Por Agustín Sena
Por 15 dias, a cidade de Minneapolis, principal estado nortenho de Minnesota, tornou-se a linha de frente da luta contra o ICE trumpista nos Estados Unidos. O assassinato de Reneé Nicole Good em 7 de janeiro desencadeou uma onda de indignação em todo o estado, expressa em mobilizações diárias e confrontos com agentes federais.
Para esta sexta-feira, 23 de janeiro, organizações sindicais e sociais estão convocando uma greve comercial em todo o território de Minnesota. Uma grande mobilização é esperada por volta das 14h na Praça do Povo, em Minneapolis. Entre os organizadores estão o SEIU Local 26, Trabalhadores das Comunicações da América, as federações de professores de Minneapolis e St. Paul, além de organizações comunitárias, de direitos civis e até religiosas.
A jornada convocada com a consigna Truth and Freedom Day: No work. No school. No shopping (Dia da Verdade e Liberdade: Não trabalhar. Não estudar. Não comprar) convida trabalhadores e estudantes da região a deixarem seus espaços de trabalho e evitarem consumir comercialmente por 24 horas. A lista de exigências é simples: que o ICE deixe Minnesota, justiça para Reneé Good, corte de financiamento do ICE no Orçamento Federal e cessação de contratos comerciais por empresas que colaboram com o ICE.
“É hora de suspender o funcionamento normal para exigir a cessação imediata das ações do ICE em Minnesota, respostas de agentes federais que causaram perda de vidas e abusos aos habitantes de Minnesota e pedir intervenção imediata do Congresso“,
diz a convocatória ampla lançada online.
Minneapolis no olho do furacão
A mobilização de hoje pode ser um passo importante após semanas de ações sucessivas nas ruas de Minneapolis (a cidade mais populosa do estado) e St. Paul (a capital do estado). Essas duas cidades formam a área conhecida como Twin Cities e concentram mais da metade da população do estado (5 milhões de pessoas), além de uma longa tradição de ativismo político e democrático, com tradições de luta que remontam a quase um século. Na década de 1930, Minnesota e especialmente Minneapolis foram palco de uma imensa onda de greves com peso nacional e da proeminência de setores revolucionários ligados ao trotskismo.
Mais próximo no tempo, Minneapolis viu o nascimento da imensa rebelião antirracista de 2020 em resposta ao assassinato de George Floyd, também sob a administração Trump. Naquela ocasião, o movimento iniciado em Minneapolis seria nacionalizado e daria um duro golpe na imagem da extrema-direita, que perdeu as eleições alguns meses depois.
Trump escolheu Minnesota como alvo de uma enorme mobilização repressiva justamente para tentar disciplinar uma sociedade com tradições democráticas conquistadas. No último mês, 3.000 agentes do ICE e da Patrulha de Fronteira chegaram ao estado, desencadeando uma operação de violência, xenofobia e terror. Pelo menos 2.400 pessoas foram detidas arbitrariamente. Além da morte de Reneé Nicole Good, há pelo menos 2 casos de manifestantes que ficaram cegos por tiros com armas “não letais” no rosto, ferimentos por arma de fogo e choque corpo a corpo.
Após o assassinato de Good, Trump decidiu redobrar a aposta, ignorando a brutalidade das ações do ICE. Autoridades federais anunciaram publicamente “imunidade absoluta” para as patrulhas. Um memorando interno da agência, divulgado há algumas horas, instrui os agentes a revistarem residências particulares sem mandado judicial, uma medida flagrantemente inconstitucional.
Esta semana tornou-se público que agentes do ICE detiveram Liam Conejo Ramos, um menino de cinco anos, para usá-lo como isca para prender seu pai. As imagens do pequeno detento contra uma viatura de patrulha consternaram a opinião pública e aumentaram a rejeição popular às operações anti-imigrantes dos agentes de imigração.
Um conflito que se intensifica
A rejeição da população às ações da ICE é tão esmagadora que os governos estaduais e municipais estão acumulando atritos crescentes com Trump. O governo federal já anunciou indiciamentos contra o governador Tim Walz e o prefeito de Minneapolis, Jacob Frey, ambos democratas. Em entrevistas recentes, Frey disse que a população
“está pedindo para que as autoridades locais enfrentem o ICE.”
Um exemplo da situação inusitada gerada pela violência anti-imigrante de Trump.
Em resposta à enorme resistência, Trump ameaça invocar a Lei da Insurreição. Essa legislação arcaica de 1807 permite que o governo federal envie as Forças Armadas em território interno ou assuma o controle da Guarda Nacional, que depende regularmente de cada estado. O último a operacionalizar essa lei foi Bush, em 1992. Naquela ocasião, ele buscou conter a Batalha de Los Angeles, uma rebelião contra o assassinato racista de Rodney King.
No último ano, Trump interveio com tropas federais em 6 cidades do país: Los Angeles, Chicago, Portland, Washington D.C., Nova Orleans e Memphis. Usar a Lei da Insurreição é, por enquanto, apenas uma ameaça, mas, se ela se concretizar, necessariamente implicaria uma escalada no conflito. Não apenas porque permitiria uma militarização progressiva, mas porque as proporções das tropas presentes já são excessivas.
Atualmente, cerca de 3.000 agentes do ICE atuam em Minnesota. Eles superam o número de policiais locais em 5 ou 6 unidades. Essa inversão de proporções revela uma forte anormalidade no status quo federal do gigante norte-americano. A soma do confronto entre jurisdições, do descontentamento em massa e da violência repressiva levou vários analistas a falar sobre os perigos de uma situação pré-guerra civil nos Estados Unidos.











[…] Minneapolis resiste ao ICE enquanto Trump ameaça enviar o Exército por Agustin Sena […]