Por Roberto Sáenz
Este trabalho é parte de A política revolucionária como arte estratégico, de 17 de maio de 2020. Publicado originalmente com o título A “reversibilidade” entre guerra e política”. Republicamo-lo diante da experiência de luta e resistência nas ruas na Argentina na mobilização contra a reforma trabalhista de Milei e a resposta repressiva do governo.
Responderemos agora algumas perguntas sobre aspectos fundamentais da transformação da luta de classes em guerra civil.
O século XX foi um “século dos extremos”: aconteceram as guerras, revoluções e contrarrevoluções mais agudas da história humana (ressalvando todo o ciclo da Revolução Francesa, que foi de uma profundidade imensa, assim como imensas são suas lições, que ainda temos pendentes — em nossa corrente — de voltar a assimilar)[1].
Quando escrevemos sobre o século passado, o mais revolucionário e contrarrevolucionário da história humana, é, entre outras coisas, para transmitir a experiência da luta de classes mais extrema às jovens gerações.
Repassamos as grandes revoluções e contrarrevoluções do século passado para extrair e recriar as lições deixadas por elas para as gerações atuais; para ajudar a prepará-las em condições nas quais se avizinha mais contato entre as classes, mais choques — sem falar no mundo pós-pandemia ao qual estamos caminhando.
Uma revolução é um fato violento e sangrento. E é preciso recriar suas lições porque estamos entrando em um período no qual o “fantasma da revolução” começa a se fazer ver ao calor da polarização dos processos, dos Estados de exceção, do “panóptico digital” crescente, mas também das rebeliões que crescem no mundo.
Daí que devamos nos preparar para enfrentamentos mais duros, para uma luta de classes que, inevitavelmente, vai se radicalizando neste século XXI “apocalíptico”. A luta de classes está começando a “extremar-se” e o partido e a corrente vão ter de aprender a se mover em “um fazer mais radicalizado”.
1. Partido “processual” ou partido de vanguarda?
Ao abordar as inter-relações entre estratégia e partido, é preciso evitar o reducionismo. Os fins devem presidir o debate estratégico; a política deve mandar em relação aos “momentos guerreiros”.
Para os fins, o balanço é imprescindível. Sem o balanço do século passado, é impossível voltar a pensá-los. A teoria da revolução deve presidir o debate sobre a estratégia. Porque antes do “como” da estratégia, deve-se perguntar primeiro o “para quê”; uma estratégia para quais fins[2].
A construção do partido caracteriza-se por uma dialética que muitos não compreendem. O partido se constrói “tendencialmente”, não em linha reta: sempre em zigue-zagues. É um ensinamento de Trotsky. O partido se constrói por aproximações sucessivas: da esquerda para a direita e da direita para a esquerda; sempre em um desenvolvimento dinâmico.
E se constrói sempre contra sua “dinâmica natural”, contra suas pressões. Se é um partido pequeno, contra o sectarismo; se é grande, contra o oportunismo; se está cheio de operários, contra o sindicalismo; se está cheio de estudantes, contra as pressões pequeno-burguesas. E assim sucessivamente: sempre contra as pressões que sua construção implica.
Porque o partido não é uma “coisa”, não é um aparato: é uma “relação social”. É impossível pensá-lo fora de sua inter-relação com a classe trabalhadora, com a juventude, com o movimento de mulheres, com a vanguarda, com as classes em geral etc.; todas determinações que exercem pressões.
O revolucionário que se “casa” com uma orientação está ferrado. O revolucionário não se ata a nenhuma orientação em particular; nisso Lenin era de uma profundidade impressionante. Trotsky era um estrategista genial, mas Lenin era mais concreto (ver, a esse respeito, O esquerdismo, doença infantil do comunismo)[3].
Ser concreto é difícil. O partido adquire sua fisionomia em uma tensão constante contra suas pressões mais “naturais”: se tem pressão oportunista, é preciso ir para o outro lado; se tem tensões sectárias, idem.
O partido sempre tem problemas até que, no final, já não haja mais partido e ele se dissolva no comunismo… Entretanto, o partido nunca está totalmente construído, porque surge uma pressão após outra; é um “organismo” vivo.
É interessante estudar a Revolução Russa desse ponto de vista porque parecia (e era, claro) um partido grandioso, o bolchevique… Tomaram o poder! Mas depois os problemas lhes caíram em cima de forma dramática.
De onde saíram esses problemas? Da realidade. Do fato de que o partido não é, repetimos, uma “coisa”; é uma “relação social”: não pode ser pensado em abstração das condições às quais está submetido (em abstração da classe trabalhadora e das demais classes).
O partido está sempre em tensão, é algo vivo. Aprende num misto de experiência e assimilação crítica das lições anteriores. O partido tem de se construir, tem de aprender com a luta de classes. Nós tentamos aportar nosso acúmulo, nosso arcabouço; nos colocamos a partir da teoria da revolução e do nosso balanço do século XX.
Já sobre a definição de “partido de combate”, ela é clássica, mas é preciso problematizar o que quer dizer. Se fosse literal, deveríamos dizer que somos, por ora, “partidinhos de combate”, porque “partido de combate” ainda fica meio grande para todos nós…
É uma definição correta em termos gerais: aspiramos a ser partidos de combate. Mas vamos sê-lo de fato quando combatamos mais, quando dirijamos mais.
O partido é uma correlação com a classe trabalhadora. Mais partido, mais correlações; menos partido, menos correlações. Se se usasse a definição de “partido de combate” para reduzir a importância da política, seria um erro, porque todas as definições vêm da política, que é, no fim, nossa vinculação com a classe.
Mas se se usa contra o reformismo, está perfeita. Porque o reformismo — inclusive correntes que se dizem “socialistas revolucionárias” e tendem a reduzir tudo ao jogo institucional — está “comido” (e carcomido) apenas por eleições e sindicalismo, pelo financiamento estatal permanente de aparato; têm pressões para deixar de ser, evidentemente, partidos de combate[4].
Os partidos que são “pouco políticos” é porque, no fundo, lhes importa pouco a autoemancipação da classe operária. Veem a classe como uma “coisa”, não como sujeito. Nosso partido é “muito político” porque se importa muito com a classe, sua autoemancipação, dar ferramentas às trabalhadoras e aos trabalhadores nesse sentido.
Os grupos sectários tendem a pensar o partido sem a classe. Há muitas correlações aí que têm a ver com o “momento da política”. Trotsky relata isso muito bem em sua História da Revolução Russa, que é uma verdadeira escola — uma joia! — de política revolucionária. Trotsky mostra como o desenvolvimento do partido bolchevique, imprescindível, claro, é uma correlação com a classe trabalhadora.
O partido revolucionário testa sua política no “diálogo” com as massas, no vai e vem com sua experiência, e esse diálogo tem a ver com sua política, com o conteúdo dela. Os bolcheviques disseram: “bem, os camponeses pedem a terra que trabalham, então pronto, expropriação, repartição das terras”. Até o programa as massas ditaram aos bolcheviques, dito de forma exagerada.
O partido, sua política, constrói-se em um permanente vai e vem com a experiência das massas. O partido aporta a perspectiva histórica, o programa estratégico, o fator organizador político; as massas aprendem na experiência e dão sustentação a um processo que, para ser verdadeiramente revolucionário, deve ser de massas.
A revolução é um evento de massas, uma comoção que chega até as camadas mais profundas dos explorados e oprimidos. E nessa “levedura revolucionária” se constrói o partido, a vanguarda, os organismos; forja-se a organização revolucionária e disputa-se a direção dos processos; o partido imprime seu selo aos acontecimentos tanto quanto eles imprimem seu selo ao partido.
São todas correlações políticas. O combate físico decorre dessas relações políticas. Vai-se combater de modo distinto se se dirige um movimento de massas do que se se dirige um núcleo pequeno.
Além disso, o combate decorre de algo a defender e/ou conquistar; nunca é combate pelo combate. As “regras da arte da luta” começam quando já temos o “exército” plantado no cenário.
Os grupos instrumentalistas ameaçam perder as correlações políticas: hoje podem ser esquerdistas e amanhã direitistas sem solução de continuidade, porque não há correlações políticas; a lógica vira puramente instrumental, abstrai-se dos fins[5].
Nossa corrente se preocupa com as correlações políticas. Nos orientamos a ser um partido de combate, mas se algum dia eu vier a um plenário e disser “somos um partido de combate”, me chutem, companheiros.
Porque para ser um partido de combate de verdade é preciso acumular experiência — uma experiência que se adquire junto a elementos reais da classe — e, além disso, é preciso ter uma determinada envergadura.
Para ser um partido de combate, fazem falta operários e operárias reais; não se é partido de combate apenas com juventude e uma direção basicamente intelectual-revolucionária. Os trabalhadores são mais concretos.
Vamos ser um partido de combate mais real quando tivermos mais trabalhadores, porque a classe operária é prática: ao pão, pão; ao vinho, vinho. Somos organizações ainda muito juvenis, que conhecem de modo insuficiente a classe trabalhadora (ainda que tenhamos um acúmulo histórico de experiência, sem dúvida, além de fortes personalidades operárias em nossa organização); são temas complexos.
Antes de terminar, mais uma coisa. O fato de colocarmos que o partido significa uma determinada correlação com a vanguarda e a classe não quer dizer que adotemos a concepção de partido como fenômeno “processual”.
Até certo ponto, o desenvolvimento do partido é um fenômeno “processual” no sentido de que não pode se colocar por cima, abstratamente, do processo histórico no qual está inserido. Mas essa definição, tomada ao pé da letra, é abstrata e mecânica.
Com Lenin aprendemos não apenas que entre classe, vanguarda e partido há diferenças, que há setores de vanguarda e de retaguarda, mas também que o partido, em sua construção, deve em certo ponto antecipar-se aos processos, apropriar-se de toda a experiência histórica acumulada para se construir.
Se o partido fosse apenas “processual”, chegaria sempre tarde ao encontro da história. Porque, para fazer a revolução e tomar o poder, o partido precisa estar, em certo sentido, “já construído”.
Se, quando chegam as crises revolucionárias e o duplo poder, o partido não está construído, nunca se encaminhará para a insurreição; seria impossível: sem partido revolucionário com influência de massas não há disputa do poder!
Daí que uma concepção puramente processual do partido seja mecânica, passiva, reflexa, pouco dialética. Marx dizia que “o educador também precisa ser educado”, e é verdade: o partido se forja na experiência revolucionária, transforma-se ao calor como os próprios trabalhadores.
Mas a educação do partido é uma experiência histórica total, que se apropria de todas as lições das gerações anteriores; se o partido não estiver em seu núcleo formado quando chegarem os grandes acontecimentos, nunca poderá aspirar a dirigir a classe.
E chegar “formado” nesse sentido é de uma complexidade enorme, que requer ter passado corretamente por todas as experiências anteriores, ter chegado ao estágio de uma organização que acumule, ao menos, milhares e milhares de militantes e que, além disso, tenha influência não só política, mas orgânica em determinados setores.
O bolchevismo o conseguiu porque, já entre 1912 e 1914, havia alcançado influência de massas. E, embora tenha chegado desorganizado ao começo de 1917, “rapidamente” (mediante batalhas de Lenin) se reconstituiu.
A construção revolucionária aprecia o desenvolvimento como dialética, sabe ver todas as desigualdades, aprende com a realidade — mas com uma realidade que é histórica, que se antecipa à jogada.
A ideia de partido meramente “processual” é reflexa e passiva; nossa ideia de partido é a clássica, de organização de vanguarda, que se constrói entre o que há de mais avançado entre trabalhadores, mulheres e juventude; que busca se construir organicamente e lograr a representação política de setores mais ou menos amplos para quando os acontecimentos se extremarem.
Algo dificílimo — é mais fácil expor do que realizar —, mas que nos caracteriza como organização de vanguarda.
2. “Guerra total” e “guerra absoluta”
Há duas ou três coisas a dizer neste ponto. O conceito de “guerra total” capta um elemento real do século XX: as guerras do século passado foram “guerras totais”. É um conceito empiricamente correto, embora política e teoricamente equivocado[6].
Descritivamente, ele é correto porque as guerras do século XX foram guerras “monstruosamente materiais”; guerras industrializadas, afirma Traverso. Pode-se imaginar que, em uma única batalha da Primeira Guerra Mundial — em Verdun ou no Somme — tenham morrido entre 500 mil e um milhão de pessoas em cada uma? É monstruosa a proporção, as carnificinas que foram essas batalhas por ganhar apenas alguns metros na frente de combate.
Eram guerras “totais” no sentido de que eram guerras políticas, guerras militares e guerras econômicas, tudo ao mesmo tempo. Essa abordagem pode ser lida em Traverso. Foram guerras “totais” do capitalismo industrial.
Mas, ao mesmo tempo, o conceito de “guerra total” é um conceito equivocado, militarista. A Guerra Total (Die Total Kriege) foi uma obra de Erich von Ludendorff (publicada em 1936; seu autor faleceu em 1938). Ele e Paul von Hindenburg foram os dois generais alemães mais importantes da Primeira Guerra Mundial; estiveram à frente do Estado-Maior na segunda metade do conflito.
O livro de Ludendorff é uma crítica explícita a Clausewitz. Ele afirmava que Clausewitz era um “idiota político” e que o fundamento é a guerra… A política não seria mais que uma expressão derivada da guerra. O fundante seria a guerra permanente — e a paz, “apenas um momento entre duas guerras”.
Trata-se de uma definição absolutamente unilateral e oposta ao conceito clausewitziano de “guerra absoluta”. A guerra absoluta é uma ideia teórica, um “conceito-limite”, um “tipo ideal” que serve para explicar um aspecto real do fenômeno guerreiro (mas sem esquecer que a guerra real está sempre limitada pela política).
Clausewitz ensina que a guerra é parte de um todo — e esse todo é a política. Em Ludendorff é exatamente o contrário — exatamente como nas concepções antigas da guerra: o todo é a guerra…
O duelo é o “tipo ideal” da guerra levado até o fim — mas que nunca existe na realidade. É o tipo ideal porque é a guerra levada apenas por sua própria lógica física do enfrentamento: um dos contendores tem de morrer.
Mas nenhuma guerra real é puramente física. Na Frente Oriental, como já vimos, a orientação do nazismo foi de “guerra absoluta”, uma guerra de extermínio. Praticamente não teve “política de alianças” — e assim lhe foi[7].
O nazismo foi um fenômeno muito complexo, tão ou mais complexo que o estalinismo. Na verdade, o estalinismo foi mais complexo; mas o nazismo também é um fenômeno político-social de enorme densidade[8].
O nazismo foi a expressão de um capitalismo imperialista de Estado que, levado por uma lógica de radicalização crescente e dramática, chegou a extremos que nenhum outro fenômeno capitalista alcançou.
Era capitalista, mas implicou uma lógica de escravização e barbárie que, de certo modo, ia além das fronteiras do capitalismo (para além do mero trabalho assalariado; ainda que, em seu discurso aos empresários em junho de 1944, Hitler tenha prometido que, uma vez vencida a guerra, voltaria ao livre mercado — Memórias de Albert Speer[9]).
Que alianças poderia forjar assim? Hitler terminou numa “guerra absoluta” para a qual não tinha condições. A Itália era uma potência de segunda ordem, e a aliança com o Japão era mais “tática” do que estratégica; não se conhece colaboração real efetiva durante a guerra. Cada potência se dedicou à sua área de influência de maneira relativamente independente — além de que o Japão também carecia de envergadura para ser uma grande potência.
Como já assinalamos, produto da burocratização da ex-URSS e da tragédia da coletivização forçada, quando os tanques nazistas entraram na Ucrânia ocidental foram recebidos com flores…
Mas Hitler recusou qualquer aliança com os eslavos “sub-humanos”. As populações que os haviam recebido como “libertadores” se voltaram contra eles. Sua concepção da Frente Oriental foi a de Ludendorff: guerra total “apolítica”.
A coletivização forçada no início dos anos 1930 foi uma contrarrevolução social. Trotsky falou inicialmente da coletivização agrária como uma “revolução complementar”, mas, com o tempo, foi tomando consciência de suas verdadeiras características, da tragédia que implicou a fome (Holodomor).
Deutscher a caracterizou como uma “revolução de cima”. Na realidade, a expropriação forçada dos camponeses foi uma contrarrevolução que atingiu todas as camadas do campesinato, não apenas os setores mais ricos.
Não foi apenas uma medida forçada, contra sua vontade; a estatização das terras que daí resultou nunca foi instrumento real de desenvolvimento das forças produtivas: o campo definhou durante décadas.
Além disso, o excedente e as rendas apropriadas foram parar nas mãos da burocracia, não dos explorados e oprimidos. A partir daí, e por várias décadas, a ex-URSS caracterizou-se pela escassez e pelas longas filas nos postos de venda de bens de consumo[10].
Hitler não soube aproveitar essa circunstância porque não tinha política de alianças; seu projeto era o extermínio. Como um Estado totalitário com essas características poderia ter política de alianças? Era impossível.
A “guerra total” do nazismo foi um fracasso colossal que custou a vida de 60 milhões de pessoas — uma carnificina como já dissemos. Não pôde se impor porque o elemento militar jamais é totalmente independente das correlações políticas.
Como temos insistido, o conceito de “guerra total” descreve corretamente um fenômeno real das guerras industrializadas — hoje já seriam cibernéticas — do século XX[11]. Mas, analiticamente, é falso. A guerra não funciona, não pode funcionar, independentemente da política: “Franz Mehring, acrescentando novas ideias à fórmula de Clausewitz, escreve: ‘A guerra é uma explosão (Entladung) de contradições históricas que se aguçaram a tal ponto que nenhum outro meio está disponível para sua solução, já que não há juiz numa sociedade de classes que possa decidir por meios jurídicos ou morais aqueles conflitos que serão resolvidos pelas armas na guerra. A guerra é, portanto, um fenômeno político e não jurídico, moral ou penal. A guerra não se conduz para castigar um inimigo por culpas supostas ou reais, mas com o fim de quebrar sua resistência à prossecução de interesses próprios. A guerra não é uma coisa em si mesma, que possua sua própria meta; é parte orgânica de uma política a cujas conjecturas permanece unida e a cujas necessidades deve adaptar seus próprios resultados’” (Mehring citado em Mandel, 1991, p. 56).
Esse é precisamente o conceito de guerra em Clausewitz: a guerra é a continuidade da política por outros meios. Um conceito dentro do qual a guerra absoluta é uma de suas tendências – a tendência aos extremos no enfrentamento físico – que fica parcialmente inibida nas guerras reais[12].
Stalin afirmava que Lenin reivindicava Clausewitz porque “não entendia de guerra”… Depois da Segunda Guerra Mundial, saiu-se bem politicamente. Mas a invasão nazista de julho de 1941 (Operação Barbarossa) o pegou completamente desprevenido — a ponto de passar dez dias trancado em casa, em silêncio… Foi Molotov quem teve de falar à Nação. Só depois veio seu famoso discurso chamando a “defender a Mãe Pátria”.
Entre junho e dezembro de 1941, a URSS perdeu três milhões de soldados. A maioria foi capturada, e Hitler os deixou morrer literalmente de fome. Quase ninguém voltou à Rússia — e os que voltaram foram vistos com suspeita e muitos enviados ao Gulag. Uma tragédia inaudita.
A Rússia teve 26 milhões de mortos na Segunda Guerra Mundial; arcou com metade das perdas de todo o conflito.
A desqualificação de Clausewitz por Stalin é ridícula. Como afirma Pierre Naville, a Frente Oriental demonstrou a justeza das concepções de Clausewitz: a força da defesa, o caráter primordialmente político do enfrentamento militar etc.
3. Stalingrado, defesa, retiradas e ataque
Sobre o problema da relação entre o político e o militar, sobre o caráter subordinado do conflito militar ao conflito político — e, inversamente, sobre a passagem do enfrentamento político ao terreno da luta física — já dissemos o suficiente.
No entanto, queremos insistir em que, embora o elemento militar esteja subordinado ao político, seria um crime diluir sua especificidade: a guerra tem suas próprias leis, deve ser conduzida dentro do caráter implacável que significa o enfrentamento físico e sua tendência aos extremos — o fato de que se coloca diretamente em risco a vida humana, o aparato de guerra e também a população civil.
A guerra é o momento em que as relações políticas se resolvem de maneira aberta e irredutivelmente física; se diluímos sua especificidade, estamos mortos, ficamos desarmados.
Assim como Trotsky afirmava que na guerra civil se rompem todas as regras de solidariedade entre as classes, é preciso insistir, com Clausewitz, que a guerra é um conflito social resolvido de maneira sangrenta; se há guerra, há sangue – não há como evitar isso.
Podemos dizer também que existem certos momentos — precisamente as guerras civis — nos quais guerra e política se fundem e tendem a se converter “na mesma coisa”: os enfrentamentos físicos entre classes, os massacres contrarrevolucionários, a insurreição, as guerras civis propriamente ditas etc.
Daí que muitas das lições de Clausewitz possam ser aplicadas à política. Como já afirmamos em outros textos, a fórmula da guerra como continuidade da política é reversível: a política é a continuidade da guerra de classes que se processa cotidianamente sob o capitalismo e que, quando chega ao enfrentamento armado aberto, não admite concessões, sob pena de derrota.
Trotsky explica isso muito bem, e com toda crueza, em Sua moral e a nossa, onde insiste que a guerra civil tem suas próprias leis implacáveis e que, se não for conduzida dentro dessas leis objetivas, ameaça-se a derrota da revolução.
Se o inimigo fuzila nossos combatentes e nós não fuzilamos os deles, ficaremos como pusilânimes e fracos; o campo adversário aparecerá mais forte e mais implacável do que nós.
Durante a guerra civil impõem-se uma série de “leis objetivas” que, se não forem levadas em conta – se forem assumidas de maneira “humanista” – podem condenar a revolução.
Voltemos agora à questão da defesa e do ataque. O problema é que, por mais “cursos teóricos” que se façam, se não se participa de enfrentamentos físicos reais, pode-se ser um grande “filósofo da guerra” – o partido pode sê-lo -, mas inevitavelmente mancaremos no momento da passagem prática à luta física.
O problema é esse: a luta física, o “ir para o confronto”, é um aprendizado que se faz na experiência. O curso tenta nos preparar para isso, mas não pode substituir a experiência prática no terreno[13].
Clausewitz era um militar que rompia com o senso comum: a quem poderia ocorrer que a defesa fosse mais sólida do que o ataque? Ele demonstra uma agudeza extraordinária, “um raro senso comum”, como Engels escreveu a Marx.
Clausewitz tinha essa capacidade de romper com lugares-comuns. A crítica de Stalin a Lenin e a Clausewitz era uma estupidez, porque a batalha de Stalingrado – e toda a primeira longa etapa da Frente Oriental – foi uma guerra defensiva de desgaste que terminou em uma contraofensiva tremenda[14].
Se o Exército Vermelho não tivesse suportado a pressão do VI Exército de von Paulus durante tantas semanas; se não o tivesse desgastado e enfraquecido; se não tivesse ganho tempo para preparar uma contraofensiva com as reservas estratégicas — outro conceito de enorme importância que aqui não podemos desenvolver – essa contraofensiva jamais teria existido.
A história da Frente Oriental é uma história de perdas de milhões de soldados e divisões nos primeiros meses da guerra; de resistência defensiva em Leningrado (cercada por quase quatro anos pelos nazistas); de resistência e contraofensiva em Moscou; de traslado do grosso da indústria para além dos Urais — toda uma história de defesa e desgaste que confirmou em escala monumental as intuições de Clausewitz.
O problema é que as jovens gerações conhecem pouco a história. Em Stalingrado, Hitler se recusou a retirar a sexta divisão de von Paulus — e perderam 300 mil soldados. Stalingrado esteve a ponto de cair e, no entanto, o Exército Vermelho venceu essa batalha histórica e virou o curso inteiro da guerra.
Por que a defesa é tão sólida? Pelo que já assinalamos: a ofensiva carrega o peso de romper o movimento inercial. Em Stalingrado, por exemplo, a inércia dos fatos jogava a favor dos defensores: “a cidade é nossa, vocês têm que tomá-la”. “Nós a conhecemos, vocês não”; “estamos entrincheirados, vocês têm que avançar a céu aberto”.
Inclusive, os bombardeios iniciais da Luftwaffe foram contraproducentes: ao reduzir a cidade a escombros, paradoxalmente facilitaram a defesa soviética e dificultaram a movimentação dos tanques alemães.
A defesa foi casa por casa, rua por rua, quarto por quarto, nos dutos e nos porões. Stalingrado era uma cidade alongada; os nazistas ocuparam dois terços dela (hoje Volgogrado). A cidade está na margem do Volga — um rio fundamental – e foi ali, nessa linha estreita, que detiveram a Wehrmacht; o Volga era decisivo porque, do lado oriental, chegavam os abastecimentos ao Exército Vermelho[15].
Uma questão-chave nas guerras – ao menos nas guerras territoriais como as duas guerras mundiais – é a logística. Quanto mais distante da base, pior; quanto mais longas as linhas de abastecimento, pior. O Exército Vermelho tinha base popular – atenção: não era o mesmo a base do exército, já estalinizado, e sua direção[16].
O Exército Vermelho era popular, e as tropas irradiavam um entusiasmo impressionante (Vassili Grossman). Cercaram e destruíram o VI Exército de von Paulus. O exemplo serve para mostrar que a defesa tem menos custos que o ataque.
Algo distinto da defesa é a retirada — e não tem nada a ver com ela. A retirada é péssima porque deixa o exército desguarnecido diante do avanço inimigo; não é fácil organizá-la de modo ordenado. Isso vale inclusive quando se trata da polícia avançando contra uma coluna partidária em retirada, no meio de um enfrentamento.
Quando se recua, sofre-se o “martelamento” das forças repressivas. O medo cresce. Pode haver simpatizantes que saiam correndo – comportamento que é o oposto da atitude militante. A retirada é desorganizadora; justamente por isso, o desafio elementar é fazê-la em ordem.
Isso acontece também com colunas partidárias diante da repressão. Quando é preciso recuar no meio da repressão, é sempre problemático. A defesa é uma coisa – “aguentar firme”; a retirada é outra – as forças do Estado saem em perseguição. Ainda que haja momentos em que não reste alternativa: é preciso recuar.
Quando a polícia percebe que a coluna começa a se retirar, multiplica a repressão: parte para o ataque, para dispersar, prender companheiros e companheiras, impor medo.
É difícil fazer uma retirada ordenada — mas é preciso fazê-la ordenadamente. Nunca se deve correr; deve-se recuar lentamente, de frente para a repressão, sem jamais dar as costas ou perder a firmeza.
Essa é a lição número um: a retirada deve ser em ordem, caminhando para trás, olhando de frente para a polícia, sem pânico, sem perder a compostura.
A equipe de “cultura” deve ajudar a sustentar a última linha; os companheiros e companheiras devem recuar organizadamente, sem dispersão. Se as coisas forem feitas corretamente — mesmo havendo feridos — os danos podem ser minimizados.
Mas há outra lição fundamental: a defesa é conservadora. Sem ataque não se toma o poder, não se rompe a inércia, não se rompe o status quo.
Trotsky alerta: atenção, muito boa a defesa de Clausewitz – mas com a defesa continua governando Kerensky; é preciso passar ao ataque. Quem governa é a burguesia; portanto, é preciso pensar na ofensiva, na ciência e na arte da insurreição.
O que Clausewitz ensina é genial — mas não resolve tudo. Se ficamos apenas na defesa, não disputamos o poder; se deixamos passar o momento, entregamos a revolução.
Trotsky insiste que o tempo é decisivo em política: a “estratégia da espera” é o caminho da derrota. A ciência e a arte da insurreição consistem em saber avaliar, científica e “artisticamente”, quando é o momento de lançar-se à tomada do poder.
E a disputa pelo poder é, por definição, ofensiva. Quem tem a vantagem defensiva é quem já detém o poder. Ainda que, como no caso de Kerensky, fosse apenas uma aparência de poder…
Defesa e ataque são proporções relativas; não se deve “casar” com uma ou com outra. São táticas adequadas a cada circunstância. Mas quando as condições políticas estão reunidas, não passar à ofensiva é trair a revolução (a insurreição não é uma questão tática, mas de princípios, quando as condições estão dadas).
Também não se deve “casar” com a “guerra de movimentos” (grandes deslocamentos) ou com a “guerra de posições” (trincheiras); nisso Gramsci era esquemático[17]. Ao privilegiar a “guerra de trincheiras” – proposta para contextos sob fascismo – vinculava-se excessivamente ao modelo da Frente Ocidental da Primeira Guerra Mundial, onde trincheiras fixas imobilizaram o front por quase quatro anos.
Mas Gramsci se esquecia da Frente Oriental daquela mesma guerra, onde ocorreram grandes deslocamentos de tropas.
A Segunda Guerra Mundial, por sua vez, foi em grande medida uma imensa guerra de movimentos, embora os aspectos defensivos tenham sido decisivos em vários momentos e frentes.
A lição correta é que ataque e defesa são táticas; cada uma tem vantagens relativas conforme o momento. Os custos da ofensiva podem ser compreendidos pelo conceito de fricção; mas sem ofensiva não há revolução vitoriosa.
NOTAS
[1] Os bolcheviques se formaram estudando criticamente as lições da Revolução Francesa. Nossas gerações se formaram estudando — mais ou menos sistematicamente — a Revolução Russa. Mas estamos atrasados em retomar um estudo comparativo sério das duas maiores revoluções da história da humanidade (sem esquecer a Revolução Chinesa com suas especificidades; ver a este respeito China de 1949: uma revolução camponesa anticapitalista).
[2] Como exemplo de como os fins devem presidir a estratégia, não se sabe o que querem dizer categorias como “revolução proletária passiva”, atribuída aos países do Leste europeu onde o capitalismo foi expropriado ao final da Segunda Guerra (PTS). Uma revolução proletária que seja “passiva” é uma contradição nos termos.
Além disso, ninguém no trotskismo — inclusive em seus setores mais oportunistas — definiu esse processo dessa maneira. Em geral, falou-se de um processo de “assimilação estrutural” às formas que tinha naquele momento a ex-URSS.
Utilizar o conceito de “revolução passiva” para a revolução proletária nos parece um erro. Porque, na ausência do protagonismo da classe operária, a estatização dos meios de produção dá lugar a um Estado burocrático, não a um Estado proletário.
É interessante como Mandel apresentava já em 1986 uma apreciação mais realista: “Do ponto de vista dos interesses de longo prazo da classe operária, sem mencionar naturalmente o socialismo mundial, teria sido preferível que as massas da Romênia e de outros países da Europa Oriental tivessem sido capazes de se libertar por si mesmas mediante suas próprias formas de luta. A ‘revolução de cima’ da burocracia soviética deixou um horrível legado político que marcou profundamente a situação do pós-guerra, não apenas nessa parte da Europa, mas no mundo inteiro” (1991, p. 169).
O PTS é uma corrente que discute os meios para a ação — o que em si mesmo está muito bem — mas jamais os fins. E não se pode discutir os fins no século XXI sem discutir o balanço do século passado. Houve um problema terrível no século XX: a contrarrevolução estalinista. E antes — ou ao mesmo tempo — de discutir os meios para a ação, temos que discutir os fins: as razões da ação; isso conforma os meios.
O PTS se negou a discutir a razão de ser da nossa ação — e isso se nota em tudo; são uma corrente de um instrumentalismo monumental. Quando vão ao terreno, desequilibram-se. O seu é pura “manobrística”: a redução da política à manobra (o que antecipa perigos de comportamentos sem princípios e/ou oportunistas).
[3] Há correntes que se prendem sempre à tática da frente única, por exemplo. E isso está errado, porque qualquer orientação, qualquer tática, está determinada pelas condições de tempo e lugar; são concretas, respondem às circunstâncias e também às dimensões do partido. Por isso não existem esquemas fixos, mas critérios para situações determinadas.
[4] Pensamos, a esse respeito, na crise e divisão do Partido Obrero da Argentina, ainda que sua crise tenha raízes muito mais profundas na ausência de qualquer balanço crítico das revoluções do século passado.
[5] Esses fins comandam tanto a conquista das reivindicações quanto a construção do partido no processo dessa luta.
[6] Encerrando este texto em plena pandemia, é preciso dizer que o marxismo revolucionário clássico refletiu pouco ou nada sobre a gripe “espanhola”. Não recordamos um texto de Lenin, Trotsky, Rosa ou Gramsci — ou de algum outro grande revolucionário como Rakovsky ou Mariátegui — a respeito. Talvez seja ignorância nossa. Em todo caso, a época que vivemos neste século XXI já é, seguramente, de grandes crises, guerras, revoluções, contrarrevoluções e pandemias globais, produto da agressão capitalista à natureza; o grande tema e a grande comoção que vivemos hoje — comoção que talvez esteja forjando a grande situação revolucionária mundial que se anuncia (à maneira da definição de Lenin em 1915 durante a Primeira Guerra Mundial).
[7] De todo modo, como já vimos, a Frente Oriental foi também uma “guerra política”: a maior guerra civil da história até o momento (ainda que tenha sido uma guerra entre Estados, não foi apenas isso; foi uma guerra contrarrevolucionária com elementos “de classe”, por assim dizer).
[8] De nossa parte, embora tenhamos estudado o nazismo, não nos consideramos “especialistas” no tema. Já pensamos e escrevemos bastante sobre o estalinismo, um dos temas que mais nos apaixona.
[9] A Alemanha nazista chegou a ter 8.000.000 de trabalhadores forçados dentro de suas próprias fronteiras no momento culminante da guerra, sem falar nos campos de extermínio, que iam além do caráter exterminador da guerra na Frente Oriental.
Nahuel Moreno exagerou na caracterização da Segunda Guerra Mundial quando falou em “guerra de regimes”; ainda assim, teve sensibilidade para o caráter atípico, em vários aspectos, dessa guerra em relação à primeira (ver nosso artigo).
[10] “Os líderes abrigavam a esperança de que os camponeses pagassem a maior parte dos custos da industrialização (…) Mas essa esperança se frustrou e a população urbana teve de suportar parte considerável da carga. A coletivização revelou-se um projeto muito custoso (…) Os resultados foram escassez de alimentos, racionamento e superpopulação nas cidades e, em 1932 e 1933, uma fome devastadora nas principais regiões cerealistas do país. Embora a fome tenha sido uma condição temporária, a escassez de alimentos e de todo tipo de bens de consumo não o foi. Os marxistas esperavam que o socialismo gerasse abundância. Contudo, sob as condições soviéticas, socialismo e escassez estavam estreitamente vinculados” (A vida cotidiana durante o estalinismo. Como vivia e sobrevivia a gente comum na Rússia soviética. Siglo Veintiuno Editores, Buenos Aires, 2019, p. 19). Está claro que não se tratou de “socialismo” em sentido algum, mas a escassez foi uma realidade documentada por autores de todas as tendências.
[11] De fato, uma guerra generalizada hoje seria qualitativamente mais destrutiva que a Segunda Guerra Mundial, dado o grau de desenvolvimento das forças produtivas e destrutivas no início deste novo século. Uma guerra regida por computadores, possivelmente nuclear, com um nível de destrutividade potencial inimaginável, próprio da barbárie capitalista contemporânea.
[12] Mandel publicou em 1985 um livro muito valioso: A Segunda Guerra Mundial. Embora Traverso o critique por, de certo modo, diluir o caráter de guerra de extermínio na Frente Oriental e especialmente o extermínio dos judeus, ainda assim Mandel acerta ao retratar a Segunda como uma “guerra total”, mas também como uma guerra política, oferecendo reflexões estratégicas de grande interesse.
[13] Tal como aprender a brigar com alguém. No meio estudantil isso não é muito comum, mas entre trabalhadores ou nos bairros populares é: é preciso saber se defender fisicamente se não se quiser passar por tolo.
[14] Atenção: a Frente Oriental foi o maior teatro de guerra da história até hoje.
[15] Há um filme de alguns anos atrás, hollywoodiano, que retrata bastante bem a batalha de Stalingrado: Círculo de Fogo (Enemy at the Gates).
[16] Durante a guerra, os elementos mais “totalitários” do regime foram parcialmente relaxados; sopraram certos ventos de liberdade que foram imediatamente eliminados quando o conflito terminou (Vassili Grossman).
[17] Colocamos isso apenas a título ilustrativo, porque cada guerra tem, em certo sentido, suas próprias leis. O que ocorre com as guerras é que, quando os manuais militares sistematizam as guerras recém-ocorridas, eles já nascem obsoletos, porque cada guerra possui traços próprios — começando pela situação geral da economia e do mundo em que se desencadeia, pelo desenvolvimento tecnológico etc.










