Na seguinte nota, Robles justifica e explica porque a luta pelos direitos e pela libertação do povo iraniano não pode vir de outro lugar se não de sua própria luta – luta essa que, mesmo diante de toda a opressão, não perdeu sua força. Isso porque o estado sionista e genocida de Israel vem usando como uma de suas justificativas para a guerra e os ataques impostos a esse povo a tentativa de derrubada do reacionário e opressivo regime dos aiatolás. A nota demonstra como nosso posicionamento é a favor da emancipação do povo iraniano pela sua própria luta: contra a dominação genocida e imperialista sionista e estadunidense, e sem dar nenhum apoio ao regime teocrático e burguês dos aiatolás.
REDAÇÃO
A libertação das mulheres e das diversidades no Irã e no Oriente Médio só virá por meio de suas lutas
Por Marina Hidalgo Robles, dirigente de Las Rojas
Em 12 de junho, Israel lançou a Operação Leão Nascente contra o Irã, bombardeando os principais comandantes militares e cientistas nucleares. O ataque foi imediatamente direcionado contra a população civil, e já foram contabilizadas mais de 430 mortes. Hoje, esse ataque também envolve os EUA, que bombardearam três centros nucleares, abrindo ainda mais a possibilidade de uma escalada nuclear global.
Nós, feministas socialistas, nos posicionamos firmemente contra esse ataque bélico do Estado colonial de Israel e do imperialismo norte-americano contra o Irã, que defendemos criticamente como nação, sem que isso signifique apoio político ao regime dos aiatolás, um regime teocrático e burguês, inimigo dos interesses do povo em sua base. As feministas socialistas estão ao lado das mulheres e da diversidade, ao lado dos trabalhadores, ao lado do povo oprimido e explorado, e defendemos que somente um processo revolucionário de baixo para cima pode alcançar a emancipação da população iraniana.
O ataque ao Irã foi inicialmente justificado por Benjamin Netanyahu como uma “operação preventiva” para eliminar o arsenal nuclear do Irã (no contexto das negociações diplomáticas entre o Irã e os EUA, sobre o desarmamento nuclear). Mas ele rapidamente mudou sua retórica, alegando que os bombardeios têm como objetivo desestabilizar o regime iraniano a fim de provocar uma mudança de regime, ou seja, intervir diretamente na vida política do país, remover o governo reacionário do aiatolá Ali Khamenei e construir um regime político de sua própria escolha.
O cinismo do genocida Netanyahu foi extremo quando ele convocou as mulheres iranianas a “erguerem suas vozes”, invocando o lema da rebelião do povo iraniano no final de 2022, “Mulher, vida, liberdade”, motivado pelas mobilizações em massa provocadas pelo assassinato da jovem curda Mahsa Amini pelas mãos da Polícia da Moralidade. Uma rebelião que foi muito importante no Irã, iniciada pela revolta das mulheres que se recusaram a cobrir os cabelos com o hijab de forma obrigatória e que rapidamente se espalhou por todo o país, com greves quase totais (inclusive no sindicato chave do petróleo), desferindo um duro golpe no governo de Khamenei.
As declarações do genocida sionista, reivindicando essa rebelião das mulheres por sua liberdade, chocam-se brutalmente com a realidade dos atos cometidos pelo Estado de Israel sob seu governo. Na Palestina, o estado genocida de Israel já assassinou mais de 60.000 palestinos; nos últimos dias, bombardeou diretamente os centros de entrega de alimentos, onde a população de Gaza – que vive sob um bloqueio total à entrada de alimentos desde o início de março – vem em busca de pequenas porções de comida; recentemente, a ONU publicou um relatório que relata as agressões sexuais às quais a população civil de Gaza, e particularmente as mulheres detidas, são submetidas.
É absolutamente falso que o governo de Benjamin Natanyahu se importe minimamente com a vida das mulheres e com a diversidade. Internacionalmente, ele é denunciado por sua nítida campanha de “pinkwashing”, ou seja, escondendo atrás de uma retórica progressista em relação aos direitos LGBTQIA+, as atrocidades de guerra cometidas e, especificamente, o genocídio na Palestina. Dezenas de marchas do Orgulho em todo o mundo no ano passado levantaram o mote “No pride with genocide” (“Não há orgulho com genocídio”). Até mesmo na Marcha do Orgulho em Tel Aviv foi proclamado um cessar-fogo em Gaza.
Esse monstro, responsável por tais atrocidades, ataca o Irã e conclama sua população a se levantar com ele, a derrubar o aiatolá! Não há nenhum ato de libertação para a sociedade iraniana que possa vir das mãos de Netanyahu. A guerra, as invasões e as ocupações imperialistas não melhoram – nunca melhoraram – as condições de vida da população, pelo contrário.
Isso pode ser observado, por exemplo, na história do Afeganistão. Depois de duas décadas de ocupação, a retirada apavorada das tropas americanas deu lugar a um avanço brutal do Talibã, impondo um regime ainda mais bárbaro do que a ocupação, onde as mulheres não podem mais ir à escola, onde são proibidas de falar em público, onde todos os seus direitos de decidir sobre seus corpos e suas vidas são retirados.
Mas a população iraniana não precisa de nenhum gendarme genocida para chamá-la a se levantar e se organizar contra as atrocidades a que é submetida pelo regime dos aiatolás. Já em 1979, uma enorme rebelião derrubou o Xá Reza Pahlavi, na qual as mulheres desempenharam importante papel de liderança, e, mesmo após a ascensão dos fundamentalistas ao poder, elas continuaram nas ruas lutando por seus direitos e contra as medidas reacionárias que o clero xiita queria impor. Em 8 de março de 1979, por exemplo, elas iniciaram uma luta que durou vários dias contra o uso obrigatório do hijab, e o governo foi forçado a recuar temporariamente.
O aiatolá Ruholla Khomenei (antecessor do atual), que tomou o poder em 1979, conseguiu impor a Shari’a (lei islâmica ultra reacionária e opressiva, com valor de Constituição) e, com ela, uma série de ataques aos de baixo; mas isso não significou uma derrota absoluta, pois as lutas contra o regime vêm ocorrendo há décadas.
Nos últimos anos, os trabalhadores lideraram lutas por salários, contra a inflação e as condições de vida cada vez mais deploráveis. Este ano, por exemplo, o sindicato dos caminhoneiros realizou uma greve nacional contra o aumento dos preços do petróleo.
Enquanto isso, a luta feminista pela liberdade para decidir sobre o próprio corpo, as roupas e a vida não esmoreceu. A rebelião “Mulher, Vida e Liberdade” marcou uma ruptura na sociedade: cada vez mais mulheres estão saindo em público sem o véu que as cobre, uma rebelião contra um símbolo de profunda opressão, mesmo isso ainda sendo uma imposição do Estado. Não foi necessária a intervenção de nenhum genocida, nem o massacre de nenhum povo, para que as mulheres se levantassem com enorme coragem contra a opressão do uso obrigatório do hijab!
Não há dúvida de que o regime dos aiatolás é reacionário e misógino, mas a defesa dos direitos e da diversidade das mulheres, fortemente oprimidas naquele país, não é justificativa para uma guerra, para uma ocupação ou mesmo para sua defesa, se vinda da boca de um brutal genocida.
Somente o povo, a classe trabalhadora, as mulheres e as diversidades e todos os setores oprimidos podem mudar o destino de suas vidas, lutar para derrotar um regime ultrarreacionário como o dos aiatolás e construir uma sociedade livre de toda opressão e exploração.
A tarefa das feministas e de todos aqueles que querem lutar pela emancipação das mulheres e das diversidades no Oriente Médio é aliar-se aos povos oprimidos e fazer parte da luta contra o Estado genocida de Israel, pela libertação do povo iraniano, do povo palestino e de todos os povos oprimidos.
Tradução por Mariah Sinem, do original La liberación de las mujeres y diversidades de Irán y Medio Oriente sólo vendrá de sus luchas.









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