Por ROBERTO SÁENZ
Politicamente, a imprecisão dá a Trump margem de manobra. Estrategicamente, o fato de ele não ter especificado quais são os objetivos da ‘Fúria Épica’ é sua maior vulnerabilidade.
The Economist, 7-13 mar 2026
Emmanuel Macron anunciou que a França aumentará suas capacidades nucleares e lançou um novo submarino nuclear para 2036: ‘Os próximos 50 anos serão uma era de armas nucleares’.
The Economist, idem
(…) à medida que a IA se torna cada vez mais poderosa, os especialistas no assunto estão pessimistas, prevendo uma catástrofe. Alguns alertam para um ‘Momento Chernobyl’: um uso da IA que leve a um desastre [devido à sua falta de controle e regulamentação] causando tanto grandes prejuízos econômicos quanto perdas de vidas.
The Economist, idem
(…) Milei descredita sua própria teoria [do livre mercado] e vê a crise [da Fate] como resultado de uma operação conspiratória com a qual Madanes tirou proveito da perda de seus privilégios. Essa interpretação é o que inspira a abordagem que o Ministério do Capital Humano adotou em relação ao problema: obrigar os proprietários da Fate a pagar os salários aos funcionários que não só não trabalham, mas também ocuparam a fábrica.
Carlos Pagni, La Nación, 12 mar 2026
Este artigo é uma versão editada do relatório apresentado pelo autor na última reunião do Comitê Central do Nuevo MAS.[1]
1- Um momento de grande concentração de acontecimentos
É difícil, neste momento, separar os acontecimentos mundiais dos nacionais. Os acontecimentos internacionais têm tanta importância, tanta influência até mesmo em conflitos como o da Fate (o preço do petróleo não é trivial para o futuro dessa empresa) e o governo de Milei está tão ligado ao de Trump, que estamos vivendo um momento de superposição de eventos nacionais e internacionais.
Por exemplo, Morales Solá publicou um editorial no La Nación na semana passada afirmando que a Argentina “está em guerra”, porque Presti esteve na reunião de segurança de Trump com seus aliados da América Latina (“Os Escudos das Américas”), onde se discutiu a guerra no Oriente Médio. O conhecido jornalista, preocupado e com suas habituais reservas em relação a Milei, questionou-se em seu editorial: será que a Argentina precisa “estar em guerra”, envolver-se no distante Oriente Médio, quando já sofreu dois atentados na década de 90? Evidentemente, trata-se de mais um dos delírios do louco delirante de Milei.
Há “momentos de condensação” em que os acontecimentos internacionais marcam tudo, ainda que de forma desigual. As grandes crises econômicas, como a de 2008, afetam tudo; da mesma forma, logicamente, as grandes revoluções sociais, como a russa e a chinesa no século passado; e o mesmo ocorre com as guerras de impacto mundial, tanto geopolítico quanto econômico, como agora no Oriente Médio. E, embora pareça delirante e seja algo de longo ou médio prazo, o planeta está passando por um rearmamento porque todo mundo acredita que a velha ordem baseada em regras chegou ao fim e que, dada a paridade de forças entre as potências rivais dos Estados Unidos e da China, uma nova ordem dificilmente se estabelecerá sem um confronto bélico interimperialista. [2]
No momento, a guerra no Irã se espalhou descontroladamente por praticamente todo o Oriente Médio, mas não parece que a Rússia ou a China venham a se envolver diretamente. No entanto, é um segredo a voz alta que a Rússia fornece inteligência aos iranianos e, além disso, Xi Jinping calcula o momento em que daria o “salto do Tigre”: invadir Taiwan. Talvez sua janela de oportunidade seja o governo de Trump, pois com outro governo isso certamente desencadearia uma guerra interimperialista.
Assim, as tendências gerais da rivalidade geopolítica e do rearmamento — que conduzem a um confronto de grande magnitude (ninguém se rearma à toa!) — e que, em princípio, são de médio a longo prazo, poderiam começar a se concretizar em prazos muito mais curtos. Repetimos: parece delirante pela destruição gigantesca que isso implicaria — uma nova guerra interimperialista seria quase inevitavelmente nuclear, mas não podemos descartá-la como cenário futuro.[3]
Na condensação também há vertigem, e o alerta é para que, em meio à vertigem, não se perca a construção do partido e da nossa corrente internacional. É preciso evitar que essa vertigem nos “devore” e nos impeça de tomar a distância crítica dos acontecimentos necessária para pensar. O ano começou com tudo desde o primeiro dia: Groenlândia, Venezuela, as idas e vindas na Ucrânia, agora o Irã e o Oriente Médio, e assim por diante. De forma precipitada, com tática mas sem qualquer estratégia (como apontam os grandes meios de comunicação imperialistas que se mantêm independentes, como The Economist e outros), Trump aplica a teoria do “aceleracionismo”: acelerar os desenvolvimentos como forma de compensar as fraquezas evidentes que se acumulam nos EUA como primeira potência mundial militar, mas já não econômica.
Neste momento, o conflito com o Irã e o Oriente Médio está fora de controle. O regime dos aiatolás demonstrou maior capacidade de resiliência do que o esperado. É um barril de pólvora maior do que o da Ucrânia, que é um país fora da OTAN, e é uma guerra mais “clássica” de autodeterminação nacional, embora se combine com uma guerra interimperialista (o fato de ser um país fora da OTAN dá um certo enquadramento aos desenvolvimentos interimperialistas). A guerra no Irã não envolve diretamente países da OTAN (embora a Turquia seja membro e tenha sofrido alguns ataques), mas combina de forma muito complexa elementos de guerra entre Estados com elementos de guerra civil, o que complica tudo. Além disso, o “campo geográfico” do confronto se expande a cada dia, e a revista The Economist acaba de definir a agressão de Trump e Netanyahu como uma “guerra contra a economia mundial”.
Fazendo uma pausa na análise, podemos observar que toda conjuntura condensa diversos elementos de uma maneira particular, mas nem sempre com a mesma intensidade que a atual situação internacional. Anos atrás, escrevíamos, inspirados em Gramsci e Bensaïd, que o estudo de como se deve analisar as situações políticas, ou seja, de como se devem estabelecer os diversos graus das relações de força (econômicas, geopolíticas, políticas e da luta de classes direta), pode se apresentar como uma exposição elementar da ciência e da arte políticas. Acrescentávamos que a conjuntura é uma categoria temporal e espacial ao mesmo tempo, e que toda conjuntura tende a ser totalizante (embora não de maneira mecânica, aplicável a todas as circunstâncias que operam em seu âmbito).
Esse conjunto de elementos políticos, geopolíticos, econômicos, sociais etc., que configuram a conjuntura determinada, apresenta-se como um todo, numa espécie de síntese que configura a cada momento uma determinada conjuntura política com traços próprios. Uma situação de condensação de eventos com traços próprios, que tem como fundamento as determinações materiais em que opera. De qualquer forma, “uma conjuntura política é um espaço de tempo relativamente limitado no qual os elementos que compõem a realidade econômica, política e ideológica se encontram ordenados de determinada maneira, configurando as características ou traços salientes desse momento” (Ciência e arte da política revolucionária).
2- Defendemos a nação iraniana contra a agressão imperialista e sionista, sem dar apoio político aos aiatolás
O fator mais determinante neste momento é a agressão imperialista e sionista contra a nação iraniana. O caráter das nações está acima dos regimes que as governam; é algo mais estrutural. No caso de guerra, o marxismo define sua postura com base no caráter das nações, que podem ser imperialistas – novas ou antigas –, independentes, dependentes, semicoloniais, coloniais (Lenin). O caráter independente do Irã foi um subproduto da revolução de 79, e é esse caráter independente que o imperialismo territorializado de Trump não suporta.
Quando defendemos o Irã do imperialismo e do sionismo, o que defendemos é o direito à autodeterminação nacional do povo iraniano; e, como marxistas revolucionários, isso também significa o direito à autodeterminação do povo em relação ao regime da família Khamenei, algo que outras correntes não dizem. Embora, no momento, o foco claro seja a defesa do Irã contra o ataque militar imperialista, não se pode ignorar que, em janeiro, houve uma rebelião contra o regime que foi massacrada. Fala-se de que houve entre dez mil e quarenta mil mortos pelo regime. Como na Guerra das Malvinas, quando corretamente o antigo MAS defendeu a Argentina da agressão britânica, e o fez sem dar qualquer apoio político ao governo de Galtieri.
Se a independência do Irã foi fruto da revolução de 1979, o regime dos aiatolás representou o sequestro e o esvaziamento reacionário da revolução, que se concretizou com a execução de cinco mil comunistas e também de militantes trotskistas. No Irã, existe uma tradição trotskista que é, em certa medida, representada pelo grupo Roja, com o qual mantemos contato em Paris. Isso é importante, porque se você não estabelecer uma relação com os explorados e oprimidos do Irã, não se conecta com o movimento de massas iraniano.
Com tudo isso, neste momento, o mais importante é a defesa nacional contra o ataque militar imperialista. Por exemplo, diante do setor curdo que está atacando agora o regime, não defendemos essa ação neste momento, pois é errada, porque uma revolta militar que fragmenta o Irã favorece Trump. Outro setor curdo fez acordos com os EUA contra o ISIS. E, embora tenha sido um acordo “não sagrado”, tratava-se de sobrevivência; entendemos isso como uma espécie de compromisso: um mal menor por um mal maior. Mas hoje a situação não é a mesma.
Também rejeitamos o ataque genocida sionista no Líbano, onde há elementos de guerra civil, porque o sionismo ameaça transformar Beirute em outra Gaza, outra guerra de extermínio, de ataque maciço e impune contra a população civil.
Tudo isso constitui a nova era da combustão. É preciso compreender as relações entre guerra, guerra civil, reação e revolução, e que toda guerra é a combinação de várias guerras ao mesmo tempo[4]. Nesse ponto, acertamos em relação à Ucrânia, onde o elemento da autodeterminação nacional tem mais peso hoje porque Trump não quer apoiar a Ucrânia, minimizando o aspecto da guerra interimperialista (que, de qualquer forma, também está presente).[5]
Em algum momento, a Ucrânia ameaçou cruzar linhas vermelhas, mas elas não foram cruzadas; ainda assim, o cenário atual parece mais fora de controle do que o vivido na Ucrânia, onde Zelensky não chegou a ser ultrapassado pelos acontecimentos (embora muitos analistas afirmem que a guerra ucraniana é, em muitos sentidos, uma guerra “de baixo para cima”).[6] Neste conflito, no Oriente Médio, os Estados correm o risco de serem ultrapassados pelos acontecimentos. Quando dizem “atenção, não queremos um Irã balcanizado”, estão alertando para a possibilidade de que a guerra se transforme em uma guerra civil incontrolável. Trump tem o cuidado de não enviar tropas terrestres, ao contrário do que fizeram os Estados Unidos no Vietnã, no Afeganistão e no Iraque.
3 – Um país extrativista?
Vejamos agora a conjuntura mundial no marco assinalado acima. O governo obteve uma vitória política com a lei trabalhista. Uma vitória superestrutural, cujo impacto ainda precisa ser observado em termos estruturais (Jacquelin). Em torno da lei trabalhista houve unidade burguesa; por isso conseguiram a vitória — inclusive Rocca é favorável. Trata-se de uma lei totalmente irresponsável: não se trata apenas de precarização do trabalho, mas de uma desqualificação massiva da força de trabalho argentina.
Essa lei funciona porque metade da força de trabalho já é precária (os fatos antecederam a lei). A precarização do trabalho começou com Menem; Kirchner restaurou as negociações coletivas, mas nunca se preocupou com a precarização. A “solução” foram os programas sociais: nunca se voltou à ideia de um mercado de trabalho unificado, com todos registrados formalmente e com direitos sociais. A classe trabalhadora de hoje é muito mais heterogênea e, ao mesmo tempo, mais diversa. A lógica da mais-valia absoluta se impôs sobre a mais-valia relativa, o que expressa a tendência à desindustrialização do país e ao deterioro extremo de sua infraestrutura.[7]
Assim como essa realidade criou a lei, a lei também é um veículo para criar a realidade — isto é, para esmagar aqueles que ainda estão formalizados, para esmagar a Fate. O que é real é a divisão do mundo do trabalho; o que não é real é que todo o mundo do trabalho seja precário. A lei trabalhista serve para universalizar a precarização e a desqualificação da força de trabalho.
Qual é o contrapeso? Jacquelin afirma que há um paradoxo: existe acordo entre a burguesia em torno da lei trabalhista, mas não há acordo sobre o modelo de país. Trata-se de uma contradição profunda (contradictio in adjecto): porque uma coisa anda de mãos dadas com a outra.[8] Não há como ter força de trabalho qualificada se as novas gerações não podem estudar e se formar. Tampouco há como se qualificar se não há estabilidade no emprego. Toda atividade humana, se não houver estabilidade, continuidade no processo de aprendizagem, aquisição de ofício e perspectivas, torna-se impossível de realizar.
Já nesse sentido, a lei é superestrutural (a contradição entre a lei e o projeto de país), e já há editoriais perguntando o que a lei trabalhista significará daqui a cinco anos: um país precarizado que perde ainda mais competitividade de sua força de trabalho? Aqui reside o perigo de Milei, no terreno econômico-social mais — por enquanto — do que no político (ou político-social). Não há unidade burguesa, por exemplo, em torno de derrubar o direito ao aborto — a defesa desse direito é transversal —, mas há unidade em torno da lei trabalhista. No entanto, o modo de produção especificamente capitalista não é o da mais-valia absoluta, mas o da mais-valia relativa, o da inversão em capital fixo, em ganhos de produtividade (o que resulta, repetimos, do investimento e da qualificação da força de trabalho, porque sem qualificação tampouco pode haver ganhos de produtividade). E acontece que agora, na Argentina, já não há mais mais-valia relativa (dito de forma exagerada): tudo é mais-valia absoluta e extrativismo — espoliação de recursos naturais e superexploração da classe trabalhadora.
“A característica geral da subsunção formal [do trabalho ao capital] continua sendo a subordinação direta do processo de trabalho — qualquer que seja, do ponto de vista tecnológico, a forma como ele se realize — ao capital. Sobre essa base, porém, ergue-se um modo de produção não apenas tecnologicamente específico, que metamorfoseia a natureza real do processo de trabalho e suas condições reais: um modo capitalista de produção. Somente quando este entra em cena se opera a subsunção real do trabalho ao capital (…) A subsunção real do trabalho ao capital [e, por consequência, aquilo que Marx chama de modo de produção especificamente capitalista baseado em máquinas] desenvolve-se em todas aquelas formas que produzem mais-valia relativa [isto é, ganhos de produtividade por meio do investimento em capital fixo e de uma determinada força de trabalho — uma determinada qualificação laboral — para esse fim], em contraste com a absoluta”
(Marx, O capital, livro 1, capítulo VI inédito, Siglo Veintiuno Editores, México, 1983, p. 72).[9]
Qual é a consequência? Dias atrás anunciavam que Pettovello está sob tensão diante do temor de um “estouro social”… Porque a lei trabalhista é uma vitória superestrutural em uma situação de extremo deterioro econômico, agravado pela crise no Oriente Médio. Deterioração econômica é quando professores e professoras do Nacional Buenos Aires pulam a catraca porque não conseguem pagar o metrô para ir dar aula. As duas principais preocupações na Argentina, segundo as pesquisas, são o emprego e o salário. Aos trabalhadores técnico-administrativos das universidades são impostos dois dias de home office por semana para que economizem o custo do deslocamento. Quando Jacquelin diz que a lei é superestrutural, é porque está preocupado com o estrutural: até quando essa situação de deterioro econômico e social poderá ser suportada?
Quanto às direções, a capitulação do peronismo é tão grande que já não se sabe que nome dar a ela. Mas a vitória superestrutural tem um contrapeso: as “condições de mal viver”. Isso também se expressa na multiplicação das motos — todo mundo foi trabalhar com entregas — e na queda da tarifa dos Uber devido à concorrência. Abriu-se uma crise no mercado de trabalho, cuja particularidade é o ataque aos trabalhadores e trabalhadoras sindicalizados; e também à universidade, onde se está incubando um enorme conflito diante da impossibilidade de funcionamento.
4 – Abrir o caminho da vitória
A Fate é, possivelmente, o maior conflito do proletariado industrial protagonizado pela esquerda nos últimos anos. Hoje é o caso exemplar, e o outro caso exemplar será — possivelmente — a Universidade. Se vier o conflito universitário, que tudo indica que virá. A luta das pessoas com deficiência e a do Garrahan foram muito importantes, mas a Fate é o coração do proletariado industrial.
Há algo que é central: Madanes está fechando a fábrica; está demitindo os trabalhadores que detêm o saber-fazer, o ofício, que não é fácil de substituir. Não é verdade que, com o sistema de máquinas, todo saber-fazer tenha desaparecido: ao demitir todos os trabalhadores, de certo modo ele implode a fábrica. A fábrica não são apenas as máquinas; é também o trabalho vivo encarnado no saber-fazer dos trabalhadores.
É um conflito dificílimo para os dois lados. É para os trabalhadores, porque Madanes quer fechar e, eventualmente, transformar esse capital em perda para que não afete seu patrimônio. Mas também é muito difícil para o governo provincial e o nacional, porque se trata de um escândalo nacional. Madanes fez isso de propósito: sai a lei trabalhista e ele anuncia mil demissões. Não é um conflito sindical; é profundamente político. Coloca sobre a mesa o futuro do emprego na Argentina e o modelo de país — algo que nem o PO nem o PTS entendem: coloca o proletariado industrial no centro da cena como um terceiro ator em disputas que normalmente ocorrem apenas entre os de cima. Se não se conquistar a opinião pública, o conflito se perde; não bastam os trâmites legais de Crespo nem mostrar os dentes no telhado. E não basta resistir: é preciso passar à contraofensiva, e isso não pode ser feito sem conquistar a sociedade — algo que este partido e nossos companheiros da Marrón estão fazendo.[10]
O conflito tem duas faces: é difícil para ambos os lados, e é preciso saber enxergar as duas. No meio estão mil famílias — é muita gente.[11] Em Gestamp, ficamos com oito companheiros em cima da ponte rolante, e Cristina teve de vir a público falar “contra a tomada do Palácio de Inverno”. O conflito é tão complexo que poderia gerar uma nova Villa Constitución, que venceu com o apoio do povo, conquistando toda a sociedade ao seu redor para a vitória em 1974 (em 1975 acabou sendo derrotada).
Os conflitos têm momentos. Neste conflito já foram ganhas duas batalhas: a permanência e o caráter nacional. É preciso ganhar uma terceira, que é abrir o caminho para a vitória. Para isso, é necessário acompanhar minuto a minuto, sem se desorientar, os elementos da conjuntura nacional e internacional que possam abrir esse caminho. Como há tanta gente envolvida e o problema é tão sensível, existe uma dupla temporalidade: uma joga contra, porque os companheiros desanimam, ficam sem dinheiro e acabam fazendo acordos; outra joga a favor, pela quantidade de companheiros envolvidos e pela possível confluência com outros conflitos ou com elementos de uma crise geral.
Ao mesmo tempo, é preciso evitar submeter-se às pressões do dia a dia e às fantasias. O PO e o PTS diziam que Madanes iria “pagar a quinzena na sexta-feira, 5 de março”: como iria pagar se tem a intenção de fechar? Não tinha lógica e, obviamente, não pagaram — nem sequer os dias trabalhados antes do fechamento.
Outra coisa é que tudo está em aberto: nenhuma hipótese pode ser descartada. É preciso forçar a mão de Madanes, de Milei e de Kicillof — ou de algum deles. Porque a situação mundial e nacional é tão mutável que fatores exógenos podem entrar na disputa: se os companheiros resistirem, podem forçar a vontade do adversário, obrigar Madanes a reabrir a fábrica ou forçar algum governo — provincial ou nacional — a uma estatização transitória.
Isso ocorre em um contexto particular: o 24 de março marca o 50º aniversário da ditadura. Se o governo fizer uma provocação como indultos ou algo semelhante, a praça explode. O governo tem limites. Agora estão dizendo que a questão do indulto aos militares vinha da gestão que acaba de sair. Porque isso toca nos problemas democráticos, que mobilizam mais gente; as questões democráticas são sempre explosivas.
Não vamos assinar um documento com o peronismo. A FIT-U é uma cooperativa eleitoral com múltiplas divisões na vida cotidiana; uma delas é que o MST e a IS querem assinar o documento dos K, quando vêm de uma traição total. Trata-se de uma política de frente populista: sobretudo a do MST, que parece desesperado para integrar a frente ampla que os K poderiam estar preparando para 2027, à imitação do lulismo no Brasil. A história da via judicial contra a reforma é ridícula: a Suprema Corte já avisou que não há água na piscina. Um setor do foro trabalhista pode até ser contra, mas é uma minoria.[12]
Na verdade, se fazemos de tudo, mas não construímos o partido, negamos o que votamos na Convenção Nacional de dezembro passado e continuamos iguais a sempre, sendo “carmelitas descalças” que correm para ajudar todo mundo e não se constroem. No verão estivemos muito bem: apostamos no acampamento e foi um acerto político e organizativo completo. O perfil anticapitalista é de primeira ordem neste mundo de pura barbárie, e o “anti-imperialismo” ainda precisa encontrar um sujeito. De todo modo, já Mariátegui, nos anos 1920 do século passado, afirmava que o ponto de vista anti-imperialista consequente — que não deve ser abandonado — é anticapitalista. É algo muito diferente de Bregman reivindicando San Martín em uma espécie de nacionalismo liberal barato, mais próximo da historiografia stalinista do que do socialismo revolucionário (a Bregman e ao PTS faria bem ler Milcíades Peña para se orientar de maneira marxista na história nacional e latino-americana).[13]
É preciso saber parar a bola. O partido está rangendo, porque o tempo todo dizemos que é preciso ter espaço para construir o partido, e o tempo todo não há espaço para isso. A realidade nos atropela porque há uma explosão de temas; temos que escolher, não podemos deixar de construir o partido.
5 – De Minneapolis à Fate
O CC acabou se transformando hoje em um comitê de luta com a presença dos companheiros da Marrón, e isso não é muito frequente. Ocorre que a Fate pode se tornar uma Minneapolis, e é isso que conecta as coisas. Diante das idiotices que a FIT-U diz — de que a Fate “não é o mais importante porque há demissões por todos os lados” — é preciso compreender que aqui se trata do fechamento de uma fábrica (a fábrica mais importante dirigida pela esquerda na Argentina, o que é um fato qualitativo). O conflito é histórico, e a situação política nacional não será a mesma com a Fate vitoriosa ou com a Fate derrotada. Depois de Minneapolis, Trump passou a atacar o Irã, mas não pôde voltar a sitiar nenhuma cidade, como já assinalamos. Houve dois mortos brancos, e isso fez o país explodir; e, embora devesse continuar sitiando cidades dos Estados Unidos, não pode fazê-lo — ao menos por enquanto — depois de Minneapolis. Por isso demitiu Kristi Noem, de certa forma transformando-a em bode expiatório e justificativa. E na Argentina não seria tão fácil aplicar a lei trabalhista se a Fate vencesse. Trata-se de um caso exemplar, não pode ser igual a outras lutas. Pode-se ganhar ou perder, mas não é o mesmo que outras demissões: é outra coisa, de outra qualidade.
É preciso encontrar a diagonal dialética que una os acontecimentos objetivos e as tarefas do partido; uma dessas diagonais é ligar o conflito da Fate ao conflito universitário que está prestes a explodir. Se ambos os conflitos se juntarem, fazemos um win-win, porque um dos lugares onde hoje somos mais fortes é a universidade, que está à beira de um conflito complexo, mas enorme.
É preciso ver como encontramos essas diagonais para que o partido possa se construir, e uma diagonal chave é unir esses dois conflitos. Se a Fate se transformar em uma causa nacional, resistir e se unir a outros conflitos, podemos obrigar Madanes a recuar. E também é preciso retomar a consigna política “Milei já não se aguenta mais”, que rompe com a linha de “há 2027”.
O fato de que “Milei já não se aguenta mais” é um sentimento comum, e que isso seja dito pelos companheiros da Fate coloca a classe trabalhadora no centro político contra o governo.
O deterioro social pode levar à desmoralização ou a um estouro social. A Fate tem de confluir com esse estouro social — essa é a estratégia para vencer. Tem de confluir com o conflito universitário, com o conflito docente, com a revolta social: não é por acaso que, quando Jorge disse nos meios de comunicação que ser demitido é “uma morte social”, o impacto foi imenso! Deveria ser convocada uma assembleia massiva pela Fate, com docentes, com técnico-administrativos, com outras fábricas, com todas as correntes políticas, com democracia operária.
Neste momento, o objetivo — que é a deterioração social — se conjuga com o subjetivo, uma greve histórica. Assim, a crise social tem um sujeito: a Fate. E pode ter outro sujeito: o movimento estudantil. Isso é um problema para eles — Madanes, Milei, Kicillof. A crise social poderia não ter sujeito algum, mas não é o caso.
Então, o problema é como fazer uma macropolítica. O ponto de apoio fundamental é que, em meio à crise econômica e social, há um sujeito: a ocupação pacífica da Fate. É um sujeito centralizado. Não é como nos anos 1990, quando as coisas vinham do interior: a Fate está aqui, no primeiro cordão industrial. O caminho da vitória é a confluência.
Há um elefante na sala, que é a Fate. Isso nos diferencia de todas as demais correntes. É uma loucura ver a Fate como mais um conflito. Eles a veem assim porque sua estratégia é puramente eleitoral, capitalizar os restos do país nas eleições de 2027. É a mesma estratégia do peronismo: eleitoralismo sem fim!
6 – Construção, construção e mais construção!
Quando saímos da medida do partido, não nos construímos. A política supera em muito a medida do partido, mas a construção não. Ela não pode ultrapassar a medida do partido, porque a construção é material, e não há como sobrepor-se abstratamente ao que é material. Quando dizemos que é preciso colocar a construção no centro, significa que não podemos fazer coisas que excedam a medida do partido.
Temos de alcançar “novas forças para as novas tarefas”, que era a consigna de Lênin em 1905, mas que é universal: precisamos mobilizar forças fora do partido. É preciso propor tarefas que o partido possa realizar. O fundo de greve tem de surgir pela base. Há 400 companheiros que, em vez de ficarem jogando truco no pátio da fábrica, podem sair a percorrer as fábricas da região, todas as universidades da CABA, do GBA e de La Plata etc. É preciso construir um fundo de greve democrático, controlado desde a base, no qual participem todas as agrupações da fábrica. Porque o fundo de greve não pode ser apenas doações vindas de cima: não é só o dinheiro, é o vínculo que se estabelece com outro trabalhador ou trabalhadora.
A política ultrapassa a medida do partido, e a construção tem de ser feita à medida do partido. Também os nossos companheiros precisam conseguir se afirmar, e estão conseguindo. Se não o fizessem, não haveria um sujeito do partido no conflito; seria complicado fazer de um conflito o eixo da política se não tivéssemos nenhum peso nele.
Os companheiros da Marrón foram decisivos para a ocupação da fábrica e para a entrada da maioria dos trabalhadores, e depois foram fundamentais para conquistar a opinião pública. O PO e a Negra não estiveram na vanguarda da luta para entrar, e o PTS se instalou isoladamente no telhado levantando a palavra de ordem de “partido dos trabalhadores”… É uma abstração ridícula que nega a necessidade da unidade da esquerda e em nada responde às necessidades da luta da Fate! Não se pode pensar a conjuntura argentina sem levar em conta a vitória ou a derrota da Fate, tratando-a como “mais um conflito”.
Reabertura ou estatização sob controle operário é uma fórmula algébrica com duas incógnitas. O que temos claro é que Madanes quer nos deixar de fora. O conflito depende da correlação de forças, não está resolvido, e as correntes que dizem que já está perdido são canalhas criminosos: está aberto e pode ser vencido. A fórmula algébrica também reflete isso, porque expressa as contradições existentes. Na fórmula “reabertura ou estatização” intervém também a situação mundial, porque em dois meses o negócio pode mudar. Se o negócio mudar e eles puderem voltar a ganhar dinheiro, não vão jogar todo esse capital no lixo (por isso é preciso aguentar a pressão da fome, da falta de dinheiro, a importância do fundo de greve etc.).
É preciso aprender a pensar: o negócio do pneu não depende muito do petróleo? Pois bem, o preço do petróleo subiu de 60 para 90 dólares (entre 100 e 120 dólares neste momento o barril, embora o preço esteja oscilando e dependa da evolução da guerra e de seus tempos). É delirante, mas essa fórmula algébrica depende, em certa medida, do conflito no Irã. O que está claro é que Madanes não quer reabrir com os companheiros lá dentro.
Por outro lado, agora vêm as eleições universitárias na UBA e poderíamos dar um grande resultado com o Ya Basta! fortalecido depois do VI Acampamento Anticapitalista Internacional. E isso, evidentemente, também é construção!
Para terminar, recordemos um dos conflitos do Crónica há 20 anos. Demitiram toda a redação. Cinco companheiros ficaram entrincheirados no quinto andar; subíamos comida para eles com cordas pela janela, e o partido acampava do lado de fora. Mandaram capangas para dentro do prédio. No final, os companheiros e companheiras desceram, fomos para casa de madrugada dizendo “perdemos”. No dia seguinte a patronal abre a porta e diz: “entrem todos”: ganhou-se o conflito! Nunca se perde um conflito até que ele termine! Os conflitos são assim, são o que há de mais dialético.
E este conflito nós vamos vencer!
Notas
[1] O amontoado de citações no início da edição deste informe não possui elegância estilística, mas serve para ilustrar a gravidade do momento. The Economist está tão preocupado com os desdobramentos sob o governo imperial de Trump que poderia passar a se chamar “Socialismo ou barbárie”…
[2] Mark Carney, primeiro-ministro do Canadá e ex-presidente do Banco da Inglaterra, poderíamos dizer que é um dos mais intelectuais entre as autoridades dos países imperialistas tradicionais (o Canadá é uma espécie de imperialismo de segunda ordem). A crítica a um mundo sem regras, que é o mundo de Trump, é de sua autoria, embora depois tenha sido retomada por outras autoridades, como a presidente da União Europeia, von der Leyen.
[3] Os estoques mundiais de armamentos e munições convencionais são demasiado escassos em quase todos os atores. Como a China não esteve envolvida em grandes guerras externas — nem internas — nas últimas décadas, poderia ter maiores reservas; mas tem também um problema: pouca experiência em guerras concretas. Sendo assim, para Xi Jinping a situação tampouco é simples. E Taiwan, embora seja uma potência de segunda ordem, tem uma sociedade civil contrária a ser tomada pelo comando da burocracia chinesa e, além disso, pode-se imaginá-la como uma sociedade com grande disciplina.
Não será simples para Xi levar à prática seu objetivo de tomar a ilha no final de 2027, data para a qual se diz que o exército chinês estaria pronto para invadi-la.
[4] A ideia de que toda grande guerra é uma condensação de várias guerras em uma só é bem abordada por Ernest Mandel em sua obra dos anos 1980, A Segunda Guerra Mundial, muito educativa a esse respeito.
[5] O duplo caráter da guerra ucraniana identificamos desde o primeiro dia da ofensiva da Rússia contra a Ucrânia e o mantemos até hoje diante das derivações campistas ou daquelas que perdem os elementos justos de autodeterminação nacional na defesa ucraniana. O SWP inglês, o PTS e o PO argentinos situam-se nessas posições; o SU, com sede na França, praticamente perdeu de vista o elemento interimperialista e se dedica, desde o primeiro dia da guerra, a defender o envio de armas imperialistas à Ucrânia, algo que rejeitamos.
[6] Pelo menos assim era até certo momento. Neste momento não temos uma leitura precisa do terreno ucraniano.
[7] A industrialização de um país evidentemente requer uma qualificação da força de trabalho muito distinta da ideia de um país extrativista.
[8] Uma “contradição no adjetivo” é uma expressão em latim que se refere a um adjetivo que contradiz o substantivo. Neste caso, o elemento mais amplo, o “substantivo”, seria o modelo de país, e aquilo que seria funcional a ele, a reforma trabalhista, seria o “adjetivo”: é evidente a contradição entre uma coisa e outra se o que se tem em mente é um país que mantenha sua indústria e não um mero país extrativista.
[9] A dialética entre qualificação e desqualificação do trabalho é mais complexa do que esta citação sumária de Marx, mas é de bom senso compreender que parte do desenvolvimento das forças produtivas de um país depende da qualificação de sua força de trabalho.
[10] Posteriormente ao informe houve novidades conjunturais favoráveis aos trabalhadores, porque a ordem de despejo, por enquanto, foi retirada, e porque Milei continua em conflito com Madanes, o que condiciona o comportamento do Ministério do Capital Humano, como vimos em uma das citações que abrem esta nota.
[11] O conflito encontra-se agora em uma espécie de suspensão ou impasse, no qual a aposta de Madanes — e também de Milei e Kicillof —, por enquanto, é o desgaste: que os trabalhadores abandonem o conflito pela fome.
[12] Entre o momento do informe e a publicação desta nota já houve rejeições, em primeira instância, ao recurso apresentado pela CGT contra a lei.
[13] Quando o Partido Comunista Argentino se tornou peronista depois do golpe de Perón em 1955 (antes disso havia sido gorila), desfilava com faixas de San Martín nas manifestações. O trotskismo se fundou na Argentina contra essa tradição — ao menos uma parte dele, a menos populista. A obra de Horacio Tarcus, El marxismo olvidado de Silvio Frondizi y Milcíades Peña, sua melhor obra, é valiosa a esse respeito (para essa genealogia histórica dos debates fundadores do trotskismo argentino).










