O Marrocos vive um dos maiores levantes sociais de sua história recente, protagonizado pela geração Z. Organizado sob a sigla “GenZ212”, o movimento nasceu nas redes e tomou as ruas após a morte de oito mulheres grávidas em Agadir, transformando a indignação com a precariedade da saúde pública em protestos massivos contra a corrupção, o desemprego juvenil e a repressão do regime. Entre reivindicações por educação, saúde e justiça social, a juventude conecta sua luta local a causas globais, adotando até símbolos do anime One Piece como expressão de rebeldia contra as mazelas sociais, a precarização da vida, a super-exploração do trabalho e o autoritarismo dos governos. Marrocos é parte de uma nova onda de rebeldia juvenil que atinge vários continentes e que tem potencial de derrubar governos, criar crises politicas e abrir espaço para a radicalização de outros setores, como a classe trabalhadora. Movimento este muito bem-vindo, em uma conjuntura girada à direita desde a eleição de Donald Trump nos EUA, e que pode criar as condições para que o pendulo político gire à esquerda.
REDAÇÃO
A geração Z toma as ruas de Marrocos
O movimento se autodenomina “GenZ212” e começou após a morte de oito mulheres grávidas em um hospital público da região de Agadir. Os jovens exigem saúde e educação públicas de qualidade, além de melhores condições de vida e emprego.
Desde o último sábado (27), a juventude marroquina saiu às ruas para protestar contra o governo do presidente Aziz Akhannouch e o rei Mohammed VI.
O movimento se apresenta como “GenZ212”, acrônimo que combina a geração Z (nascidos entre 1997 e 2012) com o prefixo telefônico do país. Ele teve início como um grupo virtual na plataforma Discord, que já reúne 126 mil pessoas no Marrocos.
O estopim imediato das mobilizações foi a morte de oito mulheres grávidas em um hospital da região de Agadir, consequência da má qualidade do atendimento. As mortes escancararam a crise do sistema de saúde e, ao mesmo tempo, provocaram a indignação popular diante da precarização dos serviços públicos.
Isso explica por que os protestos se estenderam a 17 províncias, transformando-se no maior movimento social desde 2016. O governo respondeu com forte repressão e, até o momento da redação desta nota, foram reportados 409 detidos e 280 feridos.
Reivindicações principais do movimento:
- Acesso a uma educação pública, gratuita e de qualidade.
- Saúde pública digna, com infraestrutura adequada e médicos suficientes em todas as regiões.
- Oportunidades de emprego de qualidade para a juventude.
- Medidas contra a corrupção governamental e o nepotismo.
- Justiça social para as regiões pobres e marginalizadas.
O pano de fundo desse levante é a profunda crise social e econômica que afeta os jovens do país. Segundo estatísticas oficiais, 25% da população marroquina tem entre 15 e 24 anos (cerca de 9 milhões de pessoas), e a taxa de desemprego juvenil atingiu 47% no segundo trimestre deste ano.
Além disso, o GenZ212 também se conecta às mobilizações contra a normalização das relações com o Estado genocida de Israel, tema que tem gerado grande indignação popular.
Outro fator de descontentamento é que o governo está investindo grande parte do orçamento público na construção de estádios para a Copa do Mundo masculina de 2030, organizada em conjunto com Espanha e Portugal. Para a população, trata-se de um gasto desnecessário, enquanto os serviços públicos estão em ruínas.
Um dado curioso é que muitos usuários da plataforma Discord se identificam com nomes de personagens do anime One Piece. Assim, os protestos no Marrocos demonstram uma conexão com os levantes sociais na Indonésia, Nepal, Coreia do Sul e Peru, onde também se viram bandeiras e símbolos inspirados na série.
A trama do anime gira em torno de um grupo de jovens piratas que lutam contra uma elite política corrupta que oprime, discrimina e escraviza o povo. Em um dos episódios, Monkey D. Luffy, o capitão pirata, declara que luta por “um mundo onde meus amigos possam comer tudo o que quiserem”.
Por isso, os “Chapéus de Palha” (nome da tripulação pirata) se transformaram em um símbolo de liberdade e de luta por justiça social para a juventude da geração Z.
Foto: Mosa’ab Elshamy – Associated Press/LaPresse








