O Irã é uma subpotência regional que, como resultado da revolução de 1979, conquistou sua independência do imperialismo tradicional. No contexto da guerra atual, defendemos criticamente o Irã como nação, mas não apoiamos politicamente o regime dos aiatolás, que caracterizamos como uma repugnante teocracia burguesa. Abaixo, desenvolvemos os elementos políticos e históricos que sustentam essa caracterização e nossa posição. 

Por Victor Artavia 

Nas primeiras horas de 13 de junho, Israel realizou um ataque surpresa ao Irã, dando início à “Operação Leão Ascendente”, que visa eliminar o arsenal militar e as capacidades nucleares do Irã. 

No entanto, o governo fascista de Netanyahu sugeriu que sua verdadeira intenção é forçar a mudança de regime, ou seja, subjugar completamente a nação persa por meio de uma guerra total. Trump, por sua vez, começou a flertar com essa ideia e está exigindo uma “rendição total” do governo dos aiatolás, embora ainda não tenha definido se os Estados Unidos entrarão na guerra (algo que pode decidir nos próximos dias). 

Irã, 1979: Uma garota segura os livros de Trotsky “Jovem Lenin” e “História da Revolução Russa” em uma manifestação durante a revolução. 

 Em um artigo anterior, adotamos uma posição crítica a favor do Irã no contexto da guerra, pois o consideramos um Estado independente do imperialismo tradicional (veja Notas e perspectivas sobre a guerra entre Irã e Israel). 

 Por que apoiamos criticamente o Irã nessa guerra? 

No Brasil agora reina um regime semifascista que todo revolucionário só pode ver com ódio. Suponhamos, no entanto, que amanhã a Inglaterra entre em um conflito militar com o Brasil…. Neste caso, estarei do lado do Brasil ‘fascista’ contra a Grã-Bretanha ‘democrática’. Por quê? Porque o conflito entre eles não será uma questão de democracia ou fascismo… […] De fato, é preciso ter a cabeça vazia para reduzir antagonismos mundiais e conflitos militares à luta entre fascismo e democracia. Por trás de todas as máscaras, é preciso saber distinguir exploradores, escravizadores e saqueadores! 

Leon Trotsky, “Entrevista com Mateo Fossa”, setembro de 1938

Tanto o Irã quanto Israel são estados burgueses com regimes abertamente reacionários. Mas isso é uma equalização formal e unilateral que não é suficiente para formular uma posição socialista revolucionária, para a qual é necessário contemplar as profundas diferenças qualitativas entre os dois. 

Israel foi criado/imposto como parte de um acordo interimperialista no período pós-Segunda Guerra Mundial (com o vergonhoso apoio da URSS!, uma das maiores traições históricas do stalinismo), para ser um gendarme armado dos Estados Unidos no Oriente Médio. 

É um estado colonial e racista fundado a partir do roubo da maior parte do território pertencente à Palestina histórica, cuja população original foi deslocada na “Nakba” e, desde então, tem sido submetida a um regime brutal de apartheid. 

Como se isso não bastasse, o governo fascista de Netanyahu está atualmente realizando um genocídio na Faixa de Gaza que, no momento em que escrevemos este texto, conta com o assassinato de 60 mil habitantes de Gaza. 

O Irã, por sua vez, é uma subpotência regional que, como resultado da revolução de 1979, conquistou sua independência do imperialismo tradicional, embora tenha adotado um regime autoritário, teocrático e ultraconservador, o que não constitui uma alternativa emancipatória para os setores explorados e oprimidos. 

Diante do exposto, defendemos criticamente o Irã como nação, mas não apoiamos politicamente o regime dos aiatolás, que caracterizamos como uma repulsiva teocracia burguesa. Além disso, somos opositores do governo iraniano e somos a favor de sua derrubada revolucionária pelas massas, sob a perspectiva de refundar o país a partir dos interesses e demandas dos setores explorados e oprimidos. 

Mas nos opomos à sua substituição por meio da intervenção militar do sionismo e do imperialismo dos EUA, o que só pode resultar na imposição de outro regime opressor e servil de imperialismo. 

Em resumo, nossa tática é apoiar o Irã em um nível estritamente militar, mas sem abandonar nossas bandeiras de independência de classe e de rejeição de todas as formas de opressão social e cultural. 

A dinastia Pahlavi e a submissão ao imperialismo 

Durante grande parte do século XX, o Irã foi governado pela dinastia Pakhlevi (1925-1979). Em certa medida, essa monarquia surgiu como consequência e resposta à Revolução Russa, cuja onda de choque foi sentida por toda a Eurásia, da Europa Central à China. 

O Irã não foi exceção. A partir do final do século XIX, milhares de trabalhadores iranianos migraram para Baku, Azerbaijão, que já fazia parte do império czarista e era um importante centro petrolífero. Por essa razão, muitos trabalhadores persas entraram em contato com as ideias da Social-Democracia Russa. 

De fato, Baku foi o epicentro de uma grande greve geral em 1904, que foi o prelúdio para a primeira revolução russa que ocorreria no ano seguinte. Isso teve fortes repercussões em Teerã, pois provocou uma onda de protestos revolucionários exigindo reformas constitucionais da dinastia Kayar, que na época governava o país. 

Segundo Shiva Balaghi, historiadora cultural iraniana, a chamada “Revolução Constitucional” durou de 1905 a 1911, ano em que tropas czaristas invadiram o país e reprimiram movimentos insurgentes. Mas, após a queda do czar em 1917, a dinastia Kayar perdeu seu principal apoio externo e rapidamente sucumbiu. 

Em 1920, no contexto da Guerra Civil Russa, o Exército Vermelho apoiou a formação da efêmera República Socialista Soviética Persa, estabelecida em Gilan, no Mar Cáspio, uma região que faz fronteira com o Azerbaijão. Os soviéticos apoiaram o exército guerrilheiro nacionalista Jangal (ou “movimento da selva”), liderado por Mirza Kuchak Khan, mas não demorou para que surgissem divergências entre os dois lados, já que os nacionalistas iranianos se recusaram a tomar medidas mais radicais, como a aprovação de uma reforma agrária contra o poder dos latifundiários. 

Nesse contexto, em 1921 ocorreu o golpe militar liderado por Reza Khan, que mais tarde se coroou xá e inaugurou a dinastia Pahlavi. 

Essa monarquia se caracterizou por modernizar o país em vários aspectos. Segundo o historiador Luis E. Bosemberg, essa monarquia aspirava transformar o Irã em uma potência, pelo qual apelava a um discurso nacionalista, resgatava antigos monumentos e descobria textos históricos da antiga Pérsia. 

Na ausência de uma burguesia interna forte, a monarquia iraniana desenvolveu um capitalismo de Estado, que se tornou o principal “agente industrializador” do país. No início dos anos 1950, o primeiro-ministro Mohammad Mosaddegh nacionalizou a indústria do petróleo que, até então, estava sob controle de empresas britânicas. 

 Em resposta, o imperialismo britânico e a CIA organizaram um golpe de Estado que depôs Mosaddehg em 1953 e favoreceu uma maior concentração de poder nas mãos do Xá, que conseguiu retornar ao país após uma breve fuga para Roma devido às suas disputas com o primeiro-ministro deposto. 

Por um tempo, essa fórmula foi bem-sucedida, pois o país obteve enormes retornos das receitas do petróleo, que passaram de 2 bilhões de dólares em 1972 para 20 bilhões em 1977. Da mesma forma, o crescimento econômico foi impressionante entre 1966 e 1977, com uma média de 9,6% ao ano (o dobro com relação aos países do terceiro mundo). 

Parte desses recursos foi investida no desenvolvimento da indústria de consumo, construção, comércio e imóveis. O mercado interno cresceu, favorecendo o surgimento de uma nova burguesia e classes médias urbanas. 

Mas, contraditóriamente, a enorme riqueza petrolífera tornou o país uma economia dependente do mercado mundial, especialmente dos Estados Unidos, uma potência que se tornou seu principal mercado e, consequentemente, ditou sua política externa. 

Dessa forma, o Irã tornou-se um gendarme armado do imperialismo estadunidense no Oriente Médio e, desde 1953, tornou-se um aliado estratégico de Israel na região. 

Entre 1963 e até sua queda em 1979, o xá Mohammad Reza Shah Pahlavi promoveu um programa agressivo de modernização que ficou conhecido como a “Revolução Branca.” Seu objetivo era derrubar a influência dos proprietários de terras e urbanizar o país. Embora economicamente bem-sucedido, aprofundou a desigualdade social e concentrou os lucros no grupo de capitalistas próximos ao governo. 

Foi uma modernização desde cima e contra os setores explorados. Por exemplo, o Xá  tentou suprimir os bazares, espaços tradicionais que eram o epicentro do comércio local e que vendiam a crédito para os vizinhos que conheciam. Mas o governo os via como um “obstáculo” à modernização econômica capitalista, apesar de sua importância para amplos setores da população. 

Por outro lado, no final dos anos 1970 o modelo econômico começou a mostrar sinais de deterioração, principalmente porque a bonança do petróleo de antigamente encolheu. O bombeamento de petrodólares, além disso, causou uma alta inflação que consumiu o poder de compra da classe operária iraniana e provocou uma onda de greves ao longo de 1978, as quais foram o prelúdio da revolução. 

A Revolução iraniana e a classe operária 

Um novo horizonte de emancipação dos trabalhadores havia se aberto. Como um metalúrgico citou em um artigo sobre o assunto: “Após a revolução, os trabalhadores perceberam que o país lhes pertencia.” 

Uma fábrica de armas foi invadida e mais de cinquenta mil armas expropriadas e distribuídas aos insurgentes. 

Arya Zahedi. “A Revolução Iraniana no Crepúsculo do Conselho dos Trabalhadores” 

A revolução de 1979 destronou o Xá e mudou a relação do país com o imperialismo dos EUA. Foi um processo de massas que reuniu nas ruas todos os setores que repudiavam a monarquia por sua corrupção, pelas características autoritárias com que reprimia a oposição política e pela queda do padrão de vida das massas. 

Organizações sindicais, partidos de esquerda e laicos, mulheres e estudantes, foram alguns dos setores sociais e políticos que lideraram a luta contra a dinastia Pahlavi. 

Segundo o historiador Osvaldo Coggiola, a revolução começou como um vasto processo democrático dirigido pelo clero islâmico tradicional, já que esse setor conservador entrou em conflito com as medidas modernizadoras implementadas pelo Xá e se opunha à interferência dos EUA no país. 

Apesar disso, em meio aos protestos contra a sangrenta monarquia, algo inesperado aconteceu: a crescente afirmação do proletariado como sujeito político dentro do movimento democrático e anti-imperialista. 

A classe operária iraniana entrou em cena com seus próprios métodos de luta (como greves e ocupações de fábricas) e, no decorrer da luta contra o regime, fortaleceu seus elementos de independência ante as direções burguesas e do clero xiita. De fato, de setembro de 1978 a fevereiro de 1979, se conformaram um grande número de conselhos operários independentes, chamados de “shoras” na língua farsi. 

A greve geral de 1978 paralisou todo o país, até mesmo as refinarias de petróleo – o pilar da economia iraniana – pararam de operar. A partir desse momento, o regime começou a vacilar e o país tornou-se ingovernável. O Xá tentou acalmar os ânimos concedendo concessões cada vez maiores, mas já era tarde demais. 

Em fevereiro de 1979, o regime finalmente colapsou. No dia 9 daquele mês, um grupo de técnicos próximos a Khomeini amotinou-se na principal base aérea nos arredores da capital do país. O movimento foi sangrentamente reprimido pelos “Imortais”, as tropas de elite que ainda eram leais ao Xá. 

Essa foi a faísca que acendeu o pavio e desencadeou os dias revolucionários de 10, 11 e 12 de fevereiro, quando o movimento de massas se levantou em armas e destruiu o exército imperial. 

O sábado, 10 de fevereiro, foi particularmente sangrento em Teerã. Naquele dia, houve assaltos a quartéis e delegacias de polícia. Barreiras foram erguidas e combates ocorreram por toda a cidade, além de tanques e patrulhas sendo incendiados por toda parte. As fábricas de armas foram tomadas e milhares de rifles foram distribuídos entre a população. As prisões, repletas de opositores do regime, foram libertadas pela população insurgente. No total, foram contabilizados 200 mortos e 800 feridos, mas o sacrifício valeu a pena, pois no dia seguinte as emissoras de televisão e rádio declararam a vitória da revolução. 

A dinastia Pahlavi, que governou o país de forma despótica por mais de cinco décadas, chegou ao fim. Mais importante ainda, em sua queda, a classe operária desempenhou um papel de liderança e começou a tomar consciência de seu peso social e político. 

A queda do regime não encerrou a revolução, mas deu lugar a um processo de maior radicalização. As shoras se espalharam por todo o país e, após a fuga de proprietários e gerentes próximos ao Xá, foram vitais para retomar a operação das fábricas abandonadas sob controle dos trabalhadores. 

Dessa forma, foi estabelecido um poder duplo entre o governo provisório que surgiu após a queda do Xá e a sociedade organizada desde baixo durante a revolução. Além dos shoras, também foram formados komitehs (grupos armados de segurança) para proteger os bairros e manter os capangas do antigo regime afastados. Além disso, surgiu o shora-ye mahallat, onde foram agrupados os desempregados. 

Isso confirma que a revolução iraniana apresentou uma tendência operária por um curto período, que ameaçou radicalizar o processo em um sentido anticapitalistaComo aponta Arya Zahedipesquisadora e professor da New School for Social Research, os conselhos operários iranianos se assemelhavam aos das revoluções russa e alemã do início do século XX. Isso explica por que foram atacados pelas forças contrarrevolucionárias. 

A contrarrevolução khomeinista 

O regime entendeu que uma pessoa que saía de casa se perguntando: “Minhas calças são compridas o suficiente? Estou usando o véu? Minha maquiagem está à mostra? Vou ser chicoteado?” já não se perguntava: “Onde está minha liberdade de pensamento? Onde está minha liberdade de expressão? Minha vida é sustentável? O que acontece nas prisões políticas?” 

Marjane Satrapi, Persépolis 

Este epígrafe é retirado da graphic novel Persepolisonde seu jovem protagonista relata sua experiência de vida na sociedade iraniana antes, durante e depois da revolução. A obra reflete as tendências emancipadoras que a revolução apresentou em seus primórdios, bem como seu recuo pelas forças lideradas pelos fundamentalistas islâmicos. 

Os aiatolás travaram uma contrarevolução teocrático-burguesa, por meio da perseguição, repressão e esmagamento do movimento operário e dos partidos de esquerda. Seu líder era o clérigo radical Khomeini que, após seu retorno do exílio na França, decidiu formar um governo de transição e pediu calma entre as massas insurrectas. 

Seus apelos à cautela não tiveram muito efeito, pois a radicalização política tinha raízes profundas entre os explorados e oprimidos. Em vez de um ataque frontal, Khomeini recorreu a uma tática mais sutil: islamizou os conselhos operários, despojou-os de seus atributos de controle sobre a produção e reduziu seu escopo de ação ao nível salarial (uma demonstração adicional de que revolução e contrarrevolução não são processos simétricos). 

Essa operação foi favorecida pela ausência de uma estratégia de poder unitário dos shorasOs conselhos foram vistos como grupos de pressão sobre o Estado e não como possíveis espaços para promover o poder operário. A autogestão da produção não é suficiente para substituir a preponderância do Estado como entidade totalizadora das questões políticas. 

Para piorar, as correntes de esquerda iranianas não fizeram muito para enfrentar a degradação dos conselhos operários promovida por Khomeini. Décadas de deformação stalinista causaram falta de perspectiva revolucionária. 

O principal partido de esquerda, o Tudeh, defendia uma estratégia etapista da revolução, segundo a qual primeiro havia que se alcançar a libertação nacional do país e, depois disso, a lutar pela revolução social.  Em uma demonstração de total deslocamento político, esse partido chegou a postular que o clero islamista radical era uma nova burguesia progressista que promoveria a modernização do país e, assim, prepararia as condições materiais para alcançar o socialismo. 

Em contraste com esses delírios stalinistas, a contrarrevolução islâmica era muito mais coerente. Promoveu a reconstrução do poder estatal, para a qual se apoiou centralmente em dois instrumentos militares. Primeiro, as milícias islamistas receberam enorme poder dentro do novo Estado; mais tarde, foram renomeados para Guardas Revolucionários (ou Guarda Revolucionária). 

Segundo, o regime utilizou os “Comitês Khomeinistas” (também chamados de Comitês Khomeini), cujo objetivo central era competir com os shoras independentes nos principais centros industriais, mas depois foram usados para atacar militarmente esses espaços de auto-organização operária (segundo Coggiola, apesar da repressão, muitos desses comitês operários permaneceram de pé até 1981). 

Por meio dessa campanha de repressão contra forças de esquerda e o movimento operário, os islamistas se impuseram como uma força hegemônica e consolidaram seu projeto por uma república islâmica. 

O novo poder era apoiado centralmente por um parlamento composto pelo clero islâmico, camponeses e pequenos comerciantes. Mas essa instituição representativa, eleita por voto popular, estava subordinada aos órgãos não eleitos do clero xiita que, a partir de então, começaram a arbitrar a vida política, econômica, social e cultural do país. Em outras palavras, foi configurado um regime de natureza bonapartista-teocrática (Coggiola dixit). 

Além de tudo isso, os aiatolás se beneficiavam de elementos circunstanciais ou externos ao seu controle. Um deles foi a crise dos reféns da Embaixada dos Estados Unidos, que lhes permitiu apropriar-se de um perfil anti-imperialista que usaram astutamente para bloquear as tendências de controle operário dos shoras. 

Além disso, o início da guerra com o Iraque facilitou o estabelecimento da lei marcial e de uma economia de guerra austera, um contexto onde qualquer dissidência ou protesto operário era automaticamente rotulado como “contrarrevolucionário”. 

Junto com isso, o regime contrarrevolucionário cingiu-se às mulheres. A disputa começou em 1979, quando o aiatolá Khomeini decretou que elas deveriam usar o véu em seu local de trabalho. O clérigo xiita fez um discurso para milhares de seus seguidores na cidade de Qom, onde afirmou que mulheres que não usavam véu estavam nuas. 

Além do conteúdo ultra-reacionário, o governo emitiu a ordem executiva um dia antes da comemoração do Dia Internacional da Mulher. Uma provocação que desencadeou a fúria do movimento das mulheres, especialmente nas cidades, caracterizadas por um estilo de vida cosmopolita. 

Mais de dez mil mulheres foram às ruas de Teerã, capital iraniana, em 8 de março de 1979. O ponto de encontro era a Faculdade de Direito, já que a manifestação foi do Primeiro-Ministro gritando que “não fizemos uma revolução para regredir”. 

Os protestos continuaram por seis dias e conseguiram fazer o governo de Khomeini recuar na medida, ao menos temporariamente. Quando a contrarrevolução conseguiu eliminar os setores laicos e de esquerda, retomou seus ataques contra as mulheres e reimpôs o uso do véu. Em 1980, as mulheres foram proibidas de entrar em prédios públicos sem véu e, no ano seguinte, a medida foi estendida a todas as mulheres a partir dos nove anos de idade. 

Uma economia debilitada e desigual 

Diante da fuga massiva de empresários e quadros técnico-administrativos ligados ao antigo regime, da crise econômica iniciada pela guerra com o Iraque (1980-1988) e do distanciamento com os Estados Unidos, a república islâmica realizou uma onda de nacionalizações e colocou empresas sob o controle de fundações islâmicas. Cerca de 85% das principais empresas do país estavam sob controle estatal. 

Com a queda da URSS, houve um enfraquecimento dos setores mais estatistas do regime dos aiatolás. Além disso, a crise econômica que atingiu o país nos anos 1990 facilitou o avanço de reformistas neoliberais que promoveram medidas de liberalização econômica, ou seja, incentivando a articulação com o mercado internacional e o desenvolvimento do setor privado. 

O giro reformista também se refletiu no nível político, especialmente com o estabelecimento e continuidade de vários governos moderados, como as administrações de Rafsanjani, Khatami e Rouhani, que foram caracterizadas como pró-Ocidente por seu interesse em aprofundar os laços econômicos com a Europa e não se alinharem com a Rússia ou a China. 

Mas a situação política mudou com o desenvolvimento do programa nuclear iraniano, que foi atacado pelos Estados Unidos e fomentou a polarização contra o “Ocidente”, uma retórica que favorecia a ascensão dos setores mais radicais – também chamados de “linha-dura” – em detrimento dos reformistas. Desde então, os linha-dura têm sido hegemônicos dentro do Irã, como demonstrado pelos resultados das últimas eleições parlamentares em março, onde conseguiram eleger 200 parlamentares de um total de 245. 

Segundo um estudo do economista iraniano Djavad Salehi-Isfahani, após os Estados Unidos saírem do acordo nuclear e restabelecerem as sanções, o regime começou a falar sobre uma “economia de resistência”, cujo eixo é ligar o país à Organização de Cooperação de Xangai (OCS) ou aos BRICS. No entanto, os iranianos enfrentam muitos problemas para negociar internacionalmente devido às restrições bancárias impostas a eles, além do fato de não conseguirem promover a diversificação da produção e exportação. O país depende das exportações de petróleo, principalmente para a China, a cujo mercado se destina 90% dos hidrocarbonetos do Irã. 

Diante do exposto, o Irã combina muitas forças e fraquezas. Por um lado, é uma potência energética e possui uma forte tradição cultural na região; também tem um passado imperial que alimenta seu orgulho nacional e aspirações hegemônicas (além disso, nunca foi uma colônia formal de qualquer potência europeia). Por outro lado, possui muitas fraquezas estruturais, especialmente em sua economia. 

Para ilustrar o que foi dito acima, vamos analisar algumas comparações entre Irã e Israel. Por exemplo, o país persa tem uma população de 87 milhões de habitantes e possui enormes depósitos de hidrocarbonetos, mas seu Produto Interno Bruto (PIB) é de 415 bilhões de dólares, muito atrás dos 520 bilhões de Israel, cuja população é de 10 milhões de habitantes e possui um território setenta e cinco vezes menor. 

Essa assimetria se estende ao nível militar, onde Israel tem clara superioridade em termos de armamento de alta tecnologia (muito auxiliado pelo imperialismo dos EUA). De acordo com uma reportagem da BBC, o Estado sionista gastou 19 bilhões de dólares em defesa em 2022, enquanto o Irã investiu 7,4 bilhões de dólares. Portanto, o abismo existente entre suas forças aéreas não é surpreendente, já que os sionistas possuem 340 aeronaves de combate, como caças F-15, F-35s (que podem escapar do controle por radar) e helicópteros de ataque rápido. Por sua vez, o Irã possui 320 aeronaves, mas a maioria delas é dos anos sessenta, como o F-4, F-5 ou F-14 (este último foi o usado para filmar Top Gun em 1986!). Devido à sua idade, há dúvidas sobre a capacidade de combate de várias dessas aeronaves, já que peças de reposição são difíceis de encontrar. 

A única área em que o Irã tem vantagem é em relação ao seu programa de mísseis e drones, desenvolvido desde a década de 1980 durante a guerra com o Iraque. Mas é uma vantagem relativa, dado que Israel possui cerca de noventa ogivas nucleares (essa é uma estimativa não oficial, já que os sionistas têm uma política de ambiguidade em relação ao seu arsenal nuclear). 

Este breve relato histórico mostra que o Irã passou de ser um aliado submisso e mimado do imperialismo dos EUA para se tornar uma nação independente. De fato, as relações diplomáticas entre os dois países foram rompidas desde a tomada da embaixada dos EUA em Teerã, que durou 444 dias (novembro de 1979 a janeiro de 1981) e marcou o início das sanções econômicas dos EUA contra a república islâmica. 

Da mesma forma, não a consideramos uma potência regional, pois possui muitas fraquezas estruturais em relação a Israel e outros estados árabes (como Arábia Saudita ou Egito). Do nosso ponto de vista, é mais preciso caracterizá-lo como uma subpotência que ainda é politicamente independente do imperialismo, até mesmo da China, que é seu principal parceiro comercial atualmente, mas que não dita sua política externa de forma alguma. 

Fontes consultadas 

BALAGHI, Shiva. Una breve historia del Irán del siglo XX. En https://greyartmuseum.nyu.edu/2015/12/a-brief-history-of-20th-century-iran/ (Consultada el 19 de junio de 2025). 

BOSEMBERG, Luis E. 1997. Neoliberalismo, Reformas y Apertura en Irán: ¿Un Nuevo País? En file:///C:/Users/HP/Downloads/histcrit15.1997.03.pdf (Consultada el 22 de abril de 2024). 

COGGIOLA, Osvaldo. TRINTA ANOS DA REVOLUÇÃO IRANIANA. En https://www.researchgate.net/publication/287205583_TRINTA_ANOS_DA_REVOLUCAO_IRANIANA (Consultada el 25 de abril de 2024). 

SALEHI-ISFAHANI, Djavad. 2024. Economía iraní: 10 puntos sobre un Estado forjado en las sanciones. En https://legrandcontinent.eu/es/2024/03/01/economia-irani-10-puntos-sobre-un-estado-forjado-en-las-sanciones/ (Consultada el 23 de abril de 2024). 

Zahedi, Arya. The Iranian Revolution at the Twilight of the Worker’s Council. En https://communemag.com/the-iranian-revolution-at-the-twilight-of-the-workers-council/ (Consultada el 19 de junio de 2025).