Por Marcos Pascuan

Os ingressos oficiais para a primeira fase partiam de US$ 60. No entanto, a FIFA deixou que esses valores chegassem, em média, a US$ 575. Se observarmos os preços para as fases decisivas da competição, veremos que, para partidas como as quartas de final, os ingressos revendidos oficialmente custam, em média, US$ 3.000, podendo aumentar ainda mais nas próximas horas em função da demanda.

A FIFA entrou de vez no negócio da revenda de ingressos por meio da plataforma “FIFA Resale Marketplace”, transformando um mercado que sempre foi ilegal em mais uma fonte de receita para seus cofres milionários. Dessa forma, a organização permite a revenda de ingressos por particulares em troca de uma comissão de 15%. Esse fenômeno especulativo atingiu proporções exorbitantes. Na plataforma, chegou a ser oferecido um ingresso para a partida final por US$ 2,3 milhões. A FIFA desenvolveu um sistema de precificação dinâmica, no qual os preços variam de acordo com a demanda. Assim, as seleções com maior número de torcedores ou que despertam mais interesse registram preços mais elevados. A Argentina, com a presença de Lionel Messi e dos demais campeões mundiais, desperta enorme expectativa entre torcedores de diferentes partes do mundo; por isso, assistir a uma partida da seleção argentina pode custar muito dinheiro. Neste momento, esse sistema está totalmente fora de controle.

Esses números abrem um debate sobre a acessibilidade das camadas populares a eventos dessa magnitude. Um esporte que nasceu com um forte enraizamento popular e que, em nosso país, esteve profundamente ligado ao desenvolvimento da classe trabalhadora, além de contar com uma presença marcante das diferentes correntes migratórias do início do século XX, transformou-se em uma mercadoria de luxo, praticamente inacessível para qualquer trabalhador.

A festa “global” da FIFA é mais um retrato da crescente desigualdade do capitalismo mundial neste século XXI. Assistir à Copa do Mundo tornou-se uma celebração reservada às elites, ainda mais no coração do capitalismo. A cada edição, os custos para acompanhar um Mundial tornam-se mais inacessíveis. Nesta edição, os ingressos custam o dobro do que no torneio realizado no Catar. O capitalismo elimina os últimos vestígios do caráter popular do esporte e avança em sua lógica de mercantilização, transformando um evento de massas em mais um espetáculo corporativo de acesso exclusivo.

Estádios repletos de cartazes publicitários, de pausas sem sentido com uma invasão visual de marcas globais, com comida ultraprocessada em infinitos pontos de venda, com áreas VIP destinadas a personalidades do mundo do entretenimento e dos negócios, com campanhas publicitárias milionárias e com o futebol como pretexto para o lucro capitalista obsceno.

O negócio, porém, não começa nem termina ao atravessar os portões de entrada dos estádios. As empresas aéreas e as plataformas de hospedagem aumentaram enormemente suas receitas devido às grandes distâncias que os torcedores precisam percorrer para acompanhar as três sedes da competição. Os voos domésticos dentro dos EUA tiveram aumentos entre 50% e 100% em comparação com o ano passado, enquanto os valores dos hotéis e dos aluguéis temporários subiram, em média, 300%. Acompanhar uma seleção tornou-se um passeio exclusivo para os ricos.

Enquanto dentro se comemora o recorde de lucros corporativos, do lado de fora trabalhadores são submetidos à precarização, as ruas são militarizadas e imigrantes são perseguidos e expulsos. Dessa forma, diante de nossos olhos, apresentam-se duas imagens opostas. Uma, a das arquibancadas, onde o 1% mais rico circula sem fronteiras pelos mesmos espaços exclusivos; e outra, a da classe trabalhadora mundial assistindo ao espetáculo atrás de uma tela, pagando por plataformas de streaming também caras.

Essa desigualdade torna-se ainda mais evidente quando se faz uma radiografia de como são organizadas as tarefas nas próprias sedes da Copa do Mundo. O evento é sustentado pelas costas de trabalhadores migrantes e setores populares que limpam os banheiros, cozinham e garantem a logística por salários miseráveis. Eles trabalham sob a ameaça constante da perseguição migratória e do assédio policial. A contradição é obscena: enquanto eles colocam seus próprios corpos em risco, com medo de serem deportados ou perseguidos pelas forças do ICE, os bilhões de dólares gerados pelo torneio seguem sem escalas para as contas bancárias das multinacionais e para os escritórios da FIFA na Suíça.

O sistema capitalista pretende reduzir os jogadores de futebol a meras mercadorias de entretenimento e consumo e transforma os eventos esportivos de alcance mundial em negócios lucrativos para as grandes marcas globais, os governos dos países centrais e os organismos internacionais ligados ao esporte. Assim, a FIFA de Infantino extrai todo o lucro possível da Copa do Mundo para explorar cada vez mais o evento e encher seus cofres, com uma projeção de ganhos para esta competição que pode superar os 13 bilhões de dólares anteriormente estimados

Os, anticapitalistas, afirmamos que é preciso recuperar o futebol como uma prática na qual os jogadores não sejam mercadorias vendidas ao melhor comprador, mas sejam considerados cidadãos e os protagonistas no momento em que a bola começa a rolar; e não uma desculpa para que marcas internacionalmente reconhecidas encham seus bolsos de maneira obscena e descarada, ao mesmo tempo em que exploram trabalhadores e trabalhadoras em diferentes partes do planeta.

Uma prática que, ao mesmo tempo, recupere as identidades coletivas dos setores populares, que volte a ser um espaço de integração social e de diálogo entre diferentes expressões culturais. Que volte a ser um ambiente de desfrute coletivo para as grandes massas da sociedade, no qual todas as pessoas tenham acesso ao prazer proporcionado pelo esporte mais popular do mundo.