Por ROBERTO SÁENZ
Versão ligeiramente editada da intervenção do autor desta nota no marco do VI Acampamento Internacional Anticapitalista do Ya Basta! e da Corrente Internacional Socialismo ou Barbárie, no domingo, 15 de fevereiro de 2026.
Revolução e contrarrevolução estão amarradas uma à outra, ‘assim como a reação está ligada à ação’, dando lugar ‘a um encadeamento histórico que (…) é ao mesmo tempo dialético e impulsionado pela necessidade’.
(Arno Mayer, 2014: 22)
(…) a história humana (…) mostra que há uma relação dialética e necessária entre a luta de classes e a guerra. A luta de classes se desenvolve em direção à guerra, e a guerra se desenvolve em direção à luta de classes, o que revela sua unidade essencial. Foi assim nas cidades medievais, nas guerras da Reforma, na guerra de libertação flamenga, na Revolução Francesa, na rebelião americana, na Comuna de Paris e no levante na Rússia em 1905.
(Rosa Luxemburg, “Guerra de classes e a Internacional”)
É preciso tirar conclusões do que acabamos de ouvir de Martín Manteca — conclusões profundas sobre o que está sendo vivido. Às vezes isso não é tão simples: temos a realidade diante do rosto, e enxergar o que está por trás não é tão fácil. É preciso ter penetração na análise, tomar distância e captar as determinações mais profundas.
1 – Abertura
Começo pelo aspecto subjetivo — que talvez devesse ficar para o final. Com a presença de Martín, o acampamento está se transformando em um evento ainda mais internacionalista; o reflexo e a sensibilidade de um companheiro lutador de toda a vida nos abrem uma porta de acesso aos Estados Unidos, que são hoje um verdadeiro barril de pólvora social.
Martín diz que no ano que vem precisa vir com jovens dos EUA ao acampamento. Para além do que o companheiro expressa — que representa o melhor do SEIU, porque o SEIU tem seus burocratas e Martín é classista — trata-se do fato de que a corrente está sendo protagonista na organização da nova classe trabalhadora internacional. Ainda que esse processo seja embrionário e desigual, é a passagem das palavras aos fatos, da definição de um reinício da experiência histórica para a condição de atores e protagonistas da organização dessa nova classe, com o segundo e histórico Congresso Mundial de Gig Workers que estamos organizando para maio, em Los Angeles.
Martín falou do Camboja, do Laos, da confusão que existe na cabeça dos trabalhadores e trabalhadoras desses países por causa de Pol Pot e do Khmer Rouge, expressões brutais do stalinismo (o que demonstra, aliás, a atualidade do debate sobre o stalinismo — exceto para as seitas trotskistas que têm pele de lagarto).[1]
Então, a primeira ideia é que este acampamento juvenil internacional anticapitalista — no qual também participam trabalhadores e trabalhadoras — está, de fato, se transformando em um evento internacional e, ao mesmo tempo, em um evento organizador. Estão aqui as delegações da corrente, que se formam no próprio acampamento, assim como o segundo Congresso Mundial de Gig Workers será igualmente um evento organizador. Ou seja, não se trata apenas de um encontro “parlamentar”, de debate e intercâmbio, por assim dizer, “verbal”: ele também organiza a troca de experiências e o calendário da nossa corrente internacional.
A segunda reflexão é que, por trás da reação, cozinha-se a revolução — essa é a dialética das coisas. Há um choque muito profundo entre dois mundos profundamente opostos. De um lado, existe uma tendência à modernização das relações sociais e humanas, ao multiculturalismo, ao caráter multiétnico, à feminização da classe trabalhadora — que no pós-guerra era marcadamente masculinista —, ao fenômeno trans e à necessidade de liberdade sexual, que é estrutural, profunda, quase como um “fenômeno da natureza” no sentido de uma determinação, de uma tendência ascendente muito enraizada, um elemento do progresso humano.
De outro lado, há uma reação brutal contra esse processo — e isso produz um choque tremendo. Quando querem suprimir a sua identidade, aquilo que estrutura quem você é, o conflito assume um caráter profundamente estrutural.[2]
Martín dizia que é internacionalista — como afirmava Marx, a classe trabalhadora é internacional —, mas também é mexicano, e relatava como as pessoas de origem latina são maltratadas nos Estados Unidos — os chamados “chicanos”. Podem tentar contê-los, fazer concessões simbólicas, colocar um presidente negro como Obama; mas se elegem um homem branco envolvido com Epstein, como Trump, há um problema enorme. Suprimir a democracia burguesa nos EUA pode desencadear uma revolução — não é algo simples. Eliminar as conquistas do movimento pelos direitos civis, frequentemente chamado — de maneira exagerada — de “a segunda revolução nos Estados Unidos”, tampouco é tarefa fácil.
(A primeira e única verdadeira revolução social nos Estados Unidos — sob a forma de uma guerra civil — foi, evidentemente, a Guerra Civil de 1861-1865 entre a União do Norte e os Confederados do Sul, que aboliu a escravidão da população negra, embora não lhes tenha garantido terra para trabalhar, mantendo-os sob um regime de segregação racial. A histórica luta pelos direitos civis nos anos 1960 foi a chamada “segunda revolução”, que também não alterou a situação econômica da população negra, mas pôs fim à segregação racial e garantiu o direito ao voto.)
Há uma dialética muito rica que afirma que a revolução chama a reação, mas também que a reação chama a revolução. Estão “unidas por um fio invisível”, dizia Hannah Arendt, que era liberal, mas uma pensadora extremamente perspicaz. Revolução e reação estão ligadas por um elo de necessidade material: “Não pode haver revolução sem contrarrevolução; são fenômenos e processos inseparáveis, como a verdade e a falsidade. ‘Assim como a reação está ligada à ação’, estão unidas entre si, impulsionando uma ‘ação histórica que é ao mesmo tempo dialética e movida pela necessidade’” (Hannah Arendt, citada por Arno Mayer, 2014: 63).
Então, no século XX, na primeira etapa revolucionária contemporânea, foi a revolução que chamou a reação: o bolchevismo antecedeu o fascismo e o nazismo. Agora está se dando a dialética inversa: a reação, ao atacar o corpo da humanidade, ao superexplorá-la e oprimi-la, chama a revolução.
Minneapolis transformou-se numa cidade-comuna; não tem a consciência socialista da Comuna de Paris e o ICE está presente, mas cidadãos brancos norte-americanos fizeram coisas que jamais imaginaram que fariam — pequenos elementos de duplo poder.[3] O governador e o prefeito criticaram as ações do ICE, mas não fizeram nada; então as comunidades brancas fizeram algo clássico que Lenin explicava sobre o duplo poder: tomaram em suas próprias mãos aquilo que o Estado não faz.[4] Organizaram-se com as trabalhadoras e os trabalhadores do aeroporto para que avisassem quando chegava um avião do ICE; pessoas brancas cercaram escolas para impedir a entrada do ICE; foram cantar serenatas mexicanas a noite inteira nos locais onde os agentes do ICE estavam hospedados (isso é genial: serenatas mexicanas para enlouquecer os racistas do ICE! A criatividade da “revolução” é fenomenal!).
Martín diz que estão discutindo qual será a próxima cidade a ser cercada; cercar cidades é um elemento típico de guerra civil. Benito Mussolini, em sua ascensão ao poder, destruiu todas as cidades governadas pelo Partido Comunista e pelo Partido Socialista nos anos 1920 por meio de suas camisas negras (forças de choque efetivamente fascistas, muitas delas formadas por ex-combatentes da Primeira Guerra Mundial),[5] e assim derrotaram o movimento operário. Em Minneapolis não houve derrota, embora cerca de 3.000 pessoas tenham sido detidas; ao mesmo tempo, o ICE teve de deixar a cidade, o que constituiu uma vitória da luta de seu povo contra essa instituição estatal e paraestatal.
Como nota de rodapé, recordemos que o nazismo, na Segunda Guerra Mundial, promoveu o cerco à cidade de Leningrado (1941-1944), mas não conseguiu derrotá-la. A população sofreu um episódio massivo de mortes por fome; comia-se até a cal das paredes dos prédios, solas de sapato, qualquer coisa. Ainda assim, resistiu ao que foi não apenas um episódio de guerra convencional, mas uma guerra contrarrevolucionária com elementos de guerra civil contra o nazismo.
Digamos que o cerco às cidades é um elemento clássico de guerra civil ou de pré-guerra civil, nada mais — e nada menos — do que isso.
Resumindo: 1) por trás da reação aparece a revolução — dizemos “revolução” nas devidas proporções —; 2) estabelecer um cerco a uma cidade e resistir a esse cerco são elementos de guerra civil. E esses elementos de guerra civil não estão ocorrendo no Paraguai, mas nos Estados Unidos. Tampouco se trata da “chacina” do Rio de Janeiro, do massacre nas favelas — que foi brutal, um episódio de pura barbárie. Martín afirma, como já mencionamos, que é a primeira vez que vê setores brancos se mobilizarem em defesa de negros e latinos. É algo impressionante que, nos EUA, surjam elementos de organização de esquerda paralelos ao Estado para assumir, com as próprias mãos, a defesa dos migrantes (muitos deles imigrantes da Somália e da Etiópia, no caso específico de Minneapolis).
É preciso saber avaliar o que está acontecendo, compreender seu significado — não basta descrevê-lo. É necessário captar a densidade histórica do momento. Trump é um perigo para a classe trabalhadora, mas também é um perigo para a própria burguesia, porque pode invocar demônios (como o mago de que falava Marx, incapaz de controlar os feitiços que conjura). Estamos vivendo um “inverno americano” e um “verão argentino”; a lei trabalhista foi aprovada, mas a luta de rua na Argentina não pode ser extinta (agora a lei precisa passar da norma aos fatos), não é um país “normal”, com o partido à frente da vanguarda na jornada de 11/02, mantendo as bandeiras vermelhas na linha de frente. O que ocorreu na quarta-feira, 11/02, no Congresso, e depois a ocupação da Fate, são elementos de 2001 que seguem presentes. Os companheiros mais jovens precisam saber que isso não é algo comum; só se tornou comum na Argentina a partir do Argentinazo, e não pode ser eliminado tão facilmente, ainda que ataquem, precarizem e a etapa seja reacionária. A lei trabalhista, em certo sentido, avança porque a precarização já é profunda; foi introduzida pelo menemismo e mantida pelo kirchnerismo: o fato antecedeu a norma (“Fate como caso emblemático: apontamentos”, Esquerda Web, 24/02/26).[6]
Aqui precisamos enxergar a dialética entre luta de classes e guerra de ruas. O artigo da The Atlantic que traduzimos para o Esquerda Web (“Bem-vindos ao inverno americano”, de Robert F. Worth) afirmava que, em Minneapolis, as pessoas saíram do seu trilho habitual: o eleitor branco democrata — ou mesmo republicano — abandona a via eleitoral e passa a outra via, a da desobediência civil. Se Trump continuar sitiando cidades, pode provocar um levante como o dos anos 1960 nos Estados Unidos (isso é afirmado pela The Economist; não é tão simples que Trump siga cercando cidades, como se vê neste momento e, ainda menos, com as eleições de meio de mandato no horizonte — sua popularidade está em queda devido ao extremismo da política anti-imigração e à crise econômica norte-americana).
O ponto é que não se trata de ataques contra um corpo social inerte. Marx chamava o trabalho humano, de maneira muito significativa, de “trabalho vivo”, e o capital acumulado, de “trabalho morto”. Essa denominação não é ingênua: o trabalho está submetido ao capital, mas está vivo (é o trabalho humano que cria a riqueza, junto com a natureza). Isso significa que a luta de classes percorre a linha de fratura entre trabalho excedente e trabalho necessário, como Marx expõe no primeiro volume de O Capital — mas fiquemos com o conceito de trabalho vivo, de corpo social vivo.[7]
O que afirmamos aqui não é para diluir os perigos: a lei trabalhista foi aprovada e é preciso avaliar suas consequências; ela alimenta a precarização e a desqualificação do trabalho, um problema dramático que só se agrava (Milei tem se mostrado, até o momento, mais destrutivo no plano econômico-social do que no regime político propriamente dito). Não se trata de relativizar isso, mas de contextualizá-lo e enxergar a dialética da realidade, os elementos vivos e a nova face do trabalho vivo, que é a nova classe trabalhadora.
Nos anos 1970, era algo clássico identificar os centros da revolução mundial; havia vários: o Vietnã, a China — com todo o seu caos burocrático —, a Europa, o Cordobazo na Argentina. Depois, esses centros tornaram-se mais escassos e, a partir dos anos 2000, passaram a se destacar as rebeliões populares, como as da América Latina, a Primavera Árabe etc. Pois bem, agora estamos falando dos Estados Unidos; ainda não da China, onde há um problema enorme: a revolução teve um caráter progressivo, mas burocrático, e as tradições democráticas ficaram profundamente soterradas sob a autocracia do Partido Comunista Chinês (que de “comunista” só tem o nome, para maculá-lo!).
Mas os EUA são uma panela de pressão; é o país da escravidão, e pode vir a ser um país onde se fuzilem alguns burgueses: você me escraviza, eu o fuzilo — é uma questão de proporções. (Evidentemente exageramos, mas é preciso ter consciência de que se trata de um país não apenas profundamente estratificado e polarizado, como também, em muitos casos, armado.)
Não se trata de relativizar as dificuldades e a reação, nem de ignorar os perigos, mas de compreender que os riscos existem para os dois lados: para os trabalhadores e a juventude, mas também para a burguesia, que prefere governar por meio de administrações mais estáveis — e o mundo, hoje, é um caos.
Tudo isso remete a uma espécie de “momento leninista”; os debates do leninismo voltam a ganhar enorme atualidade. O bolchevismo, o leninismo, foram correntes forjadas em épocas revolucionárias, e por isso se tornaram tão decisivos; havia condições materiais revolucionárias e foram capazes de montar esse cavalo bravo. Existem momentos kautskianos e momentos leninistas. Kautsky falava na “atenuação” das contradições do capitalismo; Lenin afirmava exatamente o contrário: a tendência histórica é a agudização das contradições do capitalismo. O que estamos vivendo? Uma intensificação das contradições do capitalismo, do imperialismo, da opressão sobre numerosos países, da exploração da classe trabalhadora.
Houve um certo momento kautskiano: o Império de Toni Negri, a ideia de estabilidade, de democracia burguesa consolidada, de hegemonia norte-americana incontestável, nos anos 1990 e no início dos 2000. Agora saímos desse período kautskiano e entramos em um momento leninista.
Por outro lado, a questão dos entregadores e da inteligência artificial nos leva a um debate mais teórico sobre o caráter e o significado do trabalho humano, sempre definido como uma relação metabólica com a natureza: não existe ser cultural sem base biológica — você pode estudar a noite inteira, mas, se não comer, morre (assim como não há ser humano apenas biológico sem dimensão cultural, evidentemente).
A inteligência artificial é o “novo maquinismo”, uma nova cópia ou mimetização do trabalho humano, uma nova análise do trabalho humano convertida em algoritmo; não é inteligente de forma abstrata, é uma reprodução do trabalho e do conhecimento humanos (mais por indução do que por dedução — como aponta Pasquinelli). Mas isso nos conduz à discussão sobre o trabalho humano, sobre a transição rumo à sua emancipação do trabalho assalariado e de todo trabalho enquanto tal (Naville), tema que não há tempo de desenvolver agora, mas sobre o qual estamos estudando e elaborando, porque diz respeito à possibilidade de emancipação do trabalho (Marx, Grundrisse).
Para encerrar, um breve apontamento sobre a questão do balanço do stalinismo. Quando Martín fala dos cambojanos, laosianos, vietnamitas, diz que sabem que seu inimigo é o patronato, mas não entendem nada, porque tiveram Pol Pot… Quando você sai da “pampa e das boleadeiras”, o balanço do stalinismo torna-se fundamental; na Argentina, com duas ou três regras de “aritmética política”, você se vira, mas acontece que nem todo o mundo é a pampa e as boleadeiras…
Pol Pot provocou um desastre, um delírio ultraesquerdista que condenou todos os setores urbanos, enviou-os ao campo, fuzilou milhares, promoveu uma “campesinização” retrógrada da sociedade — foi brutal. Quando você sai do “encerramento argentino” e olha para o mundo, depara-se com as consequências do stalinismo; na Europa — e nem se fale da Europa Oriental, da Ucrânia e da Rússia — a situação é semelhante.
É preciso encarar a realidade de frente, compreendê-la para transformá-la. Não se pode refundar a classe trabalhadora e entrar na perspectiva da revolução socialista neste novo século XXI sem fazer um balanço do século XX; é uma fraude — infelizmente cultivada por muitas correntes do chamado “trotskismo”.[8] As revoluções do século XX fracassaram, veio a contrarrevolução stalinista, houve contrarrevolução dentro da própria revolução, e isso constitui uma vivência histórico-mundial, uma experiência histórica global que pesa sobre as novas gerações — embora, ao mesmo tempo, essas novas gerações estejam forjando sua própria experiência diante deste capitalismo feroz do novo século.
A revolução se faz com a experiência da vanguarda e da classe, não passando por cima da vanguarda e da classe. Primeiro dia de escola marxista: como se chamava Marx? Carlitos. E o que foi a primeira coisa que disse? “A emancipação dos trabalhadores será obra dos próprios trabalhadores!” Com seus programas, sua vanguarda e seus partidos revolucionários — acrescentamos nós, junto com os bolcheviques.
2 – Encerramento
Muitas instituições repressivas nos Estados Unidos surgiram em diferentes etapas históricas; a “democracia” daquele país atravessou vários regimes políticos (justamente nestes dias completaram-se 250 anos da república norte-americana). Por exemplo, durante o macartismo — no início dos anos 1950, período de histeria anticomunista — os esposos Rosenberg foram executados, dois cientistas acusados de comunismo e enviados à cadeira elétrica. A última etapa reacionária nos EUA, marcada por leis repressivas, começou a partir de setembro de 2001, após o atentado às Torres Gêmeas; naquele momento criaram o ICE, que reuniu e concentrou diversas instituições anteriores. Era uma agência voltada para a fronteira; levar as práticas brutais da fronteira para dentro das cidades já é outra coisa.
O que há de paraestatal no ICE? Seus agentes atuam encapuzados, sem identificação, sem a obrigação de usar câmeras durante as operações, e em muitas dessas ações matam à queima-roupa. Legalmente, você não pode impedir uma detenção; pelo peso do Estado norte-americano, eles estão autorizados a atirar se alguém resistir a uma prisão. Mas ser morto impunemente é algo de caráter paraestatal (e ainda mais se você for branco; lembremos que os EUA são um país com tradição escravista, mas também com uma sociedade civil enorme e extremamente heterogênea).[9]
As configurações entre as sociedades civis e o movimento de massas não são iguais em todos os países. Nos Estados Unidos existem diversos tipos de igrejas; há uma grande complexidade: pessoas religiosas ultra-progressistas e outras ultra-reacionárias. Uma corrente que queira crescer precisa dialogar com a sociedade real — e a maioria dessas pessoas não é marxista revolucionária; os que nos reconhecemos como ateus somos uma vanguarda. Nos EUA, as igrejas estão profundamente imbricadas nas comunidades: a comunidade hispânica é muito religiosa, assim como a comunidade negra.
Na Argentina já houve mortos em repressões, mas se começassem a matar sistematicamente, o país poderia explodir em uma onda democrática; nem Milei encontrou condições para isso, mesmo com toda a parafernália — que já ruiu, ao menos por ora — do protocolo contra a protesto social (serviu mais para espalhar medo e fornecer justificativas à burocracia para desmobilizar do que para produzir fatos concretos).
O ICE aparece como uma instituição a serviço direto de Trump; por isso também é chamado de paraestatal. As organizações clássicas do fascismo e do nazismo eram, evidentemente, paraestatais — e depois foram estatizadas. Hitler destruiu a direção incontrolável das SA de Ernst Röhm na “Noite das Facas Longas”, em 1934, e fortaleceu as SS já estatizadas sob a direção de Heinrich Himmler.[10] Há uma espécie de “transbordamento” de Trump sobre o regime democrático burguês, ainda que ele não consiga varrê-lo (a recente decisão da Suprema Corte norte-americana contra as tarifas é um exemplo disso); o ICE é um elemento distinto daqueles próprios da democracia burguesa, mas o regime como tal — em seu conjunto, como totalidade — não mudou nos Estados Unidos (Trump é um governo, não um regime).
O ICE opera à margem da legalidade; e o que é extralegal é paraestatal, enquanto o que é estatal está normatizado juridicamente. Trata-se de uma ação paraestatal pela direita. Mas também existe ação paraestatal pela esquerda: quando se ocupa uma fábrica, rompe-se a legalidade, porque a lei sanciona a propriedade privada. Não houve ocupações de fábrica em Minneapolis, mas os cordões de solidariedade organizados desde baixo são paraestatais, porque o Estado aparece como a instituição que regula os vínculos sociais, mediados por seu aparato. Uma pessoa branca sensibilizada que procura o prefeito e diz “estão detendo um hispânico”, e o prefeito responde “que pena, vou emitir uma nota”, isso é o circuito estatal. Mas em Minneapolis e em muitas cidades há práticas de defesa civil que envolvem milhares de pessoas — e isso é paraestatal pela esquerda (elementos de duplo poder, dito de forma enfática).
Há um transbordamento do Estado pelos dois lados. Parte dos elementos de uma guerra civil consiste justamente no fato de que a estatalidade e a legalidade passam a ser questionadas tanto pela direita quanto pela esquerda. E há um conceito fundamental: toda ordem jurídica é fundada por um ato extralegal; com a Revolução Russa, por exemplo, a dívida externa foi repudiada, porque um novo Estado foi constituído por meio de uma revolução. A força funda o direito — não o contrário: “(…) o estado de exceção constitui um ‘ponto de desequilíbrio entre direito público e fato político’ (…), que — assim como a guerra civil, a insurreição e a resistência — situa-se numa ‘faixa ambígua e incerta, na interseção entre o jurídico e o político’” (Fontana, citado por Agamben, 2014: 25). E acrescenta Agamben: “Uma opinião recorrente situa no fundamento do estado de exceção [e da guerra civil e da revolução, acrescentamos nós] o conceito de necessidade. Um adágio latino repetido com insistência (…) necessitas legem non habet: ‘a necessidade não tem lei’, costuma ser entendido em seus dois sentidos opostos [para nós, mais do que opostos, complementares]: ‘a necessidade não reconhece lei alguma’ e ‘a necessidade cria sua própria lei’ (nécessité fait loi)” (Agamben, 2014: 62).
Com este acampamento e com a visita de Martín, queremos começar a construir a corrente nos Estados Unidos (na verdade, já estamos começando a fazê-lo). Também podemos avançar na Itália, porque a Itália mudou; as duas greves gerais alteraram o cenário, depois da derrota dos anos 1970.
A corrente está prestes a dar um salto qualitativo.
Notas
[1] Às vezes isso não é devidamente refletido — em parte porque estamos apenas começando a nos inserir no Sudeste Asiático (a corrente já prepara viagens para essa região) —, mas o que Martín expressa é que as trabalhadoras e os trabalhadores têm um reflexo classista contra as empresas de aplicativos; no entanto, no plano da consciência política, pesa sobre eles a ideia de que o socialismo ou o comunismo seriam a barbárie encarnada nos assassinatos em massa do Khmer Rouge (algo semelhante, ainda que em menor escala, ao desastre provocado pelo Sendero Luminoso no Peru). Que as seitas idiotas não venham nos dizer que o balanço do stalinismo não é um tema contemporâneo! São covardes incapazes de enfrentar os elementos de balanço da própria luta pela emancipação humana! (Os casos de seitas como o PTS e o PO são emblemáticos nesse sentido, pelo simples fato de serem grupos das pampas, sem uma verdadeira visão internacionalista dos problemas.)
[2] Engels observava com agudeza que, na história humana, confrontam-se duas tendências: uma ascendente, progressiva, e outra descendente, regressiva — e que essa luta entre tendências é inerente à própria existência humana.
[3] Martín Manteca destacou a novidade radical de a comunidade branca apoiar as comunidades negras e latinas — algo que não ocorria nessa magnitude desde os anos 1960.
[4] O próprio conceito de “comunidades” tem muito peso nos Estados Unidos; e não apenas como conceito, mas como realidade concreta da organização da população, da sociedade civil, em comunidades, em neighborhoods (bairros).
[5] Na Itália revolucionária e contrarrevolucionária do início dos anos 1920 havia duas forças de assalto: uma revolucionária e outra contrarrevolucionária. A contrarrevolucionária eram os Arditi, base das camisas negras; a revolucionária eram os Arditi del Popolo. (Como os Arditi del Popolo eram independentes do PCI, Bordiga, em seu ultraesquerdismo, deu-lhes as costas de maneira criminosa — os males do sectarismo podem ser tão criminosos quanto os do oportunismo.)
[6] “O fato é que, tanto no direito de resistência quanto no estado de exceção, o que está em questão, em suma, é o problema do significado jurídico de uma esfera de ação que é, em si mesma, extrajurídica” (em referência ao que ocorre com a precarização do trabalho em relação à nova lei trabalhista argentina, Agamben, 2014: 41).
[7] Recomendamos enfaticamente que toda a militância estude O Capital, ainda que seja uma obra complexa (embora mais complexo seja Hegel — se isso servir de consolo —, que também precisa ser estudado pela militância).
[8] A “chantagem” — ou melhor, a mistificação — das correntes latino-americanas é, infelizmente, algo muito argentino.
[9] Os elementos liberais da sociedade e da Constituição norte-americana têm aspectos contraditórios. É preciso lembrar que a conhecida obra de Alexis de Tocqueville, Democracia na América, escrita na terceira ou quarta década do século XIX, registrava um elemento comunitário da sociedade civil em contraposição ao Estado, que permanece vivo até hoje na consciência e na experiência, sob a forma de vínculos comunitários progressivos construídos desde baixo — ainda que isso também abra espaço para críticas ao “coletivismo” a partir do liberalismo reacionário à la Trump e da extrema direita.
[10] É preciso dizer que Stalin se inspirou em Hitler e em sua “Noite das Facas Longas” para organizar o assassinato de Kirov, em dezembro de 1934, e depois desencadear os Grandes Expurgos (1936-1938).
Bibliografia
Giorgio Agamben, Estado de excepción, Adriana Hidalgo editora, Argentina, 2014.
Rosa Luxemburg, “Class war and the International”, New Review, august 1, 1915, Revolution’s Newsstand, 14/02/25.
Arno Mayer, Las furias. Violencia y terror en las revoluciones francesa y rusa, Prensas de la Universidad de Zaragoza, Estado español, 2014.










