A agressão dos Estados Unidos e de Israel contra o Irã ameaça banhar a região em sangue para submeter todos os seus povos ao imperialismo ianque e ao colonialismo sionista, assim como impedir qualquer autodeterminação independente desde abaixo. As mobilizações de massas que percorreram o solo iraniano e o Oriente Médio são a única esperança de liberdade para os povos da região, e elas também são o alvo da provocação impiedosa de Trump e Netanyahu.

Por Corrente Internacional Socialismo ou Barbárie

A agressão militar do imperialismo dos Estados Unidos e do colonialismo sionista de Israel contra o Irã é, desde o primeiro minuto, um massacre unilateral, não precedido por qualquer provocação. Muito pelo contrário: o regime de Teerã estava negociando ativamente com os Estados Unidos, fazendo uma concessão após outra para evitar a escalada rumo a uma guerra aberta, ao que Trump respondeu de forma traiçoeira — com métodos de terrorismo de Estado — assassinando impunemente as autoridades iranianas.

O ataque militar de sábado, 28 de fevereiro, foi ao mesmo tempo brutalmente sangrento e — aparentemente — eficaz. De um lado, o governo Trump e os sionistas perpetraram um massacre brutal de civis, que incluiu o bombardeio de uma escola primária de meninas que deixou ao menos uma centena de crianças mortas (neste momento, já se contabilizam mais de 500 mortos civis). De outro, um assassinato seletivo extremamente eficaz da cúpula política e militar de Teerã. Uma das vítimas do ataque foi o “líder supremo” iraniano, o aiatolá Ali Khamenei.

O ataque estadunidense-sionista pretende colocar de joelhos toda a região, eliminando totalmente qualquer margem de independência do regime mais forte do Oriente Médio que é inimigo explícito dos Estados Unidos e de Israel. Avaliam que, submetendo Teerã definitivamente, poderão fazer o que quiserem com toda a região. Não esperam nenhum protesto dos governos parceiros e cúmplices como Arábia Saudita, Emirados, Catar, Kuwait, Omã e Bahrein, que já foram atingidos pela retaliação iraniana por abrigarem bases militares norte-americanas em seu território. Neste momento, estariam se alinhando diretamente com o imperialismo norte-americano.

Mas não se trata apenas disso: apesar da demagogia trumpista, o governo ianque pretende impedir que seja a ação do povo iraniano a acertar contas com o regime dos aiatolás. É evidente que um povo bombardeado não responderá ao sujo “chamado” trumpista para se levantar contra o regime em pleno bombardeio de Teerã e de outras cidades (ao contrário, os civis estão fugindo em massa das áreas urbanas).

Por outro lado, o mapa dos aliados do Irã nos últimos anos foi se desfigurando. Sobretudo o sionismo conseguiu enfraquecer significativamente os principais aliados dos aiatolás na região. Entre eles, o grupo de resistência nacional libanês Hezbollah, que, ao ser sistematicamente pressionado e massacrado, foi se deslocando cada vez mais para posições reacionárias que não o caracterizavam em suas origens (Nasrallah, seu dirigente assassinado por Netanyahu, costumava anos atrás aparecer com camisetas do Che).

O imperialismo tradicional e o sionismo buscam ativamente escravizar todas as nações do Oriente Médio; arrancar-lhes qualquer traço de independência para consolidar sua dominação. A posição anticapitalista da esquerda revolucionária só pode ser a rejeição incondicional da agressão dos Estados Unidos e de Israel, assim como a defesa do direito do povo iraniano de se levantar contra o regime opressor. Por isso mesmo, nossa corrente não cairá na armadilha absurda do campismo, que exige que, para isso, devamos apoiar politicamente o regime dos aiatolás.

Enquanto Washington e Tel Aviv querem retirar toda possibilidade de soberania dos povos da região, nós devemos defendê-la mais radicalmente do que ninguém. A última grande expressão de soberania independente do povo iraniano foram as mobilizações de massas que enfrentaram o regime de Teerã em janeiro passado e que foram sufocadas com um banho de sangue. Não há nenhuma contradição entre uma coisa e outra; há uma linha de continuidade e coerência marxista revolucionária: a defesa da autodeterminação nacional e da autoemancipação dos povos por si mesmos.

Com a brutal repressão das mobilizações populares de dezembro e janeiro, com os massacres de milhares de pessoas, o regime teocrático não apenas demonstrou não poder trazer nada de bom às massas populares. Também deixou uma ferida de profundo trauma às vésperas da agressão, provocando desmoralização e divisão justamente antes do ataque externo.

E ainda assim, é muito evidente que o povo iraniano jamais poderá conquistar suas reivindicações democráticas, nacionais e sociais pelas mãos de Trump e Netanyahu. Seu único interesse é esmagar as nações independentes e os povos.

A agressão imperialista e colonial contra o Irã

Em 1979, uma revolução inicialmente operária e popular urbana derrubou o regime fantoche dos ianques da dinastia Pahlavi, que ostentava o título pomposo de xá, mas não era mais do que uma ditadura militar amparada pela CIA. Lamentavelmente, o tradicional clero xiita, com fortes raízes históricas no país — sobretudo entre os setores mais atrasados do campo — conseguiu tomar o poder ao colocar um setor da população contra outro (basicamente, o campo contra a cidade). Ideologicamente, conseguiram assimilar a “independência” às suas doutrinas religiosas reacionárias e toda modernização à influência estrangeira (chegando inclusive a confundir intelectuais pós-modernos como Michel Foucault).

Esmagaram os protagonistas urbanos e de esquerda da revolução de 79 (entre eles núcleos trotskistas no país), mas só puderam fazê-lo montando e desviando reacionariamente a onda revolucionária que expulsou os fantoches de Washington. Rapidamente, o novo regime reacionário teve de enfrentar uma dura prova militar: a longa guerra contra o Iraque de Saddam Hussein, então aliado dos Estados Unidos. Conseguiram sobreviver a essa prova e, desde então, Teerã é o governo mais forte do Oriente Médio em confronto com os Estados Unidos. E isso se deve ao fato de que o regime liderado por Khamenei foi o produto reacionário da revolução abortada de 79 (a revolução tem seus giros e contradições). Trump e Netanyahu querem pôr fim não apenas ao regime dos aiatolás, mas também a qualquer resto de conquista de independência daquela revolução, assim como impedir que as massas iranianas conquistem sua autodeterminação de forma independente.

O aparato ideológico que justificou a invasão do Iraque e do Afeganistão em 2003 tenta se reativar, mas enfrenta o problema de que as guerras do Iraque e do Afeganistão já aconteceram. Há uma experiência acumulada com as mentiras do imperialismo ianque. Desde o início dos anos 1990 anunciam que seria iminente que Teerã obtivesse armas nucleares. Quase quarenta anos de “iminência” é algo pouco crível. Trump, em particular, afirmou que com os ataques do ano passado haviam conseguido frear o programa nuclear iraniano. E agora diz que é necessário enfrentar uma longa guerra por esse mesmo programa que teriam detido. Trump repete o teatro de mentiras de George W. Bush após o aberrante atentado contra as Torres Gêmeas em 11 de setembro de 2001.

Quem pode acreditar nas mentiras sobre a defesa da “democracia” por parte de Trump, que sitia as cidades de seu próprio país com o ICE? Não apenas podemos olhar para a experiência real de submissão militar e colonial do Iraque e do Afeganistão, como também observar os aliados regionais do ataque ao Irã. Para começar, a principal potência do Oriente Médio alinhada aos Estados Unidos: o regime teocrático e fundamentalista da Arábia Saudita, cuja ideologia oficial ultrarreacionária wahabita é compartilhada nada menos que pela Al Qaeda, e cujo líder assassinou e esquartejou um renomado jornalista crítico de seu regime.

As comparações com Iraque e Afeganistão vinte anos atrás são valiosas porque desmascaram Trump, mas são insuficientes: vivemos em um mundo muito diferente do de 2001 e 2003. Aquelas guerras fizeram parte do projeto “neocon” do “Novo Século Americano”, uma ofensiva de um imperialismo ianque que acreditava não ter (nem tinha de fato) nenhum rival. Washington ainda queria se apresentar como a potência “democrática” defensora dos interesses de todos os povos do mundo. Essa máscara caiu há muito tempo, assim como a hegemonia incontestável dos Estados Unidos. Trump encarna um imperialismo defensivo, porém muito agressivo, que cada vez mais se apresenta menos como democrático e mais como potência com direito de submeter outros pela força. Incluindo, em primeiro lugar, a população imigrante e todos os que se solidarizam com ela nos próprios EUA.

Outra diferença fundamental são os próprios Estados Unidos: o consenso total, tanto popular quanto entre as classes dominantes, em relação às guerras de Bush não existe de modo algum nas guerras de Trump. Pelo contrário, cada passo de agressão externa do trumpismo rasga cada vez mais o tecido político interno estadunidense, com todos os seus consensos. O racismo interno e a agressão externa alimentam cada vez mais a polarização nos Estados Unidos, que tem Minneapolis como símbolo de resistência popular contra o ICE.

Por isso, a suspeita é que Trump utilize a agressão ao Irã para calar o crescente descontentamento interno com sua gestão: rejeição aos métodos de repressão de inspiração nazista contra imigrantes, descontentamento com o aumento do custo de vida, repúdio ao seu atropelo das formas democrático-burguesas mais elementares etc.

Por isso também tanto a agressão ao Irã quanto à Venezuela ocorreram de maneira traiçoeira, forçando ações de guerra sem passar pelo Congresso, como determina a Constituição dos Estados Unidos. Cada ação agressiva de Trump precisa tensionar cada vez mais o regime político interno, aprofundando a divisão.

A guerra contra o Irã, assim como a agressão à Venezuela em janeiro, faz parte da ofensiva trumpista de um imperialismo territorializado, que domina diretamente pela força e sem fachada diplomática ou democrática. Tentam submeter toda a região e também a população dentro dos próprios Estados Unidos. Há, assim, uma continuidade direta da agressão atual ao Irã com as guerras de Israel desde 2023 contra o povo palestino. Com o genocídio em Gaza e na Cisjordânia pretendem consolidar Israel como um Estado racialmente “puro” que ao mesmo tempo sirva de plataforma de guerra para os Estados Unidos em toda a região. Esmagar o Irã e o direito de autodeterminação de seu próprio povo (um país enorme, com 90 milhões de habitantes e nacionalmente diverso: persas, curdos etc.) é um dos passos mais importantes para a “paz dos cemitérios” em todo o Oriente Médio.

E, também como na Venezuela, Trump utiliza uma tática terrorista: assassinar traiçoeiramente chefes de países com os quais ainda não está oficialmente em guerra, em meio a intercâmbios diplomáticos. Não é necessário ter qualquer simpatia por Khamenei — que obviamente não temos — para perceber que isso implica o mais grosseiro terrorismo de Estado. Trump está dizendo ao mundo que pode matar qualquer líder político porque assim deseja, porque tem força para fazê-lo, sem se submeter a nenhuma regra ou lei. É terrorismo político imperial para dissuadir qualquer opositor internacional.

Em defesa da mobilização popular iraniana

Diante dessa realidade, o “campismo” de setores da esquerda e do “progressismo” é uma aberração que merece ser jogada no lixo da história. Exigem que não apoiemos as mobilizações populares contra a teocracia e que difundamos seus delírios de que seriam algo “artificial”, inventado por ianques e sionistas.

Como o imperialismo, negam aos povos qualquer direito de decidir seu próprio futuro porque as circunstâncias nunca seriam as “convenientes”. Querem que esperemos um mundo ideal em que o imperialismo (tradicional ou “revisionista” — isto é, China e Rússia) não faça uso do engano e da demagogia com os interesses e necessidades populares. Só então, quando os Estados Unidos ou a extrema direita não utilizarem politicamente o descontentamento com regimes como o de Teerã ou da Venezuela, estariam dispostos a conceder aos povos oprimidos o direito de protestar.

O coletivo Roja — composto por ativistas de esquerda de origem iraniana, curda e afegã residentes em Paris — sintetizou muito bem quando ocorreu a agressão de Estados Unidos e Israel contra o Irã em meados do ano passado:

“De fato, esses dois inimigos históricos se refletem mutuamente em termos de massacres e malícia. Não devemos equiparar esses dois regimes capitalistas quanto à sua posição na ordem mundial: a capacidade de agressão militar da República Islâmica é sem dúvida muito menor que a de Israel e seus aliados imperialistas ocidentais. No entanto, o sofrimento que ela infligiu é tão absoluto quanto a violência do fascismo sionista. Qualquer tentativa de relativizar esse sofrimento, quantitativa ou qualitativamente, é reducionista e enganosa. Esse sofrimento abrange múltiplas formas de opressão, incluindo os custos exorbitantes de seu projeto nuclear e o sequestro da dignidade humana.
Essa guerra assimétrica entre Israel e a República Islâmica é, antes de tudo, uma guerra contra nós.
É uma guerra contra o que criamos no levante ‘Jin, Jiyan, Azadi’, contra o que conquistamos e o que desponta no horizonte: um levante feminista, anticolonial e igualitário que não surgiu do poder estatal, mas teve origem nas lutas populares do Curdistão — especialmente lideradas por mulheres — e depois se espalhou por todo o território do Irã.
É, ao mesmo tempo, uma guerra contra as classes oprimidas e trabalhadoras.”

A verdade é que a vontade popular no Irã já se fez sentir nas mobilizações de massas duramente reprimidas pelo regime teocrático. Defender as rebeliões populares como a iraniana é assumir a posição exatamente oposta ao imperialismo ianque e ao sionismo: enquanto eles querem arrancar todo futuro soberano dos povos oprimidos, nós defendemos que possam tê-lo agora mesmo. Essa é a única posição coerente da esquerda revolucionária; todo o resto é reacionário.

Parem a agressão de Trump e Netanyahu contra o Irã!

O Irã tem direito a ser uma nação independente do imperialismo!

Defesa incondicional da mobilização do povo iraniano contra o regime dos aiatolás!

A autodeterminação dos povos só pode ser conquistada pelos próprios povos!