Por Agustín Sena
Após três semanas de mobilizações massivas e históricas em todo o Irã, o regime dos mulás reimpõe seu domínio à força de massacres. A teocracia viveu a maior onda de protestos registrada no país desde a revolução e a consequente contrarrevolução de 1979. Com uma economia colapsada e uma sociedade majoritariamente hostil ao regime, a elite clerical-militar desencadeou um amplo operativo repressivo para sufocar o que rapidamente se transformou em um conflito existencial: uma crise de Estado desencadeada pela atividade e radicalização do movimento de massas em um contexto de crise objetiva (econômica, social e geopolítica).
O esmagamento (temporário ou não) dos protestos não encerra nenhum dos problemas que os desencadearam. No plano econômico, a principal “concessão” do gabinete de Pezeshkian é um cartão alimentar de 7 dólares. O rial continua sendo uma moeda desvalorizada pela inflação elevada.
No plano político-democrático, a primeira conclusão do processo é a demonstração de que nenhum governo ministerial moderado pode contrabalançar a razão de Estado profundamente reacionária do regime dos aiatolás. Pezeshkian chegou ao governo como um moderado alheio aos setores da chamada linha dura iraniana (aqueles que se opõem por princípio a qualquer modernização da institucionalidade teocrática). O fato de Jamenei ter aceitado sua candidatura foi lido como uma concessão simbólica após um ano de desastres.
Os últimos meses foram marcados pela guerra dos 12 dias contra Israel (à qual se somaram os Estados Unidos), que expôs a inferioridade militar do Irã diante do Estado sionista e fez colapsar a estratégia defensiva articulada em torno do “eixo da resistência”. Além disso, por uma crise social multifacetada, impulsionada por uma economia ingovernável, mas também por problemas ambientais (a falta de água potável) e pelo longo descontentamento de massas que habita a sociedade em relação ao regime político como tal. A ausência de direitos políticos e civis, a opressão das mulheres e das nacionalidades não persas corroem a legitimidade da teocracia.
Após poucos meses de governo, qualquer diferença entre o moderado Pezeshkian e a linha dura se fechou definitivamente. O gabinete moderado alinhou-se à repressão brutal de Jamenei e da Guarda Iraniana.
Os tropeços geopolíticos que retiraram estabilidade do regime ao longo do último ano parecem apenas se aprofundar. Embora Trump tenha evitado concretizar suas ameaças de intervenção militar, a situação regional é precária para a teocracia. Os bombardeios de junho passado demonstraram a absoluta superioridade militar dos EUA e de Israel. E o Oriente Médio está repleto de conflitos que levarão a um reordenamento de influências no médio prazo.
A mecânica da repressão
Com o corte das telecomunicações imposto na noite de 8 de janeiro, iniciaram-se jornadas de militarização e repressão letal em todo o país. As ONGs iranianas no exílio apresentam estimativas que chegam a 12.000 ou 20.000 mortos e mais de 300.000 feridos. É impossível calcular o número efetivo de vítimas devido à falta de informações em tempo real.
Soma-se a isso o fato de o governo iraniano estar manipulando os números de diversas maneiras. Segundo denúncias que chegam do país persa, a Guarda Iraniana está exigindo milhares de dólares para que cada família possa retirar os corpos dos falecidos. Caso não paguem, ameaça-se registrar os mortos como membros da Basij (força paramilitar ligada à teocracia) ou até mesmo lançar os corpos em valas comuns.
As estimativas das ONGs não parecem descabidas. As imagens da repressão são brutais: pelotões da Guarda disparando fuzis Kalashnikov contra multidões desarmadas. Franco-atiradores posicionados em edifícios. Portas de hospitais superlotadas com sacos de cadáveres. Após a repressão, forças repressivas invadiram hospitais para impedir que as vítimas recebessem atendimento médico, desconectando pacientes e interrompendo cirurgias.
A brutalidade da repressão é diretamente proporcional à magnitude da crise que se abriu ao regime durante a onda de protestos.
O governo esboçou três posições nas últimas semanas. A primeira foi de “diálogo” com as manifestações, encabeçada pelo amortecedor Pezeshkian. Isso durou dois ou três dias. A segunda foi de repressão discricionária, numa tentativa de conter os protestos.
Mas, por volta de 8 de janeiro, dia em que o regime suspendeu as comunicações, ficou claro que a repressão discricionária não bastava para sufocar as mobilizações massivas. Os protestos se estenderam às 31 províncias iranianas e a todas as grandes cidades, inclusive aquelas consideradas santuários da reação por sua tradição religiosa.
Em várias cidades registrou-se a perda de controle do espaço público pelas forças repressivas. A cada noite, as mobilizações tornavam-se mais massivas e tendiam a se endurecer. Nas redes sociais, esse processo foi registrado como a “libertação” das cidades: milhares de pessoas deslocando as forças repressivas, ocupando praças, prédios públicos, bancos e outras instituições. Em várias localidades, a polícia local se quebrou, recuando ou se recusando a reprimir os protestos.
Após o aparecimento das primeiras vítimas fatais, as massas radicalizaram sua ação. O fogo converteu-se em metonímia da rebelião. Os manifestantes passaram a incendiar qualquer obstáculo: bancos, prédios públicos, monumentos, delegacias, sedes da Basij, muros de concreto com os quais o governo pretendia bloquear rodovias.
Em diferentes pontos, foram relatados tiroteios entre a polícia e manifestantes, que pareciam desenvolver elementos de autodefesa. Registraram-se dezenas de vítimas entre as forças repressivas, que também não podem ser contabilizadas com precisão (o governo alegou 119 mortos até 13 de janeiro). Isso basta para dimensionar o rumo que os protestos tomavam em seu auge.
Um regime militarizado
O terceiro momento do processo é marcado pela decisão do governo de esmagar a rebelião a ferro e fogo, sem se importar com os custos. A partir de 8 de janeiro, a teocracia passou a encarar a repressão como uma questão de sobrevivência e barbárie.
Para sufocar esse enorme processo, foi desencadeado um operativo em todo o território iraniano. O controle da repressão passou definitivamente aos Corpos da Guarda Revolucionária Islâmica. Essa força militar especial responde diretamente à teocracia e foi especialmente concebida para a repressão interna. Aos seus 125.000 efetivos somam-se 90.000 da Basij. O regime mobilizou ainda cerca de 50.000 milicianos das chamadas FMP (Forças de Mobilização Popular) do Iraque, uma organização paramilitar que atua como proxy dos aiatolás.
A mecânica do operativo reflete dois elementos. Primeiro: que o principal (ou único) elemento de governabilidade do regime reside na máquina repressiva da Guarda Islâmica. A crise de legitimidade é tamanha que se colocou em xeque a capacidade da polícia regular para reprimir os protestos.
Segundo: que o aparato repressivo do Estado corria risco de ser transbordado. As cenas das últimas semanas, com cidades fora do controle das forças repressivas e dezenas de efetivos mortos, não são normais nem mesmo para um regime teocrático que executa 2.000 pessoas por ano, como o iraniano. São imagens que refletiam a radicalização da rebelião (e seu potencial trânsito para uma guerra civil).
O regime dos mulás e a Guarda Islâmica responderam como um monstro acuado. Em apenas dois dias (8 e 9 de janeiro), as vítimas fatais somaram-se aos milhares. Uma vez sufocados os protestos, as cidades iranianas vivem sob um estado de sítio de fato: patrulhas militares, pontos de controle nos centros urbanos e toque de recolher noturno.
O apagão informacional serviu ao regime não tanto para ocultar a repressão, mas para desorganizar e atomizar os manifestantes. Nas semanas anteriores, já haviam sido tomadas medidas para desarticular espaços de reunião, virtualizando aulas universitárias e realizando batidas em residências estudantis. O corte da internet retirou um elemento básico de organização de uma população que se mobilizava com altos níveis de espontaneidade, sem organismos de direção estruturados.
Trump e o imperialismo
Ainda ninguém sabe com certeza por que Trump não concretizou suas ameaças de intervenção. O certo é que isso nada tem a ver com o número de vítimas ou com o futuro dos processos judiciais. Na quarta-feira, dia 14, o mundo acompanhou apreensivo os sinais de alerta por movimentos militares: deslocamento de porta-aviões norte-americanos, fechamento do espaço aéreo iraniano e atividade de drones em território israelense. Mas parece que os cálculos não fechavam para Trump.
Entre as informações cruzadas dos serviços de inteligência, tornou-se evidente que, mesmo em plena crise, o regime iraniano mantém poder de fogo e capacidade de resposta militar. Não parece haver uma “hipótese Venezuela” possível para o Irã. Um ataque dos EUA teria desencadeado uma resposta de mísseis balísticos contra bases norte-americanas no Oriente Médio.
“A preocupação foi repetida por oficiais israelenses e árabes, que disseram à administração dos EUA que o regime iraniano ainda não estava tão fraco a ponto de ser derrubado por bombardeios americanos” (The Guardian). Os Estados do Golfo e a Turquia comunicaram a Trump sua rejeição a uma intervenção. Os sauditas, inclusive, negaram o uso de seu espaço aéreo para operações militares. A reabertura de um conflito armado com o Irã poderia gerar desequilíbrios agudos na economia regional, sobretudo no transporte marítimo do Golfo. E, num contexto de guerra civil aberta no Iêmen e na Síria, seria uma caixa de Pandora que as potências regionais não desejavam abrir.
Isso sem mencionar que a nenhum desses Estados (nem ao próprio Trump) interessa ver a queda de um regime político vizinho pelas mãos de uma rebelião popular radicalizada. “Muitos desses Estados ressentem-se da interferência de proxies iranianos. Ainda assim, poucos veriam com bons olhos o exemplo de um regime autoritário derrubado por protestos de rua motivados pela queda dos padrões de vida, levando a uma transição democrática ou mesmo à fragmentação de um Estado iraniano unificado.”
O mesmo vale para o imperialismo norte-americano. Como demonstrou o caso venezuelano, Trump não busca mudanças de regime, mas mudanças de alinhamento. Busca tornar operacional qualquer regime em função de seus interesses e subordiná-lo à sua esfera de influência colonial.
Um processo de massas aberto e sem representação resolvida
Os quase 20 dias de mobilizações ininterruptas marcaram o maior processo de protestos no país desde a Revolução e Contrarrevolução que deu origem ao regime em 1979. Apenas o massacre contrarrevolucionário dos mulás e da GRI conseguiu interromper um processo que não parava de crescer. A repressão foi massiva porque atacou um movimento que envolvia uma esmagadora maioria social.
O regime buscou frear os protestos gerando um trauma de massas. “O impacto foi desastroso e entorpecedor. Ainda estamos digerindo. Estamos falando das ações mais brutais da República Islâmica desde os anos 1980. A ampla maioria dos iranianos não se lembra de nada parecido. Agora começa a emergir que quase todos conhecíamos alguém que foi assassinado.” Mas a magnitude do trauma necessário para frear o processo torna precipitado classificá-lo como uma vitória da teocracia. O terrorismo de Estado é uma receita tradicional do regime desde o seu nascimento. E esse caminho levou o país ao estouro do último mês. Até quando pode se sustentar um regime que só se legitima pela repressão, quando não consegue garantir sequer a normalidade econômica, nega direitos democráticos às massas e acumula derrotas militares e geopolíticas?
O massacre deteve as mobilizações, mas não apagou o descontentamento. Provavelmente o aprofundou. Os funerais dos manifestantes assassinados reúnem dezenas e centenas que cantam contra a teocracia. Nas ruas, ouvem-se cânticos e buzinaços nos interstícios deixados pela militarização. Em todo caso, a última onda de protestos marcou um novo patamar na longa história de descontentamento no Irã. E, pelo seu alto grau de desenvolvimento, também evidenciou alguns dos problemas enfrentados pelos manifestantes ao tentar avançar.
O principal deles é a falta de uma alternativa política clara. Evidentemente, isso não é surpresa. A teocracia trabalha há quatro décadas para suprimir toda oposição organizada. Trata-se de um regime nascido de uma contrarrevolução clerical e obscurantista que sufoca a vida social, cultural e política de uma sociedade diversa e riquíssima. Hoje não existem organizações opositoras com alcance para organizar e orientar movimentos de massas.
Nesse vazio de representação, ganhou relevância o príncipe emigrado Reza Pahlavi. Esse personagem, que sonha com a restauração da monarquia persa, carrega a marca do fracasso histórico. A classe trabalhadora e o povo jogaram a monarquia no lixo na Revolução de 1979. Desde então, a família do xá passou décadas perambulando pela América do Norte, mendigando de salão em salão. “Tem sido um problema recorrente desde o fim dos anos 1990. À medida que a elite iraniana começou a se fraturar e os protestos cresceram, Pahlavi fez várias tentativas de construir coalizões de oposição [no exílio]. A maioria sucumbiu a desacordos internos. A coalizão diversa formada em Georgetown durante o movimento ‘Mulher, Vida, Liberdade’ em 2023 rapidamente desmoronou.”
A isso soma-se o vergonhoso histórico político de Pahlavi. O príncipe mendigo é um capacho do imperialismo norte-americano. Pediu que Trump bombardeasse o país para facilitar a queda de Kamenei. Promete reconhecer o Estado de Israel e visitou Jerusalém em pleno genocídio. Não há elemento democrático que possa conviver com essa figura.
Também não existe organização nem elemento de poder dentro do Irã que dê sustentação real a uma perspectiva restauracionista. Até o próprio Trump deixou claro que não confia em Pahlavi como via para uma mudança de regime. Se consignas monárquicas ganharam destaque nos protestos, isso se deve à absoluta falta de alternativas. “Para muitos iranianos nascidos após o governo repressivo do xá, Pahlavi é pouco mais que uma conveniente página em branco. Os chamados pelo retorno da monarquia são um sinal de desespero de parte dos manifestantes. Sob a repressão da República Islâmica, eles não conseguiram se agrupar em torno de nenhuma figura política dentro do país.”
Basta acompanhar cronologicamente a cobertura midiática dos protestos para ver que as consignas restauracionistas não surgiram com o despertar do movimento. Foram introduzidas de fora. Foi um trabalho dos meios pró-monárquicos e de porta-vozes de outras potências. Muitos dos vídeos que circularam com consignas restauracionistas revelaram-se editados com IA. E, se algum setor da população construiu ilusões em torno de Pahlavi, já pode estar decepcionado. O príncipe chamou à marcha rumo à guerra civil poucas horas antes do massacre, prometendo a ajuda celestial de Trump. Hoje está mais do que claro que as massas dependem de si mesmas.
Rebelião e autodeterminação no Irã e no Oriente Médio
A figura de Pahlavi representa o oposto simétrico das reivindicações que o povo iraniano levou às ruas. O príncipe mendigo é pró-imperialista e intervencionista, apoia o sionismo que bombardeou o Irã há meses e propõe uma transição para uma monarquia anacrônica e fantoche de Trump.
A rebelião iraniana é um movimento democrático que se ergue contra um enorme aparato repressivo e parasitário. Um movimento que se transversalizou por diferentes camadas da sociedade, especialmente entre os setores pobres-populares das cidades, a juventude e as mulheres. É também um movimento transnacional, que envolveu rapidamente não apenas a população persa, mas o conjunto das nacionalidades oprimidas dentro do Irã. Os interesses históricos desses setores são incompatíveis com a restauração da dinastia persa.
É evidente que a ausência de organismos próprios da classe trabalhadora obstrui uma perspectiva de alternativa ao poder de Teerã. Em 1979, a classe trabalhadora iraniana teve os shoras como alternativa de poder própria. Sem ações organizadas da classe trabalhadora, é difícil atingir os pontos de apoio do poder dos mulás (especialmente o petróleo). Mas os setores envolvidos nos protestos expressam o potencial da rebelião iraniana. Uma rebelião vitoriosa no Irã poderia alterar o signo da situação no Oriente Médio, hoje marcado por elementos bárbaros como o genocídio sionista, o avanço anticurdo na Síria e a guerra civil de proxies no Iêmen.
A queda do regime de 1979 pelas mãos das massas poderia abrir processos muito mais profundos se implicar a destruição do cárcere de povos construída pelos mulás. Poderia emergir o direito à autodeterminação do povo curdo, a primeira minoria étnica do Irã e também oprimida em outros Estados (Síria e Turquia). É isso que temem os porta-vozes das potências quando falam do perigo de “desintegração” do “Estado unificado” iraniano. Os efeitos de uma rebelião vitoriosa poderiam não respeitar as fronteiras administrativas.
É verdade que a rebelião iraniana se encontra cercada por inimigos e dificuldades, da teocracia local ao imperialismo norte-americano e sionista. Justamente por isso, toda esperança de uma saída progressiva para os povos e as massas iranianas reside em sua própria atividade e autodeterminação. Apenas os trabalhadores, os setores populares e as mulheres do Irã podem superar a barbárie teocrática sem retornar ao passado vetusto dos xás.











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