O fechamento das chapas para as eleições na província de Buenos Aires foi caótico, confuso e precário. Um reflexo do acúmulo de problemas que compõem uma situação pré-crise que coloca em dúvida as condições de governabilidade de um país ingovernável.
Por Maxi Tasán
No fim de semana retrasado (14 a 20 de julho), encerrou-se a apresentação das chapas eleitorais para as eleições na província de Buenos Aires em 7 de setembro. Um fechamento caótico, confuso e precário, com as chapas principais mostrando disputas internas e fissuras, enquanto uma população perplexa sente que seus interesses não estão contidos nessas disputas.
Concentraram-se aqui toda uma série de problemas que mostram que o país está passando por uma conjuntura de “pré-crise” ligada a uma série de questões não resolvidas, e que também não está claro se as eleições também as resolverão: Que resultado o governo obterá? Em caso de vitória, será suficiente para realizar as tarefas pendentes? Se não conseguir volume político suficiente, para onde vai o país? Quanta legitimidade terão as eleições? Se o mileísmo falhar, o que vem a seguir?
O que está em causa são as condições de governabilidade de um país ingovernável.
Internas, “castas” e apagões: a crise estratégica do país burguês
Os elementos de crise expressos no fechamento das chapas têm várias determinações, mas uma fundamental: a incerteza da burguesia política e econômica sobre se o governo de Milei tem perspectivas sustentáveis.
Em linhas gerais, concordam com o plano de Milei, consideram que ele tem vontade de enfrentar as transformações necessárias para deixar o país mais em sintonia com o mundo, etc. No entanto, eles têm afirmado em voz alta que, para que isso se materialize, o governo deve tender a algum grau de abertura que gere uma hegemonia maior e se converta em estabilidade política.
É aqui que eles olham de soslaio para o mileísmo. E as últimas semanas não foram muito animadoras: as divergências com os governadores sobre os fundos para as províncias terminaram com uma votação parlamentar de 6 a 0, que põe em questão o excedente fiscal, mas fundamentalmente o controle do Congresso; a ruptura com Villarruel como problema institucional e político; o deslocamento do armamento eleitoral das “Forças do Céu” de Santiago Caputo, etc., são sinais em sentido oposto. Mesmo no fechamento de chapas, embora consiga absorver um setor do PRO, a “caneta de Karina” deixou de fora outro setor que acaba convergindo para o Somos, uma armação eleitoral bastante eclética, mas com algum peso territorial que não está claro a quem causa mais danos, se ao mileísmo ou ao peronismo.
A vocação de “construir partido” do mileísmo se choca com a necessidade de ampliar as bases de apoio ao seu projeto, e leva a 27 de outubro, um dia após as eleições. Mesmo que vença, terá força suficiente para realizar a contrarreforma trabalhista, previdenciária e fiscal e a liberação total dos bloqueios?
Essa dúvida não é apenas sobre o futuro, mas tem suas reverberações na situação atual, e se expressa fortemente no campo econômico. O governo promoveu um aumento acentuado das taxas de juros de curto prazo para apaziguar a alta do dólar diante da preocupação do mercado, que tem impacto negativo na atividade econômica. Enquanto isso, o FMI alertou sobre o nível criticamente baixo de reservas, que estão negativas em 6000 milhões de dólares. Aqui, o Fundo coloca o dedo na ferida quando afirma: “A avaliação externa está sujeita a uma incerteza excepcionalmente alta e depende da implementação de reformas estruturais que aumentem a competitividade e a produtividade“. O governo está amarrado com todas as suas forças ao movimento de reduzir a inflação, enquanto o resto das variáveis econômicas saltam como cordéis esgarçados, e o FMI exige contrarreformas e reservas para pagar a dívida.
Enquanto isso, o peronismo, o grande partido de Estado da Argentina, também passou pelo fechamento com discussões sérias que até levantaram a possibilidade de uma ruptura. Levaram mais de 36 horas de negociação, em meio a quedas de energia. No final, nenhum dos setores se atreveu a dar o passo, porque ambos têm muito a perder: o kirchnerismo entende que, sem unidade, fica frustrado seu plano de um novo governo peronista para assumir o cargo em 2027 para perdoar Cristina; kicillofismo deve governar a província por mais dois anos. No meio ficou uma “tenda de feridos” e uma base de eleitores e simpatizantes que assistiam horrorizados como a “opção contra Milei” sangrava ao vivo e em cores.
No entanto, a disputa interna entre esses dois setores (com Massa como mediador) expressa a discussão sobre as condições de possibilidade de construção de um peronismo que substitua Milei em 2027. O “tocar novas canções” de Kicillof é uma forma “poética” de avançar em direção a um peronismo atualizado, que se apresente como renovador e confiável para a burguesia, que não questiona o direito de propriedade e que não retroceda em relação ao que foi conquistado com o mileísmo. Para essa tarefa, a trajetória de Cristina a inviabiliza: para além do tímido e ultralight de sua gestão, a burguesia quer garantias de que nenhum governo intervirá nem um pouquinho em seu direito de explorar o país, seus recursos e à população trabalhadora.
Para somar a esse cenário de chiqueiro e degradação institucional, as candidaturas testemunhais do peronismo (colocando os prefeitos à frente das chapas municipais, e até a vice-governadora à cabeça da Terceira Seção); as listas de funcionários, cabeças de chapa e personagens de origem duvidosa da LLA; a “violetização” de setores do PRO para manter os cargos, dão conta de uma eleição provincial onde pretendem dar prioridade ao peso dos aparatos territoriais.
Agitação social e luta de classes
Outra dúvida que surge é como tudo isso impactará uma sociedade que olha com desconfiança para um processo eleitoral que não vai resolver seus interesses imediatos: a queda dos salários, a precarização do trabalho, a pobreza, o desemprego.
Uma pesquisa recente do Zuban Córdoba y Asociados indica que a desaprovação da gestão do governo é de 57% e que, no último ano, a identificação com o mileísmo caiu 8 pontos (de 53% para 45%). Mas ainda mais sintomático é que 52,8% têm como objetivo da eleição punir o governo, enquanto 55% acreditam que “Milei representa um perigo para a sociedade“.
O fato é que, apesar da tentativa de canalizar as pressões sociais de forma eleitoral e da contenção do peronismo, a Argentina é um país mobilizado. Somente nos últimos meses, experimentamos grandes mobilizações em apoio aos aposentados (com seu pico em 12 de março que terminou em um confronto com as forças de segurança), ao Garrahan, aos médicos residentes, entre outros.
A agitação social e a degradação das condições de vida, no calor de uma crise econômica que se agrava a cada dia, podem ter alguma expressão eleitoral ou, eventualmente, emergir na forma de conflitos durante ou após as eleições.
A combinação entre luta de classes e eleições pode ter expressões variadas, ciente de que a conjuntura não é a de 2023: naquela época, o regime político como um todo trabalhou para girar à direita, superestruturando a crise e abrindo caminho para Milei, que era a novidade das eleições.
Este 2025 parece diferente: o governo carrega sobre os ombros um ano e meio de ataque aos debaixo, sem ter conseguido impor uma derrota, e inclusive várias vezes tendo que recuar. A burguesia gosta de Milei, mas não confia que ele tenha a capacidade de construir as ferramentas e os recursos para realizar o que propõe. O “plano” econômico se esgarça de modo proporcional ao aumento dos impostos. O peronismo, com sua líder presa, não consegue reorientar um projeto claro que contenha as preocupações da burguesia e as aspirações dos setores de massa que ela representa. São muitas pontas soltas para resolver em uma eleição.
Vamos promover a chapa de Manuela Castañeira e uma solução anticapitalista
Nesse contexto, a esquerda tem a responsabilidade de se propor como alternativa política para disputar a agitação social e oferecer uma saída para a crise do país. Lamentavelmente, mais uma vez, a FITU recusou. A unidade da esquerda poderia ter sido uma imensa novidade em um cenário eleitoral de tanta incerteza. A FITU mais uma vez priorizou seus interesses de cooperativa eleitoral, de cargos e rotações, de rotina parlamentar. De fato, a campanha do PTS “A oposição que não transige“, apresenta-o muito como um ator dentro do regime, sem elementos de ruptura e saída para a crise, e sem tomar nenhuma reivindicação ou demanda que venha dos de baixo.
De qualquer forma, seguiremos insistindo com vistas às eleições de outubro, porque consideramos que devemos construir uma esquerda no auge da crise do país.
Mas para isso é necessário fortalecer e apoiar o Nuevo MAS, a chapa de Manuela Castañeira, que nestas eleições nos apresentamos com uma proposta de renovação da esquerda com novas referências e um Manifesto Anticapitalista com uma série de medidas concretas para reverter o colapso econômico da Argentina.
O início da campanha nos coloca em um bom ponto de partida, dado que a suspensão das PASO dá a medida real da existência de dois setores à esquerda, fato que muitas vezes foi ocultado por esse mecanismo proscritivo, e do qual a FITU se aproveitou ao longo de seus 14 anos de existência.
O lançamento de nossas candidaturas nas oito seções eleitorais e dezenas de municípios onde se concentra a maior parte da população da província teve um forte impacto na mídia nacional e regional onde se verifica o perfil renovador de nossas chapas, compostas por trabalhadores, estudantes do grupo anticapitalista ¡Ya Basta!, do movimento feminista, aposentados em luta e extrapartidários que encontram um canal para se expressar.
Propomos construir um programa anticapitalista que se insira entre a variante libertária e o estatismo peronista de papelão pintado para fornecer uma saída à crise nacional, e que assuma as principais demandas e reivindicações da população trabalhadora. Dizemos “Um salário digno”, que começa em 2 milhões de pesos para garantir condições mínimas de vida, para evitar o pluriemprego que leva a ter 2 ou 3 empregos, geralmente em condições precárias, e que sirva para elevar as aposentadorias.
Um programa que assuma de forma transformadora a saúde e a educação, essenciais para gerar condições para o desenvolvimento da população, e que leve em conta as reivindicações de seus trabalhadores.
É necessário romper com o Fundo Monetário Internacional e os laços de dependência financeira para voltar esses recursos na implementação de um plano de desenvolvimento produtivo administrado pelos trabalhadores. Que sirva para reinvestir em transporte e serviços públicos, diante da catástrofe em que se converteram nas mãos dos capitalistas.
Diante de um país e uma província desenhados em termos de lucros dos patrões, é necessário se opor apresentando uma saída anticapitalista das e dos trabalhadores, da juventude, das mulheres e das diversidades.
Tradução de José Roberto Silva do original https://izquierdaweb.com/el-cierre-de-listas-de-un-pais-en-crisis/.










