A construção de um partido revolucionário traz em si a aplicação da ciência e arte contidas na política revolucionária como ação criadora da realidade histórica a partir de determinadas circunstâncias. Como entendia Gramsci, ou mais agudamente em Trotsky, a arte da tática e da estratégia é a arte da luta revolucionária, a arte de aprender a lutar e ganhar.
Para que isso se alcance, é necessária a formação de quadros nacionais e intermediários capazes das tarefas de elaboração, direção de bases e transmissão coerente da política, estratégica e/ou taticamente traçada. Essa arte não cai do céu. Para as novas gerações é mais difícil, pois não contam com a experiência histórica e, por isso, nem com os instrumentos críticos e a “profissionalização” necessária. Porém, a luta de classe – a crise generalizada, a polarização política mundial, a intervenção imperialista e processos multitudinários de resistência – traz sinais cada vez mais inequívocos da necessidade imperiosa de construir partidos revolucionários. Da mesma forma, bem as novas gerações, que não carregam o peso das derrotas do passado, estão à frente dos processos de luta e colocam-se a construir alternativas políticas ao oportunismo e ao derrotismo.
Apresentamos o artigo abaixo (um texto de Trotsky acerca daquele que foi considerado, em várias citações de Lênin, o maior organizador bolchevique: Sverdlov), como subsídio à formação de novos quadros dirigentes, em pleno desenvolvimento ou em potencial, que a nossa e todas as outras organizações, realmente revolucionárias, necessitam para a reinserção do Marxismo no século XXI em setores de massas e criação de um instrumento da classe trabalhadora e dos oprimidos no mais estrito caráter revolucionário.
DA REDAÇÃO
Por Leon Trotsky – 13 de março de 1925
Só conheci Sverdlov em 1917, em uma sessão da fração bolchevique no Primeiro Congresso dos Sovietes: Sverdlov a presidia. Naquela época, poucos no partido imaginavam a estatura desse homem notável. Mas nos meses seguintes isso foi totalmente revelado. No primeiro período após a revolução, ainda era possível distinguir entre emigrantes (ou seja, aqueles que passaram muitos anos no exterior) e bolcheviques “domésticos” e “nativos”. Em muitos aspectos, os emigrantes tinham sérias vantagens devido à sua experiência europeia e, em relação a ela, ao seu horizonte mais importante, e também porque eles teoricamente generalizaram a experiência das lutas fracionais no passado. Claro, essa divisão entre emigrantes e não emigrantes era apenas temporária, posteriormente todas as diferenças desapareceram. Mas em 1917 e 1918 era bastante perceptível. De qualquer forma, não havia nenhum traço de “provincianismo” em Sverdlov, nem mesmo naquela época. Mês após mês, cresceu e se fortaleceu, de forma natural e orgânica, aparentemente sem esforço, em sintonia com os acontecimentos, em estreita colaboração e contato com Vladimir Ilyich, a ponto de, olhando superficialmente, se poderia ter pensado que Sverdlov havia nascido como um “estadista” revolucionário consumado de primeira ordem. Todos os problemas da revolução não os abordou desde cima, isto é, a partir de considerações teóricas gerais, mas desde baixo, por meio de impulsos da própria vida, transmitida pelo organismo do partido. Quando eram debatidos novos problemas políticos, às vezes podia parecer que Sverdlov (especialmente quando ele ficava em silêncio, o que não era incomum) hesitava ou não conseguia tomar partido. Na verdade, durante a discussão, sua mente estava ocupada resolvendo o problema em um nível paralelo que poderia ser esboçado assim: quem está disponível? De onde nomeá-lo? Como vamos abordar a questão e fazer com que ela se encaixe em nossas outras tarefas? E a decisão política ainda não havia sido tomada, nem o aspecto organizacional do problema e a questão do pessoal haviam sido levantados, e quase invariavelmente acontecia que Sverdlov já tinha propostas práticas de grande alcance preparadas, baseadas em sua memória enciclopédica e em seu conhecimento pessoal dos indivíduos.
Nas primeiras etapas de sua formação, todos os departamentos e instituições dos sovietes recorreram a ele em busca de pessoal; e essa primeira e árdua construção de quadros do partido exigia uma mente excepcionalmente rica e inventiva. Não era possível contar com um aparato estabelecido, arquivos, registros, etc. Pois tudo isso ainda estava em um estado de extrema confusão e, de qualquer forma, não oferecia nenhum meio de verificar diretamente até que ponto o revolucionário profissional “Ivanov” estava qualificado para dirigir este ou aquele departamento do soviete que ainda existia apenas no nome. Era necessária uma intuição psicológica especial para tomar tais decisões: era preciso fixar dois ou três pontos focais no passado de “Ivanov” e tirar conclusões deles para utilizá-las em uma situação totalmente nova. Com isso, essas transposições tiveram que ser feitas nos campos mais diversos: em busca de um comissário do povo, de um dirigente para a gráfica Izvestia, de um membro do comitê central dos sovietes ou de um comandante do Kremlin, e assim ad infinitum. Esses problemas organizacionais surgiriam, é claro, sem qualquer sequência, ou seja, nunca do cargo mais alto para o mais baixo ou vice-versa, mas em qualquer ordem, aleatoriamente, caoticamente. Sverdlov fazia consultas, recolhia ou recordava dados biográficos, telefonava, distribuía recomendações, enviava citações e marcava reuniões. Hoje não posso dizer exatamente em que qualidade realizou todo este trabalho, ou seja, quais eram as suas competências formais. Mas, em qualquer caso, uma parte considerável do trabalho teve de ser realizada sob a sua responsabilidade pessoal, com o apoio, evidentemente, de Vladimir Illich. E tais eram as exigências do momento que ninguém levantou a menor objeção. Sverdlov realizou uma parte considerável de seu trabalho organizativo como presidente do Comitê Executivo Pan-Russo dos Sovietes, utilizando os membros desse executivo para diversos trabalhos e em diversas funções. “Fale com Sverdlov”, aconselhava Lenin com frequência quando alguém se dirigia a ele com uma pergunta específica. “Tenho que falar com Sverdlov”, dizia o recém-nomeado “dignitário” soviético, quando precisava lidar com seus colaboradores. Uma forma de resolver um problema prático importante era (de acordo com a constituição não escrita) falar com “Sverdlov”. Mas o próprio Sverdlov, é claro, não era de forma alguma a favor desse método extremamente individualista. Pelo contrário, toda a sua atividade preparava as condições necessárias para dar a todos os problemas do partido e do soviete uma solução mais sistemática e regular. Naquela época, o que era necessário eram “pioneiros” em todos os campos, ou seja, pessoas capazes de se virar sozinhas em meio ao caos mais imenso, na ausência de tradições, sem estatutos nem regulamentos. Eram pioneiros para as necessidades mais inconcebíveis que Sverdlov procurava constantemente. Ele lembrava-se, como já disse, de tal ou tal detalhe biográfico, de como tal ou tal pessoa se tinha comportado em tal ou tal circunstância, e a partir daí deduzia se tal ou tal candidato se encaixaria ou não no cargo. Obviamente, houve muitos erros. Mas o surpreendente é que não houvessem muitos mais. E o que parece mais assombroso é que Sverdlov fosse capaz de abordar um problema em meio ao caos das tarefas, ao caos das dificuldades e com um mínimo de pessoal capacitado. Era muito mais claro e fácil abordar cada problema do ponto de vista dos princípios e da utilidade política do que do ponto de vista organizacional. Essa situação, que ainda hoje nos acompanha, deve ser considerada como derivada da própria essência de um período de transição para o socialismo. Mas naquela época, a contradição entre um objetivo claramente previsto e a falta de recursos materiais e humanos era sentida de forma muito mais aguda do que hoje. Justamente quando os problemas estavam na fase de solução prática, muitas pessoas se afastavam balançando a cabeça com perplexidade. E então alguém perguntava: “Bem, o que você diz, Jacob Mikhailovich?
E Sverdlov apresentava sua solução. Na sua opinião, “a empresa era bastante viável”. Era preciso delegar a um grupo de bolcheviques bem escolhidos, comunicar-lhes o dossiê pertinente, as conexões adequadas, dedicar-lhes a atenção e a ajuda necessárias, e isso seria feito. Para alcançar o sucesso dessa forma, era necessário ter confiança absoluta de que era possível resolver qualquer tarefa e superar qualquer dificuldade. Uma reserva inesgotável de otimismo na ação era, de fato, a base da atividade de Sverdlov. É claro que isso não significa que todos os problemas tenham sido resolvidos 100% dessa maneira. Se fosse resolvido em 10%, já estava bom. Naqueles dias, isso significava a salvação, porque o dia seguinte estava garantido. Mas, no final das contas, era aí que terminava toda a atividade daqueles primeiros e difíceis anos. Era necessário encontrar comida de alguma forma; era necessário encontrar comida para as tropas, equipá-las, treiná-las; era necessário fornecer transporte de alguma forma; era necessário deter o tifo de alguma forma. Por mais que a revolução tivesse que salvar seu amanhã.
O melhor tipo de bolchevique
As qualidades de Sverdlov revelaram-se de forma surpreendente nos momentos mais críticos, por exemplo, após os acontecimentos de julho de 1917, ou seja, quando os guardas brancos esmagaram o nosso partido em Petrogrado. E novamente, durante os dias de julho de 1918, ou seja, depois que os socialistas-revolucionários organizaram sua insurreição. Em ambos os casos, foi necessário reconstruir a organização, renovar os laços ou criá-los, mantendo aqueles que haviam sofrido a maior provação. E em ambos os casos, Sverdlov foi insubstituível com sua calma revolucionária, sua amplitude de visão e a abundância de seus recursos.
Em outra ocasião, contei como Sverdlov chegou desde o Grande Teatro do Congresso dos Sovietes ao gabinete de Vladimir Illich bem no “clímax” da revolta da SR. Depois de nos cumprimentar com um sorriso, ele disse: “Bem, acho que teremos que passar novamente do Sovnarkum (Conselho dos Comissários do Povo) para o Revkom (Comitê Militar Revolucionário). O que vocês acham?”
Sverdlov continuou sendo ele mesmo, como sempre. É nesses momentos que se conhece verdadeiramente as pessoas. E Jacob Mikhailovich era realmente incomparável, seguro de si, corajoso, firme, engenhoso: o melhor tipo de bolchevique. Foi precisamente nesses momentos críticos que Lenin passou a apreciar e conhecer Sverdlov. De vez em quando, Vladimir Ilich pegava o telefone para propor a Sverdlov uma medida especialmente iminente e, na maioria dos casos, a resposta que recebia era: “Já”. Isso significava que a medida já havia sido adotada. Muitas vezes brincávamos sobre isso, dizendo: “Bem, o mais provável é que Sverdlov já a tenha”.
Lenin comentou certa vez: “Lembra-se, no início nos opusemos à sua admissão no comitê central. Como subestimamos esse homem! Houve muitas discussões a respeito, mas a base nos corrigiu na reunião e acabou que eles estavam certos”.
Embora, é claro, nunca tenha sido cogitada a fusão das organizações, o bloco com a SR certamente contribuiu para tornar um pouco nebulosa a conduta dos quadros do nosso partido. Basta mencionar, por exemplo, que quando um grande grupo de ativistas foi destacado para a Frente Oriental, ao mesmo tempo em que Muraviev foi nomeado comandante-chefe dessa região, um eserista foi eleito secretário desse grupo de várias dezenas de homens, a maioria dos quais eram bolcheviques.
Nas diversas instituições e departamentos, quanto maior era o número de novos membros e membros acidentais do nosso partido, mais indefinidas eram as relações entre bolcheviques e eseristas. A negligência, a falta de vigilância e coesão entre os membros do partido recém-instalados no ainda novo aparato estatal, caracterizam-se de forma bastante marcante pelo simples fato de que o coração da revolta na base era constituído pela organização eserista das tropas da Checa.
A saudável mudança ocorreu literalmente em dois ou três dias. Durante os dias dessa insurreição organizada por um partido governante contra outro, quando todas as relações pessoais foram repentinamente questionadas e os funcionários dos departamentos começaram a vacilar, os melhores e mais dedicados elementos de todos os tipos de instituições se aproximaram rapidamente uns dos outros, rompendo todos os laços com os SR e lutando contra eles. Os quadros comunistas se uniram em fábricas e regimentos. No desenvolvimento do partido e do Estado, esse foi um momento de importância capital. Os elementos do partido, que estavam dispersos e parcialmente espalhados entre os quadros informais do aparato estatal e cujos vínculos com o partido se confundiam, em grande escala, com as relações departamentais, esses elementos, voltaram instantaneamente ao passado, cerraram fileiras e se uniram sob os golpes da insurgência do SR. Em todos os lugares, os quadros comunistas assumiram a estrutura que a direção atual assumiu na vida interna de todas as instituições. Pode-se dizer que foi precisamente naqueles dias que o partido, em sua maioria, tomou pela primeira vez verdadeira consciência de seu papel como organização dirigente, dirigente do Estado proletário, partido da ditadura do proletariado, não apenas em seus aspectos políticos, mas também em seus aspectos organizacionais. Esse desenvolvimento, que poderia ser definido como o início da autodeterminação do partido no campo da organização dentro do aparato do Estado soviético criado pelo próprio partido, ocorreu sob a autoridade de Sverdlov, independentemente de se referir ao Comitê Executivo Pan-Russo dos Sovietes ou a um dos serviços do comissariado de guerra. Os historiadores da Revolução de Outubro serão obrigados a distinguir e estudar em detalhe este momento crítico na evolução das relações recíprocas entre o partido e o Estado, momento que deixaria sua marca em todo o período seguinte, até os nossos dias. Em relação a isso, o historiador que levantar essa questão destacará o imenso papel desempenhado durante esse importantíssimo ponto de inflexão por Sverdlov, o organizador. Ele tinha em suas mãos todos os fios da rede de relações práticas.
Ainda mais críticos foram os dias em que os checoslovacos ameaçavam Nizhni Nóvgorod, enquanto Lenin caía, com duas balas SR no corpo, recebi um telegrama cifrado de Sverdlov em 1º de setembro: “Retorne imediatamente. Illich ferido. Ignorando a gravidade. Prevalece a calma total. Sverdlov. 31 de agosto de 1918.” Parti imediatamente para Moscou. Os círculos do partido em Moscou estavam em um estado de ânimo austero, sombrio, mas decidido. Sverdlov expressou de forma perfeita essa decisão. Suas responsabilidades e seu papel aumentaram consideravelmente naqueles dias. Podia-se sentir uma tensão extrema nesse corpo nervoso. Mas essa tensão extrema significava apenas uma maior vigilância, não tinha nada em comum com a inquietação sem rumo e muito menos com a irritação. Naqueles momentos, Sverdlov dava tudo de si.
O diagnóstico dos médicos era otimista. Não eram permitidas visitas a Lenin, ninguém era admitido. Não havia motivo para ficar em Moscou. Pouco depois do meu regresso a Sviyazhsk, recebi uma carta de Sverdlov datada de 8 de setembro: “Caro Leon Davidovich, aproveito esta oportunidade para lhe escrever algumas palavras. Vladimir Illich está bem. Provavelmente poderei vê-lo em três ou quatro dias”. O resto da carta trata de questões práticas que não é necessário expor aqui.
Na minha memória está profundamente gravada a viagem à pequena cidade de Gorki, onde Vladimir Ilich se recuperava dos seus ferimentos. Foi durante a minha viagem seguinte a Moscou. Apesar da terrível situação, era claramente visível a melhora na frente oriental, que na época era a frente decisiva, tínhamos recuperado Kazan e Simbirsk. O atentado contra Lenin serviu como prova política suprema para o partido: este tornou-se mais vigilante, mais alerta e melhor preparado para expulsar o inimigo. Lenin estava se recuperando rapidamente e logo se preparava para retomar suas atividades. Tudo isso criou um ambiente de força e confiança. Como o partido tinha sido capaz de enfrentar a situação até aquele momento, certamente continuaria a fazê-lo no futuro. Esse era exatamente o nosso estado de espírito a caminho de Gorki. “En route”, Sverdlov me colocou a par do que havia acontecido em Moscou enquanto eu estava fora. Ele tinha uma memória excelente, como acontece com a maioria das pessoas com grande impulso criativo. Seu relatório girava, como sempre, em torno das coisas mais importantes que precisavam ser feitas, com os detalhes organizacionais necessários, acompanhados de breves características das pessoas. Em resumo, era uma ampliação da atividade habitual de Sverdlov. E por baixo de tudo isso, havia uma tranquila, mas ao mesmo tempo irresistível, corrente de confiança. “O faremos!”
Um presidente com autoridade
Sverdlov teve que presidir muitas vezes. Foi presidente de muitos órgãos e em muitas reuniões. Era um presidente com autoridade. Não no sentido de pôr fim a uma discussão ou interromper o orador, etc. De forma alguma. Pelo contrário, nunca evitou nem insistiu nas formalidades. Sua autoridade como presidente consistia em que sempre sabia qual era a decisão prática, compreendia quem deveria falar, o que deveria ser dito e por quê. Ele conhecia muito bem o contexto da questão, e toda questão importante e complexa tem seu próprio contexto. Era especialista em dar a palavra ao orador adequado, sabia como submeter a proposta à votação no momento certo, sabia o que se podia conseguir e era capaz de alcançar o que queria. As suas características como presidente estavam indissoluvelmente ligadas a todas as suas qualidades como líder em exercício, à sua capacidade de cativar as pessoas com realismo, à sua inventividade inesgotável no campo das combinações organizacionais e pessoais.
Durante as sessões tempestuosas, ele era especialista em deixar a assembleia ficar barulhenta, desabafar e, então, no momento oportuno, intervir para restabelecer a ordem com mão dura e voz metálica.
Sverdlov era de estatura mediana, moreno, frágil e doente, com o rosto esquelético. Seus traços eram angulares. Sua voz forte, até mesmo potente, podia parecer desproporcional em relação ao seu físico. O mesmo pode ser dito de seu caráter. Mas essa impressão só podia ser passageira. E então a imagem física se fundia com a moral. Mais: aquele rosto emagrecido com sua vontade tranquila, invisível, invencível e inflexível, aquela voz poderosa, mas inflexível, ofereciam uma imagem harmoniosa. “Nichevo”, dizia às vezes Vladimir Illich em uma situação difícil, “Sverdlov lhes dirá o que fazer com seu baixo sverdloviano e o assunto estará resolvido”. Nessas palavras havia uma ironia afetuosa.
Durante o primeiro período, após outubro, como sabemos, nossos inimigos chamavam os comunistas de “homens de couro” devido à forma como nos vestíamos. Acredito que o exemplo de Sverdlov desempenhou um papel crucial na introdução do uniforme de couro entre nós. Em todas as circunstâncias, ele estava invariavelmente coberto de couro da cabeça aos pés, desde seu boné de couro até suas botas de couro. Esse traje, que correspondia mais ou menos à época, brilhava ao seu redor como o tipo do centro da organização.
Os camaradas que conheceram Sverdlov na clandestinidade lembram-se de um Sverdlov diferente. Mas na minha memória, Sverdlov permanece vestido com couro como uma armadura que ficou preta sob o efeito dos primeiros anos da guerra civil.
Estávamos em uma reunião do bureau político quando Sverdlov, que estava em casa com febre, começou a se sentir pior. E.D. Stasova, então secretária do comitê central, entrou na reunião. Vinha do apartamento de Sverdlov. Seu rosto estava irreconhecível. “Jacob Mikhailovich está mal, muito mal”, disse ela. Bastou um olhar para compreendermos que não havia esperança. Encerramos a reunião. Vladimir Ilich foi para a casa de Sverdlov e eu fui para o comissariado para me preparar para partir imediatamente para a frente. Após um quarto de hora, um telefonema de Lenin, com aquela mudança peculiar na voz que denota uma grande tensão: “Acabou, acabou, acabou”. Por um momento, cada um de nós segurou o fone na mão e cada um pôde sentir o silêncio do outro lado. Então desligamos. Não havia mais nada a dizer. Jacob Mikhailovich havia morrido.
Sverdlov não estava mais conosco.










