Por Johan Madriz
13 de setembro, 2025
Fogo na sede do governo.
Os protestos no Nepal alcançaram uma magnitude inédita, embora, no momento de concluir esta nota, pareça que tenham começado a recuar. O levante inicialmente era um desafio à censura. Começou com a proibição de 26 redes sociais — incluindo Facebook, Instagram, WhatsApp e YouTube — que afetam diretamente os 17 milhões de usuários dessas plataformas no país, grande parte deles adolescentes e jovens, justamente os protagonistas da rebelião.
Rapidamente, a consciência deu saltos a passos largos, e décadas de precarização e desigualdade se condensaram na fúria popular expressa nas ruas contra a corrupção, o nepotismo e os problemas sociais. O epicentro das manifestações é o Parlamento, que foi tomado e incendiado. Colunas de fumaça se ergueram enquanto centenas de manifestantes pintavam consignas anticorrupção nas paredes.
A onda de incêndios alcançou também a residência privada do primeiro-ministro K. P. Sharma Oli em Balkot, envolta em chamas, e a casa presidencial de Ram Chandra Poudel, assim como as residências de outros líderes de peso, como Sher Bahadur Deuba, Pushpa Kamal Dahal e o ministro do Interior Ramesh Lekhak. A fúria se estendeu a edifícios como a Suprema Corte e a sede do Partido Comunista. Até mesmo uma escola privada, propriedade da chanceler Arzu Deuba Rana, foi incendiada, e o Hotel Hilton de Katmandu ficou em ruínas.
A resposta governamental foi a repressão e o estabelecimento de um toque de recolher. Mais de 50 pessoas foram assassinadas e ao menos 1.500 ficaram feridas, segundo dados do Ministério da Saúde, depois que as forças de segurança dispararam munição real contra as multidões que desafiaram o toque de recolher. Hospitais de Katmandu informam que a maioria das vítimas jovens recebeu impactos na cabeça e no peito, o que confirma o uso deliberado de força letal.
A fúria popular se concentra contra a elite político-empresarial corrupta e contra uma profunda crise social. A queima de residências e edifícios não é simples “vandalismo”, como pinta o governo, mas a expressão legítima da raiva acumulada de uma juventude que se reconhece como insurgente e rompe o cerco do medo para desafiar um sistema que, há décadas, condena a maioria à pobreza enquanto protege uns poucos.
Da censura à fúria
A origem imediata do levante foi a decisão do governo de bloquear as principais plataformas de redes sociais sob o pretexto de frear as “notícias falsas” e o “discurso de ódio”. A censura foi sentida como um ataque direto à liberdade de expressão e ao direito de se comunicar. O golpe foi ainda mais forte para milhões de famílias que dependem da comunicação com seus parentes que trabalham no exterior.
Mas a proibição apenas acendeu um pavio que vinha acumulando combustível há anos. A população e, em particular, a juventude, transformou a defesa do acesso livre à internet em uma bandeira contra um sistema corroído, contra um Estado controlado por interesses privados e clientelistas. Para eles, as redes sociais não são apenas um espaço de lazer: se combinam com a possibilidade de denúncia e organização.
O mal-estar não surge do nada. O desemprego juvenil atinge um quinto da população jovem, e a cada ano centenas de milhares de jovens são obrigados a emigrar. No Nepal, a maioria sobrevive na economia informal, com baixos salários e sem seguridade social, enquanto a inflação golpeia duramente a vida urbana.
Os protestos também apontam para o nepotismo como mecanismo de poder. O termo “Nepo Babies” viralizou nas redes e nas ruas. É um símbolo da raiva contra um sistema que reproduz privilégios familiares, onde filhos e esposas de dirigentes controlam ministérios, contratos milionários e empresas privadas. Por isso, a queima de empresas e residências ligadas a esses setores é uma forma direta de apontá-los como responsáveis pela crise.
O que começou como um protesto contra a censura se transformou em um levante contra a estrutura social e política que mantém o país na miséria. A juventude não exige apenas recuperar o acesso às redes, exige recuperar o país das mãos de uma classe governante corrupta, herdeira dos privilégios da monarquia e da república fracassada que a substituiu.
A pressão da mobilização obrigou o primeiro-ministro a apresentar sua renúncia imediata, acompanhada pela demissão do ministro do Interior e de ao menos outros cinco ministros que se distanciaram da repressão. Inclusive, 20 deputados do Rastriya Swatantra Party renunciaram em bloco, declarando que o Parlamento “perdeu sua legitimidade” e pedindo a formação de um governo civil interino, o que reflete a crise total de representação.
A queda do primeiro-ministro, longe de acalmar os ânimos, aprofundou a sensação de vazio de poder. A autoridade real passou às mãos do Exército, que foi enviado às ruas para resguardar edifícios oficiais e controlar os protestos. Embora os militares tenham permanecido relativamente passivos no início, nos dias seguintes assumiram o papel de garantes da ordem, marcando uma perigosa militarização da política. A imposição de um toque de recolher indefinido na capital e a suspensão das aulas em todas as escolas revelam a gravidade da situação.
A Geração Z como sujeito social da revolta
O coração dos protestos pulsa nas ruas tomadas pela Geração Z, jovens nascidos entre meados dos anos noventa e a primeira década dos 2000. Essa geração cresceu em um país que aboliu a monarquia com a promessa de uma república democrática, mas que, na realidade, consolidou um sistema marcado pela corrupção e pelo nepotismo. Diante desse desencanto, a juventude das classes populares emergiu como sujeito social coletivo, decidido a desafiar tanto os partidos tradicionais quanto o aparato repressivo do Estado.
A juventude organizou a mobilização por meio das redes sociais, as mesmas que o governo tentou censurar. O uso de hashtags como #NepoBabies e #NepoKids transformou os protestos em um movimento contra os privilégios hereditários da elite política e empresarial, denunciando a obscena riqueza e o luxo dos filhos de políticos em contraste com o desemprego e a pobreza generalizada.
Em meio a cartazes e grafites anticorrupção, multiplicaram-se imagens e bandeiras inspiradas no anime One Piece. O emblema da tripulação pirata de Luffy, um crânio com chapéu de palha, tremula entre multidões que o adotaram como símbolo de rebeldia. A série, que narra a luta de um grupo de jovens contra impérios corruptos e poderes opressivos, encontra eco em uma geração que se sente saqueada.
Em sua maioria, são estudantes universitários ou jovens precarizados, expulsos do mercado de trabalho e empurrados à migração. Esse pano de fundo explica a radicalidade de suas ações: incendiar o Parlamento ou lançar um ministro a um rio é uma declaração política contra um sistema que consideram ilegítimo. Essa geração, chamada de “de cristal”, assume seu lugar na história e emerge como sujeito político.
A corrupção como forma de governo
O Nepal ocupa a posição 110 entre 180 países no Índice de Percepção da Corrupção 2024, com apenas 34 pontos de 100. Isso o coloca como um dos países mais corruptos da Ásia, uma realidade estrutural. Desde a queda da monarquia, longe de se democratizar, o Estado ficou nas mãos de uma elite partidária que utiliza o aparato público para enriquecer-se e reproduzir seu poder por meio do clientelismo.
Um exemplo paradigmático é o escândalo do aeroporto internacional de Pokhara. A construção, financiada com empréstimos do Banco Exim da China, previa um investimento milionário para modernizar a infraestrutura aérea do país. No entanto, uma investigação parlamentar revelou que ao menos 71 milhões de dólares foram desviados através de uma rede de políticos, funcionários da aviação civil e empresas contratadas. Apesar da magnitude da fraude, ninguém foi processado, confirmando a impunidade com que opera a lumpen-burguesia local.
Outro caso revelador foi a fraude com documentos falsos para imigrar aos Estados Unidos, na qual políticos de diversos partidos cobravam propinas de jovens desempregados com a promessa de entregar-lhes papéis como refugiados do Butão. Tratava-se de um esquema que explorava o desespero daqueles que buscavam escapar da pobreza. A investigação revelou a participação de dirigentes governistas e opositores, mas apenas membros da oposição foram acusados, o que evidenciou a manipulação judicial.
A corrupção atravessa todos os âmbitos do aparato estatal. O acesso a serviços de saúde e educação depende em grande medida de subornos; a concessão de contratos públicos privilegia familiares de ministros; a polícia se financia mediante extorsões; e os recursos naturais são distribuídos entre empresas privadas com a conivência do governo. O resultado é um Estado que funciona como uma verdadeira máquina de saque.
A percepção social desse fenômeno é concreta e visível diariamente nas redes sociais. Os “Nepo Babies”, filhos e parentes de políticos que exibem sua vida de luxo, converteram-se no alvo da indignação popular. Não surpreende, portanto, que durante os protestos tenham sido incendiadas a escola privada da chanceler, esposa do ex-primeiro-ministro Deuba, ou a residência do próprio Oli. Os incêndios são entendidos como um acerto de contas contra aqueles que transformaram o Estado em patrimônio familiar.
Emprego precário, migração massiva e dependência de remessas
A taxa de desemprego geral alcançou 12,6% em 2024, mas esse dado oficial oculta a verdadeira dimensão do problema, pois deixa de fora uma enorme quantidade de pessoas que trabalham na informalidade, especialmente na agricultura de subsistência. Entre os jovens, a situação é ainda mais grave: o desemprego juvenil supera 20%, o que transforma o país em uma sociedade onde a maioria da juventude não encontra oportunidades de trabalho digno.
A consequência imediata desse cenário é a migração. Só em 2024, mais de 741.000 nepaleses abandonaram o país em busca de emprego em setores como a construção e a agricultura na Malásia, Catar, Arábia Saudita e outros países do Golfo. Estima-se que 2,1 milhões vivam atualmente no exterior, o que equivale a cerca de 7% da população total. Em regiões como Terai, vilas inteiras aparecem semi-vazias, com a maioria de seus habitantes no exterior trabalhando como mão de obra barata.
Essa migração massiva transforma as remessas no pilar da economia nacional. Em 2024, as transferências enviadas superaram os 11 bilhões de dólares, representando mais de 26% do PIB. As famílias dependem desse dinheiro para se alimentar, comprar remédios ou pagar educação. Sem essas remessas, a crise social seria ainda mais devastadora. O Nepal não consegue gerar empregos produtivos em seu próprio território e exporta sua força de trabalho como recurso econômico.
A informalidade reforça essa precariedade. A maioria trabalha em atividades agrícolas de baixa produtividade ou em pequenos negócios sem contratos nem segurança social. A educação de baixa qualidade e a falta de diversificação econômica condenam os graduados universitários ao desemprego ou a empregos abaixo de sua qualificação.
Essa dinâmica não é apenas um problema econômico, mas também social. As famílias separadas pela migração sofrem rupturas emocionais e comunitárias. A proibição das redes sociais afetou diretamente a comunicação com seus familiares migrantes, cortando o vínculo que sustenta tanto a economia quanto a vida cotidiana. O protesto nas ruas é, em parte, um grito contra esse modelo que obriga milhões a partir para sobreviver.
Uma economia frágil e dependente
O Nepal é um Estado encravado no coração do Himalaia, entre dois gigantes regionais — a China ao norte e a Índia ao sul —, com quem compartilha as fronteiras mais extensas e de quem depende em grande medida para o seu comércio exterior. Trata-se de um país sem saída para o mar, o que o torna altamente dependente de seus vizinhos para a importação de bens essenciais, desde combustíveis até manufaturados.
A população supera os 30 milhões de habitantes, dos quais quase a metade tem menos de 40 anos. Essa estrutura demográfica deveria representar uma oportunidade para o desenvolvimento, mas, na prática, converte-se em um problema. O país não gera empregos suficientes, o que alimenta a migração massiva.
Apesar de registrar um crescimento de 4% em 2024, impulsionado pelo turismo, pelas exportações agrícolas e pelo aumento da produção hidrelétrica, o país continua preso a um modelo primário, dependente e profundamente desigual. O crescimento não se traduz em melhorias sustentáveis para a população, pois o governo se encarrega de desviar a maior parte.
A dívida externa é outro fator crítico. O Nepal recorreu em nove ocasiões ao Fundo Monetário Internacional desde 1976 para evitar crises de balanço de pagamentos, e mantém atualmente um acordo de 372 milhões de dólares sob a Facilidade de Crédito Estendida. A dívida não apenas gera pressão fiscal, como também é utilizada para financiar projetos de infraestrutura que frequentemente acabam enredados em corrupção e sobrecustos, como ocorreu com o aeroporto de Pokhara.
O déficit fiscal caiu ao seu nível mais baixo em sete anos, seguindo a clássica receita do FMI de políticas de austeridade que reduzem o investimento em infraestrutura, educação e saúde. O resultado é o detrimento nos serviços públicos e, em geral, nas condições de vida. Enquanto isso, a inflação golpeia as classes populares e transforma Katmandu em uma cidade cada vez mais cara e inacessível para aqueles que migram do campo em busca de oportunidades.
Nessa fragilidade política e econômica também pesa a intervenção ativa das potências regionais e globais. A Índia exerce uma influência histórica. Durante a monarquia, os reis dependiam de Nova Déli para sustentar seu poder, e na etapa republicana os partidos governantes mantiveram laços estreitos com o governo indiano.
Assim, a Índia é o principal parceiro comercial — absorve mais de 60% do comércio exterior — e controla as rotas de importação de combustíveis, alimentos e medicamentos. Isso concede a Nova Déli uma capacidade permanente de chantagem: cada vez que um governo nepalês tenta se aproximar demasiado da China, a Índia responde com bloqueios fronteiriços ou restrições comerciais, como ocorreu em 2015, quando o país ficou desabastecido de combustível em plena reconstrução pós-terremoto.
A China, por sua vez, busca ampliar sua presença por meio de projetos de infraestrutura ligados à Iniciativa do Cinturão e Rota, a “nova rota da seda”. A construção do aeroporto internacional de Pokhara, financiada com empréstimos chineses, é um exemplo de como Pequim se insere na economia nepalesa. O gigante asiático se apresenta como contrapeso da Índia e oferece créditos brandos e apoio diplomático, buscando convertê-lo em um elo de sua expansão no Sul da Ásia.
Os Estados Unidos, embora com menor presença histórica, aumentaram sua intervenção na última década. Washington financia projetos de “cooperação” por meio da Millennium Challenge Corporation, um plano de investimento em infraestrutura elétrica e viária que, na realidade, busca consolidar a influência estadunidense frente à China. Além disso, apoiou militarmente o Nepal durante a guerra civil sob a doutrina da “luta contra o terrorismo” (neste caso, a luta anticomunista), armando o exército contra os maoístas. Hoje, sua estratégia consiste em reforçar alianças com setores políticos e militares que garantam a estabilidade necessária para conter a expansão chinesa no Himalaia.
A herança monárquica e a gestação da crise
Para compreender a atual revolta, é necessário olhar para trás e revisar a história do país. Durante mais de dois séculos, o Nepal foi uma monarquia absoluta, chefiada pela dinastia Shah, instaurada no século XVIII após a unificação de pequenos principados sob o rei Prithvi Narayan Shah. Desde então, a monarquia governou como garantidora de uma ordem hierárquica, centralizada e baseada na autoridade divina do rei.
Durante o século XIX, o poder real se combinou com o domínio de clãs aristocráticos, em particular a dinastia Rana, que governou como regentes hereditários de 1846 a 1951. Nesse período, o Nepal converteu-se em um Estado isolado do exterior, onde o povo carecia de direitos políticos e o poder era transmitido por linhagem e alianças familiares. A dependência em relação à Índia britânica era evidente: o Nepal servia como fonte de soldados gurkhas para o Império Britânico, enquanto sua economia permanecia estagnada e sua população submetida a estruturas socioeconômicas arcaicas.
Em 1951, após a queda do regime Rana e com o apoio da Índia, restaurou-se a autoridade direta do monarca, que prometeu democratizar o país. Contudo, esse processo ficou truncado. Em 1960, o rei Mahendra dissolveu o parlamento e impôs o sistema conhecido como Panchayat, uma forma de monarquia “partidária sem partidos” que proibia a organização política independente e reforçava o controle direto do rei sobre a administração. Esse sistema se manteve por três décadas, impondo a repressão à oposição, a censura e a corrupção como parte integral do regime.
Em 1990, os protestos populares do Jana Andolan (Movimento do Povo) obrigaram o rei Birendra a aceitar uma monarquia constitucional e abrir o país aos partidos políticos. Porém, essa abertura foi parcial e limitada: a monarquia manteve amplos poderes e a democracia parlamentar ficou presa à instabilidade de coalizões frágeis.
O desencanto com esse processo alimentou a insurgência maoísta, que em 1996 iniciou uma guerra popular contra o Estado. Durante uma década, os maoístas expandiram sua influência no campo, enfrentando tanto o exército como as forças policiais, em um conflito que deixou mais de 13.000 mortos e milhares de deslocados.
A crise se aprofundou em 2001, com o massacre real de Narayanhiti, quando o príncipe Dipendra assassinou o rei Birendra, a rainha e outros membros da família real antes de suicidar-se. Esse fato enfraqueceu gravemente a legitimidade da monarquia. Seu sucessor, o rei Gyanendra, tentou governar com mão de ferro, dissolvendo o parlamento e concentrando novamente o poder na figura real. No entanto, sua estratégia apenas intensificou a oposição popular e fortaleceu o movimento maoísta, que controlava amplas zonas rurais.
Finalmente, em 2006, uma nova onda de mobilizações conhecida como o “Segundo Movimento do Povo” (Jana Andolan II) reuniu maoístas, partidos tradicionais e amplos setores da sociedade contra o poder real. Os protestos massivos obrigaram o rei a renunciar a seus poderes executivos, restaurar o parlamento e abrir caminho para o fim da monarquia em 2008, quando o país se declarou uma república federal democrática.
O triunfo do maoísmo
As ideias comunistas ingressaram no Nepal em meados do século XX — influenciadas pela revolução chinesa e pelo maoísmo indiano — com o problema de que o isolamento do país, a influência cultural de seus vizinhos e a hegemonia mundial do stalinismo como “oposição” ao sistema capitalista limitaram a emergência das ideias e dos setores mais avançados.
Após a queda do regime Rana em 1951, formou-se o Partido Comunista do Nepal (PCN), que logo se fragmentou em múltiplas correntes devido a disputas ideológicas e táticas. Nos anos sessenta e setenta, vários setores adotaram explicitamente o maoísmo, defendendo a estratégia da “guerra popular prolongada”, que propunha cercar as cidades a partir do campo e construir um novo poder desde baixo.
Durante o sistema Panchayat, quando o rei proibiu os partidos políticos, os maoístas permaneceram na clandestinidade. Nesse período, consolidaram-se como uma corrente com forte presença nas comunidades rurais marginalizadas, principalmente no oeste e no centro do país. A influência de Mao Zedong e da Revolução Cultural chinesa marcou o caráter ideológico desses grupos, que centraram sua denúncia principalmente contra a monarquia e o “sistema social feudal” (misturado, no econômico, com o capitalismo), deixando de lado a posição estratégica de luta contra o capitalismo.
Em 1994, sob a liderança de Pushpa Kamal Dahal, o “Prachanda”, e Baburam Bhattarai, surgiu o Partido Comunista do Nepal (Maoísta), como uma cisão que decidiu passar da luta legal à “guerra revolucionária”. O partido elaborou um programa que combinava a abolição da monarquia, a construção de uma república popular e a transformação socioeconômica do país através da reforma agrária, da igualdade de gênero e do reconhecimento das minorias étnicas e das castas oprimidas.
A insurgência maoísta, iniciada em 1996, converteu o partido na principal força de oposição ao Estado. Em seu auge, controlou entre 60% e 70% do território rural, onde estabeleceu estruturas de poder paralelo, como “governos populares” locais que administravam justiça, cobravam impostos, organizavam milícias e promoviam cooperativas agrícolas.
O maoísmo converteu-se na principal força política e militar durante a guerra civil. No entanto, como em muitas outras experiências a nível mundial, caiu na armadilha da conciliação e, após os Acordos de Paz de 2006, o Partido Comunista abandonou a luta armada e integrou-se à política institucional. Em 2008, foi a primeira força na Assembleia Constituinte e chefiou o governo que proclamou a abolição da monarquia. Parecia que o maoísmo estava prestes a transformar o país a partir do poder estatal.
Não obstante, a transição da guerrilha para a institucionalidade gerou profundas contradições — sem mencionar os limites próprios dessa corrente política baseada em uma experiência “popular” e não de classe, deixando relegada a luta anticapitalista. Os ex-maoístas se fundiram com partidos tradicionais e reproduziram as práticas de corrupção, clientelismo e repartição de ministérios que antes denunciavam.
A falta de avanços na redistribuição de terras, na industrialização e na justiça social levou a uma perda acelerada de legitimidade. Com o tempo, o maoísmo passou a se converter em parte da elite governante, despertando decepção entre seus antigos simpatizantes. Hoje, a Geração Z mobilizada nas ruas já não se identifica com o maoísmo como projeto revolucionário. Para muitos jovens, os maoístas simbolizam a traição das esperanças de mudança, porque abandonaram a luta contra o governo e se integraram a ele.
A instabilidade da república
Nas primeiras eleições sob a república, o Partido Comunista do Nepal converteu-se na força majoritária e seu líder, “Prachanda”, assumiu como primeiro-ministro. Para milhões de pessoas do campesinato, da classe operária e da juventude, esse momento representou a esperança de uma virada radical rumo a um modelo mais justo, com redistribuição de terras, igualdade social e um Estado soberano frente à Índia e à China.
No entanto, muito rapidamente essas expectativas se frustraram. O governo maoísta terminou cedendo às Forças Armadas e à velha camada política. As promessas de reforma agrária e redistribuição ficaram arquivadas, a estrutura de castas e privilégios manteve-se, e a corrupção não diminuiu — pelo contrário, aprofundou-se.
Os ministérios transformaram-se em butins de repartição entre facções, e as alianças com partidos tradicionais — como o Congresso Nepali e setores “comunistas” moderados — levaram os ex-guerrilheiros a reproduzir a mesma lógica de privilégios que antes denunciavam.
A instabilidade política tornou-se permanente. De 2008 até hoje, o Nepal conheceu mais de dez governos distintos, quase todos produto de coalizões frágeis que ruíam em poucos meses. As disputas internas entre facções maoístas, comunistas e social-democratas paralisaram a Assembleia Constituinte, que demorou sete anos para aprovar uma nova Constituição (2015). Em vez de construir uma nova ordem democrática e popular, a república consolidou-se como um espaço de disputas entre elites que buscavam assegurar cargos e privilégios.
O maoísmo no poder não apenas se burocratizou, mas também se fundiu com os mesmos interesses oligárquicos que combateu na guerra. Muitos de seus líderes acumularam riquezas, controlaram empresas públicas e colocaram seus familiares em cargos de governo, integrando-se plenamente ao método político que antes apontavam como corrupto. De ser o referente de uma guerra camponesa contra a monarquia, os maoístas terminaram como mais uma peça da engrenagem estatal que protege os privilegiados.
Esse processo alimentou a desconfiança social em relação aos partidos. De modo geral, percebe-se que a mudança da monarquia para a república foi mais formal do que real: substituiu-se o rei por uma elite multipartidária que governa com os mesmos métodos. O desencanto agravou-se com a incapacidade do governo de responder ao terremoto de 2015, que deixou quase 9.000 mortos e mais de um milhão de deslocados, e que revelou o desvio massivo de fundos de ajuda humanitária para contas privadas de políticos e empresários.
Assim, a república nascida da guerra popular converteu-se em uma república fracassada, incapaz de responder às demandas de justiça social, igualdade e soberania. A experiência maoísta, que prometia transformar o Nepal, terminou sendo uma mudança de fachada. Mas, mais estrategicamente, essa traição instalou na juventude a decepção com “a esquerda” e o antipartidarismo que, como veremos adiante, é um dos principais limites da rebelião.
O Nepal no ciclo de rebeliões asiáticas
A revolta no Nepal faz parte de um ciclo de protestos que percorre a Europa Oriental, o Sul e o Sudeste Asiático nos últimos anos. Neste caso, vamos nos centrar no contexto asiático. De Colombo a Daca e Jacarta, milhões de pessoas têm se mobilizado contra governos corruptos, crises econômicas e regimes incapazes de oferecer um futuro digno. O caso nepalês inscreve-se nessa onda regional, com características próprias, mas também com elementos comuns que refletem a profundidade da crise do capitalismo periférico na Ásia.
No Sri Lanka, em 2022, uma massiva insurreição popular obrigou o presidente Gotabaya Rajapaksa a fugir do país depois que manifestantes assaltaram o palácio presidencial. A causa imediata foi a crise econômica mais grave em décadas, marcada pela falta de divisas, a inflação descontrolada e o desabastecimento de alimentos e combustíveis. A família Rajapaksa simbolizava a opulência capitalista e a corrupção, e sua queda mostrou como um povo, atravessado pela precariedade e pela fome, pôde derrubar uma das dinastias políticas mais poderosas da região.
Em Bangladesh, milhares de jovens universitários e trabalhadores têxteis desafiaram o regime de Sheikh Hasina, denunciando a repressão política e as condições laborais escravizantes que sustentam o modelo exportador de roupas baratas. O movimento estudantil, em particular, conectou-se com demandas mais amplas contra o autoritarismo e a desigualdade, protagonizando enfrentamentos com a polícia e gerando um questionamento profundo ao regime autoritário disfarçado de democracia parlamentar.
Na Indonésia, o governo de Prabowo Subianto enfrenta greves massivas de trabalhadores de aplicativos, estudantes e outros setores que protestam contra os privilégios do governo e a ingerência militar. A aprovação da chamada Lei Ônibus, que flexibiliza direitos trabalhistas e ambientais para atrair investimento estrangeiro, provocou uma onda de manifestações lideradas por sindicatos e organizações juvenis. Em um país com mais de 270 milhões de habitantes, o contraste entre crescimento econômico e precariedade social incendiou a indignação de amplos setores populares.
O levante no Nepal compartilha com esses casos vários elementos: o rechaço à desigualdade, às más condições de vida e a governos que não hesitam em passar por cima das maiorias em benefício próprio; a raiva contra a precariedade laboral, a falta de futuro para a juventude e o impacto das crises econômicas que atingem diretamente a vida cotidiana. Mas também aporta particularidades: a censura das redes sociais como detonador, a presença majoritária da Geração Z digitalizada e a reaparição do exército como árbitro político em uma república já deslegitimada.
Em conjunto, essas rebeliões mostram que a Ásia vive um ciclo de lutas populares contra o neoliberalismo e o autoritarismo. Cada país tem suas especificidades, mas em todos aparece uma juventude disposta a desafiar regimes corruptos e a tomar as ruas, mesmo ao custo de enfrentar a repressão militar. O que ocorre no Nepal conecta-se, assim, com uma dinâmica regional: povos inteiros que já não aceitam o peso da dívida, da corrupção e da desigualdade, e que expressam, com distintas formas, um mesmo grito de ruptura contra a ordem estabelecida.
Tradução de Antonio Soler, do original La rebelión de los sombreros de paja: la juventud de Nepal lo incendia todo.











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