Vivemos um tempo (etapa da luta de classes) de enorme instabilidade, provocado pelo giro do imperialismo estadunidense para uma postura nacionalista ultrarreacionária; processo esse que se combina com a formação em curso do novo imperialismo chinês em ascensão e do imperialismo territorial-militar russo. Os instrumentos da guerra fria calcados na dominação econômica a partir de tratados bilaterais e intermediação de organismos internacionais de controle, na prática, tornaram-se secundários ou perderam a função; a violência militar da guerra, do genocídio, do rearmamento acelerado e do crescente risco nuclear, passaram a dominar a prática do imperialismo no cenário mundial. A lógica da globalização econômica está contundentemente em cheque. A força militar o vem substituindo.

A corrida para modernizar e expandir os arsenais nucleares está em pleno andamento, alimentada pela crescente rivalidade de poder, conflitos regionais e o colapso da arquitetura institucional internacional que foi construída depois da Segunda Guerra. De Washington a Moscou, de Tel Aviv a Pyongyang, o planeta está dominado pela ameaça bélica – e atômica – crescente como parte constituinte da atual ordem mundial. 

Mas vivemos, também, um processo de polarização assimétrica, na qual as vanguardas dos movimentos questionam diuturnamente os ataques às liberdades democráticas, ao ataque a direitos econômicos, ao genocídio e às guerras em geral. Exemplos recentes são as manifestações, de pequeno porte, de segunda-feira dia 23/06 realizadas na Espanha e Grécia contra o genocídio de Gaza e o ataque de Israel e EEUU contra o Irã, somadas à uma massiva manifestação no Iêmen pelos mesmos motivos. Em se tratando de Brasil, a última manifestação pró-palestina de 15/06 foi a maior já realizada, assim como, em vários países do planeta no mesmo dia.

Como escreve Johan Madriz, no excepcional artigo abaixo, em que dá um panorama geral dessa nova ordem mundial (inclusive das consequências dos irresponsáveis ataques de Israel e Estados Unidos às “instalações nucleares”, militares e cientistas do Irã): “Não há saída dentro do atual quadro de Estados-nação armados, tratados vazios e diplomacia hipócrita…. Como Rosa Luxemburgo alertou antes da Primeira Guerra Mundial, o dilema é claro: socialismo ou barbárie…..Diante disso, não há neutralidade possível….. Somente uma humanidade livre da lógica do capital pode fazer da energia nuclear uma força de bem-estar, e não uma ameaça permanente de aniquilação….. Rejeitamos a hipocrisia das potências …… Rejeitamos a chantagem atômica…. rejeitamos as falsas alternativas que se alinham acriticamente com alguns imperialismos contra outros. Nossa alternativa é a dos povos, a da classe operária internacional … a única capaz de pôr fim a essa barbárie atômica e abrir caminho para um mundo onde a vida valha mais do que os mísseis.”. Boa leitura!

REDAÇÃO

Rearmamento nuclear, conflitos interimperialistas e a possibilidade de uma catástrofe 

JOHAN MADRIZ 

Um mundo cada vez mais próximo do abismo 

Oitenta anos após o primeiro bombardeio atômico de Hiroshima, a ameaça das armas nucleares não apenas não desapareceu, mas se tornou um perigo renovado e cada vez mais tangível. A humanidade segue habitando, como alertou Günther Anders, o limiar de sua autodestruição, empurrada pela lógica destrutiva do capitalismo e sua expressão mais mortal: as armas nucleares. 

Atualmente, nove Estados possuem armas nucleares: Estados Unidos, Rússia, China, França, Reino Unido, Índia, Paquistão, Coréia do Norte e Israel. Estima-se que existam mais de 13.000 ogivas nucleares no mundo, das quais aproximadamente 90% estão nas mãos de Estados Unidos e Rússia

Esses arsenais não são apenas vastos, senão que seu poder destrutivo evoluiu enormemente desde a Segunda Guerra Mundial. As bombas lançadas em Hiroshima e Nagasaki seriam consideradas hoje dispositivos de baixa potência. As forças produtivas […] já não são mais essas forças produtivas, mas sim forças destrutivas, escreveram Marx e Engels em A Ideologia Alemã, para ressaltar como o desenvolvimento tecnológico sob o capitalismo se torna uma ameaça existencial

Os arsenais atuais incluem tanto armas estratégicas de longo alcance como armas nucleares táticas, menores, mas igualmente perigosas. A modernização destes segue em marcha. O Estados Unidos e a Rússia investem bilhões de dólares na renovação de seus sistemas de lançamento, submarinos nucleares, mísseis intercontinentais e bombas aéreas. 

A Rússia, por exemplo, nos últimos anos, realizou exercícios de uma “resposta nuclear massiva”, sob a supervisão direta de Putin, nos quais foram testados mísseis intercontinentais Yars e mísseis de submarinos nucleares. A guerra na Ucrânia trouxe de volta ao centro do tabuleiro a ameaça atômica

A usina nuclear de Zaporizhzhia, a maior da Europa com seis reatores, tem sido alvo de ataques cruzados entre a Rússia e a Ucrânia. Por enquanto, uma catástrofe de radiação foi evitada, mas sua consideração tem como objetivo demonstrar o nível de irresponsabilidade criminosa em um conflito onde se joga com a vida de milhões na lógica dos interesses geopolíticos

O caso de Israel e do Irã também ilustra a instabilidade global. Israel, com um arsenal nunca oficialmente reconhecido, lançou recentemente uma ofensiva direta contra instalações militares e nucleares iranianas sob o pretexto de impedir que a República Islâmica tenha acesso a armas nucleares. Mas essas ações, longe de impedir a proliferação, parecem empurrar o Irã a acelerar seu programa atômico como meio de dissuasão

Desta forma, o espectro da ameaça nuclear se renova. O Relógio do Apocalipse, que indica simbolicamente as chances de aniquilação da humanidade, se colocou este ano em 89 segundos para a meia-noite. Essa marca, a mais próxima nos 78 anos de sua existência, está baseada, em grande parte, pelo aumento do perigo nuclear. 

Uma nova corrida armamentista? 

A evidência é contundente: estamos de fato diante de uma nova corrida armamentista nuclear, promovida pelas principais potências mundiais em um contexto de acirramento das disputas interimperialistas. Este processo não apenas replica a lógica da Guerra Fria, mas a atualiza com novas tecnologias, atores regionais em ascensão e um crescente colapso da ordem internacional

O rearmamento não é um fenômeno casual nem preventivo. É o resultado direto da crise do sistema capitalista global, cujas potências centrais buscam se reposicionar militarmente em meio à crescente competição por recursos, mercados e hegemonia geopolítica. 

Os Estados Unidos, por exemplo, investem centenas de bilhões na modernização de seu arsenal nuclear. Sob o governo Biden, foram ratificados os programas de renovação de mísseis balísticos intercontinentais (ICBMs), submarinos nucleares da classe Columbia e bombardeiros B-21, por sua vez, a cobertura da OTAN e sua doutrina “global” (para além do Atlântico Norte) se expandiram. A Rússia, de sua parte, também iniciou um processo de rearmamento, ameaçando abertamente com o uso de armas nucleares. 

A lógica do rearmamento não se limita às grandes potências. O caso de Israel é ilustrativo: sob a desculpa de impedir que o Irã tenha acesso à bomba, lançou uma ofensiva direta contra as instalações científicas e militares iranianas: “Os ataques israelenses empurraram o Irã para trás tecnicamente, mas politicamente o aproximam das armas nucleares“. 

Nesse contexto, a OTAN, que havia se retirado parcialmente após o fim da Guerra Fria, expandiu-se novamente para a Europa Oriental, rearmando seus Estados membros e incorporando novos países como Suécia e Finlândia. Ao mesmo tempo, a China está modernizando seu arsenal nuclear e lançando submarinos de nova geração, enquanto a Índia e o Paquistão estão engajados em uma corrida armamentista mútua alimentada pelo nacionalismo reacionário. 

Trump e o retorno da instabilidade nuclear 

No centro da crise internacional estão os Estados Unidos, a potência imperialista hegemônica desde a Segunda Guerra Mundial, e a única que usou armas nucleares contra a população civil. Esse legado de barbárie, que começou com Hiroshima e Nagasaki, persiste no presente em novas formas: ameaças abertas, modernização dos arsenais e uma doutrina tática cada vez mais agressiva. 

Com cerca de 3.700 ogivas, bases militares distribuídas pelo planeta e uma colossal indústria de armas, os Estados Unidos mantêm o arsenal mais poderoso do mundo. Mas sua liderança está sendo desafiada pela ascensão da China no terreno econômico, pela relativa recuperação militar da Rússia e pelo questionamento a sua hegemonia em cada vez mais planos da realidade

Nesse contexto, a figura de Donald Trump encarnou claramente o giro mais perigoso do imperialismo ianque. Durante sua primeira presidência, ele desmantelou ou enfraqueceu vários tratados importantes de controle de armas nucleares, como o  Tratado INF (Forças Nucleares de Alcance Intermediário), e retirou-se do acordo nuclear com o Irã (JCPOA)(NT: Joint Comprehensive Plan of Action em inglês – Plano de Ação Global Conjunto em português). Agora, em seu segundo mandato, esgrime ameaçadoramente seu poder

A era Trump representa uma ruptura com o frágil equilíbrio pós-Guerra Fria. “A guerra tende naturalmente para os extremos“, e Trump contribui para radicalizar o cenário internacional, dando luz verde ao rearmamento global, provocando a China em Taiwan e alimentando as tensões com o Irã e até com os aliados europeus da NATO, aos quais critica constantemente por aumentarem os seus orçamentos militares para 5% do PIB. 

Os Estados Unidos não pode se desvincular de sua história. O ataque nuclear ao Japão em 1945 foi uma ação exemplificadora com a qual buscava se posicionar como uma potência indiscutível, “não importava se isto se fazia à custa de centenas de milhares de assassinados (ou melhor: para que fosse exemplificadora era necessário um massacre em massa!)“. Essa mesma lógica brutal se reproduz hoje em formas mais contidas (por enquanto), mas igualmente criminosas

Não se pode ignorar que continua sendo a principal ameaça nuclear para a humanidade. Sua história de guerras, sua supremacia militar e seu complexo industrial-militar o tornam um ator profundamente desestabilizador. O trumpismo, longe de ser uma anomalia, é a expressão gritante do imperialismo no início de uma nova era

Rússia: rearmamento, guerra e imperialismo em reconstrução 

A Rússia é o país com o maior número de armas nucleares do mundo, segundo dados do Instituto de Pesquisa para a Paz de Estocolmo (SIPRI). Possui cerca de 4.300 ogivas nucleares e uma das capacidades militares estratégicas mais amplas do planeta. Mas o mais alarmante é que, sob o regime de Vladimir Putin, o armamento nuclear deixou de ser um elemento de dissuasão para se converter em uma ameaça aberta e constante no tabuleiro geopolítico

Desde o início da guerra na Ucrânia, o Kremlin tem recorrido sistematicamente à ameaça nuclear como ferramenta de pressão política e militar. Em setembro de 2022, Putin declarou abertamente: “Se a integridade territorial de nosso país for ameaçada, é claro que usaremos todos os meios à nossa disposição para proteger a Rússia“. Essas ameaças foram repetidas ao longo do conflito, principalmente quando a Rússia sofreu reveses militares. 

Em outubro do mesmo ano, a Rússia realizou manobras de uma “resposta nuclear massiva”, incluindo o lançamento de mísseis balísticos intercontinentais e mísseis de cruzeiro desde bombardeiros Tu-95 e submarinos no Mar de Barents. Estas ações não visavam apenas mostrar poderio diante de suas próprias fraquezas militares, mas alertar a OTAN e o Ocidente sobre os limites que Moscou não estaria disposta a tolerar

A Rússia é um imperialismo em reconstrução, com uma política externa abertamente expansionista: “o que se está vendo no campo militar é que a Rússia fracassou completamente com a ideia de que a ocupação da Ucrânia poderia ser um passeio […], suas forças armadas estão demonstrando inépcia no terreno o que tende a levar os desenvolvimentos ao extremo:  daí o crescente perigo nuclear“. 

Essa lógica é duplamente perigosa. Por um lado, mostra que a degradação militar do Estado russo não elimina o perigo, mas o agrava: a possibilidade de a Rússia recorrer a um ataque nuclear não deriva de sua força, mas de sua fraqueza. Por outro lado, a chantagem atômica de Putin normaliza a ideia do uso de armas nucleares, diminuindo o limiar estratégico para uma eventual catástrofe

China: modernização nuclear e ambições imperialistas 

A China se projeta como um dos atores chave na reconfiguração geopolítica do século XXI. Seu crescimento econômico sustentado (embora desacelerado nos últimos tempos), sua influência tecnológica e comercial e seu crescente protagonismo militar a colocam na primeira linha das potências globais. Trata-se da ascensão de uma nova potência capitalista com aspirações imperialistas sob novas formas estatais-burocráticas, nacionalistas e repressivas

Na questão nuclear, está imersa na modernização de seu arsenal. De acordo com estimativas recentes, seu número de ogivas ultrapassa 600, com projeções indicando que poderia duplicá-las nos próximos anos. Além disso, desenvolveu novos sistemas de mísseis balísticos intercontinentais, submarinos e bombardeiros movidos a energia nuclear. Assim, busca se consolidar como parte de uma “tríade nuclear”, junto com os Estados Unidos e a Rússia

Ainda que o discurso oficial do regime de Xi Jinping insista na natureza “defensiva” de sua doutrina nuclear, os fatos mostram outra realidade. A China multiplica seus exercícios militares perto de Taiwan, suas patrulhas no Mar do Sul e suas alianças com potências como Rússia e Irã: “Xi Jinping tem muitos motivos para ficar em segundo plano, mas também para apoiar Putin silenciosamente, porque sua intenção também é pisotear os direitos nacionais e democráticos da classe trabalhadora“. 

A China não tem sido parte ativa de tratados de desarmamento como START ou INF (NT: Strategic Arms Reduction Treaty e Intermediate-Range Nuclear Forces, respectivamente ou, em português, Tratado de Redução de Armas Estratégicas – substituído pelo Novo STRT – e Tratado de Forças Nucleares de Alcance Intermediário), e seu hermetismo permite que avance no rearmamento sem escrutínio internacional. Ao mesmo tempo, promove uma retórica nacionalista beligerante, como evidenciado pela visita de Nancy Pelosi a Taiwan em 2022, que desencadeou manobras militares massivas. Embora o conflito com os Estados Unidos ainda não tenha estourado, a disputa pelo Estreito de Taiwan pode se tornar o próximo teatro de guerra entre potências nucleares

Europa: entre a subordinação à OTAN e o rearmamento imperialista 

A Europa, longe de ser um continente pacifista, como muitas vezes se proclama, é parte ativa do esquema de dissuasão nuclear global. Três estados possuem armas nucleares: o Reino Unido, a França (como potências nucleares reconhecidas) e a Alemanha (embora não tenha armas próprias, participa da “dissuasão nuclear compartilhada” da OTAN). Além disso, países como Bélgica, Holanda e Itália armazenam bombas nucleares dos EUA em seu território, estendendo a ameaça atômica a quase todo o continente. 

O rearmamento europeu não é uma resposta “defensiva” ao expansionismo russo ou ao caos global, mas parte de uma nova corrida armamentista imperialista, que acompanha a crise da ordem mundial liderada pelos Estados Unidos e pela OTAN. Com a crescente incerteza deixada pela política errática da gestão trumpista, a subordinação total aos Estados Unidos foi colocada em dúvida. O imperialismo clássico europeu encontra-se em uma encruzilhada: manter seu status de aliado menor da potência americana ou empreender um caminho próprio. Nesse contexto, abriram a discussão de reativação de suas próprias capacidades destrutivas. 

O Reino Unido mantém um arsenal de aproximadamente 225 ogivas nucleares, implantadas, na sua maioria, em submarinos Trident. Em 2021, o governo de Boris Johnson anunciou um aumento no limite máximo de ogivas pela primeira vez em décadas, sinalizando um giro claro em direção ao rearmamento. Esta decisão foi justificada como uma “necessidade de dissuasão” diante das ameaças russas e chinesas, embora, em essência, responda à necessidade do Reino Unido de se reposicionar como uma potência global após o Brexit. O atual governo trabalhista está no mesmo caminho

A França, por sua vez, tem cerca de 290 ogivas e mantém uma doutrina de “dissuasão estratégica autônoma”. Embora menos subserviente aos Estados Unidos do que outras potências da OTAN, a França é parte integrante do aparato militar ocidental e, sob o governo de Macron, se impulsionou uma narrativa de “Europa da Defesa” que na verdade legitima o fortalecimento das capacidades bélicas continentais. A burguesia francesa busca recuperar protagonismo internacional e o rearmamento nuclear é um componente chave desse projeto imperialista

Por outro lado, Berlim não possui armas nucleares próprias, mas hospeda bombas americanas em bases como Büchel, sob o programa de “nuclear sharing” (NT:”compartilhamento nuclear”) da OTAN. A Alemanha também está envolvida nos preparativos para modernizar esses arsenais e anunciou um aumento sem precedentes de seu orçamento militar, incluindo a compra de aeronaves F-35 capazes de transportar armas atômicas. Isso marca o retorno explícito do militarismo alemão no século XXI, algo que deveria disparar todos os alarmes

Como aponta Roberto Sáenz, a OTAN aproveitou a guerra na Ucrânia “para relançar a corrida armamentista, além de expandir a aliança militar para cada vez mais países, além da sua nova doutrina de ‘zona extra’“. Longe de garantir a paz, este processo aumenta o risco de uma guerra total, incluindo uma guerra nuclear, no coração da Europa. Não há segurança possível em um continente armado até os dentes sob a lógica da “dissuasão”

Potências regionais, conflitos latentes e o caso do Irã 

Para além das potências nucleares centrais, existem outros Estados que também possuem ou desenvolvem armas nucleares e que representam perigosos focos de conflito regional com implicações globais. Estes são Índia, Paquistão, Coréia do Norte e Israel, bem como o programa nuclear do Irã, que ainda não produziu armas atômicas, mas poderia avançar nesse caminho. 

A Índia e o Paquistão têm uma das rivalidades interestatais mais perigosas do planeta, com duas potências nucleares em confronto há décadas pelo conflito da Caxemira. Ambos os países possuem entre 180 e 170 ogivas, respectivamente, e desenvolveram capacidades de lançamento terrestre, marítimo e aéreo. Suas doutrinas incluem a possibilidade de uso em caso de guerra total ou mesmo em situações de escalada limitada

A situação é especialmente crítica devido à fragilidade política de seus Estados, pelos nacionalismos extremistas (como o hindu promovido por Modi na Índia) e pela frequente tensão militar na fronteira. Qualquer confronto entre as duas potências poderia rapidamente escalar para uma ação nuclear regional com consequências catastróficas

A Coreia do Norte é um dos países que mais abertamente tem utilizado o desenvolvimento de armas nucleares como ferramenta de dissuasão. Estima-se que possua entre 50 e 60 ogivas nucleares e realizou múltiplos testes atômicos e lançamentos de mísseis balísticos intercontinentais. 

Israel é o único estado nuclear do Oriente Médio, embora jamais o tenha reconhecido oficialmente. Estima-se que possua cerca de 90 ogivas e adotou uma política de “ambiguidade estratégica” para manter sua hegemonia regional. Essa capacidade permite que aja com total impunidade, como evidenciado na recente “Operação Leão Crescente”, com a qual bombardeou instalações nucleares iranianas e assassinou cientistas e comandantes militares seniores sem uma declaração formal de guerra. 

Netanyahu lançou um ataque que pode levar a uma guerra aberta. E dado o caráter fascista do atual governo israelense, o uso de armas atômicas não pode ser descartado. Além disso, enquanto ataca o Irã, continua a perpetrar genocídio contra o povo palestino, usando a atenção internacional sobre o Irã para intensificar a repressão em Gaza e na Cisjordânia

Por sua vez, o Irã não possui armas nucleares, mas desenvolveu um programa atômico avançado. De acordo com estimativas recentes, tem mais de 400 kg de urânio enriquecido a 60%, o que o coloca perto do limite técnico para produzir uma bomba. Os ataques israelenses não eliminaram suas capacidades e, o mais grave é que deram ao regime iraniano argumentos para avançar na obtenção dessas armas. 

Estes focos mostram que o problema do armamento nuclear não é mais exclusivo das potências tradicionais, mas se espalhou como consequência da decomposição da ordem internacional. O mundo está se movendo em direção a uma situação em que cada crise regional pode se tornar uma faísca para uma catástrofe global. 

Desarmamento nuclear, contra a barbárie imperialista 

O desenvolvimento, a modernização e a proliferação de armas nucleares são o resultado direto e necessário do modo de produção capitalista em sua fase imperialista, que converte os avanços científicos em uma ferramenta de destruição em massa, subordinando o conhecimento humano à lógica do lucro, da dominação e da guerra

A humanidade se encontra hoje mais próxima do que esteve em décadas do abismo nuclear. Essa ameaça não vem apenas dos Estados Unidos ou da Rússia, mas de uma multiplicidade de Estados armados, governos reacionários e alianças militares como a OTAN, dispostos a escalar para o extermínio se isso garantir sua posição

A lógica da escalada militar nuclear está completamente normalizada, disseminada e pronta para ser ativada diante de qualquer crise, acidente ou provocação. E com o surgimento de figuras como Trump, a possibilidade de uso deliberado deixa de ser uma fantasia distante e se torna uma possibilidade tangível e assustadora. 

Não há saída dentro do atual quadro de Estados-nação armados, tratados vazios e diplomacia hipócrita. Não basta defender o “desarmamento” em abstrato ou confiar na ONU ou em acordos entre potências. Isso é demonstrado pela experiência. O desarmamento nuclear só é possível se a estrutura imperialista à frente do capitalismo global for desmantelada. Como Rosa Luxemburgo alertou antes da Primeira Guerra Mundial, o dilema é claro: socialismo ou barbárie

Diante disso, não há neutralidade possível. O rearmamento nuclear é uma armadilha mortal para os povos do mundo, uma fuga para adiante do capitalismo que só pode levar a novas catástrofes. A única saída possível é acabar com o imperialismo, desmantelar suas alianças militares e lutar por um socialismo internacionalista que coloque a tecnologia e o desenvolvimento a serviço da vida e não da morte

Nesse sentido, a luta pelo desarmamento nuclear é inseparável da luta pela revolução socialista internacional. Somente uma humanidade livre da lógica do capital pode fazer da energia nuclear uma força de bem-estar, e não uma ameaça permanente de aniquilação

Rejeitamos a hipocrisia das potências que se proclamam defensoras da paz enquanto multiplicam seus arsenais. Rejeitamos a chantagem atômica, a brutalidade genocida do sionismo israelense e o crescente militarismo europeu. Também rejeitamos as falsas alternativas que se alinham acriticamente com alguns imperialismos contra outros. Nossa alternativa é a dos povos, a da classe operária internacional. É a única capaz de pôr fim a essa barbárie atômica e abrir caminho para um mundo onde a vida valha mais do que os mísseis

Tradução de José Roberto Silva do original ”El rearme nuclear, los conflictos interimperialistas y la posibilidad de una catástrofe