O assassinato de Charlie Kirk transformou os Estados Unidos em um barril de pólvora. A situação política é explosiva. Este artigo foi publicado originalmente em novembro de 2024, diante da vitória eleitoral de Trump, e o republicamos porque reacende profundamente a necessidade do debate sobre a feroz polarização política nos Estados Unidos.
Não chegamos aqui para analisar especificamente a crescente violência política no coração do imperialismo. Esta análise trata principalmente das razões profundas da divisão da população americana e do crescimento da extrema direita, com Trump agora à frente de um segundo governo.
A extrema direita, como era de se esperar, respondeu à morte de Charlie Kirk com uma campanha para se apresentarem como vítimas perseguidas e Kirk como alguém que apenas opinava. A verdade é obviamente o contrário: o opinador assassinado era um provocador fascista e a extrema direita é a protagonista da onda de violência política. Charlie Kirk era, na verdade, um neonazista que dava legitimidade a opiniões de segregação racial, subjugação das mulheres, discriminação contra pessoas LGBT no contexto da opressão e violência diárias contra pessoas de cor, mulheres e diversidade. Em mais de vinte anos, entre 70% e 80% dos casos de “terrorismo doméstico” nos Estados Unidos são resultado da violência racista, supremacista e machista da extrema direita.
“Estamos em guerra”, disse um conhecido comentarista da direita norte-americana. Pela primeira vez, após anos de mortes, os apoiadores de Trump podem tentar se apresentar como vítimas, e os grupos fascistas como pessoas com direito a opinar. Há apenas três meses, a congressista de Minnesota Melissa Hortman e seu marido foram assassinados por um terrorista de extrema direita trumpista. Foram esses grupos também os responsáveis pelas mortes na tentativa de golpe de Estado da tomada do Capitólio em 6 de janeiro de 2021. Para combater qualquer tentativa autoritária de avanço neofascista, é preciso entender o que está acontecendo nos Estados Unidos.
“Por que Trump ganhou?”, perguntam-se confusos muitos progressistas frustrados. Alguns deles, justamente assustados. Ninguém pode fingir ignorância: esse era um cenário muito previsível ao longo de todo o ano. O que surpreende é que uma campanha tão abertamente retrógrada e racista possa triunfar. Mas a surpresa acaba quando olhamos com um pouco mais de atenção.
As últimas eleições nos Estados Unidos deixaram um cenário que transcende 2024. Muitas coisas se explicam conjunturalmente, mas o mapa eleitoral americano também deixou claro que coisas mais profundas mudaram.
A campanha de Trump foi repleta de mentiras grosseiras e óbvias, insultos e provocações racistas. Enquanto isso, ele carregava o estigma dos processos judiciais contra ele, incluindo a marca da tentativa de golpe de 2020. Ele vinha sendo o presidente mais impopular durante seu mandato em muito tempo. Ele foi um dos poucos que não conseguiu um segundo mandato. Então, novamente: o que aconteceu? Por que Trump venceu?
2024 foi uma foto de um filme mais longo, que não começou em 2016 com a primeira vitória de Trump: uma nova etapa histórica gestada muito antes encontrou nele sua expressão política. A péssima gestão dos democratas explica seu declínio e sua derrota. O que não explica é por que Trump venceu. São coisas diferentes que precisam ser explicadas separadamente.
Não foram apenas os democratas que perderam: o antigo establishment republicano também foi politicamente esmagado. O reaganismo republicano chegou ao fim. Os antigos republicanos que ainda permanecem de pé porque se alinharam acriticamente com seu candidato presidencial. O perfil ideológico dos “conservadores” é muito diferente do que era há apenas uma década. Mas, em grande parte, continuam sendo as mesmas pessoas.
A situação é diferente da de 2016. Até então, os fenômenos de ascensão da nova extrema direita, como o de Le Pen na França, eram os do antigo fascismo e pós-fascismo após se institucionalizarem, moderarem-se e “atualizarem-se”. Hoje, e principalmente por influência de Trump, uma nova direita institucional está se radicalizando. Eles tentaram mais de uma vez passar por cima das instituições da democracia burguesa, como no assalto ao Capitólio, mas ainda estão muito longe de ter força para conseguir isso. A maioria está sujeita à institucionalidade, mas se sente desconfortável com ela e gostaria de poder se livrar dela.
Com o segundo mandato de Trump, a globalização entrou em uma nova crise. Queremos responder, então, a duas perguntas: como é que o Partido Republicano se transformou tão profundamente e por que os democratas foram incapazes de disputar com eles?
I- Os resultados, em números
Muitas pesquisas circularam relatando as mudanças entre as eleições de 2020 e as de 2024. Por exemplo, um dado notável é que, pela primeira vez, os republicanos venceram entre os homens “latinos”. Parece algo incrível, dada a campanha abertamente racista e de ódio do trumpismo. “Eles vêm contaminar nosso sangue”, disse Trump, usando uma retórica tão abertamente nazista que nem é preciso explicar por que é. Mas todos esses dados são distorcidos por não levarem em conta outro, completamente fundamental: o número de eleitores democratas caiu muito, enquanto o de Trump subiu ligeiramente.
As eleições de 2020 tiveram uma participação muito alta. Quinze milhões de novos eleitores foram às urnas, a maioria para rejeitar Trump. Foi um fato inédito, dado que a participação eleitoral nos Estados Unidos estagnou ou declinou diretamente por muito tempo. Em 2020, os democratas alcançaram 81 milhões de votos nas presidenciais; em 2024, 73 milhões. Em 2024, Trump foi votado por 76 milhões de pessoas; em 2020, foram 74 milhões.
Enquanto Biden-Harris perderam votos, Trump conquistou novos. O fato de o Partido Republicano (GOP) ter obtido a maioria absoluta dos votos foi algo inesperado. Esperava-se que, se ganhassem, seria por obter a maioria no Colégio Eleitoral, o que também conseguiram. Apenas uma vez desde os anos 90, em 2004, os republicanos conquistaram a maioria dos votos.
É um fato determinante que a extrema direita tenha uma base social militante fiel. De acordo com um estudo da Universidade UC Davis, 15% da população adulta se identifica com o movimento político MAGA. Não são suficientes para ganhar uma eleição, mas garantem ao trumpismo a primazia no Partido Republicano.
Vejamos agora os números da eleição por gênero, “raça”, idade e nível de escolaridade, de acordo com uma pesquisa realizada pela Edison Research, via Reuters. A imagem é da BBC, com base nessa pesquisa.

O mapa eleitoral marcadamente vermelho deixado pelas presidenciais mostra uma imagem muito clara: aparentemente, a maioria dos eleitores americanos se voltou para a extrema direita. E isso é verdade, mas apenas em parte. Há muitos mas.
As contradições da opinião pública
O senso comum é algo “ambíguo, contraditório e multiforme”, escreveu Gramsci, com toda a razão. A verdade é que não há outra maneira de interpretá-lo: enquanto a maioria da sociedade americana tem se voltado em sua consciência para a “esquerda” em muitos assuntos, o voto em Trump tem sido o mais sólido há muitos anos.
E agora, ele venceu no voto popular. É algo completamente incomum. A maioria da população vinha votando de forma “progressista” em quase todas as eleições há mais de 30 anos. Se os republicanos conservadores conseguiram governar foi por causa do Colégio Eleitoral, que lhes deu a presidência sem serem maioria. Houve apenas duas ocasiões em que os republicanos ganharam o voto popular: em 2004 com Bush, quando a guerra no Iraque estava no auge de sua popularidade após o 11 de setembro; e agora.
Vejamos algumas das “contradições” do voto nos Estados Unidos.
De acordo com as pesquisas, a maioria dos americanos acredita que o enfraquecimento dos sindicatos é algo negativo. Grande parte dessa maioria acaba de votar em um inimigo declarado da organização dos trabalhadores.
A maioria dos estados que votaram em Trump e também realizaram referendos sobre a legalização do aborto… votaram majoritariamente pela legalização. Kentucky, Ohio e Kansas foram os primeiros. Nebraska fez o mesmo, mas com uma lei mais restritiva que a anterior. Missouri, Nevada e Montana foram além, pois incorporaram o direito ao aborto em suas Constituições. Na Flórida, a maioria votou a favor do direito ao aborto, mas ele não foi aprovado devido às artimanhas do governo De Santis. Apenas Dakota do Sul votou pela ilegalização praticamente total.
A campanha também foi marcada pelas teorias da conspiração do wokismo e da ideologia de gênero, os espantalhos dos reacionários para justificar seu ódio. Trump é porta-voz dessas campanhas há muito tempo. Mas 70% dos Estados Unidos apoiam o casamento igualitário.
Há outros dados que contradizem parcialmente o anterior. A hostilidade aos imigrantes, às vezes com expressões de racismo brutal, também cresceu.
Mais uma vez. Como isso pode ser? Por que Trump venceu?
II- Sim, “é a economia, tolo”, mas…
A frase também surgiu para explicar uma eleição nos Estados Unidos. E continua válida até hoje. Há coisas que são simples: os democratas foram uma fraude completa.
Em 2020, Biden alcançou um recorde histórico de votos com um número inédito de participação eleitoral. Uma parte do eleitorado, normalmente apática, foi às urnas para expulsar Trump. A polarização foi tão inédita que Trump ficou em segundo lugar… também com um recorde histórico de votos, superando qualquer vitória presidencial anterior.
Mas a rejeição a Trump não foi o único motivo da vitória de Biden. Ele se anunciou como o presidente mais progressista da história recente, o maior aliado dos sindicatos. Prometeu que iria implementar um salário mínimo de US$ 15 por hora. Essas eram promessas que ressoavam no tradicional voto operário e progressista do Partido Democrata. E nenhuma dessas promessas foram realmente cumpridas. Pior ainda, na campanha deste ano, eles simplesmente abandonaram todo o discurso “progressista”. Não fizeram nenhuma proposta aos trabalhadores para melhorar sua situação.
A isso acrescentamos mais uma coisa: a luta de classes. O impacto da rebelião antirracista em resposta ao assassinato de George Floyd implicou uma profunda mudança na situação política em um ano eleitoral.
De fato, para a maioria, as coisas foram de mal a pior nos últimos quatro anos. Muitos analistas já disseram até à exaustão que as consequências inflacionárias da pandemia e da guerra na Ucrânia custaram caro ao governo democrata. Eles tentaram se recuperar moderando a inflação, mas os salários não se recuperaram. Na verdade, há uma maneira bastante enganosa de apresentar as coisas por parte do ainda governo. Eles moderaram a inflação aumentando as taxas de juros, e as famílias americanas dependem do endividamento para seu consumo diário. Se os aumentos dos salários e os índices de inflação indicam que os primeiros perderam, mas não tanto, é preciso somar a isso o custo adicional de empréstimos mais caros. A maioria dos americanos está mais pobre do que há cinco anos.
É óbvio que, nessas circunstâncias, uma parte do eleitorado votará contra o governo atual. Os números oficiais não enchem a geladeira de ninguém. Mas por que Trump deveria ganhar com isso?
A imagem do caos da gestão Trumpista de 2020 ainda é relativamente recente. Os Estados Unidos foram um dos países avançados mais duramente atingidos pelo coronavírus devido à política obscurantista e negacionista da gestão federal. Os anos anteriores mal conseguiram sustentar as tendências já existentes com Obama. A questão é, então: por que havia mais confiança em uma eventual gestão econômica de Trump? Essa é uma questão que está sendo relativamente ignorada. Como se tivesse alguma resposta óbvia.
A resposta, para nós, é que Trump faz promessas de transformação econômica. Demagógicas, “populistas”? Sim. Mas sua xenofobia fascista, sua retórica nacional-imperialista e suas promessas de protecionismo são uma promessa de mudança a longo prazo da situação econômica. No nível fiscal e social, Trump defende posições neoliberais raivosas, mas não em relação à política econômica externa. Especialmente em relação à China. Por outro lado, não é verdade que ele seja um “presidente anti guerra”, mas conseguiu criar essa imagem de qualquer maneira.
O “cultural” e reacionário, a xenofobia, o medo das transformações do mundo; tudo isso também é um programa econômico. Baseado em mentiras e demagogia, mas é um programa econômico, que ressoou em pelo menos 74 milhões de eleitores americanos. Mas não é apenas uma questão econômica: o slogan “Make America Great Again” promete recuperar uma posição social que eles percebem como perdida.
A campanha dos democratas foi a defesa do status quo com algumas mudanças menores, de baixo impacto. Alguns porta-vozes e intelectuais da administração Biden, no início de seu mandato, prometiam uma mudança mais profunda e abrupta. Mas isso veio acompanhado de poucos fatos. Eles também assumiram uma postura protecionista, mas sem romper com a política externa tradicional nem com as regras da institucionalidade da globalização (que foi, mais uma vez, criada com a hegemonia ianque). O envolvimento na guerra da Ucrânia faz parte dessa política e foi assim percebido pela opinião pública antes e durante as eleições.
Insistimos: a campanha de Biden em 2020 quis apresentá-lo como um novo grande aliado dos sindicatos e das reivindicações dos trabalhadores. Mas sua gestão foi, também nesse aspecto, pouco mais do que uma continuidade. As batalhas emblemáticas pela sindicalização da Amazon e da Starbucks ocorreram sem a ajuda do governo federal. As grandes greves não encontraram nada além de obstáculos com bons gestos.
Trump é um inimigo declarado e agressivo dos sindicatos. E, apesar destes terem uma popularidade muito elevada, é ele quem ganha as eleições. Porquê? Porque tem um programa alternativo: o protecionismo agressivo.
A Pensilvânia era um dos estados-chave para definir a presidência quando se pensava que a eleição seria mais disputada. A revista Jacobin realizou uma pesquisa entre os trabalhadores do estado que levou a uma conclusão muito clara. As propostas de “populismo econômico” tinham muito mais popularidade do que a campanha de “defesa da democracia”.
A globalização econômica continua a imperar no mundo, mas seus consensos políticos foram quebrados.
Por outro lado, há questões de enorme importância e atualidade que pesam significativamente na consciência dos eleitores “progressistas”, como o genocídio em Gaza e a proteção do direito ao aborto. A defesa descarada do genocídio sionista custou a Biden-Harris muitos votos árabes e não árabes. Isso foi determinante para sua derrota em Michigan, um dos estados que definiu as eleições presidenciais e que conta com uma das comunidades árabes mais importantes do país. Rashida Tlaib, congressista de origem palestina, renovou seu mandato com ampla vantagem depois de se recusar a apoiar a candidatura presidencial de Harris. Esse é um dado que fala por si mesmo, sem necessidade de explicar absolutamente nada.
Após a revogação da decisão Roe vs. Wade pela Suprema Corte, que garantia o direito ao aborto em todo o país, muitos esperavam que o governo Biden assegurasse esse direito por lei em nível federal. Isso não aconteceu, deixando a causa à mercê de pequenas guerras em cada estado. Enquanto isso, Trump se recusou a assumir uma posição de proibição radical em todo o país. Ele sabia que isso lhe custaria votos. A polarização em torno dos direitos reprodutivos das mulheres, então, quase não se refletiu nos resultados das eleições presidenciais.
III- A globalização e os trabalhadores estadunidenses
As décadas de globalização trouxeram grandes mudanças na sociedade americana em geral e na sua classe trabalhadora em particular. E essas transformações explicam em grande parte a polarização política reinante, bem como a ascensão do trumpismo e da extrema direita. As eleições nos Estados Unidos, a derrota dos democratas e o segundo mandato de Trump devem-se a motivações conjunturais. Mas há certas mudanças de longo alcance que são a razão profunda de uma virada política que, por enquanto, parece ter vindo para ficar.
As grandes cidades dos Estados Unidos se tornaram cidades globais de comando e administração da economia mundial, nas quais proliferam idiomas e culturas de todo o globo. As zonas rurais, por sua vez, veem crescer a estagnação e o medo do futuro. Isso definiu em grande parte a polarização política nos Estados Unidos e em outras potências: alguns questionam a situação atual olhando para o futuro; outros, com nostalgia do passado.
É comum em toda a extrema direita o uso de imagens de um suposto passado glorioso ao qual é preciso retornar. A “nação” teria entrado em decadência devido à infiltração estrangeira, e os velhos tempos poderiam retornar se o “inimigo” fosse eliminado. O fascismo italiano recordava com nostalgia a glória do Império Romano. Os nazistas detestavam o mundo moderno da industrialização e da proletarização, que associavam aos judeus, e queriam recuperar a “glória” do antigo pequeno proprietário rural alemão.
O slogan “Make America Great Again” tem a particularidade de ser um pouco menos mentiroso, (embora ainda seja mentira) do que os outros mitos das glórias do passado perdido. Se é verdade para todos os países do mundo que sua situação econômica depende de sua posição no mundo, isso é duplamente verdadeiro para a primeira potência mundial.
Como no resto do mundo, a globalização e a era “neoliberal” mudaram a face da classe trabalhadora americana. O paradoxo das coisas é que o imperialismo ianque esteve e está à frente da globalização, mas agora o trumpismo consegue impunemente apresentá-lo como sua vítima. E essa é, de fato, uma das características ideológicas comuns a toda a nova extrema direita. Mas não se trata de um paradoxo meramente ideológico: os Estados Unidos estão sofrendo as consequências de sua própria “segunda ascensão” como potência hegemônica (a primeira foi no final da Segunda Guerra Mundial).
Nas décadas anteriores aos anos 90, os Estados Unidos mantiveram sua hegemonia com base em ser a primeira potência industrial e financeira do mundo, o principal parceiro comercial da maioria das nações do planeta, ter o maior mercado interno de todos os que já existiram e ser, de longe, a principal potência militar. Com a globalização, o capital norte-americano deu um novo passo imenso em sua penetração econômica internacional. Para conquistar mais lucros e mercados, distribuiu seu capital por todo o globo, expandindo seus negócios como nunca antes, conquistando territórios até então virgens para sua exploração. O mesmo pode ser dito de todo o antigo imperialismo ocidental, sobretudo europeu, mas como parceiro menor.
Com a queda da URSS e a “abertura” da China, as fronteiras que o freavam ruíram. Simplificando, pode-se dizer que eles exportaram boa parte de sua acumulação interna para o resto do planeta. Esse é um fenômeno antigo, próprio da era imperialista e, antes disso, da colonização. Mas com a globalização, atingiu escalas nunca antes vistas. O capital industrial podia explorar dezenas de milhões de novos trabalhadores por salários mais baixos. Os bancos podiam emprestar com juros em muito mais lugares, a muito mais empresas e indivíduos, subjugando novos países inteiros com seus empréstimos. Muitos solos e recursos naturais foram abertos à pilhagem.
O capital que era produzido em Chicago, Detroit ou Buffalo passou a ser produzido em muito maior quantidade e a um custo muito mais baixo em Shenzhen, Bangcoc, Jacarta e Hanói. O que uma fábrica fazia nos Estados Unidos, agora era feito por muitas fábricas na China, Tailândia, Indonésia ou Vietnã. As “cadeias de valor” funcionam agora entre muitos países como uma única fábrica funcionava em uma mesma planta. As teorias superficiais da era pós-industrial não são verdadeiras: em nível mundial, a classe trabalhadora em geral, e a industrial em particular, é muito maior do que antes. Mas está distribuída geograficamente de outra forma e é muito mais diversificada.
Os principais exploradores, os mega milionários que estavam à frente da globalização, eram principalmente americanos. Mas, ao ampliar a escala de seu poder e seus negócios, eles minaram as condições de hegemonia absoluta de seu país, que foi o que lhes permitiu ser o que são agora. A China ofusca os Estados Unidos como potência industrial. O gigante asiático já é o principal parceiro comercial, por exemplo, dos países latino-americanos, o clássico “quintal dos ianques”, da Alemanha e até mesmo dos próprios Estados Unidos. E como se isso não bastasse, os Estados Unidos passaram de principal credor do mundo a principal devedor, com a China como maior credora.
E, mais uma vez, esse processo de transformação econômica foi liderado inteiramente pelos capitalistas norte-americanos. Seu medo começa a crescer quando seus parceiros menores, os novos capitalistas chineses, começam a demonstrar ter interesses próprios e se tornam insolentes o suficiente para fazê-los valer. Sob o controle férreo do Partido “Comunista”, eles alcançaram um nível de poder e riqueza que lhes permitiu começar a se livrar de parte da tutela anglófona. Há alguns anos, embora com altos e baixos, a China é o país com mais bilionários do mundo. E tudo graças à globalização.
O trumpismo é, além de muitas outras coisas, uma reação defensiva de uma parte da classe capitalista ianque às consequências de suas próprias ações. A outra parte da burguesia, que rejeita Trump, teme ver em risco uma parte de seus negócios devido às consequências imprevisíveis dessa reação. Porque os fatos são assim tão complexos. Os rivais, além de serem rivais, precisam uns dos outros: a estabilidade dos Estados Unidos está ligada à da China e vice-versa.
As teorias que estavam em voga sobre uma globalização do capital acima dos Estados e prescindindo da importância dos Estados, como as de Toni Negri, revelaram-se manifestamente falsas. A existência muito presente do imperialismo e dos conflitos interimperialistas é evidente:
Para que seja fácil de entender, a teoria do imperialismo é aquela que, na análise do capitalismo, combina as suas duas realidades estruturais: não apenas a economia, mas também os Estados em competição… Isso significa, estruturalmente, que a tendência ao mercado mundial nunca pode ser levada ao seu desfecho lógico: a atual globalização que o mundo vive, a mais ampla da história do capitalismo, encontra seus limites, no entanto, no fato de que os Estados subsistem e voltam a exercer seus privilégios (Roberto Sáenz, “Guia de estudo sobre a situação mundial”).
Os novos ventos do protecionismo podem significar a retirada parcial de uma ofensiva que foi longe demais. É como se, na guerra, os tanques tivessem chegado à capital inimiga, mas agora estivessem cercados e suas linhas de abastecimento ameaçadas. A metáfora seria perfeita se fosse impossível parar de produzir esses tanques e se não usá-los significasse a ruína completa. Quem já ouviu falar de um capitalismo que se contrai voluntariamente, em vez de se expandir? Eles estão buscando, às vezes improvisando, uma nova distribuição das coisas.
Uma nova divisão internacional do trabalho, uma nova classe trabalhadora
A globalização também significou uma séria transformação da antiga divisão internacional do trabalho. E isso, por sua vez, teve um amplo impacto nas novas divisões políticas nos Estados Unidos e na maioria dos países “desenvolvidos”.
Já no século XX, estava relativamente desatualizada a ideia de que os países “desenvolvidos” eram os “industrializados” e os “subdesenvolvidos” os não industrializados. Já no início da era imperialista, como apontou Lenin, essa nova “fase superior” do capitalismo significou a exportação de capitais para os países dependentes. O conceito de “industrialização” é mais complexo do que “ter mais fábricas”. Não basta produzir carros, é preciso produzir as máquinas que produzem carros; é preciso estar à frente do processo como um todo, não ser o último elo de uma longa cadeia. Um país “industrializado”, para sê-lo, precisa “produzir para a produção”.
A nova divisão do trabalho implicou transferir, não para um, mas para muitos novos países, o processo de produção e o de produção para a produção. A China é um país “industrializado” de pleno direito, assim como a Coreia do Sul ou Taiwan. Quarenta anos atrás, eles não eram.
Hoje, existe uma corrida econômica e tecnológica internacional que é uma das dominantes da geopolítica: a corrida pela fabricação de semicondutores. Os chips ou microchips são uma tecnologia ultra sofisticada que funciona como insumo básico para a produção em quase todos os setores. Sem eles, hoje em dia, não é possível produzir nem um celular, nem um computador, nem um automóvel moderno. Eles também são necessários para a produção de drones de guerra. O controle de sua fabricação não é um problema puramente econômico, é também uma corrida militar acirrada.
E metade da produção mundial de semicondutores está localizada em Taiwan. Portanto, um elo indispensável da produção para a produção está localizado fora das fronteiras dos países imperialistas clássicos, em uma ilha localizada bem em frente à China. Uma ilha que Pequim, por outro lado, reivindica como parte da China. Qualquer interrupção nas comunicações e no transporte internacional deixa vulnerável a produção do país que não consegue obter todos os semicondutores de que necessita.
Muitos dos antigos empregos industriais foram perdidos para os Estados Unidos, a Grã-Bretanha ou a França. Rust Belt (Cinturão da Ferrugem) é como são conhecidas há muito tempo as antigas cidades industriais americanas do nordeste do país, por conterem uma série de fábricas abandonadas. O caso mais emblemático é Detroit, mas também há Buffalo, Cleveland, Chicago, Flint, etc.
Mas a nova divisão internacional do trabalho e as novas tecnologias criaram novos empregos em novos ramos. Enquanto cidades como Detroit viam sua população diminuir, novos pólos de produção ligados às novas tecnologias explodiram. Em São Francisco, surgiu o emblemático Vale do Silício. É conhecido assim, precisamente, porque o silício é o principal material semicondutor e a produção da região é amplamente dedicada aos microchips e ao desenvolvimento de novas tecnologias.
Mas também existem novos centros de produção tecnológica de enorme importância em cidades como Boston, Austin, Phoenix e Seattle. Também em cidades do Rust Belt, como Chicago. Lá existem novos empregos industriais ultra especializados.
Por outro lado, parte das tarefas de gestão econômica se proletarizou. A população com formação universitária passou de 4% em 1950 para mais de 33% em 2019. A classe trabalhadora americana, como em muitos outros países, atingiu níveis de educação muito mais elevados. Enquanto uma parte importante da produção como tal se deslocava para outros países, as tarefas de gestão do processo econômico cresciam nos cumes da divisão internacional do trabalho. São mais de 20 milhões de pessoas nos Estados Unidos empregadas na área dos “negócios”. Mas os novos empregos especializados estão longe de ter substituído totalmente os outrora bem remunerados empregos na indústria.
Não vivemos nesse mundo fantasmagórico da era pós-industrial que alguns escritores imaginam. Rápidos em lançar definições que soam inovadoras, na prática eles estão ignorando teimosamente os problemas políticos e econômicos mais candentes da nossa era. Em termos relativos, o PIB industrial dos Estados Unidos caiu, o que afeta sua posição econômica no mundo. Um dos problemas mais urgentes do imperialismo ianque é acabar com sua extrema dependência da produção de semicondutores de países como Taiwan.
Uma das poucas medidas reais do governo Biden de retrocesso na globalização foi a tentativa de reforçar a produção e o desenvolvimento de semicondutores em solo americano. Com a lei CHIPS, prometeram US$ 280 bilhões em subsídios para transferir essa indústria para dentro das fronteiras. Mas seu impacto ainda está por ser visto, e o peso da indústria na economia e no emprego ainda não se recuperou. E isso tem sido um dos fatores mais determinantes tanto na opinião pública em relação às eleições quanto na posição do imperialismo ianque no mundo.
O panorama de mais empregos especializados e trabalhadores “de colarinho branco” (que realizam trabalhos mais intelectuais), juntamente com o aumento da produtividade, pode nos apresentar, à primeira vista, um espetáculo enganador. Um espetáculo em que o conceito de “classe trabalhadora” pode parecer antiquado, em que as promessas de “progresso” do capitalismo neoliberal foram cumpridas. Mas não é assim. As tarefas especializadas eram antes prerrogativa central (mas não exclusiva) daqueles que viviam da extração de mais-valia, dos exploradores. Hoje, elas estão muito mais nas mãos dos produtores de valor e mais-valia, dos explorados. Um exemplo eloquente dessa divisão de classes foi a greve dos roteiristas em Hollywood. Foram os escritores, que não são “trabalhadores de colarinho azul” (ou seja, não são “trabalhadores braçais”), que protagonizaram esse fenômeno da luta de classes.
Há um dado incontestável a respeito disso: os salários dos trabalhadores com qualificação universitária caíram em relação aos anos 90. A remuneração média por hora trabalhada, independentemente do setor ou da especialização, está estagnada desde os anos 80. Outro índice importante, sobretudo em um país com a saúde totalmente privatizada como os Estados Unidos, é a quantidade de pessoas cujo emprego lhes garante seguro médico. Os trabalhadores com ensino médio e seguro médico garantido pelo empregador passaram de 24% em 1989 para 7% em 2012. Aqueles que possuem algum tipo de diploma universitário e têm esse tipo de cobertura passaram de 61% para 31% nesses mesmos anos! Todos esses dados podem ser encontrados neste estudo.
Os dados são claros: para a maioria dos trabalhadores americanos, todo o “progresso” parou. Para muitos, as coisas pioraram. E isso se deve a uma combinação de motivos. Primeiro, e mais importante, as derrotas do movimento trabalhista da “era neoliberal”. Não é por acaso que a estagnação dos salários acompanha a queda da filiação sindical. Segundo, agora os salários americanos competem mais diretamente com os do resto do mundo. Terceiro, como consequência dos dois anteriores, perderam-se postos de trabalho em locais de tradição sindical, enquanto se criaram outros “virgens” de organização. Os grandes armazéns da Amazon (que são, em termos marxistas, emprego “industrial” produtor de valor) estão localizados centralmente em cidades e estados com menor presença sindical tradicional.
Um processo semelhante começa a ocorrer na China: enquanto os empregos de baixa qualificação na indústria são transferidos para o Sudeste Asiático, crescem os empregos especializados ligados às novas tecnologias.
O reflexo em um espelho invertido da nova massiva classe trabalhadora especializada é a massa de empregos precarizados, quase sempre ligados também às novas tecnologias. O fenômeno da “uberização” do trabalho faz parte do panorama das grandes cidades do mundo. Literalmente: se você percorrer qualquer grande cidade, rapidamente se destacam tanto seus arranha-céus quanto seus trabalhadores precarizados de aplicativos.
Outra grande transformação na classe trabalhadora norte-americana resultante da globalização é o enorme crescimento da imigração. A porcentagem de imigrantes passou de 4,7% em 1970 para 14,3% em 2023. São mais de 47 milhões de pessoas. Como já dissemos, a globalização implicou na destruição ou contração de alguns pólos de produção e acumulação, e na criação ou crescimento de outros.
Empregos industriais foram perdidos em muitas cidades, juntamente com negócios que proliferam na periferia da grande indústria. Grande parte da vida rural também foi arruinada na maior parte do mundo, aumentando ainda mais o processo de urbanização. Na China, centenas de milhões de camponeses se transformaram na nova classe trabalhadora migrante. Milhões de americanos chegaram aos novos e pujantes centros de acumulação econômica norte-americanos, mas também muitos milhões de “latinos”, árabes, africanos e asiáticos. E eles estão empregados nos mais diversos ramos. A origem étnica geralmente determina o tipo de emprego. Sobretudo os latinos são uma reserva permanente de mão de obra barata, o que explica grande parte do (escasso) crescimento econômico recente.
A situação dos trabalhadores das grandes cidades, como já dissemos, também está estagnada ou pior do que antes. Mas isso ocorre no contexto do crescimento geral e da expansão cultural dessas áreas. Lá, apesar de tudo, parece haver futuro. Não é o caso da maioria das “comunidades” em áreas não favorecidas pela globalização. Não só seus rendimentos ficaram estagnados, como também os laços sociais e econômicos, juntamente com as perspectivas de futuro.
Novas e antigas divisões políticas no contexto da globalização
O mapa político eleitoral deixou um retrato preciso das divisões políticas e da polarização dos Estados Unidos. Se as eleições foram marcadas por alinhamentos políticos tradicionais, estes se cruzaram com novas realidades políticas. Comecemos pelas mais fáceis, as clássicas.
Em primeiro lugar, está a divisão norte-sul. A polarização política da Guerra Civil do século XIX continua a ter peso. Com algumas exceções, os estados que fizeram parte da Confederação, o lado escravista da guerra, votam consistentemente na direita. São esses os estados de preeminência racista, primeiro da escravidão e depois da segregação. Não é por acaso que o assalto trumpista ao Capitólio em 6 de janeiro de 2021 estava repleto de bandeiras confederadas. Os estados do norte costumam votar sistematicamente nos democratas, sempre com algumas exceções. Antes, quando os “progressistas” eram os republicanos, eles eram minoria no sul; quando os democratas eram os conservadores, eles eram maioria.
Muitos desses estados sulistas, juntamente com alguns outros, também fazem parte do Bible Belt (“Cinturão Bíblico”). Especialmente nas áreas rurais, a sociedade civil é amplamente dominada pelas igrejas evangélicas. Não só o poder político de seus pastores é muito grande e a participação em suas missas é massiva, como também controlam universidades, organizações juvenis e grupos de pressão política. Não são poucas as vezes em que conseguiram instaurar o criacionismo na educação formal – negando como mera “teoria” a evolução das espécies. A campanha eleitoral trumpista assume ali formas teológicas. Para muitos evangélicos, não se trata de combater uma opinião contrária. Eles pensam que estão literalmente combatendo o demônio. Genetically Modify Sceptic é um canal interessante do YouTube que reflete essa realidade social. O jovem polemista texano que protagoniza esse canal costumava ser um militante evangélico. Tornado ateu, ele conhece muito bem o poder das congregações fundamentalistas.
No polo oposto estão as “costas” progressistas e as antigas grandes cidades industriais. Estados como Nova York e Califórnia são solidamente “azuis”. Nas cidades do Rust Belt, apesar de terem perdido boa parte de sua antiga população, existe uma grande classe trabalhadora industrial moderna organizada nos antigos sindicatos da AFL-CIO. É também nesses estados que ocorreram as principais batalhas pela sindicalização da nova classe trabalhadora, como na Amazon e na Starbucks.
Depois, há, naturalmente, as divisões políticas étnico-raciais, que continuam a ter um peso imenso. Os negros votaram majoritariamente nos democratas desde o governo de Lyndon Johnson. Foi ele quem cedeu à pressão do movimento pelos direitos civis (“The Civil Rights Movement”, liderado por figuras históricas como Martin Luther King e Malcolm X) e pôs fim, em nível federal, às leis conhecidas como Jim Crow, de discriminação e segregação racial oficial. Em nome da “liberdade”, o então candidato republicano à presidência – autodenominado “libertário” –, Barry Goldwater, se opôs ao fim do racismo legal. Foi assim que os republicanos, que haviam sido o partido de Lincoln, perderam o apoio da maioria dos negros e se tornaram o partido dos rednecks racistas.
Por fim, há a tradicional polarização política de classes. Com a Grande Depressão iniciada em 1929, os republicanos perderam sua longa hegemonia de quase meio século, com poucas interrupções, após a Guerra da Secessão. Sua resposta ao crack foi continuar como se nada tivesse acontecido com a política do capitalismo de livre mercado, sem intervir na pior crise econômica de sua história. Os anos 30 foram uma década de ascensão sindical.
O democrata Franklin Delano Roosevelt chegou à presidência com a promessa de um New Deal (“Novo Acordo”) e instaurou algumas das primeiras políticas de Estado de Bem-Estar em grande escala. Antecipando-se em várias décadas aos governos “progressistas” e ao nacionalismo burguês da segunda metade do século XX, conseguiu assim cooptar e institucionalizar a maioria das direções sindicais.
Assim se constituiu a conhecida Coalizão do New Deal, que tinha o Partido Democrata à frente e incluía a maioria dos sindicatos, organizações civis e intelectuais progressistas, muitos movimentos pelos direitos civis, etc. A maioria da classe trabalhadora, sobretudo a sindicalizada, votou majoritariamente nos democratas desde então. Com exceção dos trabalhadores brancos racistas do sul, a partir dos anos 60.
As bases sociais dessas tradições políticas vêm se erodindo desde os anos 80. O ponto de inflexão foi o governo de Ronald Reagan e o início do “neoliberalismo”. E a ascensão de Trump parece romper definitivamente com divisões políticas que já não correspondem à realidade do país.
Para começar, a Coalizão do New Deal tem cada vez menos motivos para existir. É a pura e simples verdade. Desde Clinton, os democratas abraçaram a era neoliberal tanto quanto os republicanos de Reagan. Se, quase por inércia, parte do tradicional voto operário democrata continua a ser mantido, cada vez mais os fatos são outros. Já ninguém pode associar as administrações democratas ao bem-estar econômico dos trabalhadores.
Tanto republicanos quanto democratas têm se encarregado sistematicamente de enfraquecer as organizações trabalhistas. E, a longo prazo, eles conseguiram. Em 1983, 20,1% dos trabalhadores eram sindicalizados, contra 10% em 2023. Hoje, entre os assalariados, os votos estão divididos em partes iguais: 47% para Trump e 48% para Harris. Os democratas têm vantagem entre os trabalhadores sindicalizados e contavam este ano com o apoio eleitoral de 50%, contra 43% de Trump. Mas essa vantagem foi drasticamente reduzida em relação à que tiveram Hillary Clinton e Obama. Biden poderia ter recuperado esse apoio… se não tivesse quebrado todas as suas promessas de 2020.
Quanto às divisões étnicas, os negros continuam sendo amplamente democratas. Sendo os que mais sofrem com o racismo estrutural do Estado e da sociedade, não é de se estranhar que um racista explícito lhes gere pouca simpatia.
Mas se há algo que chamou a atenção nas últimas eleições foi a reviravolta de parte do voto latino a favor do candidato xenófobo. Para começar, não existe nem nunca existiu um “voto latino” homogêneo. Uma coisa é o “latino” cubano de Miami, muitas vezes um verme expropriado pela revolução de 1959, outra coisa muito diferente é o mexicano sem documentos que trabalha nos campos do sul do país.
A campanha racista e xenófoba de Trump teve seu peso entre os “latinos” que também vêem com medo o desaparecimento do sonho americano em suas pequenas comunidades rurais. Eles também olham com desconfiança, e às vezes com ódio, para as novas ondas migratórias. Não se deve perder de vista que as ideias de “etnia” e “raça” são coisas extremamente arbitrárias e historicamente maleáveis. No século XIX, os imigrantes irlandeses eram tratados tão mal quanto os mexicanos hoje. Quem se lembra disso? Hoje eles são considerados “brancos” de pleno direito.
Por outro lado, os latinos que vivem na pele a discriminação e o racismo têm poucos motivos para apoiar Biden-Harris. Nenhuma das promessas de regularização de sua situação, de lhes dar documentos, foi cumprida. Pelo contrário, Biden-Harris se juntaram às campanhas trumpistas de xenofobia e mão de ferro contra a imigração.
Uma nova polarização é, portanto, a das zonas rurais e das cidades globais. Se olharmos atentamente para os mapas eleitorais dentro de cada estado, todas as grandes cidades contêm uma maioria esmagadora de votos “progressistas”. É uma divisão entre aqueles que ganharam (ou melhor, “empataram”) com a globalização e aqueles que perderam. E também entre aqueles que temem a imigração e aqueles que a vivem diariamente. Porque é óbvio: a maioria dos imigrantes vive em algumas grandes cidades globais. E a vida cotidiana mostra, sem sombra de dúvida, que a mitologia racista é isso mesmo, racismo e nada mais que racismo.
Ligada a essa polarização está a divisão educacional. Entre aqueles que têm algum tipo de educação universitária, o apoio aos democratas é amplamente maior do que ao trumpismo. A experiência universitária faz parte de uma cultura crítica voltada mais para a “esquerda” e o progressismo. E a massificação das universidades as transformou em centros de formação de novos atores políticos. Em particular, de uma parte importante da nova classe trabalhadora. Todos os dados que usamos a esse respeito estão neste estudo.
Muitos interpretam isso como uma divisão de classes. Mas, como já dissemos, os estudos universitários já não são garantia de uma posição de liderança na economia capitalista. De fato, um dos limites encontrados pela relocalização da fabricação de semicondutores no estado do Arizona foi a falta de trabalhadores com a formação necessária. A maioria dos universitários “progressistas” também faz parte de uma classe trabalhadora relativamente empobrecida. Também são aqueles que não costumam votar sistematicamente na direita. Existem razões políticas para um abismo crescente entre trabalhadores especializados e não especializados. Enquanto o ativismo culturalmente universitário costumava se voltar para os sindicatos, hoje ele encontra seu lugar principalmente em ONGs de pouca disruptividade.
Por fim, não é necessário explicar muito sobre a polarização política de gênero. O feminismo tem sido um dos movimentos de luta de maior impacto nas últimas décadas, e os Estados Unidos não são exceção. O trumpismo, ao expressar o ódio reacionário daqueles que acreditam ter perdido a posição que merecem, também conquistou a simpatia dos homens brancos que querem ter a posição de chefe de família, com autoridade absoluta sobre mulheres e crianças.
IV- A globalização e a nova extrema direita: Neoliberalismo “woke”?
O antigo fascismo e a nova extrema direita
O ridículo Elon Musk, em seu novo papel de porta-voz dos delírios da nova extrema direita, reclamou amargamente do “vírus woke” em uma entrevista com o delirante pseudo-intelectual Jordan Peterson. Acontece que Musk acredita ter todo o direito de discriminar sua filha trans por ela ser trans. E, se sua filha retribui o favor com um ódio mais do que merecido, ele acredita ser a vítima.
“Woke” (“acordado”, em inglês) é o título insultuoso que os reacionários ressentidos inventaram para tudo o que não gostam. Qualquer reclamação de que a sociedade é injusta e opressiva é rapidamente rotulada como woke. Em torno desta palavra, surgiu uma nova das tantas teorias da conspiração da extrema direita. A rejeição ao “wokismo” esteve presente durante toda a campanha eleitoral.
As teorias da conspiração crescem como cogumelos com o surgimento da nova direita. E há um motivo.
A ofensiva neoliberal dos anos 80, liderada por Ronald Reagan e Margaret Thatcher, ocorreu sob a bandeira ideológica liberal-conservadora. O regime da democracia burguesa também se generalizou na maioria dos países do mundo. Afinal, os líderes da classe capitalista sentiam que nenhuma oposição poderia realmente afetar seus interesses, então podiam deixar alguns insatisfeitos “ chutarem”. Mas muita coisa mudou desde então.
Os movimentos internacionais sem restrições de capital são necessariamente acompanhados por movimentos culturais, simbólicos, políticos e de pessoas. A globalização é o limite máximo da circulação massiva de ideias e imigrantes.
A circulação cultural ilimitada, a era da internet e da informação permanente: tem sido esse o contexto de surgimento dos movimentos de luta mais importantes das últimas décadas.
Os protestos e mobilizações muitas vezes adotaram os mesmos símbolos e slogans do outro lado do mundo. O lenço verde argentino é um emblema internacional do feminismo. As máscaras de gás de Hong Kong foram replicadas em países como Chile ou Venezuela. Todo protesto em um ponto do planeta é acompanhado atentamente nas redes sociais por outro no lado oposto.
A promessa de progresso permanente foi tirada das mãos dos liberal-conservadores para impulsionar novas formas de ativismo. E as instituições da democracia capitalista cederam mais de uma vez, pressionadas pelas lutas e (também) por suas próprias promessas. Muito se avançou em questões como, por exemplo, a extensão do casamento igualitário. Até mesmo grandes empresas e instituições de poder tiveram que mudar suas posturas para se adaptar aos novos tempos. Muitos partidos, organismos e governos querem agora se mostrar como impulsionadores de coisas que os superaram.
Não é a primeira vez, nem de longe, que o capitalismo gera o oposto das instituições e relações sociais que o moldam. A era da colonização foi a que deu origem à ideia e à instituição do Estado-nação, e foi somente sob a forma do Estado-nação que os países oprimidos puderam se independizar de seus colonizadores. Marx e Engels já escreveram no Manifesto Comunista que o capitalismo cria tanto seu coveiro (o proletariado) quanto as donas de sua própria derrubada (as novas forças produtivas). Eles também escreveram que o sistema de produção burguês impulsiona “a dissolução dos costumes antigos, da família tradicional, das velhas nacionalidades”.
O capital cria as condições para a emancipação social e econômica sem poder realizá-la, porque a opressão é parte necessária de sua existência. Ele precisa reprimir as consequências de seu próprio desenvolvimento, por um lado, enquanto tenta dar soluções parciais e não definitivas, por outro. Não pode abolir a exploração do trabalho, porque é a base de toda a sua existência, mas chegou a legalizar e institucionalizar os sindicatos. Não pode nem quer abolir a opressão patriarcal, mas pode tentar aliviar algumas de suas consequências enquanto coopta e institucionaliza setores do feminismo e dos movimentos LGBT.
As bases da nova extrema direita temem, nesta nova realidade, perder sua posição em todos os âmbitos: econômico, social, cultural. Mas, ao mesmo tempo, todas as suas aspirações estão ligadas ao capitalismo. Não podem nem querem ver as coisas como elas são: o que temem é consequência necessária do que querem. Porque também é verdade que o que temem é a antítese do que querem. A modernização e o cosmopolitismo econômicos vieram necessariamente acompanhados pela modernização e pelo cosmopolitismo culturais. E eles sentem que tanto uma coisa quanto a outra os colocam à beira da ruína.
Eles querem o capitalismo sem suas consequências. É a mesma posição da pequena burguesia do fascismo na primeira metade do século XX. Ele temia o grande capital, consequência necessária do desenvolvimento capitalista, enquanto queria defender sua posição relativamente privilegiada na sociedade capitalista.
Assim, os bodes expiatórios se tornam necessários e as teorias da conspiração circulam incessantemente.
A economia capitalista internacional foi o que, na primeira metade do século XX, levou à ruína milhões de pequenos burgueses. Mas eles não queriam ver isso. Por isso, era necessário inventar um inimigo poderoso, de envergadura internacional, a quem se pudesse culpar pelos males do capitalismo, salvando o capitalismo. O fascismo deu-lhes uma resposta: as finanças judaicas, que secretamente controlavam tudo. São os judeus que os nazistas culpavam por todo o progressismo cultural. Chamavam-no de “bolchevismo cultural”.
Algo análogo acontece agora. Os reacionários de todos os matizes querem evitar a explicação do mundo que os rodeia, que está à vista de todos. Precisam de um sentido diferente do mundo. Não podem culpar o livre comércio e a globalização do capital, porque são sua bandeira a defender. Então, inventam novas teorias da conspiração, com novos poderes internacionais por trás das mudanças culturais contra as quais querem lutar.
Nos últimos anos, o bicho-papão do globalismo veio ocupar o lugar da teoria da conspiração do “judeu-bolchevismo internacional”. Sua última invenção é que existe um grupo de “elites internacionais” que querem criar um “governo mundial”. E que, para conseguir isso, eles promovem o “enfraquecimento das nações” com o “multiculturalismo”, a “ideologia de gênero”, etc. Eles pegam coisas reais, como a existência da ONU, para inventar delírios sem qualquer base.
É exatamente o mesmo procedimento ideológico da conspiração nazista. Nem sequer se dão ao trabalho de inventar palavras novas. A direita francesa assusta seu público com o “islamo-esquerdismo”. Propagandistas ignorantes disfarçados de intelectuais como Agustín Laje, Jordan Peterson ou Ben Shapiro repetem velhas teorias da conspiração nazista, alterando algumas coisas. Em vez do “bolchevismo cultural” da propaganda de Goebbels, eles falam do “marxismo cultural”, que seria responsável por horrores como a “ideologia de gênero”. Mais uma vez, nem se dão ao trabalho de inventar coisas novas. A ideia do “marxismo cultural” foi criada por William Lind… um neonazista negacionista do Holocausto. O infame panfleto “O livro negro da Nova Esquerda”, de Agustín Laje e Nicolás Márquez, não faz mais do que repetir tudo o que já foi escrito por Lind, retirando apenas as referências incômodas aos judeus.
O trumpismo, como tal, é um fenômeno político bastante diferente do antigo fascismo, mas o estado de espírito e a ideologia de sua base social militante MAGA são idênticos aos do antigo fascismo. Não é por acaso que, sendo assim, surjam grupos abertamente nazistas dentro do trumpismo. É o caso dos protagonistas da mobilização “Unite de Right” em Charlottesville, em 2017. “Os judeus não nos substituirão” foi o slogan da mobilização trumpista. É um slogan dos partidários da “Teoria da Grande Substituição”, que sustenta que o “globalismo” está tentando substituir as pessoas de raça branca por imigrantes negros, latinos e muçulmanos.
A ideologia nacional-imperialista dos republicanos de Reagan era expansiva. Esperava, com otimismo, que a abertura dos mercados da era neoliberal fosse acompanhada por uma hegemonia cultural natural de seus valores e instituições. Nesse regime mundial, os Estados Unidos estariam sempre na liderança. Agora, com uma situação defensiva para o imperialismo ianque, essa mesma ideologia nacional-imperialista se tornou outra coisa, algo defensivo. A “abertura” econômica e cultural já não é vista como veículo de sua própria supremacia, mas da supremacia de outros. É, sob todos os pontos de vista, um sentimento análogo ao dos reacionários alemães e italianos de cem anos atrás.
Ao mesmo tempo, o assalto ao Capitólio em 6 de janeiro de 2020 e a tentativa de golpe de Bolsonaro deixaram claro que, se necessário, eles podem querer passar por cima da democracia burguesa. Seu regime pode ser incômodo para eles. Primeiro, porque seus projetos estratégicos já não são consensuais na classe dominante e em seus partidos. A alternância e os contrapesos institucionais podem colocar em dúvida sua viabilidade. Segundo, porque suas intenções ultra reacionárias geram resposta e oposição popular, que também querem esmagar. A nova direita surge e se desenvolve nos marcos da democracia burguesa, mas não quer se ver limitada por ela para sempre.
Um capitalismo sem suas consequências, sem as contradições que lhe são inerentes, é uma utopia reacionária. Trump é incapaz de cumprir suas promessas, da mesma forma que o fascismo foi. Seu governo não pode trazer nenhum tipo de estabilidade. Só pode provocar mais convulsões sociais, políticas e geopolíticas. A mobilização ultra reacionária conseguiu conquistar a maioria nas eleições dos Estados Unidos, mas é impossível que o novo governo de Trump não traga consigo uma polarização ainda maior. Sua ideologia reacionária quer fazer andar o carro do capitalismo sem uma de suas rodas. E nessas condições é impossível não bater.
Tradução de Mariah Sinem, do original El asesinato de Charlie Kirk: A polarización política en Estados Unidos al rojo vivo.











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