Mais uma forte pancada é sentida pelo pêndulo político girado todo à direita desde os anos 1990.

Agora foi em Madagascar:  na sequência de Quênia, Sudão, Marrocos e Nepal, a rebelião malgaxe expressa uma contratendência em meio a uma conjuntura marcada pelo ascenso da extrema direita e seus discursos ultrarreacionários e representam um dos processos mais combativos da onda de rebeliões que atravessa a África, a Ásia e outras regiões do mundo.

As leituras derrotistas de que “não se tratam de movimentos de conquista do poder com conteúdo socialista” ou objetivistas de que são movimentos “que recuperam as formas tradicionais de luta da classe operária”, não só não dão conta do que vem ocorrendo como também impoem uma visão engessada das formas de luta na explicação dos fatos.

As ruas sempre foram a tribuna oficial dos oprimidos após o fim do feudalismo e dos explorados após a consolidação política da burguesia. O movimento socialista, recorrendo ao que diz Marx em 18 de Brumário, “adotou a máscara” do passado, conferindo à ela um novo conteúdo: um conteúdo revolucionário. O que vemos hoje é uma vanguarda de massas, lideradas principalmente pela juventude, que se coloca nas ruas de forma veemente contra governos que exacerbam o autoritarismo, a violência e precarização geral da vida dos mais pobres, incluído aí o genocídio sionista  que se abate sobre Gaza.

Estes jovens não vivenciaram o ascenso da classe operária e suas lutas, mas, se revoltam com as armas possíveis – utilizando as redes sociais como contra veneno à disseminação ideológica do capital pelas mesmas – produzindo verdadeiras rebeliões contra os resultados nefastos do neoliberalismo que tiraram o seu futuro e cuja resposta, seja pela extrema direita ou por golpes militares apoiados pelas burguesias locais, só fazem aumentar a pauperização e a violência contra eles e contra as trabalhadoras e trabalhadores, a quem eles chamam a se somar nas ruas.

O leitura correta da esquerda socialista revolucionária é se juntar, em unidade de ação e com unidade política, a esses movimentos populares que levantam a consigna  “queremos viver, não sobreviver”, com suas consignas próprias e impedir que as bandeiras que as rebeliões levantam sejam assenhoreadas pela burguesia e adaptadas a um novo período que fortaleça o domínio burguês e a barbárie reinante, promovendo a construção de um projeto anticapitalista, e a reintrodução da ideia do socialismo neste século XXI.

Como bem define Johan Madriz, no artigo abaixo, o desafio histórico está colocado: transformar a rebeldia espontânea em poder consciente!

Para Madagascar a tarefa imediata a ser conduzida é construir uma Assembleia Constituinte livre e soberana, nascida da mobilização de trabalhadores, camponeses e jovens, que refunde o país sobre novas bases sociais e anticapitalistas, garantindo uma verdadeira independência frente ao imperialismo e rompendo com o domínio das potências estrangeiras que continuam saqueando os seus recursos naturais.

Boa leitura!

REDAÇÃO

Por Johan Madriz

Os protestos que percorrem Madagascar expressam a acumulação de décadas de frustração: apagões intermináveis, fome, desemprego, corrupção e uma juventude sem futuro. Mas, por trás da centelha imediata, encontra-se um descontentamento mais profundo, dirigido contra um sistema que combina o legado colonial, a miséria do capitalismo dependente e a traição das velhas burocracias que se autodenominaram socialistas.

O povo malgaxe, cansado de sobreviver, volta às ruas com uma energia que lembra os grandes levantes de sua história, mas também revela o esgotamento de um regime que apenas responde com repressão e militarização. No entanto, essa onda de luta enfrenta o desafio de transformar-se em um movimento com direção política clara, encaminhado a um horizonte emancipador.

Uma revolta contra o apagão e a fome

Desde 25 de setembro, milhares de pessoas saem às ruas da capital Antananarivo e de outras cidades, fartos dos intermináveis cortes de eletricidade e água que paralisam a vida cotidiana. As manifestações começaram como reação à miséria diária — as horas sem luz, os alimentos que apodrecem, o desemprego —, mas rapidamente se transformaram em uma rebelião política que questiona todo o regime.

O movimento tem um rosto jovem: estudantes, setores de trabalhadores precarizados, desempregados… todos unidos pela consigna “queremos viver, não sobreviver”. O epicentro das mobilizações é o distrito de Ankatso, onde milhares de jovens enfrentam diariamente as forças de segurança com o corpo e algumas pedras. Ali, como na Rotaka (a revolta estudantil de 1972 que derrubou a Primeira República), o grito de milhares volta a soar.

Nas redes sociais organizam-se concentrações, convocam-se greves e difundem-se imagens da repressão. Os manifestantes usam uma bandeira negra inspirada no mangá One Piece, símbolo de resistência juvenil. Não se trata apenas de cortes de luz: a juventude expressa seu cansaço com um sistema que só lhes oferece pobreza e desigualdade, enquanto uma minoria política e empresarial enriquece.

Os números revelam o fundo material da indignação. Três quartos dos 32 milhões de habitantes vivem abaixo da linha da pobreza, segundo o Banco Mundial. Na capital, os apagões chegam a 120 horas semanais, enquanto apenas 36% da população têm acesso à eletricidade — cifra que cai para 15% nas zonas rurais. As palavras de uma manifestante resumem o sentimento popular: “O problema é o sistema. Nossas vidas não melhoraram desde que nos tornamos independentes da França”.

A resposta estatal tem sido brutal. Nos primeiros dias, 22 pessoas morreram e mais de uma centena ficaram feridas pela repressão policial, segundo a ONU. Gases lacrimogêneos lançados perto de hospitais obrigaram a evacuação de bebês prematuros, e dezenas de jovens foram encarcerados. Ainda assim, a cada dia mais setores se somam, desde trabalhadores urbanos até camponeses do sul empobrecido.

Os protestos expressam uma crise social acumulada durante décadas de desigualdade, privatização e abandono, na qual a juventude malgaxe se ergue como a voz de um povo que já não aceita a miséria imposta pelos velhos governos.

Militarização, repressão e crise de legitimidade

Diante do levante popular, o presidente Rajoelina recorreu ao mesmo método que as elites malgaxes sempre aplicaram: a repressão com os militares nas ruas. Após onze dias de protestos, dissolveu seu gabinete e destituiu o primeiro-ministro Christian Ntsay — um gesto desesperado para conter o descontentamento social. Mas a manobra apenas buscou rearranjar o controle político, sem sucesso.

Em 6 de outubro, Rajoelina nomeou como novo chefe de governo o general Ruphin Fortunat Dimbisoa Zafisambo, militar de alta patente do Exército, numa tentativa clara de impor a ordem pela força. Essa nomeação desencadeou uma onda de indignação. Mais de 200 organizações alertaram para a evidente deriva autoritária em que o país ingressa, onde cargos civis passam às mãos de fardados — especialistas em repressão.

Longe de apaziguar as ruas, a decisão acendeu ainda mais a raiva popular. Os setores mobilizados rejeitaram de imediato a designação e lançaram um ultimato de 48 horas para sua reversão; caso contrário, será mantido o chamado de uma greve geral.

Nas ruas, o governo utilizou veículos blindados, gases lacrimogêneos e balas de borracha para dispersar os manifestantes. Circularam imagens de policiais espancando jovens até deixá-los inconscientes, hospitais invadidos por gás e bairros inteiros sitiados pelas forças armadas. Em Toliara, ao sul, multidões ergueram barricadas enquanto queimavam pneus.

Rajoelina justifica a violência com o discurso clássico da ordem burguesa: “os mortos eram saqueadores e vândalos”, disse à imprensa. A realidade mostra outra coisa: o regime enfrenta uma crise total de legitimidade, produto de eleições contestadas, corrupção endêmica e um aparato estatal que não atende às necessidades mínimas da população.

A imposição de toque de recolher, a censura midiática e as prisões buscam paralisar um movimento que cresce a cada dia. Mas o que emerge das ruas não é uma simples contestação reivindicativa, e sim uma revolta política contra um sistema deslegitimado. A juventude e os setores trabalhadores percebem que o regime atual não passa de continuação das velhas ditaduras militares e dos governos subordinados ao capital estrangeiro.

No domingo (13), um novo ponto de inflexão: a fuga do presidente, junto à família, a bordo de um avião militar francês, após acordo com Macron. Sua saída é resultado direto de três semanas de protestos e da quebra de comando dentro do Exército, quando uma unidade de elite — a Capsat — se negou a continuar reprimindo as manifestações.

Entretanto, a irrupção dos militares nas protestas abre um cenário novo e perigoso. Embora parte do Exército tenha se recusado a reprimir, sua decisão de “tomar o poder” e canalizar a revolta pela via militar desvia o ímpeto popular para uma nova forma de dominação. Como veremos adiante, a história recente de Madagascar é marcada pela irrupção do Exército como amortecedor do descontentamento e via para manter a ordem capitalista.

Essas facções afirmam querer “proteger o povo” e “restaurar a ordem”, mas seu objetivo real é impedir que a mobilização se converta em força política independente dos quartéis. O que começou como uma rebelião de jovens, trabalhadores e camponeses pode ser cooptado e transformado em transição controlada por uniformizados, na qual os mesmos aparatos do Estado tentam reciclar-se para manter intactas as estruturas do poder burguês.

O Exército não liberta; apenas administra a crise. O desafio que o povo malgaxe enfrenta agora é evitar que sua vitória nas ruas termine confiscada por uma nova junta que, em nome da estabilidade, reinstale a velha ordem com rostos novos.

Miséria estrutural

As manifestações brotam de uma crise estrutural profunda, em que a fome, o desemprego e a desigualdade se combinam com corrupção sistêmica e um modelo econômico subordinado e dependente do capital estrangeiro. No país, quase três quartos da população vive abaixo da linha da pobreza. A riqueza natural — baunilha, níquel, cobalto, ouro — acaba concentrada nas mãos de grandes empresas estrangeiras e de uma elite local a elas associada, enquanto a maioria sobrevive sem serviços básicos.

O Produto Interno Bruto per capita caiu de 812 dólares em 1960 para 461 dólares em 2025 — uma amostra brutal do empobrecimento histórico do país. Madagascar, que já foi considerado um dos territórios africanos com maior potencial de desenvolvimento, hoje figura entre os mais pobres do planeta. A agricultura de subsistência domina a vida rural, e 80% da população depende dela em condições precárias. Secas e ciclones — intensificados pela mudança climática — destroem lavouras e empurram milhares à migração interna ou ao trabalho informal na capital.

O sistema energético reflete a desigualdade nacional. Só 36% da população têm acesso à eletricidade, proporção que cai para 15% nas áreas rurais. Na capital, os apagões não são exceção, mas norma. Isso é apenas sintoma de um Estado que cedeu os serviços públicos ao caos burocrático e ao lucro privado. A estatal Jirama, endividada e corroída pela corrupção, mal sustenta uma rede colapsada.

No Sul, povoados sobrevivem graças a pequenas redes solares privadas que cobram tarifas quatro vezes maiores do que na capital, criando uma nova forma de desigualdade energética: os ricos iluminam suas casas com energia “verde”, enquanto os pobres seguem cozinhando com carvão e lenha.

A corrupção completa esse quadro de decadência. Desde os anos 1990, cada governo transforma ministérios em butins políticos para seus adeptos, repartindo contratos, subsídios e concessões mineradoras. Rajoelina segue essa lógica. Denúncias de desvio de fundos, propinas e enriquecimento ilícito se acumulam, enquanto a inflação devora salários e a moeda nacional desaba.

A juventude cresce sem futuro, hospitais carecem de medicamentos e servidores públicos trabalham meses sem receber. Impôs-se em Madagascar um capitalismo dependente, uma economia extrativa e frágil, subordinada aos preços internacionais e ao endividamento com o FMI. As reformas neoliberais reduziram o gasto social e privatizaram serviços públicos, deixando o Estado como uma casca burocrática a serviço da elite.

Uma independência incompleta e uma dependência perpétua

Para compreender a crise atual, é necessário olhar para trás, ao longo do brutal processo de colonização francesa que moldou a estrutura social, econômica e política. A França impôs seu domínio em 1896, após derrotar o Reino Merina, e transformou a ilha em colônia de extração. A administração colonial destruiu instituições locais, apropriou-se de terras férteis e reorganizou a economia para exportar matérias-primas ao mercado europeu.

A colonização não impôs apenas a exploração econômica, mas também uma hierarquia cultural e racial. O francês converteu-se na língua do poder e da educação; o trabalho forçado, a base da produção. As classes médias urbanas formadas sob tutela colonial herdaram valores, modos e a lógica da metrópole, tornando-se uma elite francófona que ainda hoje controla o Estado. Essa elite é o fio direto entre a administração colonial e os governos posteriores.

O país proclamou sua independência em 1960, mas foi uma independência tutelada. A França manteve o controle dos principais setores econômicos e financeiros, além de conservar bases militares e acordos comerciais vantajosos. A nova república nasceu sem romper com as estruturas coloniais: seu aparato estatal, seu sistema educativo e sua moeda continuaram sob o desenho francês. Os presidentes pós-independência atuaram como simples administradores coloniais.

O país ingressou na era pós-colonial sem reforma agrária, sem industrialização e sem autonomia econômica. A riqueza continuou fluindo para o exterior, enquanto a maioria camponesa afundava na pobreza. Os governos sucessivos dependeram de empréstimos franceses e de organismos internacionais, consolidando um neocolonialismo econômico disfarçado de cooperação. A estrutura exportadora, a educação elitista e a subordinação diplomática a Paris mantiveram-se como pilares da nova ordem.

Hoje, mais de seis décadas depois, essa herança colonial continua pesando sobre Madagascar. A pobreza generalizada, a fragilidade do aparato estatal e a dependência da ajuda internacional são frutos diretos daquela dominação. O país não conseguiu romper o vínculo entre o legado do colonialismo e as classes dominantes locais. Os protestos atuais não respondem apenas ao governo de turno, mas também a esse legado histórico.

Nas ruas, quando gritam que “o problema é o sistema”, nomeiam um processo de séculos: a continuidade de um poder que nunca deixou de servir aos interesses do capital estrangeiro imperialista e das minorias locais que o administram. A independência de 1960 foi uma bandeira sem conteúdo social; a verdadeira independência — a dos setores trabalhadores, camponeses e jovens — continua pendente.

Entre a dependência e a ilusão revolucionária

A chamada “etapa socialista” de Madagascar, iniciada em 1975 sob o comando do almirante Didier Ratsiraka, marcou uma tentativa frustrada de ruptura com a ordem neocolonial herdada da França. Sua chegada ao poder não foi fruto de uma revolução popular, e sim de uma transição militar, produto dos golpes e assassinatos que sacudiam o país desde 1972. Apresentado como um “socialismo malgaxe”, seu projeto nasceu de cima, nas mãos de oficiais e burocratas do Estado, e não da organização independente das massas trabalhadoras. Além disso, jamais promoveu ruptura com o capitalismo, limitando-se a implementar nacionalizações que fortaleceram o Estado burguês.

Ratsiraka redigiu o Boky Mena (Livro Vermelho) e proclamou a República Democrática de Madagascar, com discurso anti-imperialista e de soberania nacional. Nacionalizou setores estratégicos, impulsionou a planificação estatal e promoveu o uso do idioma malgaxe na educação — medida que buscava romper com a dominação cultural francesa. Mas o processo nunca foi socialista no sentido emancipador: tratou-se de um regime burocrático, autoritário e vertical, alinhado à União Soviética stalinista e a seus métodos contrarrevolucionários.

Em lugar de avançar rumo ao poder da classe trabalhadora, Ratsiraka consolidou uma nova classe dominante: uma burocracia estatal e militar que controlou a economia por meio de empresas públicas ineficientes, corrupção e repressão política. O partido único AREMA monopolizou a vida política, eliminou a oposição e subordinou os sindicatos ao aparelho estatal. A linguagem revolucionária esvaziou-se enquanto o regime adotava as formas do stalinismo, com culto fanático ao líder, censura generalizada e perseguição a dissidentes.

As consequências foram devastadoras. Em nome do socialismo, o governo nacionalizou empresas sem planejamento e sem considerar as necessidades da população. A produção caiu, a inflação subiu e a pobreza disparou, enquanto artigos básicos rareavam e as filas se alongavam diante dos mercados estatais.

Impulsionou-se uma política educacional conhecida como malgaxização, substituindo o francês pelo idioma nacional. Embora buscasse dignificar a cultura local, acabou gerando educação deficiente e desigual, com escassez de materiais e professores. Surgiu assim uma “geração sacrificada”: jovens malformados e sem oportunidades, condenados à pobreza ou ao êxodo.

Em 1977, eclodiram protestos contra a escassez de alimentos, duramente reprimidos. Os setores populares apontaram aquele “socialismo” como outra forma de dominação. Mais uma vez na história, regimes burocráticos cometeram um “crime de lesa-socialismo” ao usar esse nome para processos que são tudo, menos socialistas. Neste caso, tratou-se de uma variante de capitalismo de Estado com discurso anti-imperialista, no marco de um processo progressivo de descolonização, mas que não chegou a ser anticapitalista.

Nos anos 1980, com o colapso do bloco soviético e a pressão do Fundo Monetário Internacional, Ratsiraka abandonou sua retórica socialista e aplicou as mesmas receitas neoliberais que antes denunciava: cortes, privatizações e abertura ao capital estrangeiro. O “socialismo malgaxe” terminou como caricatura do stalinismo, um regime militarista disfarçado de revolução. Em 1991, uma massiva mobilização popular forçou sua queda, após repressão que deixou mais de 130 mortos em frente ao palácio presidencial.

A etapa mal chamada socialista deixou um duplo legado: uma economia arruinada e uma cultura política autoritária, na qual a burocracia militar substituiu a classe trabalhadora como sujeito do poder. O fracasso do projeto de Ratsiraka não foi o fracasso do socialismo, mas de sua falsificação burocrática.

Sob seu regime, o país não se libertou do domínio colonial nem do capital; ficou preso entre dependência econômica externa e repressão interna. Essa herança ainda pesa sobre a sociedade: uma burocracia incrustada no Estado, uma casta política corrupta e uma população desiludida com a palavra “socialismo”, sequestrada por quem usou seu nome para perpetuar a exploração.

Golpe, transição e continuidade do regime

A história recente é marcada por golpes de Estado, transições controladas e falsos processos democráticos. O ponto de inflexão mais recente foi o golpe de 2009, quando o atual presidente — então jovem empresário e prefeito da capital — derrubou o presidente Marc Ravalomanana com apoio de setores militares e empresariais.

Apresentou-o como “revolução popular”, mas na realidade foi uma operação clássica da burguesia urbana, respaldada pelas Forças Armadas e por interesses econômicos locais ligados ao capital estrangeiro. Aquele golpe interrompeu um breve período de abertura democrática e reinstalou o domínio do Exército na política.

Rajoelina autoproclamou-se presidente de uma “Alta Autoridade de Transição”, com o beneplácito tácito da França e o silêncio cúmplice de organismos internacionais. Durante quatro anos governou sem legitimidade eleitoral, reprimiu qualquer protesto e ampliou o poder do aparato militar. Sob seu comando, consolidou-se uma rede de corrupção e clientelismo que misturou negócios privados, concessões mineradoras e contratos estatais.

Em 2013, o país realizou eleições que, formalmente, resolveram o impasse institucional, embora a polarização seguisse intacta. Rajoelina não se candidatou então, mas manteve controle sobre parte do Estado e dos meios de comunicação. Voltou ao poder nas eleições de 2018, em contexto de desconfiança generalizada, acusações de fraude e abstenção massiva. Seu retorno não significou mudança de rumo, e sim continuidade da lógica de poder personalista e neoliberal que domina Madagascar.

Em 2023, reelegeu-se novamente, após processo boicotado pela oposição. O pleito ocorreu em meio a denúncias de manipulação do cadastro eleitoral, uso político das forças de segurança e cooptação da comissão eleitoral. Para amplos setores sociais, o resultado carece de legitimidade. O que hoje explode nas ruas é resultado dessa decomposição: um regime que se sustenta por repressão e subordinação aos interesses do capital internacional.

A crise energética e social expôs o desgaste completo do sistema. O governo que prometia “modernização” entregou apenas apagões, desemprego e miséria. A Geração Z lidera os protestos e representa uma nova consciência: a de uma juventude que cresceu sob a precariedade da ofensiva neoliberal e as mentiras das transições democráticas.

Rajoelina tenta apresentar-se como líder moderno (tem certo ar “bukelista”), mas seu governo é herdeiro direto dos golpes militares e dos experimentos neoliberais que esvaziaram o país.

O golpe de 2009 foi o modo pelo qual a classe dominante malgaxe resolveu suas contradições internas, substituindo um burguês por outro, com o Exército como garantidor. Desde então, os governos não têm sido mais do que rostos distintos do mesmo poder oligárquico, sustentado pelo capital estrangeiro e pela burocracia corrupta. A repressão atual, a militarização do gabinete e a concentração de poder nas mãos de Rajoelina são continuidade lógica de um regime nascido do golpe.

Por uma Constituinte para refundar o país sobre novas bases sociais

As manifestações em Madagascar representam um dos processos mais combativos da onda de rebeliões que atravessa a África, a Ásia e outras regiões do mundo. Sua força não se explica apenas pela exaustão diante dos apagões ou da miséria, mas pela irrupção de uma nova geração que se enfrenta ao sistema miserável que lhe foi imposto.

Assim como as lutas no Quênia, Sudão, Marrocos ou Nepal, a rebelião malgaxe expressa uma contratendência em meio a uma conjuntura marcada pelo ascenso da extrema direita e seus discursos ultrarreacionários: uma juventude que não suporta mais a fome, a precarização, a corrupção nem o autoritarismo — e que age contra isso. Trata-se de um movimento progressivo, que rompe com a apatia política e devolve às ruas a ideia de que é possível tomar o futuro em suas mãos.

No entanto, essa energia popular enfrenta o desafio de não ser desviada ou submetida pela via militar, nem cooptada por novas elites. A fuga de Rajoelina e a tentativa de um setor do Exército de “canalizar” os protestos por meios institucionais buscam conter o processo, neutralizar sua radicalidade e preservar a velha ordem com novas caras.

Nenhum apoio aos militares. Sua irrupção não representa uma saída democrática, mas uma manobra para impedir que os setores populares tomem o poder. A tarefa urgente não é confiar nos quartéis, e sim construir uma Assembleia Constituinte livre e soberana, nascida da mobilização de trabalhadores, camponeses e jovens.

Essa Constituinte deve refundar o país sobre novas bases sociais e anticapitalistas, garantindo uma verdadeira independência frente ao imperialismo e rompendo com o domínio das potências estrangeiras que continuam saqueando os recursos naturais. Só um processo assim pode pôr fim à exploração do capitalismo malgaxe e abrir caminho a formas mais democráticas de organização econômica e política.

O desafio histórico está colocado: transformar a rebeldia espontânea em poder consciente. A juventude que acendeu a faísca deve avançar rumo à construção de uma organização revolucionária que oriente a luta e reivindique o socialismo em seu sentido real: a emancipação do trabalho frente ao capital, da classe trabalhadora frente ao Estado burguês e de Madagascar frente ao imperialismo. As ruas já demonstraram sua força; agora o desafio é dar-lhe direção, para que esta rebelião não termine nas mãos de generais ou burocratas, e sim nas do povo que a tornou possível.