Por Federico Dertaube

Este artigo é uma versão desenvolvida e atualizada de “Zohran Mamdani: como um “socialista” ganhou a candidatura democrata para prefeito de Nova York.

A notícia impacta o mundo com razão. São poucas as eleições municipais que podem ter alcance global. Algo assim é, por sua própria natureza, excepcional. Essa excepcionalidade acaba de ocorrer na cidade de Nova York. O resultado eleitoral na Big Apple tornou-se motivo de debate internacional porque tem impacto em todas as disputas abertas no mundo.

A notícia ridiculariza aqueles que vêm anunciando o fim de toda esperança no mundo de Trump. Agora, sem levar em conta sua insistência em nunca estar certo, eles provavelmente apoiarão acriticamente o protagonista do terremoto político da cidade de Nova York.

Zohran Mamdani não derrotou apenas o candidato “independente” Andrew Cuomo. O movimento que o tem como candidato desferiu um duro golpe em todo o establishment político do imperialismo ianque.

Mamdani é de origem indigena e nasceu em Uganda, é muçulmano e sua plataforma de campanha foi explicitamente “socialista”. Tudo isso rompe com os limites que o sistema político imperialista ianque poderia permitir. Em Nova Iorque, acaba de surgir um movimento político clandestino que vinha sendo gestado em todos os Estados Unidos há muito tempo. A única razão pela qual se podia fingir que não existia é pelo poder de ocultá-lo (e esmagá-lo) do establishment democrata.

O ato após a vitória

Os interessados queriam apresentar as profundas mudanças na política estadounidense como um mero giro à direita. Assim, os democratas e seus porta-vozes do New York Times podiam culpar as pessoas trans pela derrota de Kamala Harris e justificar que tenha repetido descaradamente os clichês da campanha xenófoba de Trump.

A realidade, nos Estados Unidos e no mundo, é mais complexa. O certo é que, enquanto setores da população giram para a extrema direita, setores das massas também começam a se radicalizar pela esquerda. O panorama eleitoral internacional mostrava um mapa cada vez mais inclinado para a direita. Muitos se deixaram impressionar e colocaram a marca de sua própria desmoralização no prisma através do qual veem o mundo. Sim, o fenômeno da extrema direita vem sendo protagonista da situação internacional, com Trump à frente.

E agora, nada menos que Nova York será governada por um “socialista”. Muitas questões se abrem, e a mais importante é: Mamdani poderá e desejará sair da política institucional americana? Não há outra maneira de ele tomar alguma das medidas prometidas sem contar com o apoio da mobilização de sua base eleitoral. Ele não pode cumprir nenhuma das expectativas que se criaram de outra forma.

Mapa: New York Times

As esperanças despertadas são muitas. Mamdani é o primeiro prefeito de Nova York a ganhar com mais de um milhão de votos desde 1969. A participação eleitoral disparou. Quase dobrou devido ao registro maciço de novas gerações para poder votar no agora prefeito eleito.

Uma cidade global no olho do furacão internacional

Seu peso econômico e cultural é tão óbvio que ninguém precisa de explicação. Praticamente não há pessoa mais ou menos alfabetizada que não tenha uma imagem mental mais ou menos clara da cidade. Nova York é também a segunda cidade economicamente mais importante do mundo, atrás apenas de Tóquio.

O conceito de “cidade global” provavelmente não tem encarnação mais perfeita no mundo de hoje do que Nova York. Todos os progressos e misérias de nossa era têm seu lugar lá. A rua Wall Street é a maior sede internacional das finanças e concentra, assim, algumas das alavancas fundamentais da direção da economia capitalista internacional. Provavelmente não é exagerado dizer que Nova York é a principal sede da condução da economia global. O que há de mais concentrado nas finanças internacionais opera em Nova York. Foi entre as elegantes paredes de sua Bolsa que se desencadeou o crash de 1929, que marcou mais de uma virada na história universal, com a ascensão do fascismo, da resistência operária internacional e do Estado de Bem-Estar Social.

Mas não se trata apenas de Wall Street e seus milionários. Outra imagem popularizada por um século de cinema é a de um navio se aproximando da cidade para se encontrar com a Estátua da Liberdade. Essa é uma das ideias mais importantes do imperialismo ianque em seu século de esplendor. Quem se aproxima de Nova York é um imigrante, que está prestes a encontrar a terra das oportunidades. A nova hegemonia da xenofobia exclusivista entre os conservadores e nacionalistas estadounidenses é um dos sintomas mais claros da decadência da hegemonia dos Estados Unidos.

Nova York não abriga apenas grande parte da direção econômica mundial, mas também tem em suas ruas e bairros praticamente todas as culturas do mundo. Trinta e sete por cento de sua população não nasceu nos Estados Unidos. Não há uma única etnia que possa ser considerada claramente majoritária. 37% são “brancos”, 29% hispânicos e 14% asiáticos. Há bairros inteiros ou partes de bairros para cada nacionalidade, em uma cidade que também é profundamente segregada.

Milhões de pessoas de todas as nacionalidades, falantes de dezenas de idiomas, trabalham perto da tomada de decisões econômicas que envolvem todas as nacionalidades e falantes de centenas de idiomas. E, durante muito tempo, assim como os próprios Estados Unidos, parecia um emblema de estabilidade, uma fortaleza inexpugnável dos “valores” do imperialismo ianque. Com a eleição de Mamdani, o conservadorismo clássico e inabalável da cidade parece desaparecer; e todas as disputas políticas internacionais poderiam se concentrar em seus poucos quilômetros quadrados.

«No Kings» na praçaTimes Square, Nova York. Foto: AP

À sombra das finanças, uma burguesia de menor alcance e influência também faz negócios imensos. No entanto, devido ao volume de negócios da cidade, seus representantes são ainda  assim magnatas muito poderosos. E entre eles estão aqueles que representam uma faceta cultural mais decadente da classe dominante dos Estados Unidos. São capitalistas que não conseguem demonstrar criatividade e inovação, que representam a influência cultural do luxo e do desperdício. São os milionários da revista Playboy e do champanhe, são parasitas do topo da sociedade capitalista com imenso poder sobre a vida dos outros. Donald Trump e Jeffrey Epstein são representantes clássicos dessa burguesia nova-iorquina.

De um lado está o máximo representante da extrema direita global. Ele é de Nova York. Do outro, um movimento político militante de base trabalhadora de massas. Eles também são de Nova York. E Nova York é o terreno de sua disputa.

As razões fundamentais da polarização nos Estados Unidos

Em novembro do ano passado, diante da vitória de Trump, afirmávamos:

 “Os dados são claros: para a maioria dos trabalhadores americanos, todo o ‘progresso’ parou. Para muitos, as coisas pioraram. E isso se deve a uma combinação de motivos. Primeiro, e mais importante, as derrotas do movimento operário da ‘era neoliberal’. Não é por acaso que a estagnação dos salários acompanha a queda da filiação sindical. Segundo, agora os salários americanos competem mais diretamente com os do resto do mundo. Terceiro, como consequência dos dois anteriores, perderam-se postos de trabalho em locais de tradição sindical, enquanto se criaram outros “virgens” de organização. Os grandes armazéns da Amazon (que são, em termos marxistas, empregos “industriais” produtores de valor) estão localizados principalmente em cidades e estados com menor presença sindical tradicional.”

Staunton, USA

E depois: 

“A situação dos trabalhadores das grandes cidades, como já dissemos, também está estagnada ou pior do que antes. Mas isso ocorre no contexto do crescimento geral e da expansão cultural dessas áreas. Lá, apesar de tudo, parece haver futuro. Não é o caso da maioria das “comunidades” em áreas não favorecidas pela globalização. Não só seus rendimentos ficaram estagnados, como também os laços sociais e econômicos, junto com as perspectivas de futuro.”

Protestos de trabalhadores de “fast food” em Nova Iorque, 2021

O voto em Trump foi um voto de protesto ultrarreacionário, o voto em Mamdani é um voto de protesto girado à esquerda. Com a decadência imperial dos Estados Unidos e da era neoliberal, as maiorias populares perderam. Nas áreas culturalmente mais atrasadas e economicamente menos prósperas, a reação é uma tentativa de “retornar” a um passado idealizado e perdido. O slogan “MAGA” acerta em cheio nesses setores. Nas grandes cidades, há muito tempo vem ocorrendo uma radicalização pela esquerda. Em particular entre a base democrata.

Uma pesquisa da Gallup descobriu em 2018 que 57% dos “progressistas” nos Estados Unidos preferiam o “socialismo” ao capitalismo. Já naquela época, tratava-se de uma reviravolta ideológica incomum no país que foi o centro do anticomunismo durante a Guerra Fria. O fato é que nenhuma das promessas da era neoliberal foi cumprida. A “vitória sobre o comunismo” não deixou nem migalhas para a grande maioria da população. Nos Estados Unidos, a situação para os trabalhadores havia piorado.

Há muito tempo que se vem gestando um fenômeno como o de Mamdani. Em 2018, já havia ocorrido a surpresa da ascensão de Alexandra Ocasio Cortez, também em Nova York, uma mulher trabalhadora de ascendência latina. Ambos são militantes do DSA, Democratic Socialists of America. Essa organização cresceu rapidamente após a primeira vitória de Trump. Se há dez anos contavam com apenas 6 mil membros, hoje dizem ter cerca de 80 mil.

Mas, embora esse triunfo tenha começado a ser cozinhado em fogo baixo, o toque final foi dado pela repulsa ao governo de Donald Trump. As caçadas racistas do ICE são o emblema de um avanço racista brutal que está recebendo resposta. Primeiro nas ruas e agora nas urnas.

Não há nada que o novo prefeito possa fazer que não se transforme em um confronto. Trump já ameaçou afogar financeiramente a cidade para subjugar o novo governo municipal. Inclusive ameaçou deportar Mandami.

A derrota de todo o establishment imperialista, o triunfo de uma campanha militante

O esvaziamento das antigas organizações de massa é um fenômeno internacional. Até pouco tempo atrás, as organizações políticas, sindicais, sociais e culturais reuniam dezenas e centenas de milhares de pessoas em atos, festivais, reuniões políticas grandes e pequenas, eventos culturais. A organização civil da vida política perdeu peso. Essa foi uma das consequências da derrota da “era neoliberal”. A vida civil cultural, informativa, política e de entretenimento, antes protagonizada por organizações de massa, foi em grande parte absorvida pelo lucro das empresas privadas.

Até há pouco tempo, não parecia haver contrastes com o esvaziamento das organizações políticas. Quase nenhum dos principais fenômenos eleitorais e políticos das últimas décadas fazia parte de algum grande fenômeno de organização política militante. É o caso das principais decepções da “esquerda radical” da última década, os fiascos do Podemos na Espanha e do Syriza na Grécia. Ostentando sua “superação” do marxismo e da esquerda clássica, eles não acreditavam precisar de nenhuma organização de massas.

Mobilização de “Vozes Judaicas pela Paz” em Nova York contra o genocídio na Palestina.

O fracasso de seu neorreformismo tíbio não se explica apenas pela capitulação de seus dirigentes. O que mais poderia acontecer quando os representantes da “esquerda radical” têm votos, mas nenhuma outra ferramenta de governo além do aparato do Estado burguês, que é maior e mais poderoso do que eles? É claro que não podiam fazer outra coisa senão se curvar à vontade e aos interesses desse Estado. Não lhes damos nenhum benefício da dúvida: não só não podiam, como também não queriam. Pablo Iglesias e Tsipras merecem ser esquecidos.

Há uma diferença importante entre Mamdani e esses dois fracassos. De acordo com sua página oficial, mais de 104 mil voluntários militavam na campanha, com o núcleo duro de milhares de militantes do DSA. Mas pelo menos centenas de seus primeiros “voluntários” vêm da militância sindical que apoiou sua campanha, do sindicato dos professores, dos trabalhadores automotivos, das babás, dos hotéis e dos jogos de azar.

Foi essa organização militante que derrotou os dois partidos do regime. Em junho, Mandami havia vencido as primárias democratas e se apresentou formalmente em nome desse partido. Mas seu establishment não aceitou o resultado e apoiou quase que completamente Cuomo, colocando seu aparato à disposição da lista “independente”. No último momento, Trump tentou ajudar os democratas e pediu à sua base que não votasse no candidato republicano. Ambos foram derrotados.

Os partidos do velho reformismo tornaram-se cascas vazias. Eles são compostos apenas por funcionários profissionais da administração do Estado capitalista. É o caso do PSD alemão, do PD italiano, do PS francês, etc. O neorreformismo nunca confiou na organização das massas e pensava substituí-la por coisas como pesquisas pela internet.

O fenômeno que se colocou em pé em Nova York parece mais uma nova-velha social-democracia. A “velha” e clássica social-democracia era muito mais do que se entende hoje por esse nome. Os partidos social-democratas eram, em sua maioria, organizações políticas operárias de massa, verdadeiras forças independentes da classe trabalhadora. Sua história é complexa: em parte, se dividiram entre reformistas e revolucionários após a Primeira Guerra Mundial. Não é demais lembrar o nome completo do partido bolchevique no momento em que liderou a Revolução Russa (embora Lenin já tivesse tentado mudá-lo meses antes): Partido Operário Social-Democrata Russo. Mas também eram “social-democratas” os traidores da Alemanha.

As novas gerações da classe trabalhadora deram os seus primeiros passos organizando-se sindicalmente. Emblematicamente, na Amazon e na Starbucks. Foi um ativismo como esse que pôs em pé a campanha vitoriosa em Nova Iorque.

Bernie Sanders estava certo quando disse que:

não devemos nos surpreender que um Partido Democrata que abandonou a classe trabalhadora descubra que a classe trabalhadora o abandonou”. 

O fato de ele estar certo, no entanto, não foi obstáculo para que ele se alinhasse ao fracasso de Biden por quatro longos anos.

A vitória de Trump deixou os porta-vozes de Biden, Clinton e Harris perplexos. Como era possível que os democratas tivessem perdido tantos votos entre os trabalhadores, os latinos e os muçulmanos, tendo como adversário um candidato tão abertamente anti-operário e xenófobo? É claro que culparam o povo. Os americanos são racistas, diziam. Os “progressistas” foram longe demais com a “agenda trans”, diziam.

Em nenhum momento lhes ocorreu dizer algo que fosse verdade: que Biden decepcionou completamente as esperanças abertas em 2020, quando fez campanha dizendo que seria o “presidente mais progressista da história dos Estados Unidos”, quando prometeu aumentar o salário mínimo, quando quis se apresentar como candidato da classe trabalhadora. Diante da decepção e do giro da campanha eleitoral para a direita, eles próprios optaram por se mover ainda mais para a direita. A campanha eleitoral de Harris não teve outra promessa econômica além de créditos para pequenas empresas. Além disso, ela se dedicou a repetir as infâmias anti-imigrantes de Trump, com seu racismo e ódio.

Em novembro, no mesmo artigo, afirmávamos também:

A Pensilvânia era um dos estados-chave para definir a presidência quando se pensava que a eleição seria mais disputada. A revista Jacobin realizou uma pesquisa entre os trabalhadores do estado que levou a uma conclusão muito clara. As propostas de “populismo econômico” tinham muito mais popularidade do que a campanha de “defesa da democracia”.

Os eixos de campanha de Zohran Mamdani que lhe deram a vitória evidenciam que a agenda da classe trabalhadora tem muita popularidade. Não é que a cúpula do Partido Democrata não o entenda, é que eles são um partido do imperialismo ianque e de sua burguesia.O entendem muito bem e decidem combatê-lo. São inimigos da classe operária. E parte desse combate contra os interesses da maioria popular é a insistente campanha de que nada radicalizado contra a classe capitalista é possível. O apelo ao “realismo” é uma mentira interessada.

Alguns dos pontos mais importantes da campanha de Mamdani foram:

  • Congelamento dos aluguéis.
  • Serviço de ônibus público gratuito
  • “Segurança comunitária” em oposição ao poder repressivo da polícia.
  • Cuidados infantis gratuitos.
  • Lojas de alimentos de propriedade da cidade.

.Além disso, propuseram aumentar o salário mínimo e financiar programas sociais aumentando os impostos sobre os grandes ricos e capitalistas. Desses que abundam em Wall Street. A campanha centrou-se em permitir que os trabalhadores possam pagar para viver em Nova Iorque, uma das cidades mais caras do mundo.

Andrew Cuomo, o candidato do establishment apoiado pelos Clinton contra Mamdani, foi governador democrata do estado e teve que renunciar em 2021 por vários casos de denúncias de assédio sexual. Além disso, sua gestão foi de pura continuidade neoliberal e ataques permanentes à classe operária. Com todo o apoio do aparato democrata, com o financiamento de bilionários através do “super PAC”. Sua derrota é uma derrota de todo o establishment democrata.

Não se trata apenas do fracasso nacional de Biden e Harris, mas também da vergonhosa gestão do atual prefeito da cidade, Eric Adams. Ele tentou (e falhou) se apresentar como “independente” por não poder mais ser candidato democrata depois de se envolver em denúncias de corrupção. Além disso, decidiu se aliar a Trump e permitir que Nova York se alinhasse às políticas de detenções ilegais fascistódes dos imigrantes.

Em oposição ao aparato, se pôs de pé uma campanha militante com milhares de voluntários que conseguiram superá-lo e agora colocaram Mamdani à frente da cidade mais importante dos Estados Unidos.

Seria um grave erro, de qualquer forma, perder de vista o histórico de capitulações de Bernie Sanders e AOC. Fazer parte do Partido Democrata significou para eles alinhar-se com o aparato.

Uma vitória para a causa palestina e a luta contra o racismo

Ser “muçulmano” e ativista político nos Estados Unidos tornou-se um sinal de “progressismo”. Já existia uma figura pública do DSA que é a mais radicalizada de todo o Partido Democrata: a palestina Rashida Tlaib. Tentam fazer uma interpretação modernizadora e democrática do Islã.

Seria próprio de sectários contentarmo-nos com discussões teológicas de defesa abstrata do ateísmo. Esse fenômeno é uma reação ao racismo e à islamofobia, que são a marca registrada do neofascismo: a islamofobia é o novo antissemitismo. Essas coisas não são novas nos Estados Unidos: Martin Luther King Jr. era, afinal, um pastor cristão.

Nova York – 25 de abril: estudantes da Universidade de Columbia contra o genocídio em Gaza. Foto: Stephanie Keith/Getty Images

Os democratas foram aliados incondicionais do genocídio em Gaza. A rejeição ao que é cada vez mais evidentemente uma limpeza étnica colonial e a um governo cada vez mais evidentemente fascista como o de Netanyahu finalmente encontra uma expressão política. Ao contrário da tibieza de AOC e Sanders, Mamdani denuncia claramente como “genocídio” o massacre em Gaza e até fez parte de sua campanha em urdu, um idioma indo-ariano. Não apenas a campanha, mas sua própria identidade é um fato político. E o voto democrata majoritário a seu favor é um voto de protesto contra o racismo e o genocídio.

Além disso, Zohran Mamdani incluiu em sua campanha a reação militante às batidas anti-imigrantes do ICE. A vitória em Nova York é uma radicalização contra o racismo brutal de Trump.

Zohran Mamdani e os limites do “populismo de esquerda

“Populismo” tem sido uma definição abrangente nos últimos anos para qualquer coisa que saia dos padrões da “normalidade” e tenha alguma figura carismática à frente. Seja de “esquerda” ou de “direita”.

Agora vem um teste fundamental: a gestão da prefeitura da cidade. Se o “socialismo em um único país” é impossível, mais impossível ainda é o “socialismo em uma única cidade”. Não pretendamos que a prefeitura de Nova York seja um exemplo de sociedade emancipada das correntes da opressão capitalista. Podemos pretender que seja uma fortaleza de resistência e confronto com a extrema direita no poder, que passe por cima da institucionalidade que acaba de derrotar para poder efetivamente tomar alguma medida em favor da vida da maioria trabalhadora. O povo que votou neles lhes deu um mandato, e eles merecem o direito de exigir que o cumpram.

Há muitas coisas superficiais em comum entre Trump e Mamdani. Ambos venceram contra o establishment de seus partidos, ambos triunfaram dizendo coisas que o sistema político não queria dizer. Mas aí terminam as semelhanças, que são em geral superficiais. Trump é um magnata ultrarreacionário. Seu programa coincide plenamente com sustentar (e piorar) a ordem capitalista, da classe dominante que tanto democratas quanto republicanos representam. A defesa da classe trabalhadora e o anti-imperialismo colidem diretamente com todos os interesses fundamentais das instituições e de seus chefes.

O problema do reformismo é que ele aceita a institucionalidade vigente, o que implica adaptar-se às regras do jogo dos donos do mundo. Assim, eles se assemelham à burguesia inglesa whig do século XVIII, que queria fazer valer seus interesses, mas acreditava que a aristocracia latifundiária era a única capaz de governar.

O “populismo de direita”, por outro lado, tentou repetidamente desafiar a democracia burguesa, girar para regimes mais autoritários, passar por cima das instituições e seus representantes. Foi assim, e somente assim, que conseguiram impor sua agenda internacionalmente. É que figuras como Trump se sentem chefes da sociedade. Os reformistas, por outro lado, se posicionam como “funcionários” das instituições. Assim, por exemplo, Trump lutou e venceu frente as tentativas de prendê-lo por seus crimes flagrantes. Enquanto isso, figuras como Lula (que já nem é mais reformista) se entregam à “Justiça” em causas evidentemente forjadas. Se seguir os passos do reformismo e do ex-reformismo das últimas décadas, Mamdani só pode ser um fiasco.

Essa “moderação” é o primeiro passo para a capitulação. As instituições do capitalismo só podem servir aos capitalistas. E governando apenas por meio delas, sem ultrapassá-las, forças como Syriza e Podemos acabaram se tornando partidos de gestão capitalista ultra normalizados. A decepção com eles foi o prelúdio da ascensão internacional da extrema direita. Mas Zhoran Mamdani tem um movimento militante que o levou à prefeitura e que pode crescer exponencialmente com a vitória. Não depositemos nossas esperanças em um governo “socialista democrático” de Nova York. Sim, na força militante da classe trabalhadora, antirracista e anti-imperialista, que acaba de demonstrar que pode se tornar uma organização política e ser maioria com a bandeira do “socialismo”.