No dia 14 de junho, milhões de pessoas marcharam no ato denominado “No Kings” contra o autoritarismo de Donald Trump que, além disso, mostrou solidariedade à resistência dos migrantes diante das incursões do ICE.

Se já no ano passado, e início deste ano, tínhamos as ruas do mundo contra o genocídio de Gaza, contra a devastação ambiental, pelo direito ao aborto, pela liberdade de gênero e etc. Neste mês, a luta foi apontada ainda mais para o centro do imperialismo, onde uma vanguarda de massas suscitou marchas multitudinárias em Los Angeles e, neste final de semana, em todo o país.

Neste momento de polarização assimétrica, devido à intensificação dos ataques reacionários aos imigrantes, jovens, mulheres e movimentos de gênero – para além da destruição dos direitos trabalhistas e da corrosão salarial e da criminalização das lutas pelas mais diversas demandas -,  a oscilação do pêndulo político começa a ir para o lado contrário que tem ido desde a eleição de Trump. A luta de classes começa ao poucos voltar à esquerda, demonstrando que existe em curso uma reversibilidade dialética na política estadunidense que influencia o mundo todo.

Para muito além dos formalismos analíticos, que geram sínteses economicistas, sectárias e derrotistas – incapazes de responder aos anseios ou, até mesmo, contribuir para movimentar a classe operária e os movimentos sociais – o artigo EUA: Milhões saem às ruas contra o autoritarismo de Donald Trump”, de Victor Artavia, que publicamos abaixo, mostra-nos um roteiro muito mais complexo e cheio de possibilidades reais, pois não deixa de observar que não existem derrotas históricas e que as últimas resposta estão sempre na luta de classes.

A possibilidade de uma mudança de curso no Brasil não está destartada mas, para que isso ocorra, os socialistas revolucionários devem saber se ligar às lutas que começam a surgir e se colocarem em prol de construir uma frente de luta contra a escola 6×1, em defesa dos direitos e auto-organização dos trabalhadores e de uma série de outras demandas. Além disso, também, construir estrategicamente uma frente de esquerda de oposição ao governo e de enfrentamento direto ao bolsonarismo e à extrema direita. Os ventos de semi-rebelião estadunidense sopram a favor.

Redação 

EUA: Milhões saem às ruas contra o autoritarismo de Donald Trump 

VICTOR ARTAVIA 

No último fim de semana, os Estados Unidos trouxeram a cena a polarização que está varrendo o país. Enquanto o presidente Trump encabeçava um desfile militar incomum e luxuoso em Washington DC (o que não acontecia há décadas), milhões de manifestantes saíram às ruas sob a consigna “No Kings”, em um claro sinal de repúdio ao giro autoritário que expressa a Casa Branca

São direitos democráticos, estúpido! 

Os protestos de 14 de junho foram organizados pelo “Movimento 50501”, que significa “50 estados, 50 protestos, um movimento. No site da organização,  eles convidam a “defender a Constituição e acabar com os exageros praticados pelo poder executivo“. 

É um movimento progressista que defende as conquistas democráticas da sociedade estadunidense, que estão sob constante cerco desde que Trump voltou ao poder. Além disso,  apoiam abertamente a população migrante perseguida pelas incursões do ICE e, se pode depreender de suas declarações, que elas expressam uma certa percepção “classista” na abordagem da situação política

Nosso movimento mostra ao mundo que a classe trabalhadora americana não ficará de braços cruzados enquanto os plutocratas destroem suas instituições democráticas e liberdades civis enquanto minam o Estado de Direito“, dizem eles na apresentação de seu movimento

Por isso, chamaram o dia de mobilizações de 14 de junho de “No Kings” (“Sem Reis”), expressando sua oposição ao giro autoritário do atual governo dos Estados Unidos que tenta sistematicamente subjugar as instituições e cercear grande parte dos direitos civis. 

A escolha da data não foi casual: coincidiu com o Dia da Bandeira, o 250º aniversário do exército e o 79º aniversário de Donald Trump, então o governo decidiu realizar um grande desfile militar em Washington DC. 

No total, foram contabilizados dois mil eventos em todo o país que reuniram milhões de manifestantes prontos para arruinar a celebração do magnata. Além disso a convocatória foi fortalecida porque convergiu com a semi-rebelião popular liderada pela população latina em Los Angeles, cidade que nas últimas semanas se tornou o epicentro da resistência contra a Casa Branca. As estimativas de participação variam de 5 milhões a 11 milhões de pessoas. Independentemente do número exato, não há dúvida de que foi um dia enorme

Por isso, “No Kings” é considerado, até o momento, o maior desafio de rua para o governo Trump 2.0, pois denota que o descontentamento contra o governo é nacional e engloba muitos setores da sociedade que identificam que este é um governo dos de cima contra os de baixo

Prova disso são as declarações de Erika Rice, 46, para quem esta foi sua primeira mobilização em toda a sua vida. Ela participou da marcha motivada pelo repúdio gerado pelo uso dos militares para realizar ataques contra imigrantes. “Usar os militares aqui é uma demonstração repugnante de tentar exercer poder sobre o povo americano e sobre os imigrantes“, disse ela. 

Na mesma linha, José Azetcla, que participou da mobilização em Los Angeles para rejeitar a política de imigração de Trump, se manifestou. “Isso não é cruel, é maligno. Não se separam as famílias”, disse ele à imprensa internacional

Na Filadélfia, consignas em solidariedade aos migrantes também foram ouvidas. “Não ao ódio; não ao medo; os imigrantes são bem-vindos aqui“, foram alguns dos gritos feitos pelos manifestantes. No caso de Columbus, Ohio, os cartazes pediam “deportar Trump”. 

Um desfile com tons autoritários 

No mesmo dia em que ocorreram os protestos “No Kings”, Trump exibiu suas aspirações autoritárias. Para isso, ele organizou um pomposo desfile militar pela capital do país

Isso não acontecia desde junho de 1991, quando o então presidente George W. Bush comemorou a vitória na Guerra do Golfo, um evento militar simbólico após o desastre no Vietnã e o trauma político que causou à sociedade americana. 

Apesar do fato de que a Casa Branca está pressionando por um forte ajuste orçamentário que afeta o sistema de saúde e outros serviços do Estado, não teve escrúpulos em desperdiçar uma fortuna para financiar o desfile militar. Estima-se que o governo federal desperdiçou 45 milhões de dólares para garantir a presença de 6.600 soldados, 50 helicópteros, aviões militares, paraquedistas e tanques de guerra. 

De acordo com  o The New Yorker, para tornar o show mais grandiloquente, ordenou-se que todos os conflitos da história militar dos Estados Unidos fossem representados, razão pela qual os organizadores alugaram trajes especiais de Hollywood que atendiam aos padrões de cada época (a guerra revolucionária, a guerra civil, as duas guerras mundiais, Vietnã, Coréia e a Guerra do Golfo). 

Isso não foi feito de forma inocente; pelo contrário, faz parte do “plano” da atual administração contar com o exército para desenvolver sua agenda reacionária em nível doméstico. 

Ao contrário de outras grandes potências, os Estados Unidos não têm tradição de intervir na vida interna. Trump quer mudar isso, como demonstrou ao enviar os militares para reprimir os protestos contra as deportações em Los Angeles. Ele quer naturalizar que homens em uniformes militares circulem nas ruas, seja caçando migrantes ou reprimindo protestos. 

De acordo com o historiador Kenneth Jackson, nos Estados Unidos as forças armadas foram usadas apenas duas vezes para lidar com assuntos internos. O primeiro caso foi durante a Guerra Civil, com o objetivo de controlar um grande motim na cidade de Nova York. Mais tarde, na década de sessenta do século passado, foi utilizado para garantir que a integração fosse cumprida nas escolas do sul do país

Os militares devem ficar fora da política e não agir porque alguém tem uma ou outra opinião política, essa é uma importante tradição americana. E o que Trump fez foi minar os equilíbrios tradicionais ao nomear pessoas que não tem distinção para o cargo“, disse ele em entrevista ao La Nación

Os de baixo começam a levantar suas vozes contra Trump 

Até algumas semanas atrás, ao ler qualquer notícia sobre os Estados Unidos, o sentimento era desanimador. As manchetes nos saturaram com as bravatas de Trump e suas disputas geopolíticas, além de seus constantes ataques aos povos do mundo e aos explorados em seu próprio país. Para resumir, era muito palácio e pouca praça

Agora, ao contrário, a percepção é diferente. Não é de admirar: os de baixo levantaram a voz e saíram às ruas! É isso que demonstra a semi-rebelião popular contra a “migra” que começou em Los Angeles e alimentou um dia massivo de “No Kings” em todo o país

O que foi dito acima não deve dar lugar a análises fáceis. A polarização política é assimétrica e o clima político nos Estados Unidos ainda é bastante reacionário. Mas é claro que a realidade é mais rica do que parece à primeira vista e que a luta de classes continua

A reversibilidade dialética está inscrita como uma potencialidade no estágio atual. Golpes reacionários e autoritários podem desencadear respostas de baixo na direção oposta

Isso está sendo experimentado por Trump pessoalmente, vendo como seus ataques brutais contra migrantes estão gerando uma reação poderosa de baixo. É também uma demonstração da importância de se levantar bandeiras democráticas (juntamente com bandeiras económicas ou sindicais) para lutar contra a extrema-direita

Uma lição que a esquerda revolucionária deve ter em mente para se situar no mundo de hoje e não cair em análises unilaterais que inevitavelmente levam ao pessimismo e ao ceticismo em relação à luta de classes.