Por Martin Camacho
Operação “Absolute Resolve” e o saqueio imperialista
O debate internacional sobre o petróleo da Venezuela voltou ao centro da cena política mundial após a ação direta dos Estados Unidos, que culminou na prisão do presidente Nicolás Maduro em uma operação extraterritorial sem respaldo no direito internacional. Apresentada por Washington como parte de uma suposta cruzada contra o “narcotráfico” e a “corrupção”, a ofensiva revelou, na prática, o velho repertório colonial do imperialismo norte-americano: criminalizar governos indesejáveis, violar soberanias nacionais e impor pela força uma reconfiguração política favorável aos seus interesses estratégicos. Essa ofensiva se insere no quadro mais amplo da chamada “nova ordem mundial” em gestação, que não corresponde a um sistema estável ou consensual, mas a um período de transição caótica marcado pela disputa aberta entre grandes potências pela redefinição de esferas de influência, territórios e recursos estratégicos. Em esta perspectiva as ameaças, ataques e intervenções estão a ordem do dia.
A operação militar dos Estados Unidos denominada “Absolute Resolve”, anunciada como realizada em 3 de janeiro de 2026 em Caracas, representou uma escalada aberta da estratégia norte-americana contra o regime venezuelano. Forças armadas e unidades de elite capturaram o presidente Nicolás Maduro e sua esposa, Cilia Flores, fora de qualquer jurisdição venezuelana, transferindo ambos para Nova York em um contexto de confronto político direto. Longe de expressar a força de uma ordem internacional consolidada, a ação expõe justamente a crise da antiga arquitetura geopolítica e o recurso crescente à coerção direta como mecanismo de reorganização do poder mundial.
Desde 2017, Washington vinha impondo sanções econômicas por meio do Departamento do Tesouro (OFAC), provocando uma queda abrupta da produção petrolífera venezuelana, de cerca de 3 milhões para aproximadamente 600 mil barris por dia. Essa redução atingiu o principal eixo da economia nacional, cuja geração de divisas sempre esteve concentrada no petróleo. O impacto das sanções comprometeu receitas estatais, agravou o colapso econômico e aprofundou a crise social. Esse tipo de cerco econômico funciona como instrumento estrutural da nova etapa da disputa imperialista, na qual bloqueios, sanções e estrangulamentos financeiros substituem — ou preparam — intervenções militares diretas.
O próprio governo dos Estados Unidos, sob o comando de Trump, deixou claro que a operação “tem tudo a ver com o petróleo”. Não se trata, portanto, de uma disputa moral ou jurídica, mas de um conflito material direto em torno do controle das maiores reservas petrolíferas do planeta. A prisão de Maduro não inaugura esse processo — ela apenas escancara um movimento histórico de longa duração, no qual sanções, bloqueios, sabotagens econômicas e agora a intervenção direta se articulam como parte de uma reconfiguração violenta da ordem mundial, ainda em disputa, na qual o imperialismo busca assegurar posições estratégicas diante do esgotamento do antigo equilíbrio global.
É a partir desse fato político concreto que se impõe a pergunta central: por que o petróleo da Venezuela é tão decisivo para os EUA a ponto de justificar uma agressão aberta à soberania de um país?
Formação geológica e centralidade política do petróleo
A formação do petróleo venezuelano começa muito antes do conflito político que hoje se desenrola em torno do país. Ela resulta de processos geológicos que se estendem por dezenas de milhões de anos e que ajudam a explicar por que esse recurso ocupa um lugar central nas disputas que estão em curso. Sua origem remonta ao Mesozoico, sobretudo ao Cretáceo Superior, entre aproximadamente 100 e 65 milhões de anos atrás, quando condições ambientais específicas permitiram a acumulação de grandes volumes de matéria orgânica nas áreas que hoje correspondem à Bacia de Maracaibo e ao leste do território venezuelano.
Nesse período, extensos mares rasos favoreceram o depósito contínuo de sedimentos marinhos ricos em algas, plâncton e microrganismos. Com o soterramento progressivo, essa matéria orgânica passou por três etapas ao longo de milhões de anos. Na diagênese, fase inicial, os restos orgânicos começaram a se transformar em uma substância rica em carbono, ainda sem a constituição do petróleo. Com o aumento da profundidade, da pressão e da temperatura, desenvolveu-se a catagênese, etapa em que essa matéria foi convertida em petróleo e gás natural, dentro da chamada janela do petróleo. Em profundidades maiores, a metagênese passou a degradar o petróleo, transformando-o predominantemente em gás.
Movimentos tectônicos posteriores, em especial o choque entre as placas Sul-Americana e Caribenha, ocorrido entre 65 e 30 milhões de anos atrás, produziram dobras, falhas e armadilhas geológicas que permitiram o aprisionamento do petróleo em grandes reservatórios. Na Faixa do Orinoco, o petróleo foi submetido a processos intensos de biodegradação, perdeu frações leves e adquiriu características de óleo pesado e extrapesado, com elevada viscosidade e maior concentração de carbono, enxofre e metais.
Essa origem geológica explica o elevado custo energético da extração e a dependência de infraestrutura industrial específica para sua transformação em combustível. Um recurso formado ao longo de milhões de anos passa a ser incorporado às cadeias produtivas controladas por poucas potências, ligando a história natural do território ao conflito político que se desenrola no presente.

A base material da cobiça dos Estados Unidos
O interesse dos Estados Unidos pelo petróleo venezuelano não decorre de escassez global de petróleo, mas de uma contradição estrutural da própria indústria energética norte-americana. O país figura entre os maiores produtores mundiais, porém sua produção concentra-se majoritariamente em petróleo leve e de baixo teor de enxofre, mais adequado à fabricação de gasolina.
O problema central está no parque de refino. Grande parte das refinarias norte-americanas, sobretudo as localizadas na Costa do Golfo do México, foi projetada ao longo do século XX para operar com petróleo pesado e ácido. A adaptação dessas unidades para processar predominantemente petróleo leve exigiria investimentos elevados e longos prazos de execução. Por essa razão, a indústria de refino dos Estados Unidos mantém uma dependência estrutural de cargas pesadas importadas.
Durante décadas, o petróleo venezuelano sustentou esse arranjo de forma contínua. A nacionalização do setor, o fortalecimento do controle estatal sobre a Petróleos de Venezuela S.A. (PDVSA) e, posteriormente, a imposição de sanções econômicas interromperam esse fluxo. A partir desse ponto, discursos centrados em democracia, combate à corrupção e transição política passaram a operar como justificativas ideológicas para um objetivo material preciso: restabelecer o controle sobre reservas estratégicas compatíveis com a infraestrutura industrial norte-americana.
Essa leitura encontra respaldo em análises críticas formuladas ainda no período inicial do chavismo. Em 2007, Roberto Sáenz observava que as reformas implementadas não ultrapassavam os limites do capitalismo. O projeto não assumiu um rumo anticapitalista e preservou a lógica de convivência entre capital privado e Estado. A deterioração posterior, aprofundada sob o governo Maduro, ampliou as fissuras internas e abriu espaço para a ofensiva imperialista. A crise doméstica passou a articular-se rapidamente às pressões externas interessadas em redefinir o controle sobre o setor energético.
As petroleiras na Venezuela: exploração, retirada e disputa pelo retorno
A história do petróleo venezuelano está marcada pela relação entre o Estado nacional e grandes corporações internacionais. Desde o início do século XX, a indústria foi organizada sob forte domínio estrangeiro, sobretudo de empresas norte-americanas e europeias. Esse arranjo permitia a extração com baixa tributação e retorno limitado para a economia nacional.
Até a nacionalização de 1976, companhias como a Creole Petroleum, vinculada à antiga Standard Oil, controlavam extensas áreas de exploração. A criação da PDVSA transferiu formalmente o controle do petróleo para o Estado venezuelano. Nos anos 1990, políticas de abertura ao capital estrangeiro ampliaram novamente a presença de multinacionais, em especial nos projetos de petróleo pesado da Faixa do Orinoco.
Esse movimento foi parcialmente revertido durante o governo de Hugo Chávez. O Estado passou a exigir controle majoritário da PDVSA nas joint ventures e elevou impostos e royalties. Essas medidas atingiram diretamente os interesses das grandes petroleiras internacionais e desencadearam uma retirada seletiva de empresas, processo intensificado posteriormente pelas sanções impostas pelos Estados Unidos.
Entre as companhias que deixaram o país, destacam-se a ExxonMobil e a ConocoPhillips. Ambas recusaram-se a aceitar as novas regras, tiveram ativos expropriados e iniciaram disputas em tribunais arbitrais internacionais. Esses litígios passaram a ser mobilizados politicamente por Washington como prova de expropriação indevida, alimentando a narrativa de insegurança jurídica.
Outras empresas europeias, como a Shell, reduziram ou encerraram suas operações ao longo dos anos seguintes. Grupos como Repsol e Eni mantiveram participação em projetos específicos, sobretudo no setor de gás natural, mas passaram a enfrentar bloqueios financeiros que dificultaram inclusive o recebimento de pagamentos da PDVSA.
Em contraste, a Chevron permaneceu operando na Venezuela por meio de licenças especiais concedidas por Washington. Essa exceção expõe uma contradição central da política norte-americana: enquanto impõe sanções que asfixiam a economia venezuelana, preserva a atuação de uma empresa considerada estratégica para seus próprios interesses industriais.
Paralelamente, empresas estatais ou semiestatais da Rússia e da China ampliaram sua presença por meio de joint ventures com a PDVSA, assegurando acesso ao petróleo em troca de financiamento, tecnologia e respaldo político. O setor petrolífero passou a funcionar como espaço de disputa entre potências, com diferentes projetos concorrendo pelo controle das maiores reservas do mundo.
Viabilidade produtiva e legalização da apropriação
A ofensiva das grandes petroleiras para “retornar” à Venezuela não se apoia em um projeto real de reconstrução produtiva do país, mas em uma tentativa explícita de transformar o saque imperialista em operação juridicamente blindada. As próprias declarações dos executivos revelam que, sem garantias estatais dos Estados Unidos, o negócio simplesmente não se sustenta. Os debates que se estão tendo denota que aprofundarão da suposta revolução bolivariana que muitas organizações de esquerda falavam de um novo socialismo não passava, mas de pequenas reformas. Mesmo depois das estatizações empresas privadas trabalham em parceria com PDVSA, Roberto Saenz reforça em esse sentido “…não se trata de que toda a economia venha a ser estatizada; as empresas estatais convivem lado a lado com as privadas… Dentro das empresas estatais — com ‘infrações’ aqui e ali — continua funcionando a lei do valor-trabalho.”
O CEO da ExxonMobil, Darren Woods, foi explícito ao afirmar que, nas condições atuais, a Venezuela é “ininvestível”. Sua fala deixa claro que o problema não é técnico ou geológico, mas político e jurídico: “Nós entramos na Venezuela pela primeira vez nos anos 1940 e tivemos nossos ativos confiscados duas vezes. Para entrar uma terceira vez, seriam necessárias mudanças muito relevantes em relação ao que vimos historicamente e ao estado atual do país.” E acrescenta, sem rodeios: “Se analisarmos os marcos legais e comerciais existentes hoje na Venezuela, ela é inviável para investimento.” O seja, as empresas querem lucrar muito e ter respaldo do roubo se algo não dar certo sair-se sem pagar um centavo.
O que Woods chama de “confisco” é, na realidade, a reafirmação da soberania estatal sobre o petróleo, materializada nas nacionalizações e na exigência de controle majoritário da PDVSA. Ao exigir “mudanças nos contratos comerciais, no sistema legal e nas leis de hidrocarbonetos”, a Exxon não está pedindo segurança jurídica — está exigindo a reversão dessas conquistas soberanas, ou seja, a legalização retroativa do roubo.
A mesma lógica aparece na fala do CEO da ConocoPhillips, Ryan Lance, que condiciona qualquer investimento à intervenção direta do Estado norte-americano no financiamento: bancos americanos, incluindo o Export-Import Bank, podem precisar participar do financiamento de investimentos em petróleo na Venezuela.
Ou seja: o “risco Venezuela” é alto demais para o capital privado. Sem dinheiro público, garantias diplomáticas e cobertura política de Washington, as empresas não entram. Isso desmonta a narrativa de que se trata de investimentos “naturais” de mercado: trata-se de operações politicamente tuteladas pelo imperialismo.
O caso da Shell é ainda mais revelador. Seu CEO, Wael Sawan, afirmou que a empresa está “pronta para avançar”, mas condicionou explicitamente qualquer passo à aprovação de licenças dos EUA: “Temos alguns bilhões de dólares em oportunidades de investimento, sujeitas à aprovação das licenças.”
Aqui, a soberania venezuelana sequer entra na equação. A autorização decisiva não viria de Caracas, mas de Washington. O petróleo da Venezuela passa a ser tratado como ativo sob jurisdição política dos EUA, mesmo antes de qualquer mudança formal de governo.
Já a Chevron aparece como o modelo preferido dessa nova etapa de espoliação “legalizada”. Seu vice-presidente, Mark Nelson, declarou que a empresa pode ampliar a produção em até 50% em dois anos, ressaltando que a Chevron já conseguiu aumentar a extração de 40 mil para 240 mil barris diários sob o regime de licenças especiais concedidas pelos EUA.
Trata-se da prova concreta de que as sanções não são um bloqueio geral, mas um mecanismo seletivo: estrangulam o Estado venezuelano enquanto preservam os interesses de empresas estratégicas norte-americanas.
O cinismo do processo fica ainda mais explícito quando o próprio presidente dos EUA afirma que a Venezuela já entregou 30 milhões de barris de petróleo ao país, ao mesmo tempo em que promete “ajudar” as empresas a operar.
Em síntese, não há viabilidade econômica autônoma para esse retorno das petroleiras. O petróleo venezuelano é pesado, exige refino caro, investimentos bilionários e estabilidade de longo prazo. O que torna o negócio “atraente” não é a rentabilidade em si, mas a possibilidade de impor pela força uma nova ordem jurídica, onde o saque seja reconhecido como direito e a soberania venezuelana, como obstáculo a ser removido.
A disputa atual não é, portanto, sobre “investir” ou não na Venezuela. É sobre quem paga os riscos, quem fica com os lucros e quem legitima o roubo. E as próprias palavras dos executivos deixam claro: sem o Estado imperialista dos EUA como fiador, o capital não entra.
A essa inviabilidade jurídica e política soma-se um fator decisivo, frequentemente omitido no discurso das petroleiras: o baixo preço internacional do barril de petróleo. Em um cenário de preços deprimidos ou instáveis, a exploração do petróleo venezuelano — majoritariamente pesado e extrapesado — torna-se ainda menos atrativa do ponto de vista estritamente econômico. Diferente do petróleo leve, o óleo venezuelano exige custos elevados de extração, diluição, transporte e, sobretudo, refino, consumindo mais energia e demandando investimentos bilionários em infraestrutura. Com o barril em patamares relativamente baixos, a margem de lucro se estreita drasticamente, o que explica por que as próprias empresas admitem que, sem garantias estatais, subsídios indiretos e proteção jurídica total, o negócio não fecha a conta. Em outras palavras: não é o mercado que puxa essas empresas de volta à Venezuela, mas a promessa de socialização dos riscos e privatização dos lucros, bancada pelo Estado imperialista norte-americano.
Energia fóssil, degradação ambiental e o gargalo estratégico do refino
Os impactos ambientais associados ao petróleo da Faixa do Orinoco decorrem diretamente de sua composição físico-química e da quantidade de energia necessária para torná-lo utilizável. Trata-se de um dos perfis mais intensivos em emissões da indústria petrolífera contemporânea. O alto teor de enxofre, a baixa proporção de hidrogênio e a elevada viscosidade do óleo aumentam significativamente as emissões de dióxido de carbono por barril produzido, fazendo com que a extração e o processamento do petróleo venezuelano figurem entre os mais poluentes do setor energético global.
A produção venezuelana também está entre as maiores fontes globais de emissões de metano, resultado da queima contínua de gás associado. Esse fenômeno foi intensificado por anos de desinvestimento, deterioração da infraestrutura e restrições econômicas severas, que ampliaram o desperdício de gás natural e agravaram o impacto climático da atividade petrolífera no país. O problema não se limita às emissões atmosféricas. Entre 2010 e 2016, a própria Petróleos de Venezuela S.A. (PDVSA) registrou oficialmente dezenas de milhares de derramamentos de óleo, afetando manguezais, rios, áreas costeiras e fontes de água potável. A interrupção posterior da divulgação sistemática desses dados não correspondeu à eliminação dos vazamentos: monitoramentos independentes continuam identificando ocorrências recorrentes, sobretudo nas regiões produtoras.
Esse padrão ambiental não é acidental. Ele resulta da combinação entre dependência extrativista, crise institucional prolongada e cerco econômico externo. Nessas condições, a atividade petrolífera deixa de operar apenas como fonte de receita estatal e passa a atuar como vetor permanente de degradação ambiental, concentrando danos ecológicos nos territórios produtores e aprofundando desigualdades regionais. No contexto da crise climática global, esse quadro ganha relevância adicional: apesar da crescente evidência dos limites ambientais do modelo energético vigente, as decisões políticas seguem orientadas pela expansão da produção fóssil, com a transição energética subordinada às exigências imediatas do capital. Sob o governo Trump, essa orientação tornou-se explícita, com a influência direta do lobby do petróleo sobre a política energética e a marginalização sistemática de considerações ambientais.
É nesse ponto que a disputa em torno do petróleo da Venezuela se desloca da extração para o refino, etapa decisiva da cadeia energética e um de seus principais gargalos estruturais. O petróleo bruto, tal como é extraído do subsolo, não possui utilidade direta. Sua incorporação ao sistema produtivo depende da transformação em combustíveis e derivados industriais por meio de processos complexos realizados em refinarias. No caso venezuelano, essa transformação é particularmente custosa, intensiva em energia, tecnologia e capital.
O refino consiste na separação e transformação de uma mistura extremamente complexa de hidrocarbonetos em frações comercializáveis — como gás, gasolina, diesel, querosene, lubrificantes e asfalto —, processo que ocorre principalmente de acordo com o ponto de ebulição de cada componente. Antes mesmo do refino propriamente dito, o petróleo passa por um pré-tratamento destinado à remoção de impurezas provenientes da extração, como água salgada, areia, argila e fragmentos de rocha, por meio de decantação e filtração, etapas necessárias para reduzir corrosão e preservar equipamentos industriais.
A etapa central do refino é a destilação fracionada, na qual o petróleo é aquecido a temperaturas próximas de 400 °C e introduzido em torres de destilação. À medida que os vapores sobem e se resfriam, os componentes se condensam em diferentes níveis conforme seus pontos de ebulição. No entanto, no caso do petróleo pesado e extrapesado, predominante na Venezuela, essa etapa inicial é insuficiente. Grande parte do material permanece como resíduo denso, exigindo a destilação a vácuo, que reduz a pressão interna da torre para permitir a separação de frações muito pesadas sem decomposição térmica.
Mesmo após essas etapas, o rendimento em combustíveis leves permanece limitado. Por essa razão, são empregados processos de conversão, como o craqueamento térmico ou catalítico, que fragmenta moléculas grandes em moléculas menores mais adequadas à produção de gasolina, diesel e GLP. Resíduos ainda mais pesados podem ser submetidos ao coqueamento, que reduz o excesso de carbono e produz coque sólido, enquanto libera frações líquidas aproveitáveis. O hidrocraqueamento, por sua vez, combina altas temperaturas, pressão elevada e hidrogênio para quebrar moléculas pesadas e remover impurezas como o enxofre, resultando em derivados de maior qualidade. Na etapa final, o hidrotratamento reduz contaminantes para atender às normas ambientais, elevando ainda mais o consumo energético do processo.
O conjunto dessas operações torna o refino do petróleo venezuelano estruturalmente mais oneroso e ambientalmente mais agressivo do que o refino de petróleo leve. É precisamente nesse ponto que o petróleo da Venezuela assume centralidade estratégica para a estrutura energético-industrial dos Estados Unidos. Muitas refinarias norte-americanas, especialmente na Costa do Golfo do México, foram projetadas para processar petróleo pesado importado. Na ausência desse tipo de carga, essas unidades operam com menor eficiência na produção de diesel e derivados industriais, gerando gargalos logísticos, elevação de custos e pressão sobre o transporte e a produção.
O problema central, portanto, não é a escassez global de petróleo, mas a compatibilidade entre a matéria-prima disponível e a infraestrutura de refino existente. Controlar o petróleo venezuelano significa controlar um elemento crítico desse sistema, com impacto direto sobre a eficiência industrial, a estabilidade da produção de combustíveis estratégicos e a reprodução do modelo energético fóssil. É por isso que o refino ocupa posição central na ofensiva imperialista sobre a Venezuela, articulando degradação ambiental, dependência tecnológica e disputa geopolítica em torno de um recurso formado ao longo de milhões de anos, mas consumido sob a lógica predatória do capitalismo contemporâneo.
A disputa geopolítica de fundo
Por trás do discurso sobre “transição política”, “segurança jurídica” e “retomada de investimentos”, opera um objetivo geopolítico central dos Estados Unidos: retirar o petróleo da Venezuela da órbita da China. Nas últimas duas décadas, diante do cerco econômico imposto por Washington, a China tornou-se o principal destino do petróleo venezuelano, além de financiadora estratégica do Estado venezuelano por meio de empréstimos, acordos de fornecimento e joint ventures com a PDVSA. Esse petróleo não circula livremente no mercado: ele funciona como ativo geopolítico, garantindo à China acesso estável a energia e reduzindo sua dependência de rotas e fornecedores controlados pelos EUA.
É exatamente isso que Washington busca desmontar. Ao capturar Nicolás Maduro, impor um novo arranjo político e prometer “abrir” o setor petrolífero às grandes corporações ocidentais, os EUA não pretendem apenas explorar o petróleo venezuelano, mas reorientar seus fluxos internacionais, deslocando exportações hoje destinadas à China para refinarias e mercados sob controle norte-americano. Trata-se de uma operação clássica de guerra econômica e energética, cujo objetivo é enfraquecer um concorrente estratégico global, ao mesmo tempo em que se reforça a própria base industrial e logística dos EUA.
Nesse sentido, a Venezuela aparece como peça-chave da disputa interimperialista contemporânea. Controlar seu petróleo significa não apenas garantir diesel, refino e margens de lucro para empresas estadunidenses, mas também interromper um elo energético vital da China, dificultando sua segurança energética de longo prazo. O petróleo venezuelano, formado ao longo de dezenas de milhões de anos, converte-se assim em instrumento imediato de disputa entre grandes potências — e a soberania do povo venezuelano é tratada, mais uma vez, como obstáculo descartável.
Geologia profunda, impasse histórico e ofensiva imperialista imediata
O petróleo da Venezuela expressa uma contradição estrutural de longa duração. Formado ao longo de dezenas de milhões de anos por processos geológicos lentos e irreversíveis, ele é submetido, no capitalismo contemporâneo, à lógica acelerada da acumulação, que converte recursos naturais em ativos financeiros a serem rapidamente explorados e apropriados, mesmo que isso implique devastação ambiental, destruição territorial e aprofundamento da desigualdade social. A temporalidade profunda da geologia entra em choque direto com a temporalidade curta, predatória e violenta do capital.
A prisão de Nicolás Maduro insere-se plenamente nesse contexto. Ela não decorre de qualquer preocupação humanitária, jurídica ou democrática, mas constitui uma ofensiva imperialista direta, orientada a restabelecer o controle norte-americano sobre um recurso estratégico fundamental à reprodução da indústria, do transporte e da logística dos Estados Unidos. Trata-se de uma operação de força que visa resolver, pela via coercitiva, aquilo que os mecanismos diplomáticos, econômicos e institucionais já não conseguiram assegurar.
Essa ofensiva, no entanto, não se sustenta apenas na pressão externa. Ela se apoia em limites reais da experiência política venezuelana. O chavismo, embora tenha promovido nacionalizações e ampliado o papel do Estado no setor energético, não rompeu com as relações capitalistas de produção nem construiu mecanismos duradouros de controle democrático da classe trabalhadora sobre o processo produtivo. A crise prolongada expôs essas fragilidades estruturais e ampliou a margem de manobra para a intervenção externa. Nacionalização não equivale a socialização, e soberania formal sobre recursos naturais não implica, por si só, ruptura com o imperialismo.
Na ausência de uma reorganização socialista da produção e de uma estratégia política independente da classe trabalhadora, o setor petrolífero permaneceu vulnerável tanto à burocratização interna quanto ao cerco externo. Esse duplo bloqueio — administrativo por dentro, imperialista por fora — criou um terreno fértil para que a crise econômica, energética e social fosse instrumentalizada como pretexto para uma nova forma de recolonização, agora centrada no controle direto das cadeias estratégicas da energia.
O conflito em curso, portanto, não se reduz à disputa pelo controle de um governo ou de um aparato estatal. O que está em jogo é quem decide sobre o destino de uma riqueza formada pela própria história geológica do planeta e em benefício de quais interesses sociais ela será utilizada. O petróleo venezuelano permanece como peça central da engrenagem imperial contemporânea, e a luta por seu controle recoloca, em escala internacional, a necessidade histórica de uma alternativa anticapitalista, socialista e internacionalista, capaz de enfrentar simultaneamente a dominação imperial, a crise ambiental e os limites das soluções meramente estatais.
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