Enormes protestos, liderados pela juventude, tomaram as ruas do Peru neste fim de semana. Assim como no Nepal e na Indonésia, nas mobilizações foi possível ver bandeiras com a imagem dos “chapéus de palha” de One Piece.
Peru: A geração Z toma as ruas contra a reforma da previdência e o crime organizado
30 septiembre, 2025
No fim de semana de 27 e 28 de setembro, a geração Z tomou as ruas do Peru para protestar contra uma reforma da previdência impulsionada pelo governo de Diana Boluarte e contra o crescimento desenfreado da violência do crime organizado.
A jornada incluiu bloqueios em importantes avenidas de Lima, capital do Peru, uma paralisação do transporte por 48 horas e a convocação para a chamada “Marcha da Geração Z”. A marcha seguiu em direção ao Congresso e ao Palácio de Governo, onde os manifestantes se depararam com um forte aparato repressivo.
As mobilizações do fim de semana foram encabeçadas por jovens trabalhadores e estudantes, que se uniram ao setor de transportes em protesto contra o aumento das extorsões. Desta vez, a manifestação se concentrou em Lima, mas a instabilidade política parece atravessar todo o país. De fato, em consequência dos protestos na região de Cusco, o acesso a Machu Picchu foi temporariamente fechado.
Nas faixas e cartazes podiam-se ler mensagens como: “Deixem-nos trabalhar sem medo”, “Não ao pagamento de propinas”, “Exigimos viver sem medo”, “Minha família me espera em casa” e “Não à morte, não à extorsão”. São expressões sintomáticas do mal-estar gerado pelo aumento da violência e da insegurança no país andino.
Durante a jornada de protestos, houve um confronto entre manifestantes e a polícia, que utilizou balas de borracha e gás lacrimogêneo, inclusive contra a imprensa que cobria as mobilizações.
Além disso, segundo informou a agência EFE, no sábado foram registradas 18 pessoas feridas, enquanto no domingo o número subiu para 26 feridos e seis detidos, incluindo um menor de apenas 14 anos.
Diante do cansaço com a pobreza e a violência, os chapéus de palha percorrem as ruas de Lima
Fazendo referência aos protestos na Indonésia e no Nepal, a geração Z se apropriou da bandeira dos “chapéus de palha” de One Piece como símbolo de luta contra um sistema que consideram corrupto.
De forma semelhante à rebelião na Indonésia, o anime — que narra a luta de um grupo de jovens contra impérios corruptos, poderes opressivos e genocidas — ressoa em uma geração que se sente aprisionada pelo saque. O cansaço gerado pela pobreza e pela violência transforma-se em gasolina que incendeia as ruas no país andino.
Uma das consignas unificadoras é a oposição à tentativa de Boluarte de reformar o sistema de aposentadorias, que continha os seguintes pontos:
- Aumento da idade mínima para solicitar a aposentadoria antecipada para 55 anos.
- Trabalhadores independentes terão de aumentar progressivamente sua contribuição ao sistema de pensões, começando em 2028 com 2% de sua renda.
- Quem tiver menos de 40 anos perde a possibilidade de sacar antecipadamente até 95% do valor da aposentadoria.
- Todas as pessoas maiores de 18 anos passam a ser obrigadas a se filiar a uma entidade de previdência, seja privada (AFP) ou pública (ONP). Caso não escolham em até 12 meses, a inscrição na ONP será feita de forma automática.
- Busca ampliar ainda mais a participação do setor privado no sistema de pensões; por exemplo, serão criadas novas comissões para as agências privadas.
A Reforma, impulsionada pelo governo, foi aprovada dias atrás pelo Congresso. Vale destacar que o governo de Boluarte está bastante debilitado, contando com índices mínimos históricos de apoio que, segundo algumas pesquisas, estão abaixo de 10%, enquanto no país se acumula uma enorme convulsão social.
O outro motor que impulsiona os protestos é a onda de violência extrema que atravessa o país. Entre janeiro e agosto deste ano, ocorreram 6.041 assassinatos, o número mais alto para o mesmo período desde 2017. A isso se soma o aumento das extorsões do crime organizado, já que, no mesmo intervalo de tempo, foram registradas 18.385 denúncias de extorsão, um incremento de 29,3% em relação ao mesmo período de 2024.
A violência chega a tal ponto que as “advertências” dos extorsionistas consistem em provocar explosões em casas, no transporte público, em restaurantes e até em escolas. Esses ataques, somados aos homicídios, afetam de maneira mais dura os setores trabalhadores e os bairros periféricos.
As modalidades de extorsão vão desde o chalequeo (cobrança de dinheiro em troca de segurança), os cupos (pagamento obrigatório para poder desenvolver uma atividade econômica) ou o “gota a gota” (empréstimos a juros exorbitantes). Esta última modalidade se alimenta da informalidade — que chega a 73% no Peru — e da impossibilidade de acesso ao crédito formal, motivo pelo qual é comum que muitos acabem recorrendo a esse tipo de extorsão.
O desembarque dos “chapéus de palha” na América Latina evidencia a potencialidade de que a luta de classes na região se dinamize, em grande medida como resposta ao crescimento da pobreza e à degradação das condições de vida de amplos setores da população. Tanto no sudeste asiático quanto no Peru, a ideia de lutar pela perspectiva de um futuro melhor começa a ganhar força entre a juventude, cada vez mais submetida a condições de precarização do trabalho.











[…] Peru: Os chapéus de palha desembarcam na América Latina por Sthefany Zuniga […]