o concentrado de terras raras por US$ 5, enquanto a Serra Verde vende por US$ 14. Há iniciativas do BNDES em fornecer crédito a mineradoras para o desenvolvimento da produção dos minerais, buscando alterar o quadro de exportador de matéria-prima para exportador de tecnologia[8].
A velha-nova dependência
Soberania nas palavras e entreguismo nos fatos revelam a lógica de como a questão é tratada. Mas achar que isso é apenas sobre o caráter como o governo liberal-social de Lula atua no que diz respeito ao desenvolvimento técnico-científico e à preservação ambiental é ver um lado da moeda.
O outro lado, mais estrutural historicamente, se refere ao caráter da economia de um país de capitalismo dependente como o Brasil. As velhas dinâmicas coloniais de exportação de matérias-primas e importação de produtos manufaturados se atualizam diante da relação desigual e combinada na qual o Brasil se insere na totalidade do sistema capitalista[9]. Força de trabalho desvalorizada e superexplorada, informalidade, agroexportação, dependência tecnológica e baixo desenvolvimento autônomo de forças produtivas o caracteriza.
Especificamente sobre as terras raras, é interessante observar a dinâmica de acumulação mundializada do capital via espoliação e uma espécie de nova partilha imperialista do mundo em busca dos minérios. A intensa procura pela transição energética, construção de data centers, produção aeroespacial, tecnologia militar e baterias elétricas de automóveis se fundem com o capital financeiro para o avanço sem medidas contra os recursos naturais, principalmente no chamado Sul Global. No século passado, Lênin já indicava essa tendência do capital monopolista:
O capital financeiro não está interessado apenas nas fontes de matérias-primas já descobertas, mas também em fontes em potencial, pois, em nossos dias, a técnica avança com uma rapidez incrível, e as terras não aproveitáveis hoje podem tornar-se terras úteis amanhã, se forem descobertos novos métodos (…), se forem investidos grandes capitais. (…). Daí a tendência inevitável do capital financeiro em ampliar o seu território econômico e até seu território em geral[10].
A expansão do capital à totalidade social não encontra barreiras, natural ou territorial. Seja na Groelândia, América Latina, África ou Ásia, a ingerência imperialista em assegurar territórios de influência econômica é fundamental para o aprofundamento da crise capitalista – econômica, política, ambiental – solidifica com a posse de “todas as fontes de matérias-primas”[11] dos países outrora (?) colonizados, e agora dependentes.
Encontrar alternativas dentro da dinâmica do capital se mostra irrealizável. Concessões e acenos por parte do governo Lula à multinacionais da indústria de minérios vai contra a preservação e o enfrentamento das crises ambientais e climáticas, como também reforça uma tendência histórica de dependência econômica e política ao imperialismo. Qualquer discurso sobre soberania nacional sem colocar no eixo do debate o anti-imperialismo e o anticapitalismo se apresenta vazio de conteúdo. Uma harmonia possível entre humanidade e natureza, em que o controle da produção esteja nas mãos dos trabalhadores, é condição vital para uma ecologia política socialista.
[1] https://g1.globo.com/mt/mato-grosso/noticia/2025/09/26/terras-raras-descoberta-em-mt-pode-aumentar-reserva-do-minerio-no-pais-exploracao-requer-mais-pesquisas.ghtml.
[2] https://economia.uol.com.br/noticias/redacao/2025/07/26/terras-raras-minerios-estrategios-criticos-brasil-legislacao-eua-tecnologia.htm.
[3] https://www1.folha.uol.com.br/mercado/2025/07/encarregado-dos-eua-expressa-interesse-americano-em-minerais-estrategicos-do-brasil.shtml.
[4] https://x.com/EmbaixadaEUA/status/1936907047976476675.
[5] https://istoe.com.br/platobr-em-regulacao-sobre-terras-raras-mineradoras-preferem-pl-e-rejeitam-subsidio.
[6] https://g1.globo.com/economia/noticia/2025/08/04/tarifaco-haddad-admite-que-minerais-criticos-e-terras-raras-podem-entrar-na-negociacao-com-os-eua.ghtml.
[7] https://www1.folha.uol.com.br/mercado/2025/10/brasil-ja-foi-referencia-na-industria-de-terras-raras-mas-perdeu-folego-ao-longo-da-historia.shtml.
[8] https://www1.folha.uol.com.br/mercado/2025/07/unica-mineradora-de-terras-raras-no-brasil-e-dos-eua-e-exporta-sobretudo-para-china.shtml.
[9] Marini, Ruy Mauro. Dialética da dependência e outros escritos. 2.ed. São Paulo: Expressão Popular, 2022.
[10] Lênin, Vladímir Ilitch. Imperialismo, estágio superior do capitalismo: ensaio popular. São Paulo: Expressão Popular, 2012, p. 118, destaques nossos.
[11] Ibidem, p. 116.






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