No dia 28 de junho celebra-se em todo o mundo o Dia Internacional do Orgulho LGBTIQNB+, no qual se comemora a “revolta de Stonewall”, ocorrida nos Estados Unidos em junho de 1969, durante a ascensão da luta de classes das décadas de 1960 e 1970, e que representou “um antes e um depois” na história do movimento pela diversidade sexual e de gênero. Para compreender o que aconteceu em Stonewall há 57 anos e o impacto posterior que esses acontecimentos tiveram, é necessário retomar brevemente o desenvolvimento da “questão LGBTQIA+” e do movimento até então, além de recuperar o contexto em que ocorreu a revolta. Procuraremos resgatar a contribuição de Stonewall, com seus alcances e limites, para pensar os desafios atuais a partir de uma perspectiva de luta antipatriarcal, anticapitalista e socialista.
Por CÉSAR ROJAS ESQUIVEL – Ativista LGBTIQNB+, militante do Nuevo MAS e Las Rojas
A revolta: “sair do armário, tomar as ruas”
Os acontecimentos daqueles dias de 1969 foram amplamente analisados pela historiografia, documentados e até mesmo adaptados para a ficção por inúmeros filmes e documentários, romances, estudos históricos, testemunhos de protagonistas e participantes daquele momento. Muitos desses trabalhos nos permitiram resgatar, por exemplo, o papel desempenhado naqueles dias por ativistas negras trans e travestis migrantes, como Marsha P. Johnson e Sylvia Rivera, assim como conhecer as conexões com outros movimentos de luta, como o movimento negro, o feminismo, os trabalhadores, os movimentos anticoloniais etc. Nesse sentido, são particularmente relevantes os trabalhos de Martin Duberman, Edmund White e da historiadora trans Susan Stryker, entre outros.

A revolta de Stonewall recebeu esse nome por causa do bar nova-iorquino “Stonewall”, frequentado por gays, lésbicas, pessoas trans e drag queens. Ali, na noite de 28 de junho de 1969, a polícia invadiu o local tentando realizar mais uma de suas habituais batidas policiais, mas encontrou os ânimos exaltados e a resistência das pessoas presentes, o que deu origem a um confronto generalizado que obrigou os policiais a recuar.
A revolta e os confrontos se prolongaram por vários dias, despertando a solidariedade de centenas de pessoas que chegavam ao bairro, numa verdadeira ocupação da região.
Depois desses acontecimentos, começaram a surgir centenas de organizações em todos os Estados Unidos, com um perfil mais combativo, difundindo mundialmente a ideia de que a comunidade LGBTQIA+ poderia se organizar em “Frentes de Libertação” (Gay Liberation Front), inspirando-se nos movimentos já existentes que lutavam, a partir da periferia, contra os países imperialistas, como o caso da Frente de Libertação da Argélia. Foi assim que surgiram, por exemplo, o Gay Liberation Front, na Inglaterra, e o FHAR (Frente Homossexual de Ação Revolucionária), na França.
Na Argentina, dois anos mais tarde, a iniciativa adotaria o nome de FLH – Frente de Libertação Homossexual. Independentemente do rumo que essas organizações tomaram posteriormente, o que se consolidou e permanece até hoje é que, a partir de 1970, passou-se a celebrar, com marchas e manifestações de rua, todo dia 28 de junho, o “Dia Internacional do Orgulho LGBTQIA+”, sob a histórica palavra de ordem de Stonewall: “Sair do armário para tomar as ruas!”.
Stonewall não foi um fato isolado, resultado apenas da exaustão da comunidade LGBTQIA+ diante do assédio e da repressão policial. A revolta se desenvolveu em sintonia com o movimento contra a Guerra do Vietnã, um ano após o Maio Francês de 1968, com a ascensão das lutas feministas e do movimento negro, além dos processos operários insurrecionais ou semi-insurrecionais na América Latina, como o Cordobazo e o Rosariazo (maio de 1969).
Esse “espírito da época” é retratado de forma muito expressiva por um dos protagonistas daquele momento, Edmund White (1940-2025), escritor, jornalista e ativista norte-americano desde os acontecimentos de Stonewall, que também atravessou a epidemia de AIDS das décadas de 1980 e 1990. White afirma (num texto situado entre o testemunho e a etnografia da cultura gay) sobre aqueles anos:
“Este livro mostra um mundo desaparecido, preservado como numa cápsula do tempo, embora aquele mundo estivesse cheio de projetos, impregnado pelo que imaginava ser um futuro utópico. Naquela época, a maioria dos gays que eram visíveis e se manifestavam eram de esquerda ou, no mínimo, progressistas. Os gays burgueses sabiam perfeitamente que, se saíssem do armário, arriscariam suas posições. A maior parte das lideranças da libertação gay havia participado ativamente de outras causas progressistas, como o movimento pelos direitos civis e o movimento contra a guerra. Os primeiros anos do movimento gay foram marcados por ocupações, ações diretas, manifestos, grupos de conscientização e comunas, todas instituições e práticas herdadas de outros movimentos, como o hippie e o maoísta. Havíamos ouvido a retórica do feminismo e dos Panteras Negras; de fato, em Stonewall, os gays chamavam a si mesmos de ‘Panteras Cor-de-Rosa’, e o novo slogan ‘Ser gay é bom’ era obviamente um eco de ‘Negro é lindo'”.
(WHITE, Edmund. Estados do desejo, p. 13. Editora Blatt & Ríos, 2019)
Como fica evidente nessa rica citação de White, foram enormes as conexões e influências mútuas que se desenvolveram entre as lutas pela diversidade sexual e de gênero e outras lutas sociais e políticas, assim como as tensões que surgiam entre elas em razão dos intensos debates sobre estratégias e métodos travados no interior das organizações, na construção de alianças e de pontos de unidade para a luta. Apenas como exemplo, são muito interessantes os debates que ocorreram no interior dos Panteras Negras sobre a inclusão de homossexuais em sua organização, bem como a incorporação de suas reivindicações à plataforma do movimento.

A contribuição de Stonewall e a trajetória anterior do movimento
Por sua vez, desde o surgimento da chamada “questão sexual”, na segunda metade do século XIX, o movimento inicial da diversidade sexual e de gênero percorreu um longo caminho na luta pela conquista de seus direitos, recorrendo a diferentes estratégias, como as políticas de visibilidade, reconhecimento e legitimação, seja por meio da ciência (elaborando teorias que fundamentassem suas reivindicações a partir da biologia), seja por meio da cultura ou da criação de “subculturas”, construindo genealogias para demonstrar que nossos corpos, desejos e identidades de gênero diversas sempre estiveram presentes ao longo da história. Foi o caso de alguns pioneiros, como Magnus Hirschfeld (1868-1935), Karl Ulrichs (1825-1895) e Karl M. Kertbeny (1824-1882).
Paralelamente, continuou a luta pelos direitos democráticos da diversidade sexual e de gênero e contra as legislações estatais que reprimiam e criminalizavam identidades, expressões de gênero diversas e suas práticas. Essas lutas foram acompanhadas por debates e enfrentamentos contra as instituições religiosas obscurantistas, a psiquiatria e o poder médico heteronormativo.
Também houve momentos em que avanços foram conquistados como subproduto de processos revolucionários. Um exemplo foi a Rússia de 1917, onde os bolcheviques, após a vitória da insurreição de Outubro e a tomada do poder, descriminalizaram completamente a homossexualidade.
Se retomarmos essas experiências históricas, veremos que muitos desses debates ganharam projeção pública, foram objeto de discussões parlamentares e eventualmente deram origem a ações de rua, entre outras iniciativas. No entanto, a novidade trazida por Stonewall no final dos anos 1960 foi que essas reivindicações passaram a estar ligadas a transformações sociais radicais e a questionamentos ao capitalismo imperialista, impulsionando a diversidade sexual e de gênero a se organizar como sujeito político coletivo, utilizando os métodos da mobilização de massas e da luta nas ruas, sob a palavra de ordem “sair do armário para tomar as ruas”.
Ou seja, o movimento leva adiante sua histórica bandeira da visibilidade (sair do armário), mas o faz de forma massiva por meio de um método próprio da classe trabalhadora (a luta nas ruas), conquistando reconhecimento como movimento social e político, tal como o conhecemos hoje.
Não é que antes de Stonewall não existissem organizações nem corajosos enfrentamentos contra a polícia. O que acontece é que as circunstâncias específicas da luta de classes colocaram Stonewall no centro dos acontecimentos e permitiram um salto qualitativo capaz de irradiar sua influência internacionalmente. Além disso, a revolta ocorreu na principal cidade do imperialismo norte-americano, que naquele momento estava profundamente questionado pela Guerra do Vietnã e pela crise econômica. Para dizer de maneira clássica, mas nem por isso menos verdadeira, Stonewall representou, mais uma vez, uma combinação singular de fatores objetivos e subjetivos.
Com o acúmulo das experiências anteriores e esse novo contexto, a causa do Orgulho foi se consolidando como toda uma tradição de luta e resistência ao longo dos séculos XX e XXI. Teve de atravessar as ditaduras da periferia capitalista, a ofensiva neoliberal dos anos 1980 e a epidemia de HIV/Aids, que dizimou parte da comunidade gay e de sua vanguarda.
Muitas dessas experiências de resistência e solidariedade continuaram atravessadas pelos mesmos debates entre “reforma ou revolução” e se desenvolveram sob as pressões da “independência política” ou da “assimilação” ao Estado burguês, bem como da cooptação e mercantilização promovidas pelo chamado “mercado rosa”, que passou a interpelar a comunidade LGBTQIA+ apenas na condição de consumidora. Apesar dessas contradições, o século XXI foi alcançado com importantes conquistas em alguns países, como o casamento igualitário, as leis de identidade de gênero, a interrupção voluntária da gravidez para mulheres e pessoas gestantes, as leis de educação sexual, entre outras.
O Orgulho como tradição de luta e resistência e seus desafios atuais
Este novo Dia Internacional do Orgulho encontra o movimento e sua causa em uma situação inédita, em um sentido progressivo. A primeira coisa que observamos é que, atualmente, as questões da sexualidade e do gênero fazem parte da agenda de massas em escala internacional; nunca antes houve uma sensibilidade social tão ampla em relação a esses temas.
Esse fato, fruto da luta e do espaço conquistado ao longo dos anos, convive com o polo da “reação patriarcal”, representada por governos como os de Trump, Milei, Orbán, Meloni, entre outros. O mais notável é a vitalidade e a capacidade de resposta do movimento LGBT diante de cada ataque, como vimos com o surgimento do movimento “Vidas Trans Importam” (inspirado no Black Lives Matter), em resistência às políticas anti-LGBT de Trump, ou com a enorme mobilização e solidariedade provocadas pela proibição da Marcha do Orgulho pelo governo do então presidente húngaro Viktor Orbán, em 2025, o que deu origem à maior Marcha do Orgulho da história de Budapeste, com 200 mil participantes.
Na Argentina, por sua vez, tivemos a resposta massiva às declarações LGBTfóbicas de Milei no Fórum de Davos, que provocaram a realização da “1ª Marcha do Orgulho Antifascista e Antirracista”, em 1º de fevereiro de 2025, reunindo mais de 1,5 milhão de pessoas em todo o país. A mobilização também despertou ampla solidariedade internacional, levando diversos sindicatos a convocarem participação na marcha e conseguindo, inclusive, o apoio ativo de setores da Igreja Católica.
Hoje vemos que os mesmos capitalistas que estão levando o planeta ao colapso ecológico, que continuam promovendo guerras e o genocídio em Gaza e que pretendem escravizar os trabalhadores aprofundando a superexploração do trabalho e atacando direitos democráticos, sociais, à saúde e à moradia, são os mesmos capitalistas inimigos das pessoas LGBTQIA+ e dos direitos conquistados por elas.
Para enfrentar os governos capitalistas, que querem transformar o mundo em um lugar inviável para se viver (exceto para um punhado de ricos genocidas), hoje, mais do que nunca, é necessário erguer bem alto as bandeiras do orgulho anticapitalista, antirracista, feminista e socialista que já estavam presentes em Stonewall.
Para enfrentar esse desafio histórico, que envolve debates sobre estratégia e direção política, o movimento da diversidade sexual e de gênero conta não apenas com as lições de Stonewall, mas também com a tradição de luta e resistência representada pelo Orgulho. Um Orgulho que faz da vivência livre da sexualidade, do gênero e da afetividade entre as pessoas uma parte fundamental das lutas pela emancipação humana.










